VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Autoritarismo e violência em dois romances em língua portuguesa: Tropical sol da liberdade de Ana Maria Machado e Terra Sonâmbula de Mia Couto
Susanna Ventura (USP)

Esta comunicação se tece utilizando como base teórica as propostas de Benjamin Abdala Júnior que, ao tratar das literaturas produzidas nos países que têm o português como língua oficial, cria o conceito de macrossistema das literaturas escritas em português 1 e idealiza o comparatismo da solidariedade 2. Segundo o teórico, ao iniciarmos o estudo comparativo de literaturas dos países de língua oficial portuguesa, deparamo-nos com uma "tradição histórico-cultural comum que permeia suas produções artísticas", utiliza uma linguagem moldada a partir da Idade Média européia que sendo modificada por um processo contínuo de aproximações e diferenciações, resulta num contexto comunicativo que se estabeleceu a partir da colonização. Assim sendo, e a partir do sistema literário nacional conceituado por Antonio Candido, que o macrossistema das literaturas dos países de língua portuguesa se apresenta como campo de contatos entre os diversos sistemas de cada um desses países. Abdala Jr. refere-se também à literatura comparada - disciplina que teve sua consolidação a partir da literatura e de bases teóricas oriundas de países europeus hegemônicos no século XIX ( França, Inglaterra e Alemanha), momento histórico da afirmação de estados nacionais com economias baseadas na maior parte das vezes no empreendimento colonial - como produtora de uma espécie de comparatismo que batiza como " da necessidade". O comparatismo da necessidade - ligado às circunstâncias históricas declinadas - acabou por criar uma linha de trabalho em que, quando um dos pólos de comparação fosse constituído por produção literária oriunda de países colonizados ou periféricos, prevalecessem critérios de valoração e comparação baseados em conceitos como os de fonte e influência, o que via de regra levava a uma reiteração da dependência cultural da dita periferia com relação a um centro que, ademais de econômico, também seria uma fonte emanadora de saber. A esse comparatismo da necessidade o teórico contrapõe o da "solidariedade" - onde tanto o "corpus" privilegiado de pesquisa seja o produzido pelas nações consideradas periféricas, quanto o olhar dispensado à literatura comparada não tenha como foco a emissão de juízos de valor, nem a determinação de "dívidas culturais" entre as literaturas e sim sejam feitas aproximações visando a um maior (re)conhecimento mútuo de semelhanças e diferenças do trabalho artístico efetivado.

Nas obras escolhidas para a composição do corpus dessa reflexão, temos dois romances do século XX: Tropical sol da liberdade 3, da escritora brasileira Ana Maria Machado, publicado em 1988, e Terra Sonâmbula 4, do escritor moçambicano Mia Couto, publicado em 1992.

Precisamos deixar marcada a estreita relação que vemos entre o material tratado nos romances e o traumático período histórico atravessado por Brasil e Moçambique no período tematizado pelas efabulações em questão - o que reflete, em recorte delimitado, os transtornos vivenciados pelas sociedades contemporâneas no momento mundial contemplado: o final do século XX. Segundo Márcio Seligmann-Silva 5

Nós podemos pensar a humanidade ao longo do século XX como parte de uma sociedade que poderia ser caracterizada, sucessivamente, como pós massacre dos armênios, pós Primeira Grande Guerra, pós Segunda Guerra Mundial, pós Shoah, pós Gulag, pós guerras de descolonização, pós massacres no Camboja, pós guerras étnicas na ex Iugoslávia, pós massacre dos Tutsis etc e etc. Mas esse prefixo "pós" não deve levar a crer de modo algum em algo próximo do conceito de "superação", ou de "passado que passou". Estar no tempo "pós"catástrofe significa habitar essas catástrofes.

 

Em Tropical sol da liberdade , o período abrangido pela efabulação vai do Estado Novo nos anos de 1950 - onde a personagem Lena passa sua infância em cidades do Sudeste brasileiro - passa pela mais recente ditadura militar (que, segundo o historiador Boris Fausto se inicia em 1964 e tem seus últimos vestígios formais derrubados pela Constituição Brasileira de 1988) 6 - vivenciada pela personagem adulta no Sudeste do Brasil e no exílio na Europa (Paris). O modo de vida urbano no Sudeste do Brasil é o mais privilegiado na narração, com eventuais períodos passados pelas personagens numa casa à beira-mar perto de um povoado de pescadores ( o que também é uma característica de grupos oriundos de classe média no Brasil do período em questão).

Em Terra sonâmbula , o período enfatizado abrange o início da década de 1970, período da luta armada que conduz à Independência de Moçambique (25/06/1975) - até então colônia de Portugal, e o período pós-Independência em que, meses depois da difícil conquista, o país recai numa violenta guerra civil que prossegue até outubro de 1992, quando a paz é selada através do "Acordo de Roma" 7.Duas são as personagens principais: Kindzu, um narrador em primeira pessoa, que narra em seus diários sua infância e vida adulta entre o início da década de 1970 e algum ponto não definido durante a guerra civil e Muidinga, uma criança que lê os diários no período final da mencionada guerra civil. O cenário, marcadamente rural para ambas as personagens, é composto pela terra moçambicana devastada e arrasada pelas guerras sucessivas, por onde as personagens vagam num estado de carência total. Faltam víveres, condições básicas de saúde, moradia ou possibilidade de trabalho.

Dentro dos contextos nacionais brevemente apresentados, as personagens "habitam" as catástrofes nacionais que enformam suas existências individuais, como apontado no texto de Seligmann-Silva, tentando, no entanto, caminhos possíveis para superação e redenção dos traumas vivenciados.

 

Lena, personagem principal de Tropical sol da liberdade é uma jornalista oriunda da classe média urbana carioca que, sem estar diretamente envolvida com política, vivencia de maneira intensa e traumática a ditadura militar brasileira iniciada em 1964. Colhida por situações decorrentes do violento autoritarismo perpetrado pelo governo a partir do final de 1968, a personagem vê sua trajetória de vida ser completamente alterada ao sentir-se compelida a um exílio que é, a uma só vez, voluntário e premente para o qual parte após sofrer uma prisão injusta. Irmã de um militante político de esquerda e simpatizante do movimento de resistência, Lena acaba por se afastar do país em busca da manutenção de sua própria integridade física. No momento em que a narrativa se inicia, vemos a personagem descansando de uma fratura à beira-mar no litoral capixaba em finais da década de 1980. A aparente fratura de um dos artelhos, mencionada no início da narrativa, oculta, no entanto, o verdadeiro estado físico-emocional da personagem, que se encontra combalida por uma estranha condição neurológica/psíquica que traz entre outros males a desconexão com a expressão escrita, a impossibilidade de locomoção e um desequilíbrio físico que a faz cair ao solo sem motivo. Tal condição de saúde advém após a decisão de Lena de rever sua história pessoal, transformando sua experiência numa narrativa de cunho ficcional onde um dos objetivos seria o de dar um testemunho da vida de uma mulher comum, de classe média, vivendo num país periférico assolado por uma ditadura violenta que acaba por levá-la ao exílio. Após licenciar-se de seu emprego junto a um dos grandes jornais cariocas e iniciar o trabalho como escritora a personagem adoece. A impossibilidade da escrita se impõe, aliada a outros males, que fazem com que Lena se recolha, em recuperação - à casa de sua mãe, a dona de casa Amália. A busca pela cura se mescla às lembranças de Lena, de Amália e à reavaliação pela personagem, tanto de sua própria escrita ficcional - já realizada quando do início da doença, quanto de sua trajetória como jornalista, mulher e cidadã brasileira. Observamos a difícil luta contra uma doença que pode advir do enfrentamento de lembranças dolorosas demais e a decisão de uma vez mais mudar sua trajetória individual para tentar dar um depoimento sobre uma vivência humana numa sociedade dominada pela violência de um regime de exceção. Os questionamentos envolvendo questões e conceitos como os de "pátria", "aprendizado", "papel social daquele que escreve" e principalmente "exílio", dão a tônica do romance, em que a busca de expressão e testemunho de uma época conduzem a personagem ao olho do furacão do reavivamento de feridas profundas.

Em Terra Sonâmbula , Muidinga, um menino doente e aparentemente órfão, que perdera a memória durante a guerra civil moçambicana, é cuidado por um idoso, Tuahir, primeiro num campo de refugiados e a seguir por uma peregrinação incerta por caminhos devastados pela guerra. A partir dessa espécie de adoção, que possibilita a recuperação e a saída de Muidinga do campo de refugiados, ambos, menino e velho, retomam juntos sua vida. No início dessa relação o idoso cuida do menino, porém a vida de ambos será alterada a partir do contato de Muidinga com os diários de um morto, encontrados à beira de uma estrada. A leitura dos diários, que passará a ser feita em voz alta pelo menino, permitirá que ele chegue novamente às letras através da lembrança da faculdade da leitura, e com isso inicie uma espécie busca identitária. Vemos a referida busca sob dois aspectos: o pessoal, uma vez que Muidinga perdeu a memória e também o social, visto que além de não se lembrar de uma história pessoal, o protagonista não tem igualmente acesso à história da sociedade à qual pertence . O idoso, que não é alfabetizado, se envolve nessa busca e tem sua trajetória também alterada pelos acontecimentos desencadeados a partir do início da viagem.

A viagem de Tuahir e Muidinga representa, em muitos momentos, além da busca por identidade do menino desmemoriado e de um sentido para a vida do idoso, a procura por um mundo em ordem, pelas certezas após a vivência da catástrofe. Esta busca é mediada pela escrita representada pelos cadernos de Kindzu - o morto encontrado junto a outros cadáveres ao lado de um ônibus incinerado e do qual não chega a conhecer-se o rosto - uma vez que fora enterrado após ter seu corpo arrastado de bruços pelo velho e o menino. Segundo Tania Macêdo 8 : "São as histórias dos "cadernos de Kindzu" que apresentarão o imaginário da terra moçambicana com os seus naparamas (guerreiros de corpo fechado), os ritos das velhas ou os fazedores de rios. É a oratura transformada em escrita que encontramos nos cadernos." Portanto, é um morto que, através da escrita , contará, primeiro ao menino - capaz de leitura - e depois, através dele, pela leitura efetivada em voz alta, a pedido do velho, que escuta a narrativa - seus anseios, sua trajetória de vida e sua relação com a ancestralidade - lugar tradicional das certezas, mas que, no presente, não parece ser suficiente para dar conta da vida a ser vivenciada na sociedade que se apresenta às personagens: fraturada pelas guerras e desterrada de suas tradições.

 

A leitura que fizemos dos romances procurou evidenciar as trajetórias individuais das personagens em entornos sociais marcados pelo autoritarismo e a violência - sejam eles representados pelo período ditatorial no romance brasileiro, ou pela guerra no romance moçambicano.Nesses contextos e nas obras analisadas, ressaltamos como a leitura e produção escrita são tentativas de redenção da violência sofrida. Em Tropical sol da liberdade Lena adoece ao tentar a elaboração literária de sua vivência como exilada, e a narrativa mescla o resultado literário ( uma peça teatral) logrado pela personagem 'a narrativa da resistência e tentativa de recuperação da jornalista. Em Terra sonâmbula o principal produtor textual - Kindzu - está morto já no início da narrativa - e não deixa de ser intrigante que a memória possível para os sobreviventes emane dos diários de um morto. Em ambos os romances notamos como condições histórico-sociais esmagadoras agem sobre destinos individuais levando os seres humanos retratados pela ficção a situações-limite e percursos existenciais dolorosamente extremos, onde as personagens, como apontado por Seligmann-Silva 9 ainda habitam as catástrofes que determinaram os rumos de suas torturadas existências.

 

ABDALA Jr.,Benjamin. De vôos e ilhas: literatura e comunitarismos . Ateliê Editorial, São Paulo, p. 103,2003.

ABDALA Jr,Benjamin. De vôos e ilhas: literatura e comunitarismos . Ateliê Editorial, São Paulo, p. 65,2003.

MACHADO, Ana Maria. Tropical sol da liberdade . Nova Fronteira, Rio de Janeiro,1988.

COUTO, Mia. Terra sonâmbula . Nova Fronteira, Rio de Janeiro,1995.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. "Literatura e trauma: um novo paradigma". In Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani VI. Dossiê "Poesia e Trauma". Pisa e Roma, p. 103, 2001.

FAUSTO, Boris. História do Brasil . EDUSP, São Paulo, p. 465 a 527, 2003.

Segundo ROCHA, Enilce do Carmo Albergaria. A utopia do diverso: o pensamento glissantiano nas escritas de Edouard Glissant e Mia Couto .( Tese de doutorado apresentada à Universidade de São Paulo), São Paulo, p. 231 a 239, 2001.

MACÊDO, Tania. Angola e Brasil: estudos comparados . Arte & Ofício, São Paulo, p. 99 e 100, 2002.

Conforme nota 5.