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As formas do impasse em Graciliano Ramos
Jaime Ginzburg (USP)

Um dos desafios colocados pela produção de Graciliano Ramos para a crítica literária é o problema da historicidade. A complexidade de suas obras propõe uma dificuldade para definir como estabelecer, na reflexão interpretativa, a compreensão das relações entre literatura e história. Entre os aspectos envolvidos neste problema, escolhemos um deles, procurando apontar sua relevância, como um passo de um estudo que deve ser prolongado mais adiante. O aspecto escolhido é o ponto de vista. Nossa hipótese consiste em que a análise do ponto de vista narrativo é uma exigência fundamental para uma interpretação consistente da produção do autor, tendo em vista suas relações com o contexto político brasileiro.

Para sustentar um estudo desse aspecto, um caminho produtivo consiste em examiná-lo tendo como referência algumas idéias de Theodor W. Adorno. Recuperamos desse pensador algumas idéias apresentadas nos livros Teoria Estética e Dialética Negativa .

Entre os elementos a serem considerados em Graciliano Ramos, como problemas analíticos relevantes para a interpretação sociológica, estão os seguintes: a ruptura com as convenções formais de composição de gêneros puros; o caráter problemático da constituição do sujeito narrador; as relações entre elementos individuais e coletivos; o papel da arte como recurso de resistência crítica frente à opressão.

Adorno merece maior atenção da historiografia e da crítica no Brasil, em razão de que seu pensamento é fecundo para dar visibilidade a problemas culturais que, por outras abordagens, não têm recebido tratamento compatível com sua complexidade. Na crítica de Graciliano Ramos tem sido freqüente a preferência por métodos interpretativos direta ou indiretamente ligados à concepção lukacsiana de realismo. Pretendemos aqui, contrariamente, procurar indicações de limites da suficiência e adequação do emprego da categoria realismo para a caracterização de Graciliano Ramos.

Na Teoria Estética 1, encontramos uma avaliação da literatura do século XX, em que a produção moderna, em movimento de ruptura com a tradição, entra em confronto com os gêneros puros. A respeito do assunto, Adorno observa que a determinação em manter o apego aos gêneros puros, nesse contexto histórico, se associa ao autoritarismo, pois indica uma adesão a valores tradicionais, em prejuízo dos esforços de renovação de linguagem a partir das vanguardas.

Outra idéia importante, no mesmo livro, consiste em que a arte, para não sucumbir ao puro domínio do mercado, para sustentar uma posição de resistência, deve lutar contra os princípios de sua própria concepção, isto é, deve criticar o estatuto da obra como acessível ao consumo. No extremo, expõe Adorno, a contradição em que a arte se encontra, voltada contra a redução de si a mercadoria, deve levar à supressão de si, isto é, à eliminação do conceito convencional de arte e de seu apego a categorias convencionais, como modo de elaboração de sua própria necessidade de sobrevivência. Para isso, a arte se volta criticamente para a reflexão, dentro de si, sobre as categorias sobre as quais funda seu sentido.

Na Dialética Negativa 2, Adorno estabelece um diálogo com Freud. A psicanálise teria elaborado uma formulação importante sobre a repressão, indicando que ela tem, na configuração do superego, um papel constitutivo no aparelho psíquico. Ao propor a articulação entre indivíduo e coletividade, Adorno desdobra a concepção freudiana. A repressão elaborada pelo indivíduo tem, para ele, fundamentos sociais. Nesse sentido, o mal-estar subjetivo vivido na repressão pode ser compreendido com base na problematização das relações sociais, no âmbito coletivo.

Outra idéia importante, apresentada no mesmo livro, diz respeito à relação entre constituição do sujeito e construção identitária. Longe da psicologia da personalidade arquetípica, pautada na estabilização identitária, a concepção adorniana sobre o assunto propõe que as imagens identitárias podem delimitar um campo inadequado para a experiência. Nessa perspectiva, a constituição do sujeito tem como condição um empenho na decomposição da imagem identitária. Isto é, questionando suas imagens identitárias, a subjetividade consegue elaborar seu processo flexível e impreciso de constituição.

De maneira breve, considerando as proposições adornianas aqui resumidas, vamos apontar na produção de Graciliano Ramos a presença de problemas de composição, relevantes para sua interpretação, tendo em vista sua historicidade.

Podemos observar, em São Bernardo , passagens em que o narrador Paulo Honório assume uma posição reflexiva com relação ao próprio relato. Considere-se a seguinte passagem:

"Continuemos. Tenciono contar a minha história. Difícil. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Também pode ser que, habituado a tratar com matutos, não confie suficientemente na compreensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê. Não importa. (...) digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado. Não estou acostumado a pensar" 3

 

A construção de Graciliano Ramos indica que, entre o relato e a experiência, existe uma distância, em que o narrador opera um trabalho, responsável pela delimitação de contornos da matéria acessível ao leitor. Em uma digressão machadiana, Paulo Honório supõe não poder confiar na compreensão do leitor. Essa desconfiança é associada à falta de ordem atribuída ao relato. Entre os acontecimentos expostos, encontram-se tanto dados insignificantes repetidos, como elementos considerados acessórios. O narrador alega não estar "acostumado a pensar". No caso, importa avaliar de que modo a ponderação é feita. Embora supostamente não esteja acostumado a pensar, ele é capaz de avaliar suas próprias limitações.

Reforçamos o problema com esta outra passagem do mesmo livro:

"Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras." 4

 

Entre o que está "no papel" e a experiência existe uma distância. Paulo Honório chama a atenção para o fato de que a fala não é correspondente ao universo da escrita. Havendo uma distância entre o que ocorreu, recuperando as lembranças, e o que se escreve, no tempo da enunciação, há uma margem para manipulação dos dados da experiência. Por essa razão, explicitamente, o narrador pode assumir que distingue o que "julga interessante" para expor, suprime passagens, e modifica outras. Esse trabalho construtivo é proposto como meio de elaboração adotado deliberadamente pelo narrador, dentro de suas condições de desenvolvimento do relato.

Chama a atenção, nessas passagens de São Bernardo , o elevado grau de autoconsciência do narrador, com relação às suas limitações, suas condições de narração, e suas operações de manejo dos dados. Essa autoconsciência expõe a configuração de Paulo Honório como processo em que não há uma identidade a priori a ser revelada, mas um esforço construtivo que se sabe afastado das lembranças e de expectativas realistas de apresentá-las em sua totalidade.

O caráter memorialista do livro, portanto, não se configura como tentativa de dar à matéria da experiência substância, mas marcar a maleabilidade dessa experiência perante os movimentos instáveis do ponto de vista. Esse fato serve como referência para pensar a perspectiva com que Graciliano Ramos aborda a história. O processo histórico não é entendido como um conhecimento a priori , tendo a literatura a função de expor esse conhecimento mimeticamente. Pelo contrário, o processo histórico é sempre mediado pelo ponto de vista, cuja movimentação, não avisada ao leitor, este tido como indigno de confiança, afasta a experiência, tal como incorporada pela memória, da narrativa, que da experiência detém apenas partes e traços, não necessariamente importantes para o narrador.

Essa caracterização propõe uma ruptura deliberada com as convenções do romance realista, afastando Graciliano Ramos de Balzac, ao mesmo tempo que o aproxima do romance moderno de Machado de Assis e antecipa movimentos do narrador Riobaldo, em Grande sertão: veredas . Na seguinte passagem, observamos a autoconsciência atuando no processo narrativo, indicando que a experiência pode ser atenuada, que os elementos narrados podem ser considerados "tolices", e que o movimento seletivo é fundamental para Paulo Honório:

"O discurso que atirei ao mocinho do rubi, por exemplo, foi mais enérgico e mais extenso que as linhas chochas que aqui estão. A parte referente à enxaqueca de d. Glória (e a enxaqueca ocupou, sem exagero, metade da viagem) virou fumaça. Cortei igualmente, na cópia, numerosas tolices ditas por mim e por d. Glória. Ficaram muitas, as que as minhas luzes não alcançaram e as que me pareceram úteis. É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço." 5

 

A demolição da expectativa de que o narrador tenha completo domínio daquilo que apresenta, em ostensiva oposição à convenção realista, se associa a uma concepção de linguagem, que escapa à matriz saussuriana, em que a convenção cede a um princípio compositivo, em que a interpretação das palavras não pode ser estabelecida a priori , mas exige uma atenção ao processo do relato. A linguagem não tem um funcionamento previamente regulado, ela guarda para o narrador um caráter de ciframento. Uma situação extrema nesse campo ocorre no conto Insônia , em que a linguagem é recebida como desregramento de origem insondável:

"Terá parado, o maldito relógio? Terá batido enquanto me ausentei, consumi séculos da cama para aqui? (...) Como entraram aqui estas palavras? por onde entraram estas palavras?" 6

 

A concepção de narrador em São Bernardo e a concepção de linguagem em Insônia ajudam a pensar princípios gerais da produção de Graciliano Ramos. Esses princípios estão associados ao contexto político, marcado por heranças do patriarcado oligárquico e, a partir de 1937, pelo autoritarismo do Estado Novo.

Em oposição a outros escritores de prestígio de seu tempo, Ramos elaborou uma produção que aponta para a exigência de pensar uma narrativa como processo aberto a incertezas e problematizações, e conceber a linguagem como mais opaca que transparente, mais cifrada que convencional. Se a historiografia propõe que o realismo oitocentista é reforçado na década de 30 no Brasil, o caso de Graciliano Ramos merece, pelos elementos mencionados, uma atenção diferenciada.

Em Memórias do cárcere , é acentuada a tensão interna à forma, abalando qualquer expectativa de realismo. O livro inclui uma passagem sobre a condição do escritor, e propõe que este é atingido por duas formas de opressão. A primeira é a da sintaxe, que obriga a utilizar a linguagem de acordo com convenções. A segunda é a do DOPS, que impõe a aceitação de leis ao funcionamento da sociedade.

"Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade - talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. (...) Por que foi que um dos meus livros saiu tão ruim, pior que os outros? pergunta o crítico honesto. E alinha explicações inaceitáveis. Nada disso: acho que é ruim porque está mal escrito. E está mal escrito porque não foi emendado, não se cortou pelo menos a terça parte dele" 7

 

A articulação entre a linguagem e a polícia propõe que existe uma ligação profunda entre a repressão interiorizada pelo próprio sujeito e a repressão externa. Como propõe a Dialética negativa , as dimensões individual e coletiva da opressão convivem em dinâmica de profunda conexão.

Assim como em São Bernardo o narrador usa expressões como "linhas chochas" e "tolices" para caracterizar o próprio relato, em Memórias do cárcere é avaliado criticamente o trabalho do escritor, com o critério da "falta de emenda", similar à "falta de ordem" de Paulo Honório.

Se consideramos essa atitude em termos de uma autoconsciência, vemos que, internamente à narração, Ramos propõe a crítica do ato de narrar, estabelecendo, como propõe Adorno, a supressão do valor artístico, corroendo a imagem do trabalho estético como "bom, belo e verdadeiro" e encaminhando o leitor, contrariamente, para o abjeto e o choque.

Duas grandes questões se cruzam: a falta de liberdade imposta pelo autoritarismo, que se encerra na própria linguagem, e a problematização do ato de narrar, que implode seus próprios parâmetros. Considerada a autoconsciência, a atitude crítica surge como modo de abalar a convenção formal, exigindo o questionamento sobre as condições de definição do sentido da experiência. Quanto mais esse cruzamento se intensifica formalmente, mais imprescindível se torna esse questionamento, e mais inevitável a abertura do sentido à indeterminação. Essa abertura contraria o interesse do autoritarismo pela linguagem amarrada no sentido unificado, bem como pela subjetividade domada e submissa.

Em Memórias do cárcere , duas ambivalências são propostas e articuladas entre si. A primeira é interior ao sujeito, que se vê tanto como vítima de injustiça, como dotado de segurança. O tratamento irônico da ambigüidade põe em dúvida a estabilidade dos que estão fora do cárcere, acreditando em uma suposta segurança que convive com a ameaça constante do Estado. A segunda é a ambivalência do mundo externo, em que na aparência a prisão se distingue do mundo livre, porém, de fato, o que se observa é uma continuidade. No relato de Graciliano Ramos, o mundo exterior é "cativeiro simulado", realidade oprimida pelo autoritarismo ditatorial, e a prisão é "cativeiro manifesto". Com traços kafkianos, Graciliano desmascara a aparência de liberdade do mundo ordenado, estendendo, a partir da percepção do sujeito, a imagem do cativeiro em um contexto de heranças patriarcais e violência constitutiva.

"Naquela desordem, naquele cipoal de pensamentos emaranhados, avultava uma incongruência, mas isto só mais tarde foi percebido: sentia-me vítima de injustiça, queixava-me de inimigos indecisos, parecia-me descobrir nos lençóis, no peitoril da janela, na água da moringa e no ar corrupção e veneno; contraditoriamente, achava-me em segurança, considerava a existência anterior bem mesquinha, pior talvez que a prisão. Quando me viesse calma, aventurar-me-ia a fazer um livro, lentamente, livre das aporrinhações normais. Viria a calma? E quantos dias ou meses me deixariam naquela situação? Era disparate desejar permanecer nela, mas assaltava-me uma grande covardia, o receio de voltar a assumir responsabilidades, a certeza de que o meu trabalho de indivíduo solitário, na ditadura mal disfarçada por um congresso de sabujos, seria pouco mais ou menos inútil. Preferível o cativeiro manifesto ao outro, simulado, que nos ofereciam lá fora." 8 (RAMOS: MC, 38)

 

O livro rompe com as convenções do realismo, abala a imagem de que a liberdade de expressão seja completa. Estabelece uma discussão dos parâmetros de avaliação estética, sinalizando que a negatividade é interiorizada pelo próprio processo negativo. Ataca os regulamentos impositivos com relação ao uso da linguagem, critica a imagem linear da história e a concepção totalizante da experiência. Articula as dimensões individual e coletiva da repressão, dando visibilidade à conexão entre elas. Problematiza a constituição do sujeito, desfazendo a imagem unitária de uma identidade definida, em favor de ambivalências e indeterminações.

Desse modo, o livro configura exemplarmente um esforço de resistência ideológica ao autoritarismo. O ponto de vista do prisioneiro, em Memórias do cárcere , ao mesmo tempo em que se situa em um campo da exclusão, permite ver a sociedade em perspectiva negativa. A historicidade do livro surge fulminante na imagem do "cativeiro simulado", em que a tensão entre o processo narrativo e o contexto, hostil à própria compreensão, que se deixa apreender contraditoriamente aos olhos do prisioneiro, desfazendo ilusões de integração da consciência coletiva, apontando para o impacto traumático do rigor autoritário.

 

ADORNO, Theodor. Teoria Estética . Lisboa: Martins Fontes, 1988.

ADORNO, Theodor. Negative dialectics . New York : Continuum, 1999.

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1981. p.10.

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 77-8.

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 77-8.

RAMOS, Graciliano. Insônia . São Paulo: Martins, 1969. p. 24.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere . São Paulo: Martins, 1969. v.1. p. 3-4.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere . São Paulo: Martins, 1969. v.1. p. 38.