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26 Poetas Ontem: a seção de poesia do alternativo Versus
Jeferson Candido (UFSC)

"Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza", nas palavras de Octávio Paz 1. Assim, como definir uma poesia como "poesia de resistência", por vezes chamada de "panfletária", "militante", "engajada", "política", "social", para ficarmos nas denominações mais recorrentes? Cada denominação com suas peculiaridades mas, se diferentes, ainda que sutilmente, no campo da linguagem, dão-se as mãos quanto àquilo de que tratam: os problemas sociais. Isto é, diferentes linguagens, uma mesma referência. Mas essa "referência" à sociedade não se encontraria também em outros poemas? Ou melhor, em todos os verdadeiros poemas? A questão parece dizer respeito ao modo como tal referência está contida no poema. Quanto mais "direto" o poema, melhor "enxergamos" aquilo que ele pretende nos dizer.

Pensando dessa forma, correntes artísticas propuseram estéticas com essa finalidade, a de facilitar o "entendimento" do mundo através de poemas menos preocupados com a linguagem do que com a sociedade. Basta lembrarmos a estética do "nacional-popular", proposta pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE) nos anos 60, cuja arte defendida era a "arte popular revolucionária". Anos depois, muitos dos participantes do CPC reconheceriam que a proposta não havia surtido efeito, ou seja, não transformaram a sociedade brasileira, mesmo que para isso tivessem abandonado todo e qualquer procedimento estético mais elaborado. A experiência foi duramente golpeada, literalmente: o "povo", a quem tinham levado uma suposta arte "desalienante", não resistiu ao golpe militar. Não é por menos que, no decorrer dos anos 70, se fará o balanço não só político da esquerda, mas também daquilo que ela propunha como a "verdadeira arte".

Esse balanço torna-se público naquele que ficou conhecido como o "período da abertura", iniciado em 1974 sob o governo do general Ernesto Geisel. Como lugar privilegiado para os debates, a imprensa alternativa, surgida já alguns anos antes, mas que, no período em questão, sofre um verdadeiro surto com a proliferação de jornais. 2

O presente trabalho se centra num dos jornais da imprensa alternativa, Versus , que surgiu em São Paulo, pelas mãos do jornalista Marcos Faerman, em outubro de 1974. O jornal teve 34 números, sendo o último publicado em outubro de 1979. Durante esses cinco anos, Versus , que nasceu propondo a "cultura como forma de ação política" e com a intenção de ser um "jornal latino-americano", passou por mudanças em sua linha editorial e em sua equipe. Inicialmente feito por jornalistas, o jornal acabou sendo "tomado" pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) que, a partir do número 24 (set.1978), torna-se o responsável - clandestino - por sua publicação. Devido a essas mudanças, podemos dividir o jornal em três fases.

A primeira delas, com a predominância de textos culturais, correspondente aos números 01 ao 13, e sob editoria de Marcos Faerman: são histórias em quadrinhos, contos, poemas, ensaios sobre literatura, sobre anti-psiquiatria, textos históricos sobre o continente, etc. O conceito de "cultura" proposto pelo jornal incorpora várias acepções: cultura como "arte", como "comportamento", como "intelectualidade", como "identidade" e, por fim, como "história/tradição". Não há análises econômicas ou políticas sobre o Brasil contemporâneo: toda e qualquer crítica é feita por metáforas, com a política colocada subliminarmente: não é outra a razão da presença de Ferreira Gullar, Darcy Ribeiro, Bertolt Brecht ou José Martí, entre outros, todos conhecidos por suas posições políticas.

A segunda fase, do número 14 ao 23, é a fase cultural-política, com a concomitância de textos culturais (como entendido anteriormente) e textos políticos. Surgem as análises da conjuntura política e econômica nacional. Tal mudança deve-se principalmente à entrada, para o corpo editorial de Versus , de militantes do PST - partido que havia sido fundado na Argentina - e que retornavam, então, ao país. O PST, através de seus militantes, lança uma campanha pela construção de um "partido socialista" que, a cada edição de Versus , ganha mais páginas. No número 23, Marcos Faerman, juntamente com alguns colaboradores, abandona Versus , que, havia se tornado um "jornal do partido".

O jornal entra então na terceira e última fase, que vai do número 24 ao 34: a fase política. Versus agora é feito basicamente por militantes do PST. Sua linguagem radicaliza-se: as críticas ao governo tornam-se contundentes e os ensaios políticos e econômicos dominam a maior parte das páginas. Embora a cultura continue presente, e com o mesmo conceito das fases anteriores, a quantidade de "páginas culturais" cai drasticamente, com a publicação de um ou dois textos "culturais" por edição. Com a anistia, o partido passa a publicar seu próprio jornal a partir de outubro de 1979, não precisando mais se esconder atrás de Versus .

 

Lírica e sociedade em Versus

Antes de comentarmos a seção de poesia de Versus , cabe um olhar sobre a literatura e a poesia publicada pelo jornal, ainda que de modo ligeiro, para posteriores comparações.

A primeira questão a ser levantada diz respeito ao conceito de literatura defendido por Versus . Podemos apontar para duas direções. A primeira delas para o campo político. Aqui, "literatura", sem dúvida, se integra ao conceito de "cultura" proposto: para tal "cultura de resistência", tal "literatura de resistência", isto é, uma literatura que retrate o povo, os injustiçados, a violência, etc. A outra direção é a que segue para o campo estético. Para Faerman (editor e criador do jornal) a literatura apóia-se no jornalismo, que "é um método, não uma linguagem". Método jornalístico, linguagem literária, isto é, a literatura, para Versus , é aquela que capta a "realidade". Trata-se aqui, de centrar o eixo da literatura não na linguagem, mas na referência, como fazem os romances-reportagem (ou naturalistas, conforme Flora Sussekind) e os romances fantásticos (ou alegóricos), cujas publicações atingem o auge na década de 70. 3

Com relação à poesia, a discussão aqui passa antes pelo poeta que pelo poema. Os poetas já reconhecidos e merecedores de destaque pelo jornal (como Ferreira Gullar, Pablo Neruda, entre outros) têm sua presença justificada já de início pelas posições políticas. Antes mesmo de uma "poesia de resistência", "poetas de resistência". Já a presença de poetas bissextos (ou de ocasião), bem como os poemas de guerrilheiros, trabalhadores e tantos outros desconhecidos, lembram a literatura "captadora da realidade", sem preocupação com a linguagem propriamente dita. São poemas os mais diversos, que nos remetem às denominações recorrentes para a "poesia de resistência" apontadas no início. No final das contas, a valoração não está no poema, mas na referência feita por este, isto é, baseia-se num critério unicamente extrínseco. Pensando nesse critério de valoração adotado por Versus , lembramo-nos de Adorno, para quem a universalidade do conteúdo lírico de uma obra é essencialmente social.

Esse pensar, porém, a interpretação social da lírica, como, de resto, de todas as obras de arte, não pode por isso ter em mira, sem mediação, a assim chamada situação social ou a inserção social de interesses das obras ou até de seus autores. Tem de estabelecer, muito mais, como o Todo de uma sociedade, tomada como uma unidade em si contraditória, aparece na obra de arte [...]. O procedimento tem de ser, conforme a linguagem da filosofia, imanente. 4

 

A valoração da arte feita por Versus parece ignorar essa mediação que, para Adorno, é estabelecida, da maneira mais intrínseca, justamente pela linguagem. Sua crítica não-imanente e não mediatizadora, conseqüentemente, acaba por privilegiar poemas cuja referência seja i-mediata à realidade (ao autoritarismo, ao imperialismo e violências congêneres). É claro que nem todos os poemas seguem esse imediatismo, mas sua inserção no jornal, nesse caso, deve-se ao engajamento político (e não estético) do poeta.

 

A seção de poesia

De três anos para cá, nota-se uma presença mais acentuada da poesia em nosso panorama cultural, tanto no que diz respeito à produção e edição, quanto ao interesse por parte do público. São indícios deste fenômeno, entre outros, o sucesso editorial da antologia 26 Poetas Hoje ; a intensa circulação de edições vendidas de mão em mão, como as da Nuvem Cigana , no Rio de Janeiro (paralelamente a toda uma série de manifestações e discussões em torno de uma "poesia marginal" que estaria surgindo); as 15.000 mil pessoas que compareceram à Feira de Poesia e Arte, no Municipal; demais feiras, debates, leituras, etc, que aconteceram neste meio tempo [...]

Esta volta à cena da poesia não é gratuita ou casual. Insere-se em um processo mais amplo, de reestruturação de setores da sociedade civil brasileira, buscando meios de manifestar-se, reivindicando seu direito à participação nas decisões que lhes dizem respeito, defendendo a instauração de uma sociedade mais justa e um regime plenamente democrático. A poesia exerce uma função essencial neste contexto, como veículo de crítica e reivindicação, e como exercício da liberdade criadora. Volta-se, conseqüentemente, para a análise do presente, e para a construção do futuro. Torna-se, acima de tudo, campo de recuperação da linguagem, empobrecida e cerceada por tantos anos consecutivos de uma política educacional tecnocrática e castradora, de uma censura que tenta abarcar todas as formas e setores da nossa vida cultural, pelo jargão mecanicista desenfreadamente veiculado pela indústria da comunicação de massa, sob forma de apoteose irrestrita do mais irracional consumerismo, e da mais absoluta dependência cultural. Em períodos nos quais a linguagem é objeto de repressão, o poema exerce uma função social, torna-se ferramenta revolucionária, pelo simples fato de ser bom, na medida do seu padrão de qualidade, ao restituir o devido peso e dignidade à palavra.

Versus não poderia deixar de se fazer presente neste "front" poético, por uma simples questão de coerência com suas propostas e com o trabalho desenvolvido desde o seu primeiro número. Conseqüentemente, passa a editar regularmente uma seção dedicada à poesia contemporânea, apresentando uma amostra do que se está produzindo atualmente, além de notícias e comentários. Esta seção se caracterizará pela abertura e representatividade, e incluirá obras e autores de diferentes tendências, estilos e filiações literárias, na medida que tragam algum tipo de contribuição efetiva ao nosso panorama cultural, pela sua autenticidade e qualidade de texto. 5

 

Como se observa da apresentação de Cláudio Willer, o editor da seção, embora esta se integre à proposta de Versus , vai mais adiante. Além do autoritarismo propriamente dito, Willer faz referência também à comunicação de massa, ao "consumerismo" e à dependência cultural. Se o poema, para Willer, exerce uma função social, isso não significa que os que são publicados na seção o sejam em virtude de sua relação i-mediata com a sociedade: entre o poema e a sociedade está a mediação necessária do texto, pela sua autenticidade e qualidade. Espera-se, portanto, que a seção não publique poemas apenas por questões de engajamento, seja do poema propriamente dito, seja do poeta.

Cada seção, com duas páginas, é acompanhada de um ensaio de Willer. Os poemas que vêm a seguir, por sua vez, dizem respeito ao assunto tratado. Para comentarmos a coluna, cabe antes apresentar os poetas publicados, bem como os ensaios de Willer.

 

 

Autor

Título (s)

17

J.A.A. Torrano

Mundicórnio

17

Roberto Bicelli

Tyco ticho no fubrahe

17

Afonso Henriques Neto

Quando o sol

17

Renata Pallottini

A ponte caída de Barra de São João

18

Octavio Paz

Carta a León Felipe (trad. Cláudio Willer)

18

Egmar Simões

"Onde opaco agora brilhante"

"A vida retoma sua possibilidade"

18

Geraldo Carneiro

"eu sou como o rei de um país ensolarado"

decolonization of myself

19

Allen Ginsberg

Exorcismo ao pentágono (trad. Cláudio Willer e John Jack Burges)

19

Lawrence Ferlinghetti

Discurso para uma parada (trad. Cláudio Willer)

19

Roberto Piva

Anjo articulado

Poema do caos eterno

Pornosamba para o Marquês de Sade

20

Alberto F. Beuten-Muller

Tres Pablos

20

João Batista Jorge

O torturador

20

Luís Fernando Ramos

"A tua carne está moída, os teus miolos viraram bolinho [...]"

20

Carlos Queiroz Telles

Bom dia, Gabriel

20

Cláudio Feldman

Regresso

21

Celso Luís Paulini

Ano novo no Riviera: à perigo

21

Juan Sanz Hernandez

Arouche 60

22

Crica (?)

Bastei-me

22

Leila Miccolis

Ilusão (2º)

22

Olga Savary

Água forte

"palavras, antes esquecê-las"

Mutante

22

Ana Cristina César

Guia semanal de idéias

22

Maria da Graça Biatto

"pouco naturais, ao anoitecer"

23

Renata Pallottini

Mensagem

23

Glênio Peres

Interrogatório

23

Ricardo G. Ramos

Perícia para Wladimir Herzog

23

Carlos Queiroz Telles

Carta

23

Otoniel Santos Pereira

Processo

23

Roberto Piva

O hino do futuro é paradisíaco

 

No primeiro dos ensaios, cuja maior parte foi transcrita aqui, Willer aponta para a pluralidade de linguagens e, por isso, resolve pela publicação de poemas com diferentes propostas. Para ressaltar essas diferenças, escolhe como denominador a reflexão sobre o tempo presente.

No número 18, o ensaio discorre sobre a liberdade de criação em poesia. Willer parte de um artigo escrito por Ferreira Gullar no Pasquim 6, perguntando se as considerações levantadas por Gullar não seriam uma "auto-crítica". Lembra então o defensor da estética do nacional-populismo e alguns de seus conceitos. No entanto, mais importante que as polêmicas advindas do debate acerca dessa revisão crítica do nacional-populismo, é a apresentação de alternativas. Um dos poemas publicados então é "Carta a León Felipe", de Octavio Paz, "que se constitui em uma reflexão sobre a natureza da poesia", sendo que o poema pode ser considerado "'objetivo' ou 'subjetivo', naturalista ou idealista, realista ou surrealista, formal ou informal, engajado ou esteticista, vanguardista ou clássico, ou talvez todas essas coisas ao mesmo tempo". 7

Em Versus n.19, a seção faz um balanço do ano de 1968. Dentre as contribuições irreversíveis de 68, Willer destaca, entre outras, a crítica ao "moralismo exacerbado" das esquerdas, especialmente dos PCs, e a retomada do pensamento filosófico de Marx. Assim, no campo da poesia, duas vertentes poéticas se configurariam "como precursoras e como referência" da tentativa de unir "o transformar a sociedade de Marx ao "modificar a vida" de Rimbaud: o surrealismo francês e a beat generation americana". 8

A seção de poesia de Versus n.20 discute o livro de Alfredo Bosi, O ser e tempo da poesia . Detendo-se no capítulo "Poesia resistência", Willer destaca o fato de Bosi mostrar que uma poesia de resistência não é somente aquela frontalmente engajada, de crítica ao presente: também o é a poesia voltada para o passado "'a saudade de tempos mais humanos nunca é reacionária'", e "aquela que trata do futuro, que 'resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia'". 9

Em Versus n.21, a privilegiada é a poética de temática urbana, que teria tido, no modernismo de 22, um de seus momentos mais importantes, na linguagem simples e despojada de Oswald e na descrição lírica de Mário. Willer lembra que esta temática tem certa influência do futurismo italiano e do dadaísmo, que se preocupavam com a incorporação - crítica - da "modernidade" à atividade artística.

No entanto, a presente seleção apresenta um interesse teórico específico, tanto que critica a primazia do rural, defendida pelos populistas (um dos seus principais teóricos, Gullar, chega a afirmar que as grandes cidades, por seu cosmopolitismo, seriam prejudiciais ao desenvolvimento de uma cultura legitimamente nacional), e também por mostrar que a poetização do urbano pode ter lugar fora dos quadros estritos do tipo de pesquisa formal, proposta pelo Concretismo ou pelo Praxismo. 10

 

A poesia feminina é o tema da seção de Versus n.22. 11 Willer começa por afirmar que o que mais lhe chamou a atenção nos textos recebidos para publicação em Versus "foi a predominância quase absoluta de autores do sexo masculino". 12 Aponta rupturas entre a poesia feminina dos anos 70 e aquela dos anos 60, como o surgimento de uma linguagem mais simples e despojada, caso da poesia de Ana Cristina César, com "uma obra autenticamente vanguardista, sem necessidade de recorrer a experimentações formais ou justificativas". Ou da poesia de Leila Miccolis, cujos poemas fazem referências explícitas ao sexo, demonstrando que as mulheres colocam-se agora na situação de "sujeito" do prazer, e não mais como meros objetos. Por não se esgotar o tema nesta seção, a questão da poesia feminina deveria voltar no próximo número.

Em Versus n. 23, porém, não é sobre a poesia feminina que a seção irá discorrer. A anistia "é um dos temas que está na ordem do dia". Willer discorre sobre o tema, não em termos poéticos, mas em termos políticos mesmo. Por isso

Nesta edição de Versus , alguns dentre nossos melhores poetas contemporâneos prestam seu testemunho contra o arbítrio. [.] Ninguém está selecionando temas, partindo de premissas teóricas sobre como fazer poesia, julgando-se na obrigação de produzir obras politicamente participantes a qualquer custo, engajadas em tempo integral. Estes poetas são meros porta-vozes, eles estão expressando os sentimentos da coletividade à qual pertencem. [.] Trata-se, portanto, de textos específicos, talvez casos-limite, que todavia remetem às questões de caráter mais geral, quais sejam a natureza e função social da poesia em tanto que instrumento de desrepressão interna e externa, e de abertura de novos universos de discurso. 13

 

26 poetas ontem

Os ensaios de Willer deixam evidentes algumas diferenças entre os poemas da seção sob sua responsabilidade e os demais poemas publicados pelo jornal. Na verdade, talvez a diferença não esteja tanto nos poemas, mas na mediação crítica feita pelo editor.

Ainda que em casos como o da última seção de poesia, quando os poemas tratam explicitamente da tortura, o editor deixa claro que não se trata de "premissas teóricas sobre como fazer poesia", procurando não só justificar a presença dos poemas, mas também deixar claro sua distância de estéticas "militantes" stricto sensu . Se uns apresentam conteúdo político explícito, os outros não deixam de abordar questões fundamentais na sociedade contemporânea, como o convívio entre "desconhecidos" num mesmo espaço - a cidade -, ou, ainda que implicitamente, a passagem de objeto a sujeito de uma ação, principalmente quando essa ação se chame "amar".

Talvez a seção de poesia tenha mesmo levado adiante a proposta original de Versus , indo além do "politicismo" - que, embora de forma metafórica, era, na verdade, i-mediato.

Colocando os poemas na balança, podemos afirmar que a coluna pautou-se pela liberdade de criação. Liberdade que não prejudica necessariamente o caráter social, político ou reivindicatório de um poema. Demonstrar isso, parece-me, era a intenção de Willer.

Liberdade que diz respeito a uma poesia livre das regras das vanguardas formalistas e sem a obrigatoriedade da militância política exigida pela estética do nacional-populismo, ambos movimentos da década anterior. Heloísa Buarque de Hollanda, no prefácio à segunda edição de 26 poetas hoje , revendo os motivos que a levaram a organizar e "justificar" a antologia, confirma:

O que realmente me atraiu nesse material não foi a unidade que eu dizia procurar ao defini-lo para justificar o conjunto dos participantes da Antologia [as semelhanças com o modernismo de 22], mas, muito pelo contrário, o claro direito ao dissenso que este material começava a reivindicar em nossa produção cultural. A variedade de estilos, projetos e crenças [...]. 14

 

Se o "surto" poético dos anos 70 se insere num processo mais amplo - o da abertura política -, como uma espécie de "reflexo" do levante da sociedade, cansada da ditadura militar, não deixa de trazer também suas reivindicações particulares: democracia não apenas política, mas também poética.

 

PAZ, Octávio. Poesia e poema. In: O arco e a lira .Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p.15.

Para maiores detalhes, ver KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e revolucionários . Nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: Scritta, 1991.

Ver SUSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária . Polêmicas, diários e retratos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

ADORNO, Theodor W. Lírica e sociedade. In: Os pensadores . São Paulo, Abril Cultural, 1975, p.194.

WILLER, Cláudio. Versus , n.17, dez.1977/jan.1978, p.34. Apresentação da seção de poesia em seu primeiro aparecimento. A seção não tem nome, identificando-se como "Poesia / Cláudio Willer".

"A literatura abre-se à vida". Pasquim , 23 dez. 1977.

IDEM. Ibidem , p.34.

IDEM. Ibidem , p.36.

IDEM. Versus n. 20, abr.maio1978, p.34.

IDEM. Versus n. 21, maio/jun.1978, p.34.

Willer contou com a colaboração de Heloisa Buarque de Hollanda e Leila Miccolis na seleção dos poemas.

IDEM . Versus n. 22, jun./jul.1978, p.32

IDEM . Versus n. 23, jul./ago.1978, p.16.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Posfácio. In: 26 poetas hoje . Op. cit., p.260.