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Fragmentação formal e violência em Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária, de Sérgio Sant'Anna
Ana Paula Teixeira Porto (UFRGS)
Concentrando-se na leitura de uma obra literária produzida em um contexto marcado pela experiência do autoritarismo no Brasil, este estudo apresenta algumas reflexões sobre a estrutura fragmentária do romance Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária, de Sérgio Sant'Anna, e de suas relações com a representação da violência e da repressão. Através de uma perspectiva sociológica, é investigada a forma pela qual aspectos sociais e políticos da década de 70 interferem na composição formal da obra e qual o comprometimento desta com o contexto do qual faz parte.
Embora Sérgio Sant'Anna tenha uma extensa produção literária apresentando temas e procedimentos estéticos variados de modo a construir obras complexas e com tendência à crítica social, estudos críticos acerca de sua literatura limitam-se a poucas tentativas de interpretação de sua obra. O escritor estréia no gênero romanesco, em 1975, com a publicação de Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária , obra que se constitui numa tentativa de escrever romance, como declara Sant'Anna em entrevista a Nelson Vieira 1, e que articula elementos formais a temáticos com artifícios literários diversos para compor a "autobiografia imaginária e real" de seu narrador escritor Ralfo.
A obra apresenta as peripécias do personagem-título numa odisséia de aventuras que envolvem relações amorosas, experiência de tortura, participação em cenas teatrais, passagem em um hospício e reflexões sobre literatura, através de um romance (?) cuja estrutura formal rompe com os padrões convencionais do gênero. Construído por um prólogo (do autor) e um roteiro, apresentados antes do sumário, nove livros que se subdividem em trinta e três partes, como esclarece o prólogo, um epílogo (de Ralfo) e uma nota final (de Sant'Anna), o texto desconstrói a forma tradicional de romance, entrecruza diferentes estilos discursivos e compõe uma obra fragmentária em que a anarquia formal aparente serve de estratégia fecunda para a representação social.
Além de sublinhar entonações cômicas e críticas, Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária caracteriza-se por apresentar simultaneamente diversidade temática, o que, para Janete Gaspar Machado, é o fator determinante na exposição de um panorama abrangente do contexto da década de 70, não havendo, portanto, um tema único desenvolvido na obra 2. A exploração de tópicos plurais é feita através de procedimentos estéticos variados, que oscilam entre o discurso narrativo, lírico e dramático, configurando o texto literário com a imbricação de gêneros, cujo resultado é a experimentação estética e o fortalecimento da perspectiva social presente no texto.
A obra, que se propõe a ser um romance, é composta por discursos heterogêneos que se intercalam compondo a estrutura complexa do texto, em que carta, poema, peça teatral dialogam e exemplificam a forte influência do teatro e a função deste na obra de Sant'Anna, refletindo uma certa espetacularização, um aspecto criativo, uma expressão de autoconsciência artística, conforme aponta Nelson Vieira 3. A imbricação de gêneros literários diversos acentua não apenas uma estratégia que afasta o texto literário dos padrões tradicionais do romance, mas também ressalta o tom fragmentário da obra de Sant'Anna na medida em que o hibridismo, ao pôr lado a lado diferentes discursos, mostra a segmentação formal do universo da obra e a impossibilidade de manter um discurso uno.
A inclusão de uma tragédia no texto, por exemplo, não é gratuita. Os problemas que aparecem na peça incluída na obra não são só os da tragédia, mas são os do Brasil. Nesse sentido, a imbricação com o teatro tem um interesse especial: motivar a ação. Isso porque o teatro tem como característica fundamental a ação e esta é instigada ao leitor da obra de Sant'Anna, o qual deve ter uma atitude ativa e refletir sobre o que está sendo narrado. Assim, o autor consegue associar ao tema uma forma estética compatível e essas escolhas se complementam, já que o relato enfatiza ação assim como a estrutura formal de uma peça mostra ação. Sob este ponto de vista, a perspectiva social da obra não aparece apenas nos temas, mas também em sua forma de elaboração.
A estrutura "complexa e fragmentária", como destaca Malcom Silverman 4, pode ser discutida tomando-se como referência o contexto sócio-político da década de 70, num momento em que o Brasil vivia sob a égide do regime militar e sob o impacto de cenas de violência e repressão. Relacionando o texto literário a eventos do período, surgem algumas questões: como a obra representa estes acontecimentos? Ela se propõe como veículo documentário e jornalístico, como a crítica literária tem apontado ao fazer um balanço da ficção pós-64? Ou a obra vale-se do contexto a partir do qual constrói uma linguagem esteticamente apta para representá-lo?
A elaboração fragmentária do texto, construído por capítulos autônomos mas que mantém uma interdependência no conjunto, é decisiva para a interpretação do significado da obra. Considerada por Janete Gaspar Machado 5 como uma das constantes da ficção dos anos 70, a fragmentação formal predomina no romance de modo a dificultar a apreensão do sentido do texto e a expressar esteticamente a segmentação do contexto, que se mostra dilacerado e com alto nível de degradação cultural e política. Além disso, o discurso fragmentário da narrativa de Sant'Anna sugere a impossibilidade de se apresentar uma visão totalizante da realidade, que não é considerada como algo provido de harmonia e organicidade.
A segmentação discursiva da obra aparece sob diferentes formas. Um aspecto notável da fragmentação estética é a segmentação da personalidade do narrador-escritor Ralfo, que, num jogo de identidades, expressa diversos papéis, pois a cada capítulo uma identidade do personagem é apresentada de modo que a unidade identitária seja dificultada. Cavaleiro, ladrão, ator são alguns dos "eus" que aparecem na autobiografia do personagem:
"Ralfo, o homem sem pai e sem pátria. Cavaleiro andante de boas e péssimas intenções." 6
"Revolvendo os armários como um ladrão vulgar. Ralfo, o ladrão sem casaca, seria um bom título para as minhas memórias. Por isso é que juro, neste exato momento, nunca mais roubar." 7
"Eles varrem ainda máscaras, dores, sorrisos, lágrimas, gritos selvagens, gargalhadas, insultos, fantasias e, finalmente, varrem a mim, Ralfo, o Magnífico. Todo o fantástico lixo que se acumula depois dos espetáculos de teatro." 8
A impossibilidade de uma definição unívoca do personagem transparece na forma fragmentária de identificá-lo, na medida em que aos poucos, no andamento das peripécias do narrador, é que vai sendo apresentado o caráter multifacetado e antagônico de sua personalidade. A polivalência do narrador-personagem, sintetizada pela projeção de vários personagens em Ralfo, permite uma alusão à complexidade da constituição do sujeito, tão ambivalente quanto à narrativa.
A sobreposição de vozes, em primeira e em terceira pessoa, é outro fator decisivo da fragmentação discursiva da obra. Nesse sentido, as formulações de Bakhtin 9 quanto ao aspecto interacional da linguagem servem para analisar como o discurso narrativo da obra serve-se da capacidade interativa da linguagem para construir um texto cuja trama é desvelada através da linguagem bivocal. O entrecruzamento das vozes sociais do romance, na maioria das vezes sem a demarcação prévia do limite entre os discursos, sinaliza alguns indícios para uma interpretação do texto, que não é dada por uma perspectiva linear, mas por uma estética do fragmento, deixando ao leitor a tarefa de associar os segmentos para elaborar um sentido para a obra.
Conforme as formulações de Bakhtin, o estudo do discurso que considera a dialogicidade oportuniza a identificação, no texto literário, de posicionamentos acerca de questões socio-políticas, reproduzidas no mundo diegético da obra. As variações do ponto de vista do narrador e do próprio discurso narrativo da obra acentuam os conflitos vividos pelos personagens (em especial Ralfo), dando mais plasticidade e dramaticidade às cenas, já que as tensões se revelam na e pela linguagem estratificada, que por vezes impede a definição da pessoa que fala no texto. A multiplicidade de vozes que ecoam na narrativa conduz a uma percepção elaborada das situações que são matéria de ficção, pois, quanto maior for o número de vozes, maior será também a possibilidade de o texto literário referenciar suas discussões. Nesse sentido, a obra está aberta, mantendo a pluralidade de pontos de vista e não tendo uma redução do horizonte plural da linguagem literária.
A fragmentação do texto literário também indica a impossbilidade de o personagem narrar de modo direto o inenarrável, como a experiência de violência e tortura a que Ralfo foi submetido. No capítulo dedicado ao interrogatório policial-militar, Ralfo apresenta uma descrição das cenas de tortura:
"Eles me arrancaram de dentro do carro e me empurraram, aos bofetões, para uma cela imunda e infestada de pequeninos insetos sobre um chão de cimento, onde havia vestígios de sangue, mijo e vômitos. E quando fecharam a porta atrás de mim, eu era só no mundo; só, de um modo que nunca antes experimentara ou imaginara possível acontecer." 10
No excerto, Ralfo descreve o início da experiência no interrogatório de modo que a narração seja aproximada de um depoimento de um preso político, por exemplo. A partir disso, a expectativa que se tem é a de que Ralfo continue narrando como aconteceu o interrogatório; no entanto, as cenas seguintes da obra quebram a expectativa inicial e mostram um diálogo sem questões típicas de uma situação de interrogatório político:
"__ Para que descobriu Pedro Álvares Cabral o Brasil?
__ Para a maior glória da Coroa portuguesa.
__ Quando?
__ 22 de abril de 1500..
__ E o que acontecera antes, em 1492?
__ A descoberta da América por Cristóvão Colombo.
__ E o que havia na América quando lá aportou Colombo?
__ Índios.
__ E o que é um índio?
__ Um membro da raça aborígene das Américas.
__Assim como vós?
__ Assim como eu, senhores.
Uma chibatada por ser um índio
(...)
__CULINÁRIA. Nos dê a receita de uma rosca doce." 11
O diálogo entre Ralfo e o interrogador faz referência a uma prova oral de conhecimentos, cujas perguntas não exigem muita reflexão, já que são questões de cunho empírico. A "conversa" é interrompida por chibatadas e petelecos e, em muitos momentos, revela um nonsense , pois as questões exigem que Ralfo discorra sobre diversos fatos perguntados aleatoriamente pelo interrogador, sem que haja uma referência lógica entre as perguntas. Para Flora Sussekind, estes diálogos "funcionam como caricaturas meio bufas do tipo de informação que efetivamente se costuma exigir de um preso político. Ninguém costuma torturar ninguém para saber a receita de uma rosca doce ou ouvir mais uma vez que foi Pedro Álvares Cabral quem descobriu o Brasil" 12.
A construção das cenas de violência no interrogatório revela, através do nonsense das questões, o nonsense também dos interrogatórios constantes no período militar, pois Ralfo é submetido a uma situação irracional na medida em que as questões apresentadas não se propõem a discutir fatos políticos. Nesse sentido, a representação desta cena sugere a gratuidade da violência imposta ao perseguidos pelo regime ditatorial, mas não no sentido de despertar lágrimas do leitor, mas sim para despertá-lo quanto à perspectiva da política da tortura. Ao pôr em relevo a voz do torturado, a obra constitui-se como um "espaço da dor", expressão usada por Regina Dalcastagnè ao estudar textos literários que se propõem a representar "o desespero daqueles que foram massacrados por acreditarem que podiam fazer alguma coisa pela história do país" 13.
Na construção da obra, a fragmentação formal e a representação da violência são índices que marcam a perspectiva social do texto literário, na medida em que viabilizam uma narrativa plural e complexa, ressaltando uma tendência em associar ao modo de elaboração do texto literário questões sociais que afligiam o Brasil dos anos 70. Como nesta década o Brasil atravessava um momento conturbado política e socialmente, em que problemas econômicos faziam-se notáveis, além de questões políticas emergentes, antagonismos sociais mostravam-se evidentes. Nesse sentido, a obra de Sant'Anna incorpora à sua estrutura estes antagonismos, pois se nega a uma narrativa linear e à representação da violência como um documentário ou depoimento biográfico.
Com uma elaboração estética complexa que renega um fluxo de informações explicativas que, segundo Benjamin, é o fator responsável pelo declínio da arte da narrativa, a obra de Sant'Anna constrói-se através do discurso plurilíngüe e fragmentário do narrador que permite a apresentação de diferentes vozes sobrepostas. Estas podem ser entendidas como uma estratégia narrativa que visa também a camuflar uma outra história a partir da própria voz narrativa. Nesse sentido, algumas formulações de Benjamin podem ser associadas à obra do autor, pois, para usar as palavras do crítico alemão, a narrativa não "está interessada em transmitir o 'puro em si' da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso" 14.
Ao trazer para o centro da narrativa a voz de um personagem marginal, o texto de Sant'Anna recorre a um modo singular de representação literária. A obra do autor transcende os limites da literatura parajornalística ou da literatura verdade, categorias apontadas por Silviano Santiago 15 e Flora Sussekind ao referir-se à produção literária dos anos de repressão, e constrói um texto com uma elaboração estética cuidadosa e uma linguagem plena de sentidos e reflexões. Sem privilegiar exclusivamente a transmissão de uma mensagem, geralmente de cunho político, e sem caracterizar a literatura como um instrumento de denúncia de acontecimentos que os jornais não podiam publicar, Confissões de Ralfo não se restringe ao preenchimento de vazios nem se detém em um viés predominantemente informativo, indo além destas preocupações e apresentando reflexões tanto sociais quanto estéticas. A representação do contexto na obra, como nos excertos de representação da violência, é feita através da exploração de recursos estéticos que tornam sua obra um texto literário com comprometimento não apenas como o contexto, mas especialmente com a literatura, já que a referencialidade dos fatos de violência, tortura e repressão do Brasil no período militar supera o simples relato de cunho jornalístico e documentário.
O diálogo que Ralfo empreende com a realidade - buscando captar toda a sua complexidade - não é encontrado apenas nos fatos narrados, porque também é entendido na própria estrutura da obra, na sua constituição fragmentária. Orquestração de vozes, de linguagens e de estilos se confrontam e se completam para questionar o discurso autoritário do poder nos anos de ditadura e sublinhar a perspectiva social que recobre a narrativa de Sant'Anna. Complexo, fazendo uso de diferentes alusões históricas, trabalhando com a linguagem com um apuro de artesão, o livro de Sant'Anna mantém um outro diálogo - com o discurso crítico - , já que a obra suscita reflexões sobre o perfil da literatura de 70 apontado pelos estudos críticos que acentuam o tom pejorativo e de menosprezo em relação às obras do período.
Um caminho fecundo para o estudo dos textos literários produzidos em década de repressão e censura, como a de 70, parece não ser o da crítica normativa, que tenta enquadrar as obras em categorias estanques e em instituir um valor menor ao minimizar os artifícios estéticos e ao sublinhar a significação histórica. Antes de se procurar "classificações" e enquadramentos de uma obra numa tendência literária, um estudo pertinente deve ser o exame atento da obra, com a consideração de seus elementos constitutivos e atribuição de sentido ao texto, subtraindo-se de pré-noções e predisposições de leituras e discursos críticos cuja autoridade científica é reconhecida. É a partir desse método de análise que se torna possível ver em Sant'Anna um amplo painel de leitura através da diversidade de temas e uma alternância formas estéticas.
VIEIRA, Nelson. Sérgio Sant'Anna: O espetáculo não pode parar. Brasil Brazil. Porto Alegre , vol 5, nº 8, 1992. p. 81-92.
MACHADO, Janete Gaspar. Constantes ficcionais em romances dos anos 70. Ed. da UFSC, Florianópolis, 1981.
VIEIRA, Nelson. Sérgio Sant'Anna: O espetáculo não pode parar. Brasil Brazil. São Paulo , vol 5, nº 8, 1992. p. 83.
SILVERMAN, Malcolm. Moderna ficção brasileira 2 . Ed . Civilização Brasileira; INL. Rio de Janeiro; Brasília. 1981, p. 293.
MACHADO, Janete Gaspar. Constantes ficcionais em romances dos anos 70. Ed. da UFSC, Florianópolis, 1981.
SANT'ANNA, Sérgio . Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária. 2ª ed. Ed. Relume-Dumará. Rio de Janeiro. 1995. p. 13.
SANT'ANNA, Sérgio . Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária. 2ª ed. Ed. Relume-Dumará. Rio de Janeiro. 1995. p. 25.
SANT'ANNA, Sérgio . Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária. 2ª ed. Ed. Relume-Dumará. Rio de Janeiro. 1995. p. 225.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e estética. A teoria do romance . Ed. Hucitec. São Paulo. 1988.
SANT'ANNA, Sérgio . Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária. 2ª ed. Ed. Relume-Dumará. Rio de Janeiro. 1995. p. 114.
SANT'ANNA, Sérgio . Confissões de Ralfo - uma autobiografia imaginária. 2ª ed. Ed. Relume-Dumará. Rio de Janeiro. 1995. p. 122-130.
SUSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária: polêmicas, diários e retratos. Jorge Zahar Ed. Rio de Janeiro.1985. p. 51.
DALCASTAGNÈ, Regina. O espaço da dor - o regime de 64 no romance brasilerio. Ed. Universidade de Brasília. Brasília. 1996. p. 15.
BENJAMIN, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: __. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. 5ª ed. Ed. Brasiliense. São Paulo. 1993. p. 205.
SANTIAGO, Silviano. Repressão e censura no campo das artes da década de 70. In: __. Vale quanto pesa: ensaios sobre questões político-culturais. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1982.