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Dor e Solidão na Escrita d' Os Sertões
Vivianne Milward de Azevedo (UFF/UNESA)
Les Hiboux
Sans remuer ils se tiendront
Jusqu'à l'heure mélancolique
Où, poussant le soleil obliqúe
Les ténèbres s'établiront.
Leur attitude au sage enseigne
Qu'il faut en ce monde qu'il craigne
Le tumulte et le mouvement;
L'homme ivre d'une ombre qui passe
Porte toujours le châtiment
D'avoir voulu changer de place. 1
Os Sertões 2, de Euclides da Cunha, atravessou o século XX como obra canônica da cultura brasileira. Esse fascinante livro, tão significativamente discutido no Brasil e que a tantos impressiona, por seu estilo elevado, sua precisão vocabular, sua escrita poética e pela exposição das faces contraditórias do país, no final do século IX, permite-nos construir algumas considerações sobre a sociedade daquele período, que como a de hoje, se habituara a diferentes formas de violência e opressão.
Portanto, nesse artigo, situaremos a obra Os Sertões como resultante do sentimento de revolta, que se concretiza em testemunho de um homem que se horroriza perante a visão das atrocidades daquilo que nomearam de "Guerra de Canudos".
A essa constatação chegamos ao evidenciando as posturas duais do sujeito da enunciação do texto, pois há nelas visivelmente um movimento dialético, como se o homem da ciência pusesse em xeque todos os seus saberes científicos. Também não podemos deixar de lado o fato de que a organização de Canudos, com normas próprias, sem a autorização de funcionamento, e que ameaçava as Instituições oficiais, deveria ser calada antes que suas normas de conduta se tornassem fortes. Testemunhar, relatar e divulgar na imprensa e na ficção intensificaria as vozes sertanejas, mas Euclides fora designado pelo Estado para emudecê-las, pois tinha que dar voz aos soldados e à versão oficial do evento. Quando se dá conta do que realmente acontecia no interior baiano, o escritor não consegue calar o sertanejo; ao contrário, coloca-o em evidência a necessidade de permitir que todos os brasileiros tivessem seu lugar no país.
Possivelmente, a visão da barbárie por parte dos soldados republicanos levou Euclides da Cunha a vivenciar o tormento que o obrigou a construir o "livro vingador", como ele se referia à sua obra. Provavelmente, a escrita de Os Sertões lhe serviu como uma revisão de sua omissão, já que, como nos indica Ventura 3:
Euclides se sentiu tolhido para atacar o Exército. Era desde 1896 tenente reformado e fora nomeado adido ao Estado-maior para a cobertura da guerra. Acompanhou grande parte dos combates junto aos oficiais da comissão de engenharia e do quartel-general.
Suas reportagens se interromperam de forma súbita em 1º de outubro. Escreveu sobre as manhãs admiráveis em Canudos, com os raios de sol que iluminavam o círculo de montanhas, e relatou o violento ataque à cidade. Ao contemplar os feridos que se acumulavam no chão, gemendo e soluçando de dor, sentiu um profundo desapontamento: "Acreditei haver deixado muitas idéias, perdidas, naquela sanga maldita, compartindo o mesmo destino dos que agonizavam manchados de poeira e sangue...".
Abandonava ali muitos dos ideais republicanos que defendera na juventude como cadete na Escola Militar, da qual foi desligado por ato de protesto contra a monarquia, ou ainda como articulista da "Província de S. Paulo". Esses ideais ecoaram em seus artigos sobre a guerra, que terminavam com os brados patrióticos de "Viva a República" ou "A República é imortal".
Havia urgência em denunciar as atrocidades, que ocorreram no sertão baiano, arbitrariamente silenciadas em seu artigo. Mas, o engenheiro Euclides não contava com a impossibilidade dessa empreita; ele, homem de cálculos e medidas, não esperava que sua escrita se tornasse, também, um grande tormento. Em seu texto, por vezes, não consegue revelar a violência que o impulsiona à denúncia, como nos indica Ventura 4:
... com o propósito de denunciar o crime cometido em Canudos, Os Sertões traz um curioso paradoxo, já que deixa de relatar aquilo que forma a base de sua acusação contra as forças armadas: o massacre dos prisioneiros e a destruição da cidade. Tais eventos de extrema crueldade são antes sugeridos do que propriamente narrados, já que não haveria linguagem capaz de exprimir tal horror...
Essa impossibilidade de explicitar o cruel derramamento de sangue, que ocorrera no sertão da Bahia, possivelmente se explique pelo impacto traumático da violência constituída em Canudos. Além disso, Os Sertões é construído durante os cinco anos que seguem à destruição do arraial sertanejo, e esse afastamento temporal reforça as incertezas sobre a crueldade assistida, aumentando o tormento do escritor, como se constata em sua correspondência pessoal 5. Mas, mesmo atormentado, Euclides consegue fazer uma autocrítica do patriotismo exaltado de suas reportagens , reconhecendo sua omissão na cobertura da guerra, ao declarar a tortura e o massacre dos prisioneiros sobre os quais antes se calara. Nas páginas do livro, encontramos o descarte da idéia de conspiração monárquica, antes defendida pelo escritor, e o desmascaramento de uma experiência de opressão e censura entre as muitas que marcam as páginas de nossa história.
Construir uma análise desta obra nos exige o reconhecimento do cerco discursivo que incentivou e construiu o evento Guerra de Canudos, gerando pânico e o tumulto na população, através de uma "campanha de calúnias" iniciada há alguns anos antes.
Alicerçada nessa rede de intrigas é lançada a noção de que a comunidade de Canudos era um grupo de rebeldes monárquicos que exigiriam a restauração por meio da luta armada. Este arcabouço discursivo foi o suficiente para respaldar a grande atrocidade que aconteceria n Os Sertões baianos. Após o insucesso das duas primeiras expedições, enviadas para desmantelar a insurreição monárquica de Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como o Conselheiro, a Câmara, o Senado, a imprensa, a população urbana e os intelectuais passam a exigir a ação militar que irá por fim naquele grupo de "loucos monarquistas". O espírito de revanche nascia em nome da República desonrada pela derrota das duas primeiras expedições enviadas à região dominada pelos "jagunços criminosos".
Para responder aos anseios desses grupos, e restabelecer a ordem no país, o governo autoriza a terceira expedição a Canudos, sob o comando do Coronel Moreira César. Essa escolha segundo Barros 6, se dá "por sua fama de violência, pelo epíteto de "Corta-Cabeças", demonstrando a intenção do governo em impor aos jagunços uma vitória arrasadora e definitiva." O próprio Euclides, ao descrever o Coronel, vai destacar sua " tendência indiscutível para as mais maiores (sic) barbaridades" 7, ao narrar o caso do jornalista que fora linchado na rua, em 1884, em que Moreira César fora um dos oficiais acusados de insuflar o assassinato. Por esse fato nunca foi condenado, sendo, inclusive, considerado como um grande divulgador da República, e que simplesmente utilizava métodos pragmáticos para manter a nova ordem civilizatória. Tal fato nos é mostrado pelo historiador Oleone Fontes: 8
A pretexto de defender a autoridade imperial e do exército, em 1884, oficiais positivistas exaltados, organizados por Moreira César, apunhalam o diretor do jornal O Corsário, o jornalista Apulcro de Castro, aprisionado pelo exército, no Rio de Janeiro.
Acreditamos que as forças políticas do país contavam com o terror que o nome de Moreira César impunha para fazer com que os jagunços se rendessem à fama de sua valentia invicta. A rica descrição da postura do militar do coronel, apresentada no livro, denuncia um homem de "ideais sinistros", que insuflava seus comandados à crueldade de uma "bravura bárbara":
Somente a fortaleza moral de um chefe pode obstar esta transfiguração deplorável, descendo, lúcida e inflexível, impondo uma diretriz em que se retifique o tumulto. Os grandes estrategistas têm, instintivamente, compreendido que a primeira vitória a alcançar está no debelar esse contágio de emoções violentas e essa instabilidade de sentimentos que com a mesma intensidade lançam o combatente nos mais sérios perigos da fuga.
(...)
Mas estavam longe desse ideal sinistro os soldados do Coronel Moreira César e este ao invés de reprimir a agitação ia ampliá-la. Far-se-ia o expoente da nevrose. 9
A imagem que se constrói durante a leitura da obra é a de um homem delirante, que só pensava no extermínio dos inimigos canudenses. Não há, em momento algum, a mostra de preocupação com os possíveis prisioneiros de guerra. Parece-nos que o extermínio era punição traçada para aqueles que se levantaram contra a República, e Moreira César estimulava esse. Talvez isso explique a arrogância do comandante, que estimulava os soldados ao espírito de matança:
(...)
O comandante-em-chefe abraçou num lance de alegria sincera, o oficial feliz que dera aquele repelão valente no antagonista, e considerou auspicioso o encontro. Era quase lastimar tanto aparelho bélico, tanta gente, tão luxuosa encenação em campanha destinada a liquidar-se com meia dúzia de disparos.
As armas dos jagunços eram ridículas. Como despojo, os soldados encontraram uma espingarda pica-pau (...) O Coronel César, mesmo a cavalo, disparou-a para o ar. Um tiro insignificante, de matar passarinho.
_ "Essa gente está desarmada..." Disse tranqüilamente.
(...)
O ímpeto que trazia a tropa, porém, teve uma componente favorável nas tendências arrojadas do chefe. Obsediava-o o anseio de vir logo às mãos com o adversário. 10
A observação do comportamento do Coronel já nós dá indícios do que estará por vir, pois toda relação de autoritarismo revela-se em atos de desmedida violência. As breves cenas que declaram a tortura aos sertanejos, na parte final do livro, foram construídas durante todo o período de "guerra". Elas são resultantes dos discursos autoritários e reacionários, construídos ao longo dos anos de existência do arraial de Canudos, que serviram para montar o simulacro da "guerra", e exaltar o mito monárquico, amplamente divulgado pela imprensa da época, o que permitia a isenção da responsabilidade do Estado brasileiro frente ao episódio. Dessa maneira mantinha-se uma imagem positiva dos militares, principal força de consolidação da então recente República e do Governo do Brasil, perante a opinião pública da época.
Nas páginas d'Os Sertões estão deflagrados, mesmo que veladamente, a necessidade de se fazer do episódio Canudos um exemplo para futuras tentativas de afronta ao poder político e ao regime instaurado. Mostra da intolerância das elites brasileiras, que conseguiu, aparentemente, destruir Canudos de duas maneiras: a primeira, efetivamente pela força das armas e a desmoralização e tortura dos presos de guerra; a segunda, pela construção de um arcabouço discursivo, que se estruturava na desmoralização do sertanejo e de sua luta, formando a opinião pública e levando, conforme nos apresenta Euclides da Cunha, a um:
(...) caso vulgaríssimo de psicologia coletiva: colhida de surpresa, a maioria do país inerte absolutamente neutral, constituiu-se veículo propício à transmissão de todos os elementos condenáveis que cada cidadão, isoladamente, deplorava (...) As maiorias conscientes, mas tímidas, resvestiam-se, em parte, da da mesma feição moral dos medíocres atrevidos que lhes tomavam a frente. Surgiram, então, na tribuna, na imprensa e nas ruas - sobretudo nas ruas - individualidades que nas situações normais tombariam à pressão do próprio ridículo (...) A retratação da maioria pensante do país permitia todos os excessos; e no meio da indiferença geral de todas as mediocridades irritadiças conseguiram imprimir àquela quadra, felizmente transitória e breve, o traço mais vivo que a caracterizava. 11
A irracionalidade dos "civilizados" do litoral e as violentas manifestações antimonarquistas permitiram a punição daqueles que, supostamente, colocavam em risco a República. Talvez a perversa necessidade de punição ainda fosse resquícios da herança deixada pelos senhores escravocratas, que utilizavam a punição física como método de reeducação. O que ocorreu em Canudos não foi um combate, mas um assassinato coletivo com a permissão do alto comando político e militar do país. A denúncia de Os Sertões conseguiu mostrar mais que o grande espetáculo de crueldade que foi a Guerra de Canudos, ela expõe a intolerância e o autoritarismo da elite política, que até hoje conseguimos identificar em nosso país. Desta forma, Euclides evoca repetidamente o perigo de se deixar no esquecimento a trágica história da guerra civil de Canudos, nos confins da civilização e no âmago da terra ignota ; não deixando se perder para a posterioridade.
A inspiração literária de Os Sertões não é uma novidade, a guerra, predominantemente épica e dramática, tematiza toda a Literatura Universal de Homero a Victor Hugo, correspondendo, também, à filosofia de que a História é luta, luta de raças, luta de povos, de grupos e de indivíduos. O sertão e o sertanejo são resgatados através da narração romanceada de lutas, conflitos e colisões dentro da natureza, entre a natureza e o homem, entre o homem e o homem. E justamente nessa luta, na luta armada, que vai se revelar o valor do homem, da comunidade da civilização; através da guerra que a possibilidade de uma nação vai se formar. Assim, fica-nos claro que em Os Sertões o arraial de Canudos foi aniquilado, mas a encenação desse fato garante uma vitória moral aos canudenses. Estes venceram o exército mesmo militarmente, que só saiu vitorioso por recorrer à tecnologia e à artilharia estrangeira, desigual ao que utilizou o canudense. Essa vitória moral, na realidade, torna-se a vitória da nação brasileira, unida e edificada pela memória de Canudos, pois quando a República, no seu fanatismo civilizador, extermina o sertanejo, está praticando um ato de automutilação nacional , pois o inimigo massacrado era o cerne de uma nacionalidade , a rocha viva da nossa raça . Aquele povo estranho se revela no ocaso como superiormente brasileiro ; o sertão, que só existia como ficção geográfica passa a ser visto, tarde demais, como possível berço de um futuro Estado brasileiro modelar, já não excludente como o era o projeto nacional das elites, mas, ao contrário, incorporador e participante, embora não igualitário nem formalmente democrático.
Os Sertões nos deixa uma enorme possibilidade de perceber que apesar da crueldade do vencedor ser o maior atestado da bravura do vencido 12, não podemos continuar permitindo que sob o discurso de democracia se oculte a intolerância e o autoritarismo, ainda presentes em nossos dias. Essa obra condena que se apresente os erros do passado como justificativa para as omissões do presente, e nos ensina que a justiça, a compreensão, a liberdade são elementos essenciais para à dignidade humana.
BAUDELAIRE,Charles. Os Mochos. Em: As Flores do Mal . Trad. de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985; p. 275. Orig. "Les Hiboux". Em: Les Fleurs du Mal (1857), Oeuvres Complètes . Paris: Gallimard, 1975, v. 1; p. 67: "E imóveis permanecerão/Até o momento agonizante/Em que, tangendo o sol rasante,/As trevas tudo engolfarão./Sua atitude ao sábio ensina/Que aqui lhe cabe como sina/Temer o caos e o movimento;/Bêbado de uma sombra fútil,/O homem maldiz o atrevimento/De haver ousado um passo inútil."
CUNHA, Euclides. Os Sertões. 38ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997, 646p.
VENTURA, Roberto Do mar se fez o sertão - Euclides da Cunha e Canudos. Site Casa Euclidiana de São José do Rio Pardo , <http: /www2.rantac.com.br/casaeuclidiana/ventura.htm>. set. 1999.
__________. Retrato interrompido da vida de Euclides da Cunha . São Paulo: Companhia da Letras, 2003. 348p.
CUNHA, Euclides. Correspondência de Euclides da Cunha . Org. GALVÃO, Walnice Nogueira e GALOTTI, Oswaldo. São Paulo: Companhia da Letras, 1997.
BARROS, Luitgard. Canudos: o registro da violência. In: Site Casa Euclidiana de São José do Rio Pardo: http:/www2.rantac.com.br/casaeuclidiana/luitgard.htm> . jul.2004.
FONTES, Oleone Coelho . O Treme - Terra Moreira César - A República de Canudos . Petrópolis - RJ, Editora Vozes, 1996.
---. Jornal O Comércio de São Paulo , São Paulo: O Comércio de São Paulo. 14/10/1897.