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A Felicidade, O Consumo e A Violência em Rubem Fonseca
Ana Cristina Sá de Mello (UnB)
Primeiro, encontrarás as duas Sereias; elas fascinam todos os homens que se aproximam. Se alguém, por ignorância se avizinha e escuta a voz das Sereias, adeus regresso! 1
No contexto contemporâneo, marcado pela globalização e pela crise da civilização ocidental, em que o sujeito moderno encontra-se sem estabilidade e sem unidade, a cultura do consumo torna-se uma temática de importante reflexão na atualidade. Não só a sociologia e a filosofia tem debatido insistentemente esse tema, como a literatura tem exercido um papel importante ao enfocá-lo e constatar as transformações do mundo moderno sob a perspectiva da ideologia do mercado.
As pessoas que habitam as grandes cidades são constantemente assediadas por novidades tecnológicas e industriais. Um novo modelo de carro ou de celular propõem facilidades para a vida dos consumidores e cria novas identidades culturais. As novidades tecnológicas e industriais prometem felicidade e são anunciadas pela mídia com a finalidade de despertar o desejo pelo consumo. Tais novidades, como nos diz Adorno, é a repetição do produto como algo novo, um presente perpétuo. Ou seja, é acrescentado ao produto algum acessório ou design que dá a ilusão do novo e do diferente 2. E com essa ideologia, o mercado modifica as relações humanas e suas relações com o mundo material.
Em seu livro de contos Pequenas Criaturas (2002), Rubem Fonseca aborda o modo de vida de personagens que habitam a grande cidade, as relações que elas estabelecem com a sociedade e com a cultura de seu país. As personagens dos contos dialogam com a contemporaneidade de seu tempo e sintonizam o leitor com importantes questões inerentes ao nosso século. Algumas questões em voga que constatamos nos contos tratam do consumo na sociedade brasileira e da violência nas cidades grandes.
Selecionamos os contos "Madrinha de bateria" e "Sucesso" com o objetivo de analisá-los sob a perspectiva de que o conceito de felicidade é intermediado pelo mercado e de que as duas personagens principais acreditam encontrar a felicidade no sucesso pessoal. Os contos tratam, à primeira vista, da questão do sucesso e da fama. Mas estes estão ligados a um fenômeno da sociedade moderna, a cultura do consumo. A característica definidora da cultura do consumo é a intermediação do mercado ao acesso das pessoas a todos os bens, simbólicos e materiais 3.
É traço marcante das narrativas de Rubem Fonseca abordar o cotidiano da cidade grande, em particular o da cidade do Rio de Janeiro, o que pode, numa leitura superficial, deixar passar despercebidas as grandes questões contemporâneas contidas em seus contos, principalmente porque o autor parte do banal, do dia a dia de suas personagens.
A crítica mais recente enfatiza que a brutalidade funcional e dramática contida em seus primeiro livros de contos sofreu um inesperado abrandamento, mas o autor continua a enfocar o tema da violência que em Pequenas criaturas é retratada de forma sutil e simbólica, seja por meio do preconceito omitido por suas personagens, seja por meio da pobreza, da solidão, da vingança e da perda de sanidade. Somente em dois contos, "Madrinha de bateria" e "Nove horas e trinta minutos", é que constatamos a violência brutal representadas em seus primeiros contos. A violência ainda é a marca de sua obra.
Fonseca diz que não faz apologia à violência ou ao Kitsch e afirma,
o que mais me interessa é explorar como esses elementos podem ser processados pela ficção, a possibilidade de transfigurá-los e ampliá-los a tal ponto que já não seja mais possível observá-los pacificamente em lugar da imagem 'realista' ou 'hiper-realista', apenas o granulado da foto. 4
A forma com que o escritor explora as importantes questões contemporâneas e o resultado que apresenta em suas narrativas (o granulado da foto) revela uma visão fatalista do mundo contemporâneo. A questão da fatalidade não é predominante em Pequenas criaturas . Há contos com desfecho feliz como "Uma mulher diferente". Nossa análise se limita à constatar a presença do consumo, sua relação com a felicidade, sua importância no cotidiano das personagens e seu possível resultado violento no desfecho dos contos.
No conto "Madrinha de bateria", a relação entre a protagonista Zira e a personagem Daiana estabelece um conflito entre o velho e o novo e nos remete à ideologia da estética da mercadoria. Aliás, esse conflito se estende às outras personagens do conto, Cidinho e Chico Professor.
Zira é uma mulher do morro, como a maioria dos integrantes de sua escola de samba. O mais importante em sua vida é ser madrinha de bateria. Ela passa o ano inteiro planejando e escolhendo o material de sua fantasia. Sua vida se resume a isso. Sabendo que a escola subiu para o Grupo Especial nesse ano, Zira constrói em sua mente uma trajetória de sucesso, em que aparecerá na televisão e será vista pelo mundo.
O dinheiro para a fantasia quem fornece é o Patrono da escola, Chico Professor. Para Zira, o Patrono é um "mão aberta". A protagonista não percebe que a generosidade do Patrono se resume ao seu interesse por sua fantasia. Por ser uma fantasia exclusiva, não intermediada pelo mercado, ela se torna valiosa para ele. Quem a confecciona é sua irmã, Das Dores, que trabalha num ateliê importante da Zona Sul. Um detalhe importante é que Das Dores só confecciona fantasia de carnaval para Zira. E é esse detalhe que garante a permanência de Zira na escola quando o Patrono lhe comunica sua substituição.
Desde a primeira vez que a protagonista vê Daiana, uma grã-fina da zona sul, ensaiando em sua escola, ela sente inveja e cultiva uma antipatia por ela. Daiana tem prestígio tanto por possuir um corpo perfeito, quanto na mídia, pois já trabalhou numa novela. O corpo de Daiana tem a representação do novo. É um corpo esculpido nas academias de ginásticas, em oposição ao corpo de Zira. A fantasia que lhe cobre o corpo é mínima, deixando-o à mostra. Seu corpo se transforma em fantasia, o que o torna uma mercadoria.
O corpo de Daiana traz o encanto juvenil ao público. De acordo com Wolfgang Fritz Haug,
O encanto juvenil encontra-se com freqüência a serviço da estética da mercadoria. O mundo da mercadoria irradia-o de volta para o público reforçando ali uma padronização da sensualidade orientada de acordo com a juventude. (...) Um outro reforço esporádico advém do círculo funcional da inovação estética. De maneira dupla, esse círculo funcional apresenta como efeito colateral o estabelecimento de uma imagem do adolescente sob a forma de modelo e imagem condutora, de objeto do voyerismo e geralmente do desejo sexual: do ponto de vista do capital, passível de se valorizar mais, mediante a inovação estética regularmente repetida, os grupos de compradores jovem são particularmente ideais porque reagem de modo rápido ao novo e são suscetíveis à forma e ao visual - tanto ativa quanto passivamente -; ao mesmo tempo, são eles que desenvolvem continuamente novas formas e "estilos", proporcionando assim um fundo subcultural, do qual o capital pode continuar extraindo o material para renovar a moda. 5
A segurança de Zira está mais em sua fantasia do que em seu corpo. O corpo de Zira tem a representação do velho. Em razão de suas nádegas serem grandes e moles, descrição da própria irmã, e de sua fantasia que lhe cobre o corpo todo é que ela deixará de ser madrinha de bateria da sua escola de samba. A fantasia esconde o seu corpo. Se o objeto de consumo é a imagem da sensualidade humana, a fantasia não pode escondê-la. Ou seja, a fantasia da madrinha de bateria, como as roupas da moda, não serve para esconder a sensualidade, mas, ao contrário, para realçá-la. O corpo de Zira também está fora do padrão de beleza exigido pela sociedade de consumo.
Segundo Adorno e Horkheimer, "Os padrões teriam resultado originariamente das necessidades dos consumidores: eis por que são aceitos sem resistência" 6. A indústria cultural não fornece aos seus consumidores o que eles desejam, ela aproveita-se de algo já efetivado mentalmente (cultura popular e erudita) e o reproduz em seu benefício e no das grandes corporações. O que diferencia a produção de mercadorias culturais da obra de arte é que aquela visa à obtenção de lucro, enquanto esta se quer autônoma. A fantasia de Zira é a metáfora da obra de arte, não tem a finalidade de ser comercializada. Daí é que nasce o conflito entre a fantasia (obra de arte) e o corpo de Daiana (mercadoria cultural) que cabe ao Patrono solucionar.
O Patrono da escola acompanha as mudanças de padrão e a única solução que vê para Zira é colocá-la como destaque. Ao desqualificar sua fantasia, ele também desqualifica Zira quando diz: "Não leve a mal, mas a sua fantasia, minha querida, parece a de um daqueles destaques mais idosos que desfilam sobre os carros. Olha, nem os seus braços aparecem por inteiro" 7.
Chico Professor demonstra transitar em dois mundos: o velho e o novo. Critica as grandes escolas que investem seu capital em efeitos especiais produzidos por especialistas hollywoodianos , que, segundo ele, não valem nada, mas que em compensação deixa o público deslumbrado. Ao mesmo tempo que fala no poder da tecnologia, Chico Professor ressalta o que é mais importante numa escola: "os trezentos percussionistas de bateria, as alas com fantasias luxuosas, os destaques e as passistas com sua nudez, o samba cantado e no pé". Ele se auto rotula de homem da velha guarda, mas admite que o conceito de desfile de escola de samba foi modificado pelo mercado.
A possibilidade de sua escola ser premiada, porque subiu ao Grupo Especial, faz com que ele tome decisões parecidas com as grandes escolas do Rio de Janeiro, como a Mangueira, Portela, Mocidade, Beija-flor e outras. As principais decisões são abrir espaço para que os turistas estrangeiros desfilem na escola e usar a tecnologia com a finalidade de impressionar a mídia e os turistas. Suas atitudes compactuam com a ideologia do mercado, que transforma a cultura popular - o Carnaval - em uma cultura de massa. Todos devem consumir e tudo pode ser transformado em mercadoria, como a própria cultura popular. Os desfiles de escola de samba, que têm origem espontânea, uma manifestação popular gratuita, das ruas, foi-se fechando e agora, para participar do desfile ou assisti-lo, é preciso pagar a um intermediário. É claro que esta profissionalização aumentou o luxo e a sofisticação do desfile, o que mais uma vez confirma sua condição de mercadoria consumível.
Em meio às transformações causadas pelo mercado, o "velho" e pobre convive com o "novo" e rico no desfile. Esta convivência acontece de forma simbiótica. Os pobres continuam desfilando e tirando sua subsistência por meio de seu trabalho nos bastidores da produção. Os detentores do capital financiam o luxo. Chico Professor é a representação dos economicamente mais fortes.
Haug fala do medo da velhice e de como o mercado oferece mercadorias que prometem proporcionar aparência juvenil. Mas essa aparência juvenil torna-se um padrão. Aqueles que estiverem abaixo desse padrão serão rejeitados pelo capital, situação que ele chama de caducidade sexual 8. Em uma conversa com sua irmã Das Dores, Zira diz que Cidinho, seu ex-namorado, a deixou quando tinha vinte e três anos e que agora andava interessado em uma garota de quatorze anos. Isso significa que o "novo", a juventude, se transformou numa referência cultural. Zira foi acometida de "caducidade sexual" quando perdeu o namorado para uma adolescente e também quando perdeu a posição de madrinha de bateria para alguém de aparência juvenil.
A narrativa está plena desses indícios, o que reafirma que a cultura do consumo é um fenômeno importante na narrativa e que o excesso de valor que as personagens lhe atribuem, somado ao conflito entre o velho e o novo, resultam num final trágico. O conto finaliza com Zira desferindo duas navalhadas em Daiana. Zira vivia numa ilusão de felicidade semelhante àquela oferecida pela cultura do consumo. Quando esta ilusão acaba, acaba sua própria razão de existência. Zira se iguala à Daiana quando a mata, pois sua vida, sem a ilusão de felicidade, equivale à morte.
O canto da sereia
O conto "Sucesso" é uma breve história sobre Roberto, um homem de sucesso. Apesar de breve, esse conto concentra questões importantes sobre as relações pessoais que estão se estabelecendo por meio das mercadorias. Ao contrário do conto "Madrinha de bateria", em que as personagens buscam ter sucesso com o desfile da escola de samba, esse personagem já se encontra sob o efeito sufocante do sucesso.
Grande parte da crítica à cultura do consumo, segundo Don Slater, gira em torno de um paradoxo brutal: o de que a abundância material da modernidade não promove a felicidade, nem a satisfação 9. Ao analisarmos o conto "Sucesso" sob a perspectiva do consumo, constatamos que o protagonista "tem êxito no que faz, ganha dinheiro" portanto, deveria estar feliz. Mas não é o que acontece com Roberto.
O narrador afirma que Roberto sente ódio das pessoas e das coisas, mais das pessoas do que das coisas. E acrescenta que ele goza de perfeita saúde. Ressalta sua força física para carregar malas e também que perdeu o interesse em viajar, porque aonde quer que ele vá, acha tudo a mesma coisa. Ou seja, Roberto tem consciência de seu poder material, de que está em um nível privilegiado da escala social, mas mesmo assim sua vida perde o sentido. "Não tomou banho, nem fez a barba. É maluco por isso?" pergunta o narrador. Não há dúvidas de que Roberto perdeu o ajuste à sociedade. Seu desinteresse por coisas e pessoas revela que algo está faltando para que se sinta feliz.
Encontramos no desenvolvimento da história a repetição constante da palavra pessoas, em frases como: "Um deprimido não sente ódio, ele está sentindo ódio das pessoas e das coisas" e "O sucesso é repulsivo, quase tanto quanto as pessoas" 10. Por meio da repetição dessa palavra evidencia-se a causa do seu desânimo pela vida e pelos seus bens materiais. A palavra "pessoas" transforma-se no decorrer da narrativa em apenas uma pessoa, Angélica. Roberto se dá conta do vazio que sua vida é quando Angélica diz que não o ama. Ele reconhece que os valores que agregou a si não conseguiram estabelecer uma relação verdadeira entre ele e sua amada. Esse fato fica evidente no diálogo que ele estabelece com Angélica quando ela pede para que ele abra a porta.
Uma das perguntas que o protagonista faz, através da porta que os separam, com a intenção de certificar-se de ser Angélica, está associada a uma mercadoria que ele lhe presenteou. O abismo entre o sucesso econômico e o fracasso sentimental torna o sucesso repulsivo. O sucesso não lhe serve para nada. Deixa-o cercado de "pessoas nojentas e cretinas". O presente caro, um automóvel de marca Peugeot , não compra o amor da pessoa amada.
Roberto desconfiado se é Angélica atrás da porta afirma: "O mundo está cheio de filhos da puta que imitam vozes" e assim revela, no plano psicológico, uma paranóia, mas também um fato. A imitação, com o sentido de fingir, é característica da cultura do consumo. Todo o produto finge ser o que não é, de forma a conquistar o consumidor. E Roberto, assim como o consumidor, não tem "um olho mágico na porta", que o permitiria ver Angélica ou o produto, em sua essência. Há sempre uma sofisticada embalagem a mascarar o conteúdo. Angélica finge que o ama, quando ele lhe pergunta. Convencido de seu amor, ele abre a porta. Mas "a vida não é uma anedota com final feliz". Angélica não estava mais lá, somente os homens de branco que lhe injetam um tranqüilizante, julgando-o desequilibrado mentalmente.
A história de Roberto nos remete às desventuras de Ulisses, em Odisséia. Angélica seria como as sereias que encantam os ouvidos de Ulisses com seu canto mavioso. Ela encanta com suas doces palavras de amor, aquelas que tanto o coração de Roberto desejava ouvir. A ironia é que essa sensação de descrédito pelas pessoas e coisas era parte da falta de sentido em sua vida. E justamente quando ele volta a acreditar na pessoa Angélica, é enganado. O conto tem um desfecho menos violento do que em "Madrinha de bateria". O protagonista luta para se desvencilhar dos homens de branco.
Rubem Fonseca traz em seus contos fragmentos de uma realidade conhecida por todos nós. A realidade da cultura do consumo, em que o mercado se interpõe entre as pessoas e as coisas e mesmo entre as próprias pessoas. Essa dependência da intermediação do mercado pode resultar em violência física, revelada na brutal reação da personagem Zira, que desfere navalhadas em sua adversária, ou em outras formas de violência, caso de Roberto, que é visto como louco pela sociedade. O sucesso, que todos procuram, torna-se inútil para Roberto, pois não lhe trouxe felicidade. O sonho de sucesso de Zira é impossível. A sua realização depende de fatores que estão fora de seu controle, pois estes são determinados pelo mercado.
HOMERO. Odisséia. 9 ed. Tradução Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 1993, p.142.
ADORNO, T. W. & HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 116.
SLATER, Don. Cultura do consumo e modernidade. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Nobel, 2002, p.17.
DIAS, Maurício Santana. A onipresença da decomposição . In: Folha de São Paulo , Mais, São Paulo, nº 636, 25/4/2004, pp.9-10.
HAUG, Wolfgang Fritz. Crítica da estética da mercadoria. São Paulo: UNESP, 1997, p. 124.
ADORNO, T. W. & HORKHEIMER, M. Op. cit., p.114.
FONSECA, Rubem. Pequenas criaturas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.261.