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"Morte do leiteiro", do fait divers à afirmação pela ausência
Cesar Garcia Lima (UNESA)
A rosa do povo , publicado em 1945, ocupa um lugar diferenciado na obra de Carlos Drummond de Andrade 1. É a partir desse livro que o poeta consolida sua perplexidade diante da palavra poética (uma das alusões da pedra no meio do caminho), expondo sua angústia diante de uma época competitiva e hostil. O livro une as perspectivas pessoais evidenciadas com Alguma poesia e José , à preocupação social de Sentimento do mundo , como percebe Antonio Candido 2. Com essa tomada de posição , o sujeito poético assume seu lugar no front do Modernismo brasileiro e adota o idealismo social com metáforas românticas como a flor que rompe o asfalto, enquanto exercita mais uma vez a objetividade lírica diante do noticiário da Segunda Guerra Mundial.
Ao pesquisar a relação entre o discurso jornalístico e a criação poética drummondiana, meu propósito é investigar o diálogo entre o coloquial representado pela notícia e a alta cultura expressada na poesia, tendo como ponto de partida o poema "Morte do leiteiro", de A rosa do povo . Quando busca inspiração literária na escrita pragmática do jornalismo, o poeta mineiro não está interessado apenas no fato, mas em realizar uma versão extra-noticiosa do mesmo, promovendo uma elevação do discurso da notícia. Drummond se interessa sobretudo pelo fait divers , entendido aqui como uma notícia inespecífica, sem importância política ou econômica e geralmente ligada a um fato policial.
Ao analisar a função redentora que a poesia de Drummond adquire entre 1935 e 1942, associada a uma concepção socialista do mundo, Candido (Idem: 106-107) aponta uma dicotomia nas "inquietações" de sua escrita, de um "sentimento de insuficiência do eu, entregue a si mesmo", que "leva-o a querer completar-se pela adesão ao próximo, substituindo os problemas pessoais pelos problemas de todos".
A poesia de Drummond, nessa fase, aproxima-se do engajamento de Bertolt Brecht 3, que passa a limpo as diferenças em relação à sua classe social, como no poema "Caçado com boa razão":
Cresci como filho
de gente rica. Meus pais deram-me
uma gravata e me educaram
nos hábitos de ser servido.
Ensinaram-me também a arte de mandar.
Mas quando cresci e olhei em volta
não gostei da gente de minha classe,
nem de mandar nem de ser servido.
E deixei a minha classe,
indo viver com os deserdados. (...)
A perspectiva lírica de A rosa do povo detém-se no incômodo do sujeito poético consigo mesmo, mas a revolta latente não chega a ser revolucionária, à maneira de Albert Camus. É uma fala descontente com o que vê na sociedade, mas também descontente de si mesma e tomada por uma imobilidade patológica. O único motor desse sujeito atingido pelo mundo é o olhar.
Iumna Maria Simon 4 também aproxima Brecht de Drummond, mas especifica que o escritor alemão "pôde falar na primeira pessoa e contudo falar pública e politicamente". Simon argumenta que a "nova antipoesia", realizada após a Segunda Guerra, buscava principalmente "a destruição dos 'artificios' definidores do poético", alçando os acontecimentos políticos e sociais como base de uma "nova austeridade".
A negatividade evidenciada na obra do poeta mineiro relaciona-se com a visão estética do filósofo alemão Theodor Adorno. Tanto o pensamento de Adorno quanto a poesia de Drummond caminham em sentido não-conformista quanto à ilusão do sujeito na Modernidade.
"Morte do leiteiro", em particular, expressa a crise do desaparecimento do sujeito enfocada por Adorno nos aforismos de Minima moralia 5. O pensador alemão parte da filosofia hegeliana de questionamento da vida burguesa, questionamento convergente com a tendência oxímora de Drummond em afirmar-se pela negativa. Em sua fase engajada, o poeta é, mais do que em qualquer outro momento de sua poesia, enredado pelas escolhas e dilemas de sua classe social, como discorre Adorno acerca do prosseguimento da concorrência burguesa mesmo com a dissolução do liberalismo:
Que cada indivíduo se julgue em seu interesse particular melhor do que todos os demais é uma componente tão antiga da ideologia burguesa quanto o fato de que ele avalie os outros, compreendidos como comunidade de todos os clientes, como melhores do que ele próprio. Desde a abdicação da antiga burguesia, ambos os aspectos seguem vivendo no espírito dos intelectuais, que são ao mesmo tempo os últimos inimigos dos burgueses e os últimos burgueses. Quando, em face da mera reprodução da existência, de todo ainda se concedem o luxo de pensar, comportam-se como privilegiados; quando se limitam a pensar, declaram a nulidade de seu privilégio. (Idem: 21)
Diferentemente de em Brejo das almas , livro anterior de Drummond, em A rosa do povo a intratextualidade não é evidente: a preocupação do sujeito poético amplia-se como as ruas da metrópole. A cidade moderna também pertence àqueles que nela desaparecem, expressa o poeta, sub-repticiamente. Os problemas decorrentes (e não resolvidos) da maturidade impõem-se como tema no livro e o reconhecimento da impossibilidade de mudar tudo (sobretudo a si mesmo) revelam um poeta diante do obstáculo do mundo, à maneira do poema "No meio do caminho".
Merquior 6 chama atenção para "Morte do leiteiro" como poema baseado no fait divers , sem que identifique proveniência da notícia parodiada. Isso restringe a análise ao formato do texto e não aos artifícios adotados nessa estilização do discurso jornalístico, no sentido que nos falam Tynianov e Bakhtin ( Apud SANT'ANNA 7), ou seja, a polifonia aqui não se opõe ao fait divers , antes dignifica o que na notícia pode servir ao sensacionalismo.
Eucanaã Ferraz 8, ao focalizar a relação da poesia de Drummond com a cidade e sua profusão de signos, chama atenção para a singularização dos personagens anônimos, dizendo que
ao invés da abstração, retorna-se ao figurativo, o que possibilita a "pintura" de retratos como os de Luísa Porto e do leiteiro. (...) Mas esse retrato não deve ser confundido com um retorno ao acadêmico. Sua realização está muito mais próxima de uma estética expressionista à maneira de Van Gogh, Ensor ou Munch. Os retratos drummondianos são expressividade absoluta: confluem para o texto a elegia, a crônica, o chiste, na busca de uma palavra capaz de exprimir ao máximo paixão, dor, revolta. (...) Apesar da temática naturalista, os retratos drummondianos estão interessados, portanto, na relação entre objeto e a palavra, como se experimentasse os limites da representação, indo ao extremo.
Para caracterizar a polifonia, identifico em "Morte do Leiteiro" as várias vozes narrativas com algumas expressões específicas, que se alternam ao longo do poema. Na primeira estrofe está resumida a mentalidade das classes privilegiadas através de uma voz do senso burguês , introduzindo a narrativa a ser desenvolvida, segundo a qual impõe-se a necessidade do trabalho diligente dos mais pobres para a entrega da precária produção nacional de leite. Ao iniciar a segunda estrofe de maneira informal ("Então o moço que é leiteiro") insere-se no poema uma segunda voz narrativa, que chamarei de voz coloquial . A voz do senso burguês distancia-se da notícia para projetar sobre ela a reivindicação pelos privilégios da burguesia, a voz coloquial aproxima-se do fait divers com espírito fraternal, criando um jogo polifônico e imagético que reproduz a luta de classes em um microcosmo doméstico, sem que o poeta se arrisque a solucioná-lo.
Ainda na segunda estrofe, a ausência de vírgulas força a aceleração do ritmo, ao qual, se une, involuntariamente, o leitor. Essa voz coloquial está ligada à oralidade justamente por começar uma história como se o assunto já fosse conhecido (o que poderá ser esclarecido na terceira estrofe). O leiteiro é descrito metonimicamente a partir da lata e sapatos de borracha usados por ele, como traços alegóricos do operário. Ele não tem seu nome mencionado, sua identidade e função social confundem-se. Como diz Pierre Bourdieu:
Por essa forma inteiramente singular de nominação que é o nome próprio, institui-se uma identidade social constante e durável, que garante a identidade do indivíduo biológico em todos os campos possíveis onde ele intervém como agente, isto é, em todas as suas histórias de vida possíveis. O nome próprio é o atestado visível da identidade do seu portador através dos tempos e dos espaços sociais, o fundamento da unidade de suas sucessivas manifestações em registros oficiais, curriculum vitae , cursus honorum , ficha judicial, necrologia ou biografia, que constituem a vida na totalidade finita, pelo veredito dado sobre um balanço provisório ou definitivo. 9
A temporalidade ganha o primeiro plano do discurso poético a partir da terceira estrofe, quando o instante em que o "moço ignaro" tem "na mão a garrafa branca" estabelece os elementos da cena moderna. Isso se dá da mesma maneira que no poema "Os olhos dos pobres", de Baudelaire, analisado por Marshall Berman 10, no qual um casal de namorados conversa em um café dos novos bulevares de Paris e uma família pobre fica paralisada diante do luxo do local. No poema de Drummond também surge a presença do burguês e do proletário, interligados, porém, por uma função: a de vender leite. O leiteiro representa uma classe que, "de madrugada, com sua lata/ sai correndo e distribuindo/ leite bom para gente ruim" (versos 8 a 10).
A terceira estrofe é, também, um ponto de ligação do poema com a notícia, pois nela estão contidas os elementos básicos sobre o personagem do leiteiro, com informações sobre seu local de trabalho, idade e moradia, na rua Namur (que existe de fato, no bairro carioca de Vila Valqueire, mas isso não atesta necessariamente que o fato narrado no poema tenha ocorrido). Esses elementos expostos no poema mantêm relação direta com o lead jornalístico, o primeiro parágrafo da notícia no qual são listados quem, o quê, como, quando, onde e por que um fato aconteceu. Iniciado por um conectivo ("E já que tem pressa"), o bloco dos três últimos versos introduz o corte cinematográfico na cena e coloca outra vez em foco a figura do leiteiro, fechando sua apresentação ao leitor , como um corpo que "vai deixando à beira das casas uma apenas mercadoria" (versos 30 e 31). Em seguida, o sujeito poético frisa essa imagem (mais uma vez à maneira do cinema) para ressaltar a função do leiteiro, como se esse fosse o único motivo de sua existência.
A idéia de cena literária expande-se no pós-Segunda Guerra principalmente no que diz respeito ao cinema italiano neo-realista, que leva pessoas comuns para os sets e encena de maneira naturalista os dramas operários transformados em tragédia depois da ocupação alemã. É possível perceber no poema de Drummond pelo menos um ponto antecipador de um dos filmes mais importantes do pós-Segunda Guerra, Ladrão de bicicletas , de Vittorio De Sica, lançado em 1948. No longa-metragem do diretor italiano, um personagem desempregado rouba uma bicicleta, pré-requisito para um novo trabalho. Ele torna-se ladrão por força das circunstâncias e é preso por isso. No poema de Drummond, o leiteiro é confundido com um ladrão, mas está apenas fazendo seu trabalho. A luta de classes está presente nos dois conflitos e aproxima o subjetivo e o universal, o pequeno incidente é uma face da identidade submetida ao capital. Drummond, no entanto, apenas flerta com a estética neo-realista, mas não outorga nenhuma fala ao leiteiro. O autor indica, com antiilusionismo, os limites do poema como representação.
Na quarta estrofe, o conectivo faz um corte para outra imagem e conduz o leitor como se comandasse uma câmera subjetiva, ou seja, em vez de mostrar um deslocamento, acompanha os passos do leiteiro por um beco, um corredor, até atingir a porta dos fundos na qual se dará o desfecho.
A segunda voz narrativa, do narrador coloquial, colocando-se de maneira fraternal com o leiteiro ("Meu leiteiro tão sutil", v. 41), promove uma câmera lenta da cena, dando leveza ao personagem, "de passo maneiro e leve" (v.42), no início da quinta estrofe . Subitamente, ele interrompe esse retardamento com os recursos fônicos do ruído de um vaso espatifado, um cachorro latindo ou gato correndo assustado. É peculiar que, nesses versos (46 a 50), o texto levante hipóteses sobre as circunstâncias da morte do leiteiro, já comunicada no título, mas não consumada no poema, propondo que um ruído desencadeie a ação. Do mesmo modo, um fait divers especula os motivos de um acontecimento, expondo na notícia tantas versões quanto é possível, muitas vezes sem ter elementos que possam explicá-lo. Um novo corte de imagem, mais uma vez introduzido pelo conectivo, introduz a entrada de um senhor que acorda assustado, mas volta a dormir (v. 49 e 50). Sem que exista nenhuma indicação explícita da utilização dos recursos do cinema no poema, Drummond parte do fait divers para uma composição que evoca em vários momentos o audiovisual.
A sexta estrofe retoma a imagem do final da quinta, em flashback que desfaz a ilusão, expondo o pânico do morador assustado (v. 51) e recompõe, como uma notícia, a morte do leiteiro. Há, no entanto, uma mescla de vozes e a descrição da cena do narrador coloquial é interrompida pela voz do senso burguês, que diz: "Ladrão? Se pega com tiro." (v. 56). O verso retoma, autoparodicamente, os versos 5 e 6, deslocando o discurso indireto para o direto. Dos versos 57 a 62, o sujeito poético lamenta a morte do leiteiro com intimidade, mas, ironicamente, destaca que sabia pouco sobre sua vida. Assim, na estrofe inteira, há um confronto de versões típico do jornalismo, que preconiza ser necessário mostrar no texto os dois lados da ocorrência, em busca de uma suposta objetividade.
A sétima estrofe é exemplar dessa característica que une discurso direto e indireto. Através da voz coloquial, aparecem em cena o homem que atirou por engano no leiteiro que, inclusive, dá um pequeno depoimento ("Meu Deus, matei um inocente", v. 65). Essa voz coloquial, na verdade, guarda muitas características do repórter do New Jornalism , que procura, justamente, aproximar o jornalismo da literatura, reconstituindo fatos ou procurando deles participar, como Truman Capote em A sangue frio 11. O que se lê em seguida é o confronto dessas vozes, com a voz coloquial estabelecendo vínculo com o leiteiro, mostrando que "Bala que mata gatuno/ também serve pra furtar/ a vida de nosso irmão" (v. 66 a 68), cabendo observar aqui a atualidade do poema, visto que as balas perdidas são tema constante do noticiário brasileiro ainda hoje.
Na oitava estrofe, apropriando-se da notícia através da voz coloquial, o poema é retomado como elegia. O conflito não é resolvido, apontando para a precariedade da síntese de que nos fala Adorno e para a ironia romântica, que desobriga o autor de qualquer coerência interna ao texto. O leite e o sangue são alegoricamente convertidos na imagem da aurora, na qual tudo começa, mas da qual nada nos é anunciado. Ao promover a suspensão da cena, o poeta ao mesmo tempo decepciona e alerta o leitor para o poema como modo de representação antiilusionista, rompendo com os traços de objetividade lírica que parte de um fait divers , mas, ao final, devolve o leitor à ambigüidade de um novo dia que começa.
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