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O corpo duplicado em João Gilberto Noll
Adrianna Meneguelli Da Ros (UFMG)
O texto que o senhor escreve tem de me dar prova de que ele me deseja. 1
A literatura é amiúde o retrato do que somos, mesmo quando ali não estamos. Isso se dá pelo poder da palavra, a partir da qual se nos assoma todo um complexo de imagens em que nos vemos enredados; mais até, duplicados, a partir de uma projeção da vivência dos próprios personagens. Algumas radiações emanadas pela questão do duplo - atávica questão, por sinal, e inerente à própria condição humana - serão aqui iluminadas pelos personagens da obra A fúria do corpo (1981), de João Gilberto Noll. Ao passo que desemboca na questão da alteridade, a ocorrência da duplicação, em suas inabarcáveis nuances, alça-se da própria narrativa e projeta para a relação do leitor com o texto esse mesmo liame - argúcia da metatextualidade alegorizada.
Nessa obra, o autor porto-alegrense retrata uma trajetória alucinante. Nela, um narrador-personagem que nem sabe como em seus veios se sustenta. Nós, ao invés, sabemos que pela força da linguagem, ainda que modulada pela afasia. O homem não nos revela seu nome. "O meu nome não. Vivo nas ruas de um tempo onde dar o nome é fornecer suspeita. A quem? Não me queira ingênuo: nome de ninguém não." 2 São as palavras que abrem a narrativa: ao desconhecido, pois que a partir daí mesclam-se os tempos passado, presente e futuro, assim como os estados do sono e da vigília, de tal forma que toda e qualquer certeza quanto à identidade ou ao devir dos personagens se esvanece em meio ao sincopado fluxo narrativo.
Atrelada às deambulações desse personagem inominado está uma mulher - com quem divide a condição miserável, o corpo, a falta de perspectiva e de referencial - a quem chama de Afrodite. "[...] aqui a história se inicia e nada mais importa, um homem e uma mulher se reconhecem em plena Atlântica, não termos pouso nem casa não importa, aqui começa o esplendor de uma miséria, seguirmos é só isso." 3 O espaço onde se movimentam: as ruas do Rio de Janeiro. Nessa personagem ele se reconhece e, mais do que especular, a relação que com ela desenvolve se aproxima da simbiose. Ele a persegue, quando dele se perde e sai andando a esmo; procura-a, e a seu corpo, sempre com uma urgência animalesca; invoca seu (fictício) nome, que permeia todo o jorro narrativo; ama-a desde tempos imemoriais, afirma.
Ambos se confundem, no que tange tanto à condição, quanto à doença 4, à ligação corporal etc. Ela é o seu duplo. Lembremo-nos do termo explorado pelos românticos, Doppelgänger , cunhado por Jean-Paul Richter, em 1796, cuja tradução é: "duplo", "sósia" ou "segundo eu", e que significa literalmente "aquele que caminha ao lado", "companheiro de estrada". 5 Temos, então, um fato intratextual em que observamos a presença do duplo, como temática, como ocorrência narrativa. Acontece que o leitor não sai ileso diante dessa situação; o narrador abole a cumplicidade distanciada invocando-o explicitamente, ainda no início do texto:
[...] vem e não traz nada que possa desviar o alvo ainda imprevisível deste amor, despoja-te das relíquias viciosas do passado e vem pelos teus próprios recursos, vem: você é ela e me acompanha prenhe da mais funda decisão, passos da guerreira pobre, renunciando ao repouso imediato, caminhando comigo como quem se conduz ao cativeiro de ouro, entrando pelas ruas de Copacabana como quem se dirige ao Reino [...] 6
Enreda-se, pois, o leitor na palavra que o convoca, como um olhar que o guarda ( guardare , em italiano, significa olhar), hospedando-o no corpo textual. "O outro é o hóspede": não dissera Baudrillard? Cria-se, então, uma relação de alteridade em que o outro e o um confundem-se, irmanando-se numa mesma condição. O leitor, mimetizado à personagem feminina, deve sentir a dureza das calçadas e a escuridão dos becos, ao passo que se confronta com a dureza das palavras e com a "escuridão" das idéias. Afinal, não há aqui ambiente para as certezas. "Mas me fere aceitar que não escondo de mim nem de vós (quem sois?... e sois?...) o meu trajeto cheio de recuos, paradas, síncopes, acelerações, anseios fora do ar, admito ser extravio às vezes, inexistente até, quem sabe existente mas já morto" 7
O outro é o que nos assombra pela sua estranheza. É o Unheimlich (não-familiar, estranho) que nos incomoda porque o pressentimos obscuramente em nós mesmos. Essa é uma das conclusões a que Freud chega no artigo escrito em 1919, "Das Unheimlich", onde tenta perscrutar essa sensação, inspirado por um conto de Hoffmann. A própria palavra alemã (que alguns traduzem por "estranho", e outros por "sinistro"), contém em si o familiar, heimlich . "Essa imanência do sobrenatural no familiar é uma prova etimológica da hipótese psicanalítica segundo a qual o sobrenatural é essa verdade particular da coisa assustadora que remonta ao há muito já conhecido, já familiar" 8, ratifica Julia Kristeva. O familiar a que se refere a ensaísta é o que em nós existe, submerso, nas sombras, e que pode irromper a qualquer momento. Daí a voz psicanalítica afirmar que "o outro é o meu (próprio) inconsciente".
A fala pautada na psicanálise conflui-se com a de Jean Baudrillard, incitando-nos a retomar - dentre outras - a imagem legada pelo mito de Teseu quando, diante do Minotauro, vê-se, nas pupilas do outro, refletido. Também Stevenson, com O médico e o monstro , dentre inúmeros autores, excursionaram por essa via, do outro que é hospede. No texto de Noll que, através da 2ª pessoa, solicita-nos como hospedeiros, identificamos também o outro que nos tira do prumo; e mais, que pelas ruas e becos do Rio de Janeiro convoca-nos como um par, Doppelgänger , e cúmplices das suas vivências.
À parte as questões de cunho sócio-econômico que possam estar latentemente ressaltadas na situação miserável dos personagens, cabe observar que tais enredamentos são emoldurados pela grande cidade e assombrados por seu ritmo; nela se movimentam e são por ela abraçados. O narrador, esse outro que nos assombra, e que vê em nós uma completude ilusória, quer que sejamos também andarilhos, flâneurs . Nas ruas de Copacabana, em terrenos baldios, em becos sujos, em bancos quaisquer, estão dispostos seus marcos. A cidade - diagnosticada por Baudelaire como inferno, e ao mesmo tempo inspiração - é a sua casa, e ao mesmo tempo o seu caos.
Mas podemos identificá-los, aos nossos personagens anônimos, com o flâneur baudelairiano (da Paris do séc. XIX)? A priori , podemos vislumbrar alguns traços que os aproximam; se retomarmos, por exemplo, algumas palavras de Benjamin, na análise da Paris de Baudelaire: "A rua se torna moradia para o flâneur que, entre as fachadas dos prédios, sente-se em casa tanto quanto o burguês entre as suas quatro paredes." 9 No que certamente identificamos os nossos personagens, já adaptados aos bancos, aos becos, aos terrenos baldios, por onde se acomodam e se comportam como se estivessem entre as quatro paredes de um espaço privado.
Também o ritmo dos personagens, como o do flâneur , é mais lento que o da cidade, já que possuem um traçado próprio, na contra-mão do fluxo humano que se dirige ao trabalho, aos pontos de ônibus, às compras etc. "Pergunto as horas e a moça responde já passa da meia-noite. Estranho mais ainda o adiantado da noite porque a minha lentidão se choca com a realidade. Por onde andei tão lento que nem percebi?" 10, questina o narrador em determinado momento do texto. Suspenso no tempo - abolidos os referenciais de passado, por ele renegados - segue o personagem a sua trajetória labiríntica cujos signos espaciais também se pautam pela opacidade. "[...] esse pé anda como se avulso em direção a nada pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, e sigo esse pé porque confio na sua busca - ou ele não busca nada, seu doutor?" 11, pergunta que o inominado narrador atribui a um (outro) mendigo louro que jazia espojado ali pela adjacência, e que descobrimos mais adiante tratar-se de um fantasma, de inexistente presença corpórea, isto é, o outro projetado pelo um: reflexo especular, mais um ardil do duplo. E continua o fantasmático "mendigo louro": "[...] o que fazia mesmo era viver ao contrário , não, não era como morto não e sabe por quê?, porque eu continuava falando sozinho, vinham umas idéias quase parando, mas era idéia sim senhor, espichava uma palavra até não poder mais pra que ela não morresse em vida, sabe?" 12 É, pois, a linguagem que o vivifica, que o mantém nessa trajetória e nela nos inclui.
Havemos de pontuar nesses excertos alguns acenos que não podem ser desprezados. Primeiro, esse andar "em direção a nada", depois o "viver ao contrário", seguido da "subordinação absoluta ao nada", que aparece a seguir enquanto o andarilho continua a descrever sua própria condição. São expressões que aludem a um esquivar-se ao fluxo contínuo, no que se aproxima do personagem de Baudelaire; a um rebelar-se com relação à "normalidade" prescrita por uma sociedade que se pauta pela anulação das diferenças, pela "reprodução do que é sempre o mesmo" 13, na expressão adorniana.
Se por um lado, então, podemos identificar no ritmo do narrador de Noll uma afinidade com o flâneur baudelairiano, por outro havemos de considerar sua mútua disparidade. A correspondência rompe-se ao tentarmos contrapor à imagem do parisiense do século XIX (deambulando entre boulevares), a imagem do mendigo do século XX, sujo, em andrajos, defecando pelas reentrâncias da urbe, dormindo no duro concreto, nos becos imundos, em qualquer lugar. Se a flânerie é já, como considera Benjamin, um afastamento da norma, o andarilho de Noll 14, cabe-nos observar, leva-o ao paroxismo e, diga-se de passagem, atingindo um inequívoco estado de degradação, de depauperamento do seu par parisiense.
As errâncias do narrador-personagem de A Fúria do corpo sobressaem-se margeadas mais pelo grotesco que seus olhos revelam e que seu corpo vivencia do que pela poesia que vemos refletida nos olhos do flâneur francês, mesmo quando diante de cenas menos glamourosas.
Cientes disso, vale reinvocar o "quem", o outro, que no fundo sem fundo de sua miséria, e de suas pupilas, é pura imersão; o que se faz duplo porque está nele "hospedado". Afrodite, ainda que em alguns momentos dele se perca, é a que segue ao lado, trajetória que se cumpre de forma sincopada e paradoxalmente contínua, o que caracteriza a própria condição de duplo que lhe cabe. Dragada pelo inferno, pela miséria, pela volúpia da transgressão às "normas", o que lhe resta, nessa dança da imanência 15, é o corpo, tal como ao narrador, a quem se amalgama. "E cada encontro nos lembrava que o único roteiro é o corpo. O corpo." 16E o corpo físico que neles é ponto de interseção, e morada possível, alegoriza, para nós, o corpo textual que nos enreda e nos incita a testemunhar, pelos desvãos dessa cartografia urbana (e humana) tão pessoal, que o corpo é ponto de chegada sendo também de partida; corpo que deve ser vislumbrado em seu potencial dúplice, pois que é físico e textual.
Ao lermos um texto literário assumimos um ritmo menos acelerado - tal como acontece com o flâneur -, um ritmo mais lento que o da azáfama diária. É nesse ponto que podemos acompanhar o compasso desse astucioso narrador, e é também nesse momento que passamos a ser Afrodite, esse duplo necessário, a intimada pelo narrador a compactuar com seus desvarios, a seguir com ele na contra-mão do fluxo urbano; a ser penetrada por ele até a dor física, pela palavra que rasga, no âmago do sujeito, toda e qualquer certeza que ali se pensava escudada, agasalhada, protegida.
Assumindo, dessa duplicação falaciosa, o quinhão que nos cabe, urge acolher do narrador o contumaz apelo: de acumpliciarmos a fúria dos membros que se enreda à da própria linguagem que, por seu turno, segue espiralada; círculo que não se fecha, sua sina irmana-se à dos andarilhos desse romance. Como voyeurs, além de flâneurs , mantendo os olhos fixados nas cenas e nas palavras do além-texto - que todo texto embute - entrevemos na manipulação da glande e na manipulação dos vocábulos o pendor para uma estética do choque, que comporta o inusitado, mormemente porque o espectro do duplo, indelével, pode irromper em qualquer esquina do texto.
Entrevemos, também, a imanência como única possibilidade e a transcendência como imagem do vazio, irmanada à dessacralização dos mitos religiosos que podemos pontuar em vários momentos da narrativa. Desta feita, duplicados no corpo enfurecido, desafiador dos dogmas, dos valores aprisionantes e do próprio ritmo de seu tempo, resta-nos - ao assumirmos suas miséria, animalização e solidão - acolher olhos, pés, corpo, enfim, com que o narrador nos arrebata. Decantada dessa assunção, que é a de uma antiodisséia partilhada, permanece a constatação de uma enfermidade; seu nome: condição.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia . Trad. Ivone Benedetti. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 1014 p.
ADORNO, Theodor . Dialética do esclarecimento . Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. 252 p.
BARTHES, Roland. O prazer do texto . Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1987. 86 p.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas II : Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. Trad. José Carlos M. Barbosa e Hemerson A. Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1995. 271 p.
BRUNEL, Pierre. Dicionário de mitos literários . Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. 939 p.
KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos . Trad. Maria Carlota C. Gomes. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. 205 p.
NOLL, João Gilberto. A fúria do corpo . Rio de Janeiro: Rocco, 1989. 276 p.
BARTHES, Roland. O prazer do texto . Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1987. p. 11.
NOLL, João Gilberto. A fúria do corpo . Rio de Janeiro: Rocco, 1989. p. 9.
NOLL, A fúria do corpo , p. 10.
Os estudiosos da mente humana, quer pela via da psicanálise, quer pela da psiquiatria, justificam pela psicopatia o comportamento de grande parte dos andarilhos e mendigos.
BRUNEL, Pierre. Dicionário de mitos literários . Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. p. 261.
KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos . Trad. Maria Carlota C. Gomes. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. pp. 191-192.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas II : Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1995. p. 35.
NOLL, A fúria do corpo , p. 77.
ADORNO, Theodor . Dialética do esclarecimento . Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 126.
São emblemáticas, nesse sentido, as seguintes palavras do personagem: "Vivo estou. Mas sei que irremediável para qualquer organização. Apenas mais um entre os vivos." In. NOLL, op. cit ., p. 74.
Considero aqui a seguinte acepção dessa palavra: "limitação do uso de certos princípios à experiência possível e recusa em admitir conhecimentos autênticos que superem os limites de semelhante experiência." In. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia . Trad. Ivone Benedetti. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 539.