VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Representações Transitivas - Observações relativas às possibilidades representacionais dos sujeitos da migração em Marco Zero, de Oswald de Andrade
Egídio Mariano do Nascimento (UFSC)

O fenômeno da migração encontra particular singularidade na literatura oswaldiana em Marco Zero 1, visto que é nesta narrativa que temos um amplo panorama da sociedade paulista pré e pós Revolução Constitucionalista de 1932, período no qual sujeitos de diferentes origens nacionais viviam no estado de São Paulo. Em Marco Zero , desse modo, a exposição de personagens não nacionais num dado plano nacional traz à tona um amplo leque de representações de sujeitos de diferentes nacionalidades que se evidenciam e são evidenciados na narrativa por razões econômicas e sócio-culturais. Como observa Capela em " Literatura e Imigração: convergências " 2 tais diferenciações sócio-culturais e econômicas de sujeitos não nacionais evidenciam três tipos básicos de representações de personagens não nacionais que são categorizados da seguinte forma: a categoria de estrangeiro, compreendendo personagens não nacionais que possuem uma forte formação educacional ou especializações nesse sentido como também possuem capital financeiro; a categoria de imigrante, dentro da qual personagens não nacionais possuem parca formação educacional como também parco recurso financeiro, salvo a condição de mão-de-obra quando se constituem economicamente ativos; e a categoria de colono, dentro da qual personagens não nacionais possuem parca educação formal e parco recurso financeiro como o imigrante, mas se distinguem deste pela finalidade de sua imigração e em geral pela posse de terra. É em Marco Zero que personagens imigrantes, colonos e estrangeiros terão substancial importância para a representação de uma decadente sociedade cafeeira cujos valores estão baseados num forte sentimento nacionalista e conservador, visto que, num contraponto, personagens nacionais e não nacionais se revelam através de um estranhamento mútuo, preenchendo assim o espaço social exposto com uma singular relação de tensões entre seres de tradições, memórias e experiências divergentes. Notadamente, é por meio das diferenças que o outro , de nacionalidade distinta, encontra representação dentro do espaço social narrado.

Em Marco Zero , de fato, tais categorias representacionais encontram respaldo já que na narrativa existem citações diretas que se referem as condições de colonos (como no caso das personagens de origem japonesa), de imigrantes (tanto italianos quanto sírio-libaneses entre outros) e de estrangeiros (como no caso de personagens de origem alemã, inglesa ou francesa). É preciso notar que tais categorias firmadas por critérios sócio-culturais e econômicos abrangem um problema que SAYAD, em A Imigração Paradoxos da Alteridade 3, especifica como sistema de migração dentro da ordem das nações, ou seja, sistema dentro do qual as relações políticas e econômicas entre diferentes países condicionam as diferenças entre os sujeitos de migração. Como observa Sayad, a diferença entre ser estrangeiro e ser imigrante num dado plano nacional se verifica mais por uma condição social do que por um estatuto jurídico, já que ambos, dentro do último aspecto, são estrangeiros. Afirma Sayad, nesse sentido, que "Lembrar isto, lembrar as definições sociais do imigrante e do estrangeiro, é lembrar a relação de dominação que foi estabelecida entre sistemas socioeconômicos diferentes, entre países e continentes desigualmente desenvolvidos e que retraduz de forma idêntica no fenômeno de emigração/imigração." Portanto, devemos considerar que a origem de uma personagem não nacional condiciona igualmente sua representação dentro da narrativa e entre as demais personagens, de tal modo que como imigrante tal personagem "espelha" sua relação de origem com um país tanto fraco politicamente quanto pobre economicamente, de mesmo modo que como estrangeiro tal personagem "espelha" sua relação de origem com um país tanto forte politicamente quanto rico economicamente.

Em Marco Zero temos três personagens não nacionais que, por razões socioculturais ou econômicas, transitam da categoria de imigrante para a categoria de estrangeiro, mas dentro desta última, estarão inseridos num estrato mais baixo devido a origem nacional que possuem. São elas: a personagem de Salim Abara, de origem sírio-libanesa; a personagem de Nicolau Abramonte, de origem italiana, e a personagem de Kana, de origem nipônica.

As personagens de Salim Abara e a de Nicolau Abramonte são imigrantes que no Brasil irão conquistar fortuna. Salim Abara, que de comerciante sem posses (caixeiro viajante, "mascate") passa a proprietário de casas de comércio, encontra na prosperidade de seus negócios fortuna suficiente para educar seus filhos (Latife e Jorge Abara) em escolas tradicionais da elite paulistana. Nicolau Abramonte, "parido nos cafezais" como caracteriza a personagem nacional de Vitalino em relação a origem do imigrante, é inicialmente mais um trabalhador utilizado nos cafezais do Estado de São Paulo que, posteriormente, irá enriquecer com posses de terras, se tornará prefeito de Jurema e finalmente se tornará um rico banqueiro em oposição e em contraste à família da personagem nacional de Major Dinamérico Klag que se encontra em franca decadência financeira. A personagem de Kana, de origem japonesa, não possui, ao contrário de Salim Abara e Nicolau Abramonte, uma ascensão financeira, embora tenha - por conta de formação educacional realizada na Inglaterra - um lugar de certo prestígio dentro da família de Conde Alberto de Melo que o emprega como chofer, mordomo e piloto de avião.

As três personagens circundam ou se inscrevem diretamente no enredo da narrativa pelo viés que se refere ao estranhamento das personagens nacionais quanto a ascensão financeira das duas primeiras personagens e a formação especializada da terceira personagem. Esse estranhamento se evidencia na narrativa sobretudo por duas razões. Primeira: tanto Nicolau Abramonte quanto Salim Abara não se encontram na condição de imigrantes, ou seja, na condição de mão-de-obra, condição esta postulada subjetivamente e politicamente pela e através da sociedade nacional. E segunda: a formação especializada de Kana, formação esta realizada na Inglaterra, contrasta com a origem nipônica desta personagem de tal modo que se revela entre personagens nacionais uma forte desconfiança em relação a ela. Aliás a personagem de Kana marca sensivelmente um plano em que personagens de origem japonesa são estranhas aos nacionais (e às vezes aos não nacionais) devido aos traços fisionômicos, ou seja, devido a diferença fisionômica que as constituem visivelmente como orientais. Nesse sentido, a formação educacional de Kana realizada na Inglaterra é alvo de completa desconfiança da parte de personagens nacionais como a de Felicidade Branca. Diferentemente dos demais colonos japoneses retratados em Marco Zero , Kana tem um estranho domínio não apenas de aspectos culturais do ocidente desenvolvido e "fino", como também tem domínio de um conhecimento tecnológico moderno, como os que se referem, por exemplo, à aviação.

As três personagens citadas passam da condição de imigrante ou de colono (no caso da personagem de Kana) à condição de estrangeiros, e nesta última no mais baixo estrato, por conta da ascensão financeira ou do conhecimento técnico que adquirem ou possuem. Não são "reconhecidas" como estrangeiras propriamente ditas visto que a origem delas não o permite. O fato de não serem oriundas de países tanto economicamente quanto politicamente fortes reverbera, nas suas representações, em um processo problemático de acesso a uma totalidade representacional que as enquadre de acordo com "o senso comum", ou seja, de acordo com o que é postulado subjetivamente e politicamente pela e através da sociedade nacional. Visto que a condição de imigrante é a de mão-de-obra desprovida de capital técnico ou financeiro, um imigrante que saia desta esfera limite de representação constitui não apenas uma incógnita como também um problema no plano das representações das personagens nacionais. É devido ao problema que este não enquadramento de personagens como Nicolau Abramonte, Salim Abara e Kana condiciona que podemos dizer que existe uma transitividade nas suas representações. Nicolau Abramonte e Salim Abara, ao escaparem da fronteira das condições de imigrantes, tornam problemático o acesso a uma imagem totalitária que os poderia representar se estivessem perfeitamente enquadrados nela. Kana, da mesma forma, ao sair da fronteira de sua condição de "colono" (pois o postulado subjetivamente e politicamente na narrativa de Marco Zero é a condição de colono de todo imigrante japonês) torna-se também um emblemático problema de acesso a uma imagem totalitária que o representaria se estivesse dentro das condições que a caracterizam. Portanto, para as personagens nacionais o problema que as três personagens condicionam compreende também a singularização de representações que - não obstante a origem das personagens não nacionais - se categorizam na condição de estrangeiro, e nesta, em seu estrato mais baixo. Para tanto, basta notar que as referências que condicionam tal deslize de representações das personagens não nacionais entre as categorias imigrante, estrangeiro e colono se valem da disposição das personagens nacionais em "enquadrar" de algum modo o problema que cerca a ascensão econômica de Nicolau Abramonte e Salim Abara ou o conhecimento técnico de Kana, e não o contrário. Visto que é uma tentativa das personagens nacionais em tornar o espaço social definido pelo enquadramento ou rejeição das três personagens citadas, podemos averiguar que a representação das três personagens se encontra em trânsito, em transformação, e por isso sujeitas à negociações.

Tais negociações são diretamente e indiretamente realizadas em virtude da nova disposição social em que as personagens Nicolau Abramonte e Salim Abara se encontram. A sujeição, por exemplo, de Vitalino, personagem nacional, às ordens de Nicolau Abramonte aponta para dois aspectos que se abrem a negociação: o primeiro se refere ao capital financeiro que Nicolau Abramonte possui e o segundo se refere a sua "má" educação (ou seja, sua parca educação). Cito:

 

"(...) Uma moça alta, de olhos vivos e ingênuos, apareceu com a cachorra ao colo. Sem cumprimentar gritou:

- Ludovica, tem visita aqui. Eu acho que é o homem...

A frase perdeu-se lá dentro. Pareceu a Vitalino que a pequena dissera: - O homem a quem papai deu emprego... - Teve vontade de pegar a pasta e sair. A cachorra o agredia. (...) De fato, sua vida estava definitivamente enroscada nas mãos grosseiras do italiano que tivera aquela estranha e sinistra idéia de convidá-lo para jantar. Queriam que ele servisse de cobaia. A família imigrante queria fazer dele um ensaio a recepção das visitas que não haviam de faltar. (...)'

 

As negociações, nesse sentido, perpassam a origem das personagens não nacionais mas não são limitadas em definitivo por ela. A questão da origem é, de fato, um peso a mais às restrições aplicadas as personagens não nacionais, mas não é por si só limitante em relação às negociações referentes as representações destas personagens. O que é limitante de fato são as referências econômicas e culturais em que se enquadram personagens não nacionais, como a de Nicolau Abramonte, e são essas referências que permitem a negociação entre nacionais e não nacionais sobre as possibilidades representacionais que se poderiam constituir a partir dela. Não é por acaso que se encontra, a partir desta negociação, um embate entre a origem do não nacional e sua situação sócio-econômica, já que ambas, na categoria de imigrante, não coincidem. A personagem nacional de Padre Beato coloca, por exemplo, a família Abramonte e a família do Major Dinamérico Klag (Os Formoso, paulistas de "quatrocentos anos"), num mesmo patamar de importância social, ou ainda numa mesma classe social, não por conta da origem que possam ter como imigrante ou nacional, mas sim por conta dos recursos financeiros ou status social que possuem em um determinado espaço social. Nesse sentido, estão ambos, o Major e Abramonte, num mesmo patamar representacional em que as referências econômicas são determinantes. Portanto, para as personagens nacionais capitalizadas financeiramente o problema da ascensão financeira de um imigrante representa igualmente um problema de adequação social ao que surge como "novo rico", ou seja, integrante não formalizado de suas esferas sociais - marginal. Para as personagens nacionais descapitalizadas financeiramente, o problema da ascensão financeira de um imigrante o destituí desta categoria e o condiciona a uma outra, que é a de estrangeiro. Como este imigrante não pode ser considerado completamente estrangeiro, frente aos nacionais capitalizados, e nem imigrantes, frente aos nacionais sem capital, percebe-se que tal representação se encontra em trânsito, firmando-se no estrato mais baixo da categoria de estrangeiro.

Finalmente, podemos dizer que a transitividade das representações de tais personagens singulariza a percepção de uma sociedade que se encontra em transformação social no que se refere às suas hierarquias e relações. Tal transformação evidencia pontos em que divergem as posições relativas às condições que fazem do imigrante, imigrante, e do estrangeiro, estrangeiro. Visto que as personagens citadas se encontram operantes na condição de estrangeiros por razões econômicas ou por razões de conhecimento técnico, como também se encontram operantes, mas em trânsito, dentro da categoria de imigrante, (já que se encontram transpassadas por sua origens nacionais), temos a condição de trânsito de suas representações, e nesta, a dinâmica de uma negociação social que é relativa tanto aos sujeitos da migração quanto aos sujeitos ditos nacionais e assim representados em Marco Zero de Oswald de Andrade.

 

 

ANDRADE, Oswald de. Marco Zero I A Revolução Melancólica SP: Globo, 1991.

__________________ Marco Zero II Chão SP: Globo, 1991.

CAPELA, Carlos Eduardo Schmidt. "Literatura e Imigração: convergências", Anais do VIII Congresso Internacional ABRALIC-BH, BH: ABRALIC, 2003 (edição em CD-Room).

SAYAD, Abdelmalek. A Imigração ou os Paradoxos da Alteridade . SP: EdUSP 1998.