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Travessia da terra em Os Sertões e Vidas Secas
Iraci Simões da Rocha (UNEB)

Buscar unidade ou gênero estilístico pré-configurado em Os Sertões, obra enfocada como objeto principal do presente trabalho, e Vidas Secas, obra que aqui comparece para dialogar com a anterior, pode conduzir o leitor apressado a um ímpeto catalogador enganoso ou a uma redução empobrecedora. Por outro lado, empreender uma análise da linguagem dos textos, visando a identificar um "estilo próprio", "assinatura", "traço familiar" ou "marca distintiva" seria cair na armadilha da forma e nas noções tradicionais de estilo como "prescrição" ou "norma", prevalentes até meados do século XX. Por reconhecer nos textos selecionados o estatuto das grandes obras, a desmedida da paixão é o melhor instrumental de que me posso cercar para empreender essa leitura. Recuso, portanto, uma hermenêutica elucidativa com base em "normas de interpretação", assumindo uma erótica do texto como experiência sensorial. Lanço um olhar de leitora contextualizada no ambiente acadêmico contemporâneo sobre uma obra de 1902 e outra de 1938. Não pretendo deter-me na forma, distinguindo-a do conteúdo, mas abordar o texto como um "entrançado do discurso", cujas significações são depreendidas do conjunto em que não há um centro e seus invólucros, separadamente, mas um todo recoberto por películas sobrepostas.

A obra Os Sertões pertence a um tempo e a um lugar e, desde sua publicação, repercute, provocando sempre reações extremadas dos leitores que, em geral, necessitam filiar-se ou como euclidianos ou como conselheiristas. Resultante de estudos, observações diretas e, pensado inicialmente como documento para registrar a História da Campanha de Canudos, Os Sertões foi recebido pela crítica de seu tempo como um misto de ciência e arte. Ao longo do século XX, ampliou-se a polêmica, e leituras especializadas têm apontado a hibridação e riqueza do texto euclidiano: documento historiográfico, texto jornalístico, obra literária, representando, no dizer de Walnice Galvão (1981), um " mea culpa" coletivo da nação para aliviar o remorso pela matança dos vinte e cinco mil canudenses e, ao mesmo tempo, uma ferida aberta na consciência nacional.

Tomado como ícone da literatura canônica brasileira, Os Sertões é matriz para obras nacionais e estrangeiras com as quais estabelece diálogo, nos campos da história, sociologia e principalmente da literatura: A bagaceira (José Américo, 1928), O Quinze (Raquel de Queiroz, 1930), Pedra Bonita (José Lins do Rego, 1938), Vidas Secas (Graciliano Ramos, 1938), Seara Vermelha (Jorge Amado, 1946), Grande Sertão:Veredas (João Guimarães Rosa, 1956), Sargento Getúlio (João Ubaldo (1971). A explicação recorrente para a ressonância do texto euclidiano, segundo Berthold Zilly, (2000, p. 297) é seu caráter de " summa ": multiplicidade de gêneros por reunir aspectos da epopéia, do drama e da lírica com várias formas de enunciados e traços de textos diversos.

Uma das teses mais caras aos críticos é a de que Os Sertões teria perdido o caráter de atualidade e se exaurido caso sua economia fosse da ordem específica do discurso científico, porque estaria confinada no factual, nas teses e na datação histórica. Ao invés de caducar, o texto atualiza-se e possibilita ressignificações justamente pelo seu caráter literário na reencenação de novas leituras que produzem sentidos. Canudos vive em Os Sertões e se presentifica como fato histórico, como construção verbal, sujeita à seleção, cortes e ao mesmo tempo como ficção. O autor pensava a História com maiúscula e, mesmo assim, sua obra traz narrativas orais fantasiosas, boatos, lendas, imagens repassadas pela tradição. Ele testemunhou a guerra no período de 16 de setembro a 03 de outubro, sem presenciar os dias finais dos canudenses nem muitos dos fatos registrados no livro e que foram omitidos nas reportagens. Os Sertões , cuja primeira edição foi publicada em 1902, foi escrito ao longo do tempo e pôde incorporar aspectos divulgados pelos que fizeram a guerra, pelos jornais e por outras publicações, a exemplo de Os Jagunços de Afonso Arinos que, por sua vez, também incorpora trechos das reportagens de Euclides da Cunha. (GALVÃO, 1976, p. 55-85). A figura do Conselheiro é construída por ouvir dizer; o autor não o conheceu pessoalmente nem leu suas prédicas. Segundo Roberto Ventura sugere, o retrato do conselheiro seria uma ficcionalização, espécie de projeção da atormentada personalidade euclidiana. (CARVALHO e SANTANA, 2003).

Não é problemática em Euclides da Cunha a suplementação de aspectos da guerra de Canudos por processos de representação ficcional em Os Sertões . A atitude que merece crítica mais dura foi tomada pelo autor-repórter-intelectual-cidadão brasileiro que, como outros profissionais da imprensa na época, silenciou em seus textos jornalísticos sobre as atrocidades cometidas pelo exército: o comércio de mulheres e crianças, a degola de prisioneiros, o incêndio dos casebres ainda ocupados pelos sertanejos.

Euclides da Cunha adota as teorias científicas da época, querendo explicar o atraso de uma região e a miséria de seu povo como uma conseqüência do "meio ambiente natural" e do "meio ambiente social". Está explícita também a teoria preconceituosa da superioridade/inferioridade das raças, as quais determinariam o "tipo psicológico" e o "comportamento coletivo". Em compensação, o autor surpreende na reconstrução daquela sua narrativa pelo trabalho com a linguagem, criando um texto que embaralha as fronteiras da história e da literatura com suas "verdades inventadas".

A terra euclidiana vai se desenhando de dois modos diferentes: lugar exuberante, esplêndido, exótico e lugar árido, estéril, inóspito. Em ambos os casos, o olhar do narrador de Os Sertões revela espanto, ora admirando numa atitude de aprovação, ora reprovando as paragens "diferentes" dos sítios do litoral e dos "centros civilizados" familiares ao homem citadino. Tomando emprestados operadores teóricos da semiótica, retiro de Os Sertões, a seguir, pequeno corpus exemplar de isotopias 1 e seus feixes semânticos, a partir das palavras TERRA e NATUREZA para compor as imagens do SERTÃO EXUBERANTE (=natureza idealizada, magnífica, esplendorosa), contrapondo-se às imagens do SERTÃO ATERRADOR (= natureza castigada, seca, estéril). Produzem-se as contradições, os oxímoros, os paradoxos que não se restringem a um recurso estilístico, mas estariam na geografia da terra: " A natureza compraz-se em um jogo de antíteses ". (CUNHA, 2001, p. 135).

SERTÃO EXUBERANTE (= natureza idealizada, magnífica, esplendorosa) 2 :

Relevos estupendos ; flora extravagante; viçam gramíneas e pastam os rebanhos; elipse majestosa de montanhas; (p. 97 - 99). E o sertão é um paraíso ...; Ressurge a fauna resistente ; baixadas úmidas, (p.130), manhãs sem-par , púrpura das eritrinas , os festões multicores das bignônias (p. 132). Dias de abastança . (...) o sertão é um vale fértil , pomar vastíssimo (p. 130). Ao sobrevir das chuvas, a terra transfigura-se em mutações fantásticas . Os vales secos fazem-se rios. Insulam-se os cômoros escalvados, repentinamente verdejantes . A vegetação recama de flores , expandir revivescente da terra . (p. 135). A terra protetora (p. 397). ...e o Vaza-Barris, intumescido (...) em onda enorme e dilatada , rolando transbordante. (p.667). (...) feliz, deslembrado de mágoas , segue o campeiro pelos arrastadores, tangendo a boiada farta, e entoando a cantiga predileta ..." (p. 132).

 

SERTÃO ATERRADOR (= natureza estéril, perversa, especialmente para o estrangeiro):

Insolações , regime desértico, caatinga, catingueira, cactus , paragem sinistra e desolada , travessia torturante , viagem penosíssima, agreste , sertão inóspito , clima feroz, mandacarus despidos e tristes , chão poento e pardo, pedra seca, ruínas, martírio da terra, contorcido dos leitos seco s, ribeirões efêmeros , flora decídua , extrema secura dos ares, estio, verões queimosos , várzeas deprimidas , placas brunidas reverberando a luz em fulgurar metálico , argila vermelha, luz crua , cerros aspérrimos rebrilham ofuscantes , acidez corrosiva , quinas de rebordos cortantes , em pontas e duríssimos estrepes, natureza torturada , flagelar do clima, indumento áspero dos pedregais e caatingas estonadas , estio ardente , dias queimosos . A terra desnuda . (P. 102 - 103). Folhas urticantes , espinhos , gravetos , flora agonizante, moribunda , o sol é o inimigo ; leguminosas anãs , subsolo impenetrável (P. 116, 118).

 

Em Vidas Secas não se identificam palavras associadas à exuberância da natureza. Aí o leitor encontra apenas a terra gretada, o sol a pino nas imagens do sertão aterrador:

SERTÃO ATERRADOR (natureza estéril = a terra seca é dor e castigo)

Planície avermelhada, rio seco, lama seca, chão gretado , chão rachado , galhos pelados , catinga rala, catinga amarela , folhas secas , claridade do sol, azul terrível que deslumbrava e endoidecia, vermelhidões do poente. A aragem morna sacudia os xiquexiques e os mandacarus. Garranchos e folhas secas, quentura medonha . (...) folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos , e os garranchos se torciam negros, torrados . (P.115). A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O vôo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos . (RAMOS, p.10).

 

A narrativa de Os Sertões , diferentemente de Vidas Secas , está tomada pelos recursos estilísticos da lírica: aliterações, assonâncias, onomatopéias que dão o tom ritmado ao texto:

Mal se re s pira no bo ch orno inaturável em que toda a ad us tão golfada pela s oalheira... (p. 104; dia s e s bra s eado s ; dia s cau s ticante s . Imper c eptívei s exer c em- se , então, a s corrente s a sc en si ona is do s vapor es aque ci do s su gando à terra a umidade e x ígua; e quando se prolongam, esbo ça ndo o prelúdio entri s te c edor da se ca, a se cura da atm os fera atinge a gra us anormal íssi mo s . (p.105).

 

A repetição da conjunção coordenativa e reforça o sentido das palavras e leva o leitor à idéia de gradação ascendente. As intensificações de palavras ou de sons, não exclusivas do texto lírico, aqui funcionam para superdimensionar objetos, ações, espaços, amplificando-os, projetando-os como elementos gigantescos e hiperbolizados ao grau máximo de potência:

Fere-a o sol e ela absorve-lhe os raios, e multiplica-os, e reflete-os, e refrata-os, num reverberar ofuscante: pelo topo dos c erro s pelo e s barrancado das enco s ta s , in cend eiam- s e a s a cend alhas da lica(...) junto ao ch ão vi br a num ondular viví ssi mo de boca s de fornalha em que se pre ss ente vi vel, no ex pandir da s coluna s aque ci das, a eferv escência dos are s ; e o dia, incomparável no ful gor, ful mina a nature z a si len ci o s a, em cujo se io se abate, imóvel, na quietude de um longo es pa s mo, a galhada se m folha da flora s ucumbida. (P. 103 - 4).

 

Destaca-se o tom dramático da linguagem com os termos relacionados ao teatro e modos de representação do texto que se encena, aspecto já apontado por outros pesquisadores. São comuns expressões como: palco, bravos, aplausos, aclamações, teatro da luta, drama sanguinolento, enredo, cenário, atores, espectadores, camarotes, binóculos, anfiteatro, representar-se, ficção, telão descido sobre um ato de tragédia.

Enquanto Euclides da Cunha opera com o superdimensionamento, os transbordamentos, a fartura de elementos, a retomada de aspectos já apresentados, num movimento de ampliação e de expansões da linguagem, Graciliano Ramos o faz pela condensação, enxugamento, retração, economia dos recursos lingüísticos. As configurações dos sertões nos dois autores aproximam-se e afastam-se, ao mesmo tempo. Em A Terra, o narrador lança mão de estratégias diferentes, antitéticas para compor a obra: descrições longuíssimas interrompidas por frases breves, secas, teatrais, às vezes resumidas em uma única palavra: "Denunciemo-lo" (p. 67); "Atinge-os". (p. 237); "Atravessemo-la" (p 78); "Salva-se". (p. 237). Tais frases podem vir entre parágrafos extensos, abrindo ou fechando partes em construções paratáticas, próprias do gênero lírico, criando efeito impactante.

A natureza em Vidas Secas não tem a exuberância daquela que se observa em Os Sertões ; a terra árida é uma constante na narrativa. Agravam a situação a miséria e desamparo em que vivem Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e Baleia. Não há abundância, não são descritas belas paisagens, as imagens não dão graça e colorido ao ambiente. A cheia e o frio são mais ameaça para os desvalidos personagens. (...) "o trovão roncara perto, na escuridão da meia-noite rolaram nuvens cor de sangue. A ventania arrancara sucupiras e imburanas (...) a chuva caíra, a cabeça da cheia aparecera arrastando troncos e animais mortos. (...) Sinhá Vitória andava amedrontada (...) a casa seria invadida". (p. 65 - 6).

Eles vivem explorados pelo patrão e humilhados por outros explorados, como o soldado amarelo. São os sem terra, sem teto, sem linguagem, sem instrução e sem consciência da condição de explorados. A terra não protege os retirantes, tampouco lhes confere o status de indivíduos: Fabiano usa sapatos de couro cru "como cascos" (p. 95), esconde-se no mato como tatu ( p. 24), Sinhá Vitória, calçada nos sapatos de verniz, "mexia-se como um papagaio " (p. 41), o menino mais velho "imitava o berro dos animais " (p.59), o menino mais novo punha-se a berrar "imitando as cabras " p. 5; homem-bicho-coisa se equivalem: "Você é um bicho, Fabiano". (p. 19); "Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia". (p. 24).

Os animais, em confronto com os indivíduos, são humanizados. A cachorra Baleia tem um "espírito" (p. 91), pensa, desenvolve raciocínios elaborados, expressa desejos, delicadezas, sentimentos, revelando a perversidade daquela equação social: "Deu um ponta-pé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários" . (P. 40). "Baleia, imóvel, paciente , olhava os carvões e esperava que a família se recolhesse. Enfastiava-a o barulho que Fabiano fazia. (...) Baleia se enjoava , cochilava e não podia dormir". (P 70). "Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. " (P. 90-1).

Em Vidas Secas a economia do texto se organiza pela condensação. A ironia é a marca de quem diz mais, dizendo menos, pois "a palavra não foi feita para enfeitar". Resultam capítulos enxutos, com grandes parágrafos de períodos curtos, duros, cruéis. As poucas falas dos personagens são meras interjeições onomatopaicas: Hum! An! Bem, bem, Ecô! Ecô! As falas desdobram-se, no máximo, em expressões com um rudimento de idéia, em uma ou duas linhas, projetando os efeitos da seca traduzidos na escassez da palavra: "-Você é um bicho, Fabiano". (p. 19). "-Apareça um homem! Berrou". (p. 78). "Parou agoniado, suando frio, a boca cheia de água, sem atinar com a palavra. Cambada de quê? Tinha o nome debaixo da língua. E a língua engrossava, perra (...) -Cambada de cachorros". (p. 79).

Euclides da Cunha é um homem que, embora tenha viajado muito pelo interior do Brasil, pertence à cidade. Nasceu em 1866, no Vale do Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, onde acontece sua formação intelectual e militar. A construção do ambiente em Os Sertões ocorre a partir de um ponto de vista que se posiciona de fora para dentro. É o estrangeiro lançando o olhar supostamente civilizado sobre o desconhecido, que vai lhe parecer estranho, exótico, não-familiar, porque é diferente do seu universo. O sertão euclidiano não é só seu; brota do conhecimento adquirido na viagem do autor ao qual se somam pesquisas, teses, leituras, cálculos de outros viajantes. A terra canudense é vista pela lente da cultura, a partir de um projeto civilizatório no qual o progresso deveria acontecer sob a tutela do Estado.

Graciliano Ramos, por outro lado, nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas, viveu no interior até 1905, quando vai estudar na capital; em 1936 é preso em Maceió e levado para o Rio de Janeiro, onde passa a morar. O sertão em Vidas Secas é a paisagem que o autor conhece bem de perto, na qual se emoldura o sertanejo especificado como o retirante. Esse ambiente é o cenário em que se desenrola o embate da luta de classes. A sua narrativa, intencionalmente nascida como ficção, apresenta-se em quadros isolados como se fossem contos que se encadeiam para compor a estrutura do romance. Para Marco Villa (2003), no interior do sertão de Graciliano Ramos não há saída; "a libertação está fora" . O último capítulo de Vidas Secas , intitulado "Fuga", aponta para o movimento migratório da gente sertaneja que foge da seca em direção a uma "terra desconhecida e civilizada", onde "ficariam presos "; " E o sertão continuaria a mandar gente para lá ". (RAMOS, p. 128).

Euclides da Cunha e Os Sertões ; Graciliano Ramos e Vidas Secas : dois intelectuais, duas obras emblemáticas que permanecem como referência das imagens do sertão brasileiro. Não se pode tratar do massacre de Canudos, ignorando-se o texto euclidiano; também não se pode falar de representação dos retirantes da seca na literatura brasileira desconsiderando a obra de Graciliano. O texto euclidiano circula, provoca, frutifica, reverbera nas obras de outros autores e na crítica contemporânea, pois o trabalho com a linguagem foi além da retórica estéril e preciosista sem derivar em linguagem oxidada por malabarismos formais.

As omissões, as idéias racistas, as contradições de um cidadão imprensado entre o que leu nos livros, viveu nas Academias militares e as atrocidades presenciadas na guerra, tudo isso é evidente e pesa contra o intelectual Euclides da Cunha que está preso a um zeitgeist . Dentre os mais graves equívocos está o de explicar o Conselheiro e seus seguidores como expressão do meio, da "raça inferior" e dos "defeitos herdados do sangue", e isso contemporaneamente embaça leituras que recortam a obra para apontar trechos politicamente comprometedores. Tais intelectuais aferram-se às teses hoje desautorizadas e ignoram a monumentalidade artística do texto euclidiano e também os acertos políticos: denúncia da omissão do Estado na região, tematização do nacional e local, defesa do meio ambiente ao marcar a ação depredadora do homem e, finalmente, a chamada para uma revisão crítica da nossa história.

A obra Os Sertões é muito mais do que um amontoado de teses preconceituosas; é um "livro vingador" que remexe nas feridas do poder e coloca em xeque as glórias do exército, instigando a uma retomada do passado da nação em permanente dívida social, a qual se agiganta e se arrasta aos nossos dias. É texto que persiste como modelo e antimodelo pela engenharia de linguagem. Vidas Secas , escrito por um intelectual que se posiciona inequivocamente em favor dos explorados, quase quarenta anos após Os Sertões , dialoga com a obra euclidiana e o seu sertão se constrói após, com e contra as imagens daquela terra.

 

 

1Isotopia é o termo utilizado na análise do discurso. Diz respeito à repetição de elementos sêmicos que permitem a elaboração de hipóteses interpretativa e, de certo modo, conduzem a leitura do texto.

2 As citações foram extraídas especialmente da primeira parte da obra Os Sertões, edição de Leopoldo M. Bernucci. Farei referência às páginas quando se tratar de citação de frases. Cf. Referências Bibliográficas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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CARVALHO, Mário César e SANTANA, José Carlos Barreto de. (Orgs.). Roberto Ventura: retrato interrompido da vida de Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

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GALVÃO, Walnice Nogueira. Saco de gatos : ensaios críticos. São Paulo: Duas cidades, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. São Paulo: 1976.

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SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão : Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

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