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Ana Maria Machado: a história crítica e narrativa do Golpe Militar de 64
Suely da Fonseca Quintana (UFSJ)

O presente trabalho analisa a produção crítica e narrativa de Ana Maria Machado à luz dos embates travados entre o papel do intelectual e do escritor frente ao processo ditatorial militar brasileiro, instaurado em 64. Os textos literários e críticos da autora atravessam o período de 64 a 68, revelando o acirramento do golpe com a promulgação do AI-5. O processo de redemocratização e a chamada "patrulha ideológica" da esquerda brasileira, nos anos 70, também são focados nos seus trabalhos. O viés teórico utilizado nessa comunicação toma como base as travessias entre história, literatura e crítica permeados pelas possibilidades dos Estudos Culturais.

O livro Tropical sol da liberdade , de Ana Maria Machado, publicado em 1988, servirá como base para essa discussão no texto narrativo.A discussão sobre os textos de crítica cultural da referida autora será tratada a partir do livro Contracorrente : conversas sobre literatura e política, coletânea de ensaios, publicado em 1999.

A narrativa, de Tropical sol da liberdade , está centrada na personagem Helena Maria, Lena, envolvida nos acontecimentos da luta armada e dos seqüestros de embaixadores, ocorridos depois do AI5, decretado em 1968. Devido ao fato de seu irmão ter participado ativamente do seqüestro do embaixador americano, ela e sua família são perseguidos e vigiados. Lena foi presa, interrogada e libertada para servir de pista aos policiais que procuravam seu irmão. Ela resolve se exilar juntamente com o marido, temendo uma nova prisão.

Esses exilados "voluntários" carregavam o medo e a culpa. A culpa se fazia presente pelo sentimento de haver desistido da resistência para salvar a própria pele. Ao invés de exilados políticos eram considerados desertores pela esquerda ortodoxa.

O início do exílio da personagem Lena está localizado em março de 1970, ou seja, uma fase do exílio marcada pela geração de 68 e as transformações das lutas do começo da ditadura em 64. A geração de 68 carrega o peso e o desencanto do golpe dentro do golpe, ocasionado pelo decreto do AI5, que acirrou a repressão.

Os acontecimentos narrados mesclam ficção e realidade histórica. Muitas das ações atribuídas às personagens conhecidas de Lena aconteceram com exilados reais, tais como: doenças depressivas, suicídios, as dificuldades para se estabelecerem na França, o trabalho precário, a fragilidade psicológica diante do Outro, a necessidade de formarem verdadeiros guetos de refugiados para atenuar as crises de adaptação.

Ao mesmo tempo que a França é o espaço da liberdade, configura-se também como o espaço da prisão. É nesse espaço estrangeiro, que se cumpre a "pena' pelo delito da contestação ao sistema ditatorial brasileiro. Nesse momento, a América Latina sofre ouro golpe no processo democrático com a derrubada de Allende no Chile, acrescida de sua morte. Uma nova onda de exilados vem acrescentar o medo e a angústia aos brasileiros que viam o Chile como aliado na luta contra o regime brasileiro. Na França essas pessoas buscam reconstruir um pouco de seus países para conservarem suas poucas raízes culturais. São criadas livrarias com obras latino-americanas, associações de brasileiros, escolas de artes e cultura, principalmente para as crianças não se esquecerem de que eram brasileiras.

Os laços de amizade no estrangeiro são explorados por Julia Kristeva , quando afirma que os melhores amigos seriam aqueles que continuam estrangeiros de si mesmos, mas ressaltando que esse sentimento é paradoxal. Existem as diferentes formas de viver o exílio e entre os exilados formam-se pequenos guetos, nos quais o " lá longe" se representa como um essência, o que acabará por causar uma profunda decepção na volta. O estrangeiro dentro de si mesmo também regressa à pátria, pois suas ligações com ela foram "construídas fora de lugar". Ainda de acordo com Kristeva, as dificuldades no solo estranho também se configuram pelo: "Enclave do outro no outro, a alteridade cristaliza-se então como autêntico ostracismo: o estrangeiro exclui, antes mesmo de ser excluído, muito mais do que o excluem". 1

Em Tropical sol da liberdade , Lena, que era jornalista, buscava através de seu trabalho com a palavra organizar o caos que se instalara em sua vida. No exílio também viverá da escrita. Quando retorna ao Brasil, busca escrever uma peça de teatro, para resgatar a história de sofrimento dos exilados políticos. O teatro possibilitaria as várias versões do exílio, muitos personagens e muitas vozes experimentando o relato da construção das dores e da memória.A narradora salienta que deseja escrever essa história a partir da vivência das mulheres, pois de acordo com seu pensamento a luta para elas foi mais difícil. Havia que lutar contra o exílio e a discriminação com respeito ao seu estatuto feminino. Muitas dessas exiladas o foram porque eram mulheres, namoradas, amigas e irmãs dos perseguidos pelo regime. O caso de Lena mesmo foi assim

A mesma palavra que seria libertadora passa a atuar como seu torturador. Uma estranha doença que provoca tontura e queda, também acarreta a perda da capacidade de articular pensamento e escrita, o que se agrava com a medicação. Lena pensa uma determinada coisa, escreve, mas a escrita se revela incompreensível. Essa desarticulação entre a ordem cerebral e a execução da tarefa levam a personagem ao desespero. Está prisioneira de si mesma, pensa que isso é o começo da loucura. Palavra e mulher, silêncio e exílio são os caminhos percorridos pela personagem. A escrita seria a forma de construir o dentro e o fora que a mulher carrega: o dentro do exílio e o fora marcado pelos descaminhos de sua condição.

Em Contracorrente , é através da reflexão crítica sobre seu trabalho que Ana Maria Machado discute as implicações da censura e da auto-censura dos intelectuais após a redemocratização brasileira. Escrever sobre as memórias do exílio era por vezes condenado pela crítica, pois esses textos traziam de volta o que precisava ser esquecido para a nova organização social. Por outro lado, reescrever o passado era trazer luz e reflexão sobre os chamados "anos de chumbo" da ditadura militar. Um aspecto ressaltado pela autora é a instalação da auto-censura contra a produção de textos mais líricos e introspectivos, como se cada escritor devesse colocara sua arte a serviço da História e do resgate memorialístico.

De acordo com o depoimento dado pelo psicanalista Luís Eduardo Prado de Oliveira, no livro Exílio: entre raízes e radares , de Denise Rollemberg 2: " O exílio é um traumatismo". Esse termo é ampliado para que se reflita sobre o trauma do afastamento da terra e do retorno. A expectativa da volta faz com que os "mitos sobre o passado" ganhem ares de esperança e de fantasmas amedrontadores. Não é só o medo político das repressões, castigos e torturas, mas também o retorno à família, que passou os temores no mesmo lugar, ao trabalho, à disputa pela reconquista de um espaço na "terra". Muitos exilados não se readaptaram ao país e voltaram para o estrangeiro, eternamente exilados.

Idelber Avelar 3 discute a vivência do luto na América Latina e o modo pelo qual a ficção pós-ditatorial o elabora. O trecho a seguir resume a posição e o questionamento da personagem Lena do romance Tropical sol da liberdade de Ana Maria Machado: "Como colocar a tarefa do esquecimento ativo quando tudo está submerso, não na memória, mas no esquecimento passivo , esse esquecimento que se desconhece a si mesmo, incapaz de suspeitar da poderosa operação repressiva que subjaz à sua própria origem?" 4. A personagem tenta reinventar o luto como positividade. Volta para a casa da mãe, revive seu passado, renasce 20 anos depois do AI 5, para fazer uma interrupção metonímica nesse tempo da memória histórica que se quer organizar como homogêneo e vazio, tomando aqui de empréstimo o conceito de Benjamim

No período de redemocratização ocorre uma espécie de reconstrução da memória nacional a partir do esquecimento. Torna-se necessário apagar as marcas do trauma da ditadura para instaurar a nova convivência social. Esse aspecto do esquecimento toma uma forma paradoxal na medida em que é preciso lembrar para mostrar os bastidores dos conflitos, denunciando o que a censura proibia. Os produtores de cultura querem se livrar da obrigatoriedade da denúncia e seguir novas formas de criação, mas a dúvida é angustiante. A esquerda cobra coerência ideológica, a nova ordenação da memória quer o abandono das denúncias.

Memória, História e crítica cultural passam a fazer parte do repertório da nova organização do escritor brasileiro nesse processo de redemocratização.Sobre o seu próprio fazer literário e crítico, Ana Maria Machado enfatiza a escrita e o desenvolvimento dos seus textos e de outros autores sobre literatura infantil.Segundo ela, esse gênero abre um espaço de discussão e criação mais livres, ganhando uma carga extra de sentidos, pelo fato dos autores agregarem a eles a discussão dos embates históricos e sociais da época. A autora completa, em seu livro Contracorrente , que a necessidade de uma expressão marcadamente metafórica, ocorrida na década de 70, " canaliza grande parte de sua manifestação literária para gêneros que antes eram marginais- a saber, as letras de canções, a poesia de mimeógrafo e a literatura infantil" 5.

É de uma posição marginal com relação à família e a si mesma, que a personagem Lena encontra um jeito para dominar e conhecer o traumatismo do exílio e do luto pós-ditadura. A solução é resgata-lo no espaço do simbólico. Repetir esse traumatismo para Lena em um primeiro momento é sofrer o processo do auto-exílio, quando retorna, é o não se reconhecer representado pela falta de expressão própria, na própria língua. Em um segundo momento, se configura o processo de dominar e reconhecer o traumatismo, que é quando retorna ao espaço da infância, criando um novo começo, uma nova ordem.

Depois de muitas reflexões, recordações melancólicas do passado, do exílio, dos amores, das relações com a mãe e com outras mulheres exiladas, Lena esboça um movimento de recomposição de sua vida, de sua fala. Decide não tomar o medicamento que a deixa sem cair, mas que agrava o problema de articulação da escrita. Opta por escrever, porque precisa dar expressão ao passado seu e de outras tantas "lenas".O remédio era o equilíbrio sem expressão, ela se decide pelo desequilíbrio, aqui tomado em sentido amplo. O deixar-se levar pelo vai e vem da vida, aceitar seu próprio desafio de viver, o que significava falar de si, da sua condição feminina, das dificuldades com a mãe, a própria impossibilidade de ser mãe, de dar à luz o filho de seu corpo e o filho de seu cérebro, a palavra. Reunir no resgate da memória os sofrimentos da diáspora, ampliando os espaços da mulher Helena Maria, fazendo emergir o descontínuo, o heterogêneo, a história funcionando como o suplemento que perturba a soma fechada da memória oficial da ditadura.

 

KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos .Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 31

ROLLEMBERG, Denise. Exílio : entre raízes e radares. Rio de Janeiro: Record, 1999.

AVELAR, Idelber. Alegorias da derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina.Belo Horizonte: UFMG, 2003.

Op. Cit.p . 1

MACHADO, Ana Maria. Contracorrente : conversas sobre leitura e política.São Paulo: Ática, 1999. p. 18