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Travessia para outro mundo em Os sertões de Euclides da Cunha
Pedro Barboza de Oliveira Neto (Universidade Católica do Salvador)

Muitas travessias podem ser divisadas no texto d´ Os sertões . Buscarei aproximar-me de uma delas que para mim se mostra intrigante. Ao título Travessia para outro mundo pode-se objetar ser esta uma das mais evidentes do livro como uma ida à terra ignota , a aventura do repórter ou o passeio do olhar do narrador e outras mais. Meu caminho é o de olhar Os sertões na perspectiva do discurso mítico, em manifestações como saída deste mundo e seu retorno.

Uma dificuldade inicial é a da natureza do próprio livro, em que é trabalhoso separar o narrador poeta do Euclides-repórter ou historiador, geólogo, etc., da pessoa de Euclides ou, ainda, as várias faces do "narrador sincero", do fingido ou dissimulado. O primeiro apelo, que não é descabido, é o de buscar-se a transformação do homem Euclides. Vou tentar navegar nesses mares indecisos para ver se vislumbro terra. Em todo caso, falando do mítico, tenho em vista uma de suas manifestações: essa travessia para o mundo em que vivem outros que não são deste mundo. Quase sempre o lugar deles é indicado como situado abaixo, ínfero ou inferno. Mais ainda, vulgarizou-se um tipo de representação, o do inferno quente e de danação, lugar, pra onde vão os que não prestam para um espaço superior. Gostaria de afastar essa idéia em proveito de outras imagens, em que os ínferos não sejam necessariamente isso e sim lugar de seres que não são ou não mais são deste mundo. O arquétipo mítico da catábase trata dessa passagem, dessas travessias e visitas a tais entes. 1Digo que a catábase é arquétipo dentro de um tipo de narrativa, a mítica. 2

Se me ponho com olhos míticos, a primeira narrativa sagrada que vislumbro é a criação do mundo, estampada nas "Preliminares":

O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. " 3

O desenho panorâmico, em alto relevo da geografia do país, do Sul ao Sertão de Canudos, pontuado pelos movimentos tectônicos, com retoques feitos a mão ou pela palavra, permitem dizer que não se trata apenas de " morfogenia do grande maciço continental ", mas de cosmogonia. Agarrado ao viés científico, Euclides narra um começo primeiro, o antes de tudo: No princípio eram:

três formações geognósticas díspares, de idades mal determinadas,(...) Surgem primeiro as possantes massas gnaissegraníticas, que a partir do extremo sul se encurvam em desmedido anfiteatro, alteando as paisagens admiráveis que tanto encantam e iludem as vistas inexpertas dos forasteiros, ... (O.s.,18 ).

 

Estas levam à região privilegiada , e quem alcança essa terra é como quem sobe, vinga a rampa de um majestoso palco , " região privilegiada, onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina. É que, de feito, sob o tríplice aspecto astronômico, topográfico e geológico a nenhuma se afigura tão afeiçoada à Vida. " (Ib). É o mundo das convulsões violentas das rochas, mesmo situando-se no presente narrativo, em que as cordilheiras dominantes do sul ali se extinguem, soterradas, numa inumação estupenda, pelos possantes estratos mais recentes, que as circundam ". (O.s.,19). Os reflexos do momento inaugural são seguidos da notícia do arruinamento do "primitivo Himalaia brasileiro" até entrarmos na devastada terra ignota . Mas essa narrativa em terceira e distante pessoa ganha, de imediato um cúmplice, já no segundo parágrafo do livro, quando ainda cria o imaginado Planalto Central. Já aqui, expressões como " quem o contorna ", " quem o observa ", " o viajante mais rápido ", e o viajor, tornam-se não apenas sinônimos de um narrador que se mascara nelas, mas de um olho a mais que acompanha e serve de testemunha ao narrador; testemunha o que se oferece à vista. Esse parceiro do narrador, seu cúmplice, é o que se chama de paredro, na acepção mais de companheiro inseparável, de par e de espelho. Se tomamos o primeiro capítulo d´ Os sertões como narrativa de criação, talvez tenhamos aí o tipo de personagem mítica, o paredro, nosso observador acompanhante do narrador.

Mas falávamos em cosmogonia. Não seria possível alargar tal denominação a todas as descrições de terras e geografias e, assim, não se chegar a lugar nenhum? Digo da propriedade de cosmogonia em Os sertões , pela própria leitura que faz o narrador e pela continuidade no ensaio da composição com um outro par: o da escatologia. O Brasil nasce, tem vida e futuro desde o Sul até Minas Gerais. Rui, decai e afunda em inumações gigantescas já na bacia do São Francisco. Tudo é descrito como ciclópico na Terra arruinada, cheia de teatros, coliseus e circos armados para a versão final da luta dos elementos primordiais.

A ascensão do observador, ou se quisermos, sua posição inicial no alto, no seu vol d´oiseau , cede lugar à travessia para baixo, descida à peneplanície do nordeste baiano, como se às profundezas resultantes da titanomaquia das rochas. O narrador vem de um mundo em formação, no seu instante inaugural, e desce das alturas para atravessar o mundo ignoto, como quem atravessa o vale dos mortos, aonde chegará no fim da obra. "Acróbase" e catábase equivalem-se na revelação, na epifania. Conjugam-se e opõem-se o um mundo em criação e mundo já criado mais antigo, terra fértil e terra devastada. Na descida a outro mundo, temos uma travessia. O arquétipo da catábase é, originariamente, caminhada para baixo, mas concordando com Eudoro de Souza, na sua Mitologia , ela não pode ficar limitada a esse movimento. A catábase tanto pode ser travessia para o alto quanto para os infernos. Mais ainda, sendo travessia é essa condição que a define, seja para o alto ou para baixo," Inferno é o nome que se dá a uma das possíveis correlações entre o homem e o mundo. " No fundo, trata-se da liminaridade: " É nome de uma situação liminar: eu já não sou o que fui, mas ainda não sou o que serei. Na liminaridade, já perdi o mundo em que vivia e não ganhei o mundo em que vou viver " . 4Isto nada mais é do que o espaço preferencial da vigência do mito. Como essa liminaridade é insuportável a frio, é necessário que seja figurada, pois afirma o mesmo mestre " Ninguém suportará facilmente o ver-se pairando sobre o Caos, criador de mundos. " (Id. Ib.). Dessa maneira a situação angustiante da descida a si mesmo vem permeada tanto de diacosmeses como de escatologias, no eterno retornar. A catábase é estranheza de si e do mundo; é travessia a que não escapou a tragédia clássica nem sua figuração em Euclides.

Muitos humanos e mais que humanos, foram aos infernos e retornaram, ou foram na esperança de retorno e, de cá, sabemos o seu percurso. Orfeu vai; Dante vai em boa companhia. Na mitologia sumeriana, Gilgamesh busca ali seu companheiro inseparável, seu paredro Enkidu. 5 Mas, digo eu, também em Um lance de dados , o mestre maneja o timão rumo às alturas do naufrágio e às profundezas da constelação, fincando um marco no infinito. Também em Euclides se repete o mesmo movimento de alto e baixo permutados, terra e mar que se fundem, separados no recorte da cosmogonia, partes distintas e inseparáveis de uma mesma téssera do symbolon grego. Elas se afastam e se chocam em movimento dia-bólico , ou seja, de andança em dois sentidos. Mas, só existem na unidade presumida, anterior e final. Diria que este mesmo movimento, decorrente e tendente à pulsão simbólica - de conjunção - informa a narrativa d´ Os sertões . O que junta catábases, cosmogonias e diacosmeses seria o impulso mítico. O simbólico - existência separada na conjunção fundadora e exigível das partes cortadas - estaria na base do pensamento grego e ocidental e de todo nosso simbolismo.O que junta catábases, cosmogonias e transformações é esse princípio. Não basta um desenho estrutural dos mitos, o que informa os mitos está para além de sua descritiva: está no impulso mítico. Nada valem conjunções e disjunções sem o motor que os impulsiona. A deusa Inana desce aos infernos em busca do amado e tem que pagar o preço da passagem. Deve despir-se peça por peça e, quando já nua, despir-se de si mesma. A travessia para os infernos ou para os supernos - e Euclides, de início, se situa nestes - é uma passagem de si, de já não estar em si ou já estar. Freqüentemente, é revelada pelo sentimento de descobrir-se em outro tempo, como no despertar para a vigília. A discronia, revelação súbita de um novo estado é ela. Também aí vale um sonho de geólogo. Poder-se-ia objetar que qualquer alteração do estado de consciência seria o mesmo. A catábase é um retorno também, como o de Inana que volta a si.

Pensado o mito como história sagrada e verdadeira no seu horizonte, fora da história progressiva, os seus eventos são sempre presentes. A gênese ou a escatologia relatadas não se encerram no passado narrativo, estão presentes e vivas em todas as suas partes.

Minimizando o alcance para uma narrativa que se quer lógica, a gênese está presente na escatologia d´ Os sertões . O tectonismo das três camadas e a conturbada trajetória de seus choques, inumações, ressurgimentos, fusões díspares e persistência dos contrários sob novas formas ou analogias, estarão presentes na metamorfose do sertanejo depravado em jagunço que é serpente de si mesmo. Creio que leitura exemplar da catábase euclidiana é todo o périplo de Grande sertão: veredas e o fechamento do livro pelo uróboro, signo matemático do infinito e do eterno retorno.

Sendo descida aos infernos ou subida aos supernos, a catábase é retorno extraordinário. (Serra.: 2002, 71) , implicando a discronia O narrador de O.S. vacila e cai na armadilha quando ao apresentar a geografia da região em tempo presente e envolver o seu companheiro leitor nele, põe no tempo passado Canudos:

Todas traçam, afinal, elítica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos - e daí para o norte, de novo se dispersam e decaem até acabarem em chapadas altas à borda do S. Francisco. (O.s., 33)

Ou ainda, mantendo-se no espaço conquistado dos supernos:

Vendo ao longe, quase de nível, trancando-lhe o horizonte, aquelas grimpas altaneiras, o observador tinha a impressão alentadora de se achar sobre plateau elevadíssimo, páramo incomparável repousando sobre as serras.

Na planície rugada, embaixo, mal se lobrigavam os pequenos cursos d'água, divagando, serpeantes ...

Um único se distinguia, o Vaza-Barris. Atravessava-a, torcendo-se em meandros. Presa numa dessas voltas via-se uma depressão maior, circundada de colinas... E atulhando-a, enchendo-a toda de confusos tetos incontáveis, um acervo enorme de casebres. (O.s., 35)

Diria perversamente que outra falha, gafe, do narrador vigilante é quando equivale Conselheiro e Moreira César, o epilépitico. Reserva para o santo cearense a doença de Tanzi, com períodos de lucidez e outros de alheamento da realidade, de sua não percepção. A vigilância de Euclides é alheamento da figuração que processa, despertado de vez em quando por surpresas, mas a que ele não atinge no enigma que encerram. Analogamente ao narrador, catábase foi a experiência de Antônio, Antão, que no deserto tantas vezes vislumbrado por Euclides, se submete a provações e sai purificado.

A racionalidade diabólica, o separar - krinéin - e seu separado - kriticos - também ela seria uma forma contraditória do impulso mítico; a ele não escaparia. O projeto humano é o simbólico , o jogado conjuntamente, ou simplificando, de modo caricatural, a busca da unidade, impossível no desnudamento total das coisas, denominação de mais ocultamento do dia-bólico, do andar em dois sentidos.

Os sertões caminha entre o extremamente alto e o baixo. É do alto se narra a gênese da terra e do anfiteatro da luta, a terra se oferece em revelação, observada a escrita. É do Alto de Monte Santo que se transfere para o Alto da Favela e se chega até ao vale dos mortos. Mas o diabólico se mostra também como simbólico - união dos contrários - como necessário à economia da narrativa. O exército de mestiços do litoral tem em si os jagunços do 5º. Batalhão de Polícia da Bahia, saídos das prisões do litoral:

Lançava-se o jagunço contra o jagunço.

O batalhão de sertanejos avançou. Não foi a investida militar, cadente, derivando a marche-marche, num ritmo seguro. Viu-se um como serpear rapidíssimo de baionetas ondulantes, desdobradas, de chofre, numa deflagração luminosa, traçando em segundos uma listra de lampejos desde o leito do rio até aos muros da igreja ... O mesmo avançar dos jagunços , célere, estonteador, escapante à trajetória retilínea, num colear indescritível. Não foi uma carga, foi um bote . Em momentos uma linha flexível, de aço, enleou o baluarte sagrado do inimigo. Coruscou um relâmpago de duzentas baionetas: o 5.° desapareceu mergulhando nos escombros. (O.s., 483) .

A solução militar e plástica não se esgota no gesto estético. É muito mais, é recurso aos arquétipos do tectonismo, a serpente que mergulha rumo às rochas do tectonismo inaugural de A Terra.O símbolo é o de conjunção - symbolon, mas incestuoso, da serpente que engole a serpente. O antagonismo persiste, não são partes da téssera. 6 Como romance é ou teria sido irresolvido. Mas o signo é enigmático; é o uróboro, do tempo infinito.

É o dia-bólico, o caminhar separador racionalista, levado leva à hipérbole que, na aparência, domina o livro de Euclides. A crítica destes cem anos tem esmiuçado este aspecto; é um texto sob o signo das díades e tríades, de todas as figuras de contradição que se excluem, mas que também se resolvem em imagem poética, vendo-se um pouco na linha de Luís Costa Lima em Terrra ignota.

A racionalidade do registro ensaístico só enxergou o que viram os militares positivistas: a cabeça do Conselheiro. " Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura.."

Foi na sua degola que simbolizaram a Campanha. Não viram a ambigüidade da cifra, a loucura e barbárie deles mesmos, de sua desrazão. Podiam ter guardado e estudado o coração. Retornando ao mito da Revolução Francesa, ali se guardou o coração do futuro rei sacrificado.

Paradoxalmente, o texto de Euclides cifra o fracasso da razão dos degoladores na sua própria crença cientificista de que o mistério de Canudos estava nas circunvoluções do crânio como nas camadas das rochas originais. O narrador euclidiano, após as várias descidas aos infernos, na sua ilusão de vigilância, pensa que pode ironizar seus ex-companheiros de armas e a sua trágica ingenuidade do momento da guerra. No traço de modernidade, denuncia sua escrita e renuncia ao tom trágico para a página final. Trai-se ao cair no tempo real, ao falar da narração: " Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem ".A catábase se dá também no êxito estelar . O espanto da tragédia é o mesmo da revelação de outro tempo, a descoberta da discronia em que vinha o sujeito narrador. É terrível gozo estético do trágico, mas é também operação enigmática do mítico da passagem, da travessia num símbolo. Escapa-lhe o caráter mítico do que escrevera.

Navegaram pelo mar do mítico o narrador e os facínoras fardados, obedecendo ao mito e jactando-se da história ou nela se desculpando.

É lembrando da presença das catábases e outros arquétipos míticos n´ Os sertões , que retorno ao filósofo luso-brasileiro:

Podemos concordar sem cair no risco da armadilha positivista, que definitivamente relegado para outrora esteja o momento em que a metafísica tomou o lugar da mitologia: que, depois, se enunciem teoremas, onde e quando se contavam mitos, mas nem assim se nos abala a convicção de que, em todos os tempos, não seja mítica a terra em que se firma e de que se nutrem as mais fundas raízes da racionalidade. " (Souza, E., 30)

Aonde foi, Euclides se encontrou freqüentemente com a revelação súbita de outro mundo, seja no deserto do sertão baiano _ inferno dantesco _ seja no inferno verde, ambos limites da nacionalidade.

 

Ordep Serra faz estudo minucioso do arquétipo da catábase a partir da noção do symbólon como constitutivo do pensamento grego e ocidental, colocando o pensamento de Eudoro de Souza em diálogo com a produção antropológica do último quartel do século XX. Verifica ainda a um estudo da presença da catábase em Dante, J.L. Borges, Lewis Carrol e Mirolad Pávich. V. SERRA, Ordep. Veredas: antropologia infernal . Salvador: EDUFBa., 2002.

O conceito de catábase que emprego aqui é decalcado de Eudoro de Souza no seu Mitologia . Lisboa: Guimarães Editores, 1984. .Igualmente para a noção de simbólico, que vejo confluente à de Mircea Eliade em Mefistófeles y el andrógino. Barcelona, Labor Punto-Omega, 1984. Para as noções de mito, mito de fundação, arquétipos, etc., acompanho igualmente a lição de Eliade.

CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos . Ed. crítica de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 1998., p.17. Nas passagens seguintes, indicarei apenas O.s.

SOUZA, Eudoro. Op. cit. p. 58-59.

Cf. SERRA, Ordep. Comentário. In: A mais antiga epopéia do mundo: a gesta de Gilgamesh . Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1985. p. 125-152..

Sobre a relação entre o dia-bólico, crítico e o modo de ser do racionalismo, v. Eudoro de Souza: O diabólico. Op. cit.101-124.

 

 

REFERÊNCIAS

CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos . Ed. crítica de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 1998.

ELIADE, Mircea Eliade em Mefistófeles y el andrógino. Barcelona, Labor Punto-Omega, 1984.

MALLARMÉ, Stéphane. Um coup de dês jamais n´abolira le hazard., separata. In: ____. CAMPOS, Augusto; PIGNATARI, Décio; CAMPOS, Haroldo. Mallarmé . São Paulo: Perspectiva; EDUSP, 1974.

SERRA, Ordep. Veredas: antropologia infernal . Salvador: EDUFBa., 2002.

SERRA, Ordep.: A mais antiga epopéia do mundo: a gesta de Gilgamesh . Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1985..

SOUZA, Eudoro. Mitologia . Lisboa: Guimarães Editores, 1984.