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"Narrativas pós-ditatoriais e os rastros dos mortos"
Marcos Piason Natali (USP)

1.

" En memoria de Mario Usabiaga ". Assim começa o livro En estado de memoria da escritora argentina Tununa Mercado. 1 Não é incomum que livros anunciem, em sua dedicatória, que foram escritos em homenagem a uma pessoa ausente. Forma-se, com a inscrição, um triângulo peculiar em que a troca entre escritor e leitor acontece sob a sombra de um terceiro. É em sua memória, em homenagem a sua memória e desde um lugar em que o terceiro é lembrado, que se escreve. O leitor, a partir da dedicatória, passa a ser, junto ao escritor, alguém que sobreviveu à morte do outro.

Lembremos, desde já, que o livro En estado de memoria , que através de sua dedicatória e seu título ressalta a sombra que sobre ele paira, foi publicado pela primeira vez em 1988, por uma escritora que voltara à Argentina em 1986 após sucessivos exílios em que se refugiara dos violentos regimes militares que haviam se instalado em seu país de origem. Lembremos, ainda, que foram muitas as vítimas da violência do regime ditatorial e que é justamente uma delas - Mario Usabiaga - que dispara a criação verbal, uma narrativa que, no dizer da autora, é um túmulo de papel que vem se juntar aos epitáfios escritos em mármore ou pedra.

No entanto, nem todas as edições do livro trazem a dedicatória a Usabiaga. Em um texto posterior, a autora, que diz que o livro foi inclusive "pensado" em memória de Usabiaga, explicaria que a desaparição da dedicatória em algumas edições ocorrera "apesar das provas terem passado por suas mãos e terem sido aprovadas por ela". O erro foi percebido tarde demais, quando o livro já havia sido impresso. 2

Com o sumiço da dedicatória, sugere ela, o livro sofre um colapso. Ele trai a memória que pretendia preservar, precisamente aquilo que justificava sua própria existência. O acidente da supressão das palavras iniciais, ela continua, coloca em questão a narrativa, "assinalando a vulnerabilidade da palavra escrita", mas também a própria memória, "como vontade e como sistema".

A "Errata", título deste ensaio, é portanto ao mesmo tempo uma tentativa de restituição e uma mostra da fragilidade dos rastros dos mortos. A narrativa autobiográfica que é En estado de memoria habita um espaço entre dois gêneros: epitáfio que deseja representar os mortos e reflexão sobre os limites inevitáveis da representação. Após a dedicatória, o relato se ocupará de "dezenas de outros mortos", remotos ou próximos, e a narrativa será, essencialmente, uma reflexão sobre algumas questões ligadas a eles: o que significa viver quando outros morreram? Que responsabilidade a morte de outro me confere? Como falar dos mortos?

A ausência está gravada na geografia da cidade de Buenos Aires, cidade que recebe a narradora em sua volta à Argentina. As ruas são "a rua onde mataram Fulano, a rua onde vi por última vez o Beltrano " . 3Sai-se à rua, então, em estado de memória , expressão que define, talvez, aquilo que sucede ao estado de sítio. Como diria Benjamin: tudo o que se vê "em termos de bens culturais, tudo, sem exceção, tem uma origem que não pode ser rememorada sem horror". 4 Tudo: as ruas de Buenos Aires, as pessoas que caminham por elas, suas roupas e riquezas, sua linguagem asséptica, a jovem democracia, com seus pactos e anistias. Esta é a herança que o estado de sítio deixa ao estado de memória: sair à rua é sempre, e ainda, perigoso.

2.

A narradora sai à rua, por vezes, com as roupas deixadas pelos mortos. O apego às roupas e às coisas dos mortos, a reflexão sobre o luto, a insistência na presença dos mortos: estamos, aparentemente, em terreno facilmente analisável pelo aparato psicanalítico. Como se sabe, Freud opõe, em um modelo de luto que também foi elaborado à sombra de uma catástrofe - os textos "Reflexões para os tempos de guerra e morte" e "Luto e melancolia" começam a ser escritos durante a 1 a Guerra Mundial - dois estados que definem as reações à perda de um ente querido: um estado normal e saudável (o luto), outro anormal e patológico (a melancolia).

O luto é definido como uma forma de trabalho , ou seja, uma atividade produtiva que tem um objetivo claro. A primeira etapa deste trabalho consiste em um teste da realidade que revelará que o objeto amado não existe mais. É possível haver resistência do sujeito enlutado a abandonar o objeto, porém, com o tempo o "luto compele o sujeito a desistir do objeto, declarando-o morto e" - e isso é importante - "oferecendo o incentivo de continuar a viver". Em última análise, é pela vontade de estar vivo, pela "soma das satisfações narcisistas que ele deriva de estar vivo", que "o sujeito é persuadido a romper sua ligação com o objeto" perdido. Com esta última etapa, completa-se o trabalho e já pode ocorrer a transferência do afeto a um novo objeto: "quando o trabalho de luto se conclui", Freud aclara, "o ego fica outra vez livre e desinibido". 5

Essa economia do luto funciona porque há um desejo mais forte que todos os outros: o desejo de estar vivo. (Entre parênteses, é necessário esclarecer que a história deste impulso vital não é homogênea nem na própria obra de Freud, onde ele passa por várias metamorfoses.) O problema da melancolia, neste sistema econômico, é que o impulso vital não predomina: assim, o sujeito não chega à conclusão de que ele é superior ao objeto perdido, não "rompe sua ligação com o objeto", não desloca o afeto a um novo objeto e não aceita "o incentivo de continuar a viver".

Este esquema tem sido com freqüência utilizado para analisar textos pós-ditatoriais da América Latina, inclusive servindo de modelo para algumas leituras do livro de Tununa Mercado. Idelber Avelar, por exemplo, afirma que a narradora, ao escrever, passa da melancolia ao luto. E o processo é positivo, segundo ele, porque sem a resolução do luto, sociedades pós-autoritárias terão que enfrentar um abismo sem precedentes de depressão. 6Nesses trechos, as opções são, claramente, as clássicas alternativas freudianas: o luto ou a melancolia, com clara preferência pela primeira.

O que vou tentar argumentar, no entanto é justamente o contrário: o esquema freudiano de luto entra em colapso na narrativa de Tununa Mercado. Ao propor questões e linguagem ausentes dos estudos de Freud, o relato mostra como o aparato freudiano é insuficiente para se pensar a pós-ditadura.

A conjuntura que a narradora encontra na Argentina pós-autoritária após seu regresso do exílio é que a pressão pela superação do passado e pela transferência rápida do afeto a um novo objeto é justamente a tônica do discurso de Estado. Nas declarações oficiais e na cultura nacional, predomina uma visão progressista que já pressupõe e ordena, antes da hora, o final venturoso da narrativa de recuperação. Nas indagações sobre as condições psicológicas daqueles que retornaram, a narradora identifica, embutida nas perguntas, uma resposta que poucos conseguem evitar. Em geral, os exilados acabam construindo uma micro-versão da macro-narrativa oficial:

Cada um criava seu conto: havia um antes, de integração deficiente, e depois uma melhora. "No começo foi duro... mas depois a gente vai se acostumando", e quando termina de dizer esta frase, esta construção que indica um avanço e um retrocesso, um estar mal e um estar bem, sabe que se deixou aprisionar pela insignificância. Haverá, então, um tempo futuro de adaptação em que tudo se organizará de maneira satisfatória. 7

 

Avelar vê neste trecho receio em relação à crença no progresso historicista e suas narrativas de melhoramento compulsório.

Mas me parece que no trecho a crítica de Mercado às narrativas pré-fabricadas funciona igualmente bem para a psico-narrativa freudiana, ela própria, como vimos, um parcelamento do tempo em etapas a história de uma melhora que termina de forma triunfal. O que se vê, então, segundo a própria autora, é uma batalha entre formas de narrar. Há que se ressaltar mais uma vez que esse modelo de luto contra o qual Mercado se levanta é o discurso oficial da sociedade pós-ditatorial, com sua política que levaria a leis de anistia e a silêncios justificados em nome da saúde da sociedade no presente. Quando se soma a isto a pressão de um sistema econômico que exige a renovação constante da economia libidinal, o que se tem, em suma, como reconhece Avelar, é que a dificuldade na Argentina pós-ditatorial era que o trabalho de luto era fácil e rápido demais.

3.

A virada que o texto de Mercado dá é notável. Após reafirmar sua convicção "de não eludir o fosso", a narradora alega que o que é necessário é "ter uma forte ética " . 8A o introduzir esta palavra, bem como algumas outras - "culpa", "traição" e "responsabilidade" - a narradora desloca a discussão, levando-nos para um território novo.

Como pôde, em toda a leitura que se fez de Freud aqui, estar ausente a questão ética? Qual é a dificuldade específica da psicanálise diante desta linguagem? Por que é tão tenso o lugar da ética na psicanálise, e da psicanálise na ética? Para começar a vislumbrar os limites da psicanálise, será necessário sair da linguagem psicanalítica e dar um salto ao filósofo Emmanuel Lévinas. Afinal, s e a economia freudiana se legitima através de um apelo à "saúde" e o bem-estar do sujeito no presente, a idéia levinasiana do outro como prioridade e da primazia da ética desestabiliza este modelo.

A força motriz da economia do luto em Freud é justamente o que Lévinas questiona. "[A] crise do ser se marca pelo fato de que o que é mais natural" - isto é, a vontade de ser e o desejo de perseverança do sujeito - "passa a ser o mais problemático. Por acaso eu tenho o direito a ser? Estamos colocando em julgamento a perseverança, ingênua e natural do ser!" 9O ser jamais é, ele insiste, "sua própria razão de ser - ao contrário do que dizem algumas tradições tranqüilizadoras". 10

No final do ensaio "Reflexões para os tempos de guerra e morte", Freud afirma que aceitar a guerra e "confessar que em nossa atitude civilizada para com a morte estamos vivendo psicologicamente acima de nossos meios" teria a vantagem de "tornar a vida mais tolerável para nós". E, continua, "tolerar a vida continua a ser... o primeiro dever de todos os seres vivos". 11 Lévinas, ao contrário, defende o intolerável, uma responsabilidade ilimitada além de qualquer cálculo subjetivo ou conceito jurídico, em nome não da própria vida mas da vida alheia. Enquanto a economia freudiana alega existir um " instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida", 12Lévinas pergunta se ele próprio teria direito à vida e declara, como nosso primeiro dever, a hospitalidade. Este outro nos toma, nos abala, nos encanta, arrancando-nos a nós mesmos. Não é suave seu peso. Em um capítulo de seu livro, Mercado trabalha a idéia de sua perfuração pelos mortos: "mortos entravam por meus olhos e saíam por minha nuca. Estou pregada a" eles. 13 Como diz Lévinas, então, a relação não é uma relação idílica e harmoniosa de comunhão. Estamos diante de um p ensamento que se recusa a voltar ao mesmo para se justificar. O ético não é agradável; é bom.

Para Lévinas, o apelo ético existe além da economia; ele é anterior a qualquer cálculo econômico. Com este passo, de repente o limite da nossa solidariedade com os mortos é ampliado. E as questões passam a ser outras: Como posso agir eticamente diante das exigências que os mortos me fazem? Qual é a minha responsabilidade como sobrevivente?

Causa um choque, essa passagem da psicanálise à ética, de Freud a Lévinas. A transição exige uma mudança de linguagem, para abrir espaço para palavras como responsabilidade, ética e justiça, lembrando que esta última foi utilizada por Lévinas como a própria definição da relação interpessoal: "a relação com o outro - quer dizer, a justiça". 14 Poderíamos falar, aqui, de uma justiça para os mortos, de direitos dos mortos? A obra de Benjamin certamente nos permitiria fazê-lo, de fato nos incita a tanto: nela lemos sobre os direitos do passado sobre nós, "direitos" que, escreve Benjamin, "não são facilmente descartáveis". 15Haveria então uma justiça para aqueles que estão além de qualquer jurisdição, para aqueles que não são sequer sujeitos jurídicos? H averia uma declaração dos direitos dos mortos? Estariam, entre esses direitos dos mortos e desaparecidos das ditaduras latino-americanas: ter reconhecidos os crimes que os vitimaram, ter os culpados julgados, ter seus corpos recuperados e entregues aos seus, ter um enterro digno, ter sua história narrada?

Se é o direito dos mortos à história o que impele Mercado a escrever, sua escrita é então a busca de uma forma de dar testemunho do rosto do outro. O ato de criação está ligado à justiça e à verdade, e as questões levantadas por ele serão, sobretudo, éticas. (A própria busca de uma estética será um dever ético.) É o silêncio do outro, sua não-resposta - que começa no instante em que ele se cala definitivamente - que condiciona minha responsabilidade, lá onde eu sou o único que pode responder. Ao apelar a mim, em sua mudez, o outro me obriga como insubstituível e único.

"Estamos já na literatura?", Mercado pergunta. "Será o romance a forma de representar uma história que se entreabre cada vez que é roçada?" 16Esta não é uma história para se passar adiante, escreveu Toni Morrison sobre outro trauma americano; 17 e no entanto, como ela demonstra no momento em que o diz, não há como não passá-la adiante.

4. Epílogo.

Até aqui tentei estabelecer um diálogo entre a narrativa pós-ditatorial de Tununa Mercado e o pensamento de Emmanuel Lévinas, tendo como pano de fundo o diálogo entre os testemunhos da Shoah e os da violência latino-americana que tem ocorrido recentemente nos estudos literários e históricos - trabalho que, me parece, este simpósio continua. Mas eu gostaria ainda de esboçar algumas possíveis diferenças, levantando algumas dúvidas ligadas principalmente a problemas de representação. Alguns estudos recentes têm destacado o parentesco entre as questões levantadas pelos testemunhos do horror e a representação do sublime, entendido como aquilo que está além da compreensão humana. Neste caso, não seria relevante pensarmos, neste diálogo entre os testemunhos europeus e americanos, nas diferenças entre o lugar do sublime nas tradições judaica e cristã?

Talvez até seja possível traçar, de forma um pouco tosca, duas tendências básicas nas respostas dadas pelas tradições religiosas à questão da representação da diferença radical. Por um lado, como talvez ocorra no Judaísmo, há tradições que ressaltam a transcendência do sublime, ou seja, sua diferença em relação ao mundo. O discurso sobre a representação enfatiza a incapacidade de se captar o divino, enquanto qualquer representação ou discurso que pretenda fazê-lo é visto com desconfiança. Por outro lado, em tradições como a do Cristianismo Católico, ressalta-se a imanência do divino, isto é, as semelhanças entre o divino e o humano, o que leva a uma permissividade maior em relação à representação.

Neste diálogo entre tradições testemunhais, me pergunto o seguinte: a desconfiança em relação à representação do sublime no Judaísmo teria afetado a forma dos testemunhos da Shoah? E o Catolicismo, com sua proliferação de representações, teria ajudado a definir as possibilidades de criação do testemunho latino-americano e uma certa positividade visível nos testemunhos dos anos 60 a 80? Dito de outra forma, a ênfase na impossibilidade da representação não é também cultural?

Ou, ainda, qual é a importância, para o estudo da representação da morte, das diferenças entre as representações em um cemitério cristão e um judaico? Um trabalho que então talvez ainda precise ser feito é a redação de histórias do luto, incluindo histórias de monumentos e de testemunhos, do gênero do epitáfio, das práticas que acompanham a morte, de cemitérios. Um último ponto, ligado a essa categoria trágica que ganhou notoriedade com as ditaduras latino-americanas: o desaparecido .

Tununa Mercado escreveu que na Argentina havia cemitérios no mar e no ar, já que cadáveres de presos políticos eram lançados à água ou incinerados. Poderíamos perguntar, com Freud, como isto afeta a possibilidade do trabalho de luto, se o derradeiro teste da realidade - o confronto com o cadáver - não é possível. Mas para Mercado a dificuldade é mais uma vez de natureza ética: a morte sem sepultura era uma tentativa de decretar "uma morte além da própria execução, até extinguir todo sinal de corpo e pessoa, até dissolver nomes e vínculos, até sumir inclusive com a morte". 18

Como resposta, d esenvolveu-se na Argentina uma "contracultura da desaparição", 19nesta contínua batalha benjaminiana pelos mortos. As mulheres que, até hoje, postam-se em espaços públicos com fotos de filhos e parentes desaparecidos, insistem na categoria do desaparecido, alguém por quem o luto jamais poderá ocorrer. Em termos freudianos, elas estariam presas a uma melancolia que não passa da primeira etapa do trabalho de luto (a resistência e a negação). Na linguagem de Lévinas, sua solidariedade aos rastros do outro e sua aceitação de uma responsabilidade ilimitada, intransferível e infinita não permitem que o trabalho de luto, jamais, creia que tenha chegado ao fim.

 

Tununa Mercado, En estado de memoria . México: UNAM, 1992. Todas as traduções são minhas.

Tununa Mercado, Narrar después . Rosario: Beatriz Viterbo, 2003, p.45.

Mercado, En estado de memoria , p.50.

Walter Benjamin, " Teses sobre a filosofia da história". In: Flávio Kothe (org.), Walter Benjamin . São Paulo: Ática, 1985, p.157.

Sigmund Freud, "Luto e melancolia". In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Edição Standard). Vol. XIV. Rio de Janeiro, Imago Editora, p.290

Idelber Avelar, The Untimely Present: Postdictatorial Latin American Fiction and the Task of Mourning . Durham : Duke University Press, 1999.

Mercado, En estado de memoria , pp.91-92.

Ibid., p.129.

Emmanuel Lévinas, Ética e infinito . Madrid, La Balsa de la Medusa/Visor, 1991, p.113.

Ibid., p.114.

Sigmund Freud, "Reflexões para os tempos de guerra e morte". In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Edição Standard). Vol. XIV. Rio de Janeiro, Imago Editora, p.339.

Freud, "Luto e melancolia", p.278.

Mercado, En estado de memoria , pp.31-32.

Jacques Derrida, Adeus a Emmanuel Lévinas . São Paulo: Perspectiva, 2004, p.26.

Benjamin, " Teses", p.155.

Mercado, Narrar después , p.144.

Toni Morrison, Beloved . Nova York : Penguin Books, 1987, p.260.

Mercado, Narrar después , p.104.

Ibid., p.105.