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Da roladeira ao eito: intertextualidade e interdiscursividade em Os Sertões e em A Bagaceira
Aurélio Gonçalves de Lacerda (UFBA)

Jamais um galão de potro xucro ou pau atravessado na caatinga o derrubava da roladeira; entretanto, um puxão da seca dera-lhe esse baque no eito.

José Américo de Almeida, A Bagaceira

 

As imagens sobre o Sertão, tão amplamente gestadas e disseminadas por variados gêneros discursivos, dentre eles o literário, oscilam entre extremos, que ora se excluem, ora se aproximam numa mesma materialidade verbal ou visual, ou em materialidades diversas.

Assim é que as duas primeiras e grandes imagens de Sertão são as edênico/paradisíacas e as apocalíptico-infernais.

Forma-se, pois, sobre o Sertão, na temporalidade e na historicidade, uma espécie de discurso sistêmico tecido por múltiplos discursos singulares de natureza vária. Essas tessituras de narrativas, esses processos de discursivização, instauram-se, de modo particular, por meio dos procedimentos da interdiscursividade e da intertextualidade.

O primeiro tópico do título desse trabalho - Da roladeira ao eito - já compreende e responde, em parte, possíveis indagações, vez que a roladeira , sela do cavalo do vaqueiro sertanejo, é índice e signo designativo do Sertão, via de conseqüência, de sua formação étnica, histórica, econômica, social e cultural, bem como de suas formações ideológicas e discursivas. Eito , em contraposição, é índice e signo que remete para o trabalho com a enxada nos partidos de cana-de-açúcar, originalmente, feito por escravos, e remete, então, para um outro lugar, para um outro espaço geográfico e social - o dos brejos - também com suas formações étnicas, históricas, ideológicas e discursivas. Sertão e brejo, sertanejo e brejeiro: espaços, gentes e culturas que se opõem na narrativa de A Bagaceira. .

A colisão dos meios pronunciava-se no contato das migrações periódicas. Os sertanejos eram malvistos nos brejos. E nome de brejeiros cruelmente pejorativo 1.

 

Se a roladeira , utensílio da lida cotidiana do vaqueiro, é signo metonímico de Sertão, o eito e a enxada serão signos metonímicos do trabalho servil, ou semi-servil, surgindo uma imagem de sertão, como locus da liberdade, e uma outra, a de brejo, como lugar da servidão; via de conseqüência, a migração interna do homem sertanejo, no espaço geográfico do Nordeste, do sertão para o brejo, compelido pela seca, seria uma espécie de êxodo às avessas, porquanto seria a passagem da liberdade à escravidão. Essas parecem ser imagens centrais e dominantes encontradas em A Bagaceira .

Se não em guerra, como a de Canudos, em A Bagaceira , sertanejos e brejeiros estão em contínua tensão, em permanente conflito, são, como os participantes da guerra, patrícios que não se conhecem, que não se aceitam e que se repudiam.

Em relação aos brejeiros diz o enunciador:

(...) Os trabalhadores curvados sobre as enxadas formavam um magote de corcundas infatigáveis. Mantinham, assim, a atitude natural do servilismo hereditário 2

 

Já em relação aos sertanejos, no caso Valentim, Pirunga e Soledade, os enunciados os diferenciam dos brejeiros:

E lá se foram os dois, de enxadas, não ao ombro, à maneira dos brejeiros, mas sobraçadas, como quem leva a vara do ferrão. Era a mesma hora em que costumavam soltar as vacas curraleiras 3 .

( Soledade) Parecia uma pomba branca extraviada num bando de anuns pretos 4.

Admiravam a sertaneja:

- Ela é branca chega ser azul!... 5

Era flor de estufa transportada para o atoleiro. Tinha saudade da quentura das estiagens fatais, dos dias mormacentos do sertão soalheiro 6.

 

Essas imagens, que opõem sertanejos a brejeiros, reveladoras de diferenciações de suas condições de vida, de trabalho e de costumes, se agudizam quando o narrador-enunciador refere-se à peculiar situação de Pegali, o cachorro sertanejo, diante da canzoada do brejo:

Pegali rosnava no aceiro assediado por uma cainçalha agressiva. Não havia gozo cobarde que não quisesse ir a ele.
O cão destemeroso, afeito a dependurar-se no focinho dos barbatões ferozes, tinha o rabo entre as pernas, pegado na barriga.
Fazia pouco na canzoada hostil. Não avançava, nem fugia. Ficava onde estava, a morder o pé bichado.
E os retirantes certificavam-se de que, entre brejeiros e sertanejos, nem os cachorros se davam 7 .

 

É pertinente afirmar-se, portanto, que a narrativa de A Bagaceira dialoga, ou melhor, tece-se com a narrativa de Os Sertões , seja pela interdiscursividade, quando se mobiliza toda uma memória discursiva e se evocam, confirmando ou atualizando, temas, assuntos, valores e estereótipos, seja pela intertextualidade, em que esses mesmos aspectos se encontram textualmente marcados em razão dos processos particulares da enunciação. Assim, José Américo de Almeida parece ser, entre os escritores dos anos 30, o que mais de perto dialoga com Euclides da Cunha, cuja obra Os Sertões em relação ao romance A Bagaceira , confirma-se como texto matricial e fundador.

Se razão tem Umberto Eco ao ressaltar o "modo de formar como compromisso para com a realidade", a estrutura da obra Os Sertões é significante pois se engendra por meio de um processo triádico de construção: a terra, o homem, a luta: o primeiro elemento - a terra, gerando e alimentando o segundo - o homem; e os dois, em cadeia, gerando e alimentando o terceiro - a luta, em permanente interação. Assim esta obra teria, pelo modo como é formada, como sentido mais alto o desnudar, o desvelar as forças mesológicas, as étnico-raciais e as culturais que engendram uma sociedade brasileira polimorfa e profundamente desigual na sua origem, da qual emergem e se consolidam certos antagonismos como elementos estruturantes de seus processos de civilização.

Quanto ao primeiro elemento - a terra, com sua climatologia e regime das águas, vislumbram-se um Sul e um Norte, um Litoral e um Sertão. Um Sul e um Litoral aspirantes à modernidade, enquanto que no Norte, desponta um Sertão, na ótica euclidiana, geograficamente insulado, culturalmente isolado, por isso visto como arcaico, anacrônico, estagnado, primevo. Eis, grosso modo, o perfil dos brasis euclidianos.

Mas, se o macrocosmo dessa obra centenária assambarca os múltiplos brasis, o seu macrocenário será a região Norte, hoje diríamos Nordeste, cujos cenários, ambiências, cenas dizem, referem e focalizam o Sertão, palco maior da campanha de Canudos. Trata-se, pois, de uma fotografia, em preto e branco, da parte, no intento de atingir o todo, ou melhor, de uma página tarjada de horrores que, ao invés de perfumada de glória , como dissera a ordem do dia, deprime e enxovalha a nacionalidade.

Diversamente do narrador de Os Sertões , o de A Bagaceira opera do micro para o macrocosmo, pois trata da fisiografia do território paraibano, no intento também de pela eleição da parte alcançar o todo, já que nessa porção geográfica encontram-se faixas do interior e do litoral, portanto do Sertão e dos brejos com suas gentes, costumes e problemas, numa espécie de representação, em miniatura, da macro-região nordestina.

Referindo-se ao encontro/desencontro dos sertanejos com os brejeiros, o enunciador expressa:

Lúcio responsabilizava a fisiografia paraibana por esses choques rivais. A cada zona correspondiam tipos e costumes marcados.
Essa diversidade criava grupos sociais que acarretavam os conflitos de sentimentos.
Estrugia a trova repulsiva:
Eu não vou na sua casa,
Você não venha na minha,
Porque tem a boca grande,
vem comer minha farinha...
Homens do sertão, obcecados na mentalidade das reações cruentas, não convocavam as derradeiras energias num arranque selvagem. A história das secas era uma história de passividades 8.

 

Desse modo, evidenciam-se em A Bagaceira , pela interdiscursividade, teses do positivista Euclides da Cunha, especialmente quanto a sua inserção no campo dos determinismos tainianos, do meio, da raça e do momento como elementos determinantes das formas de existência e de temperamento dos homens e das sociedades.

Embora o enunciador d' Os Sertões instaure certas ambigüidades pelo estabelecimento da ambivalente visão do Sertão, ora como paraíso, ora como inferno: "O belo firmamento dos sertões arqueavam-se sobre a terra - irisado - passando em transições suavíssimas do zênite azul à púrpura deslumbrante do oriente" 9, em que se ressalta a presença do arco-íris, sinal de aliança entre Deus e os homens; os tons dominantes na descrição da terra e da natureza, que se processa pelo deslocamento do olhar do enunciador do Sul para o Nordeste, acentuam os quadros dolorosos das secas, como nota característica do deserto, da hinterlândia, portanto do Sertão, sobre ele afirmando:

Quebra-se o encanto de ilusão belíssima. A natureza empobrece-se; despe-se das grandes matas; abdica o fastígio das montanhas; erma-se e deprime-se - transmudando-se nos sertões exicados e bárbaros, onde correm rios efêmeros, e destacam-se chapadas nuas, sucedendo-se indefinidas, formando o palco desmedido para os quadros dolorosos das secas 10.

 

Se a simples oposição entre irisado e exicados, nos excertos acima, nos revela a dupla face do Sertão, na enunciação d' Os Sertões - paraíso e inferno, em A Bagaceira bastaria observar o que se enuncia em relação ao sol - o astro rei - para figurativizar o palco doloroso das secas em seus espectros infernais. "O sol que é para dar o beijo de fecundidade dava um beijo de morte longo, cáustico, como um cautério monstruoso" 11. "Uma natureza quaresmal de cactos sobreviventes, eretos como círios acesos em frutos de fogo". 12

Expulsos de seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminho, no arrastão dos maus fados.
(...)Os vaqueiros másculos, como titãs alquebrados, em petição de miséria. Pequenos fazendeiros, no arremesso igualitário, baralhavam-se nesse anônimo aniquilamento. 13

 

Se fortes são os tons com os quais o narrador descreve o estado de miserabilidade em que se encontram os sertanejos retirantes da seca, metaforicamente expulsos do seu paraíso - o Sertão, como na metáfora bíblica Adão e Eva o foram do Éden pelo flammeum glaudium -, alusão ao sol causticante do Nordeste em tempos de seca, não menos fortes são os tons com que descreve o narrador as condições precárias em que se encontram os trabalhadores do brejo, avultando a sua miserabilidade como superior e mais trágica do que a dos sertanejos.

 

Párias da bagaceira, vítimas de uma emperrada organização do trabalho e de uma dependência que os desumanizava, eram os mais insensíveis ao martírio das retiradas.
(...) Valentim notou, então, que todos trabalhavam descalços.
Já não tinham plantas de pés, porém, cascos endurecidos. 14
(...) Não era a negralhada das senzalas, mas o recruzamento arbitrário, as escórias da mestiçagem, com uma balbúrdia de pigmentos. 15

 

Mesclam-se, nos excertos acima, questões sócio-econômico-culturais e raciais, numa evidente retomada da temática euclidiana, avultando os aspectos negativos da formação da mestiçagem. Se sob a ótica da personagem sertaneja, Valentim, pai de Soledade, evidenciam-se os níveis de miserabilidade das condições de vida dos brejeiros, estes insensíveis à tragédia dos retirantes; sob o ponto de vista do enunciador-narrador, ressurgem, agravadas, reconfigurações da mestiçagem, em graus de degradação inferiores àquelas dos "mestiços neurastênicos do litoral". Agora, é o "recruzamento arbitrário, as escórias da mestiçagem".

A esta altura, chega-se a um dos pontos nodais das concepções euclidianas da gênese do povo brasileiro e, no que nos interessa mais de perto, do homem sertanejo. Ao afirmar que o "velho agregado colonial", o português colonizador, manteve-se "preso no litoral, entre o sertão inabordável e os mares", o autor reconhece e professa que não foi o branco, mas o mestiço o responsável pelo desbravamento e povoamento do território, sobremodo do seu interior, aí se sobrepondo ao português, "a onda impetuosa do sul". Daí o autor concluir ter surgido com o paulista, "mamelucos audazes", um

"tipo autônomo, aventuroso, rebelde, libérrimo, com a feição perfeita de um dominador da terra, emancipando-se, insurrecto, da tutela longínqua, e afastando-se do mar e dos galeões da metrópole, investindo com os sertões desconhecidos, delineando a epopéia inédita das bandeiras..." 16

 

Em síntese, surgia o "empreiteiro predileto das grandes hecatombes".

Teria, então, sido o mameluco paulista, o bandeirante, a desbravar e povoar os sertões nordestinos? Não. Segundo Euclides da Cunha, anteriormente ao surgimento do sulista/paulista, mameluco/bandeirante, "já se formara no vale médio do grande rio uma raça de cruzados idênticos àqueles mamelucos estrênuos que tinham nascido em S. Paulo" 17. Essa gente, permanecendo nos sertões, pelo isolamento, portanto infensos aos efeitos das migrações, conseguiu que "se conservasse prolongando, intacta, ao nosso tempo a índole varonil e aventureira dos avós" 18. Isto porque não se modificaram, pois "o meio atraía-os e guardava-os" 19, dando, via os mesmos cruzamentos, origem a "uma raça de curibocas puros quase sem mescla de sangue africano, facilmente denunciada, hoje, pelo tipo normal daqueles sertanejos".

Neste mesmo sentido, são nítidas as "posicionalidades" do narrador-enunciador de A Bagaceira quanto à singularidade da formação étnica e social do homem e da mulher sertanejos:

E Lúcio não retrucou: limitou-se a esticar o dedo para o retrato desbotado. E, como permanecesse o silêncio pesado, comparou:
- Veja aquela boca... aquela testa!
Eram os caracteres físicos da consagüinidade sertaneja, da raça que se fixara estreme de recruzamentos impuros. 20
(...) Lúcio sentiu que lhe refluíam todas as taras atávicas, os impulsos da raça vingadora, o sentimento de família dos seus antepassados sertanejos ... 21
(...)Todos queriam desfrutar a felicidade bandoleira do paraíso pastoril. 22
Era a revivescência de uma raça de heróis-bandidos em que os homens defendem a honra e a as mulheres o amor. 23

O Sertão, na visão euclidiana, seria a tapui-retama , espécie de território dos tapuias, em que estrangeiros não entram. Assim pode o autor afirmar: "A uniformidade, sob estes vários aspectos, é impressionadora. O sertanejo do Norte é, inegavelmente, o tipo de uma subcategoria étnica já constituída" 24. "E ali estão com as suas vestes características, os seus hábitos antigos, o seu estranho aferro às tradições mais remotas, o seu sentimento religioso levado até o fanatismo, e o seu exagerado ponto de honra, e o seu folclore belíssimo de rima de três séculos" 25.

O sertanejo, na visão de Euclides da Cunha, seria então, primordialmente, o mameluco descendente do branco com o índio campeiro - o tapuia, arredio, bravo, que não se deixara catequizar, domesticar; diferenciado-se pela mestiçagem, meio e condições históricas, do mameluco estrênuo do Sul, decaído, filho do branco com o silvícola - o tupi, de boa índole, e diferenciado-se também do mestiço proteiforme do litoral - o mulato, degenerado, bem como do cafuz - negro com índio, degrau mais baixo na hierarquia dos elementos da mestiçagem. Daí poder afirmar o autor sobre o sertanejo: "É um retrógado; não é um degenerado" 26. O que significa dizer que Euclides excepciona o sertanejo da condição de mestiço, para elevá-lo à condição de raça que se formara nos sertões geograficamente insulados e culturalmente isolados do litoral e do mundo europeu. Aí, formara-se, também, pela preservação de elementos ibéricos, uma cultura própria, tida por muitos como depositária dos traços da nacionalidade, da brasileidade.

Prepara-se, assim, o autor para engendrar um intrincado processo de mitificação esterotipizadora do sertão e do sertanejo, primeiramente, cunhando a frase-sentença mais disseminada de sua obra: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral" 27. E, em segundo lugar, porque a mitização do Sertão e a herocização do sertanejo exigem a instauração de ambigüidades em sua representação. Daí a presença abundante da antítese, o oximoro, cuja síntese é o Hércules-Quasimodo. O forte, mas desgracioso, desengonçado, torto, refletindo no aspecto a fealdade dos fracos. O sertanejo seria o forte de aparência fraca.

O narrador-enunciador de A Bagaceira parece seguir-lhe diretamente as pegadas; referindo-se ao Sertão, ao sertanejo e aos seus modos de vida, afirma sem titubear:

O estudante retirou-se, monologando, ao sabor de sua ênfase:
- Reservas da dignidade antiga! Resistência granítica, como os afloramentos do nordeste! Solidificação da família! Tesouro das virtudes primitivas!... 28
(...) Era o governo. O governo era essa afirmação de arbitrariedade.
O sertanejo fazia frente a toda a tropa na confusão do conflito corpo a corpo. Seu olhar fuzilava na treva como um sabre desembainhado. 29
Para eles o governo era, apenas, essa noção de violência: o espaldeiramento, a prisão ilegal, o despique partidário... Não o conheciam por nenhuma manifestação tutelar. 30
(...) Era o tipo modelar de uma raça selecionada, sem mescla, na mais sadia consangüinidade. 31

A mitização do sertanejo para completar-se, reclama pela passagem das tipificações étnicos-raciais para as de natureza social e cultural. O sertanejo apresenta-se multifacetado e, a primeira de suas faces, de suas mutações ou metamorfoses é a de ser vaqueiro: ... "Todo sertanejo é vaqueiro". Este é o signo da formação econômica, social, cultural, ideológica e discursiva do sertão nordestino. Sertão como território povoado em função da atividade criatória, subsidiária e dependente da economia açucareira litorânea. Nesse discurso, o sertanejo é o protótipo, cuja face mais visível é a de ser vaqueiro, deste, originando-se o jagunço - ... "e da envergadura do vaqueiro surgiria, destemeroso, o jagunço". Euclides percebe o sertanejo como vaqueiro, jagunço, cangaceiro, beato, enquanto indivíduos e enquanto grupo social, "como que criados em país diverso".

É plausível afirmar-se que a obra prima euclidiana vence a temporalidade, porquanto integrou-se, modificando a formação discursiva sobre a construção simbólica da nacionalidade brasileira e, particularmente de imagens e representações do sertão e do sertanejo, portanto como e enquanto um dos seus textos fundadores. Para erigir-se como discurso fundador, o que lhe assegura a permanência, a obra provocou rasuras nos discursos seus predecessores e tem, ao longo de mais de um século, se tornado, ora pela interdiscursividade, ora pela intertextualidade, permanente, embora também rasurado, seja pelo discurso dito literário, seja pelo que se autodenomina científico, seja pelo discurso crítico-analítico de natureza hermenêutica ou exegética que busca dissecá-lo, em ingente esforço de compreendê-lo ou mesmo de interpretá-lo.

O discurso do romance A Bagaceira insere-se nesse discurso sistêmico sobre a nacionalidade, pelo viés do regional, e constitui-se em evidente rasura do discurso veiculado em Os Sertões , muito mais pela afirmação/reconstrução do que pela desconstrução de suas imagens, representações e estereotipias plasmadas sobre o Nordeste, o Sertão, suas gentes e culturas.

São incontestes a presença e rasuras da obra euclidiana nos escritores e escritos que lhes seguiram. A obra Os Sertões ecoa e atualiza-se em Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, em José Américo e Rachel de Queirós, em José Lins do Rego e Jorge Amado, em Graciliano Ramos e Ariano Suassuna, em Guimarães Rosa e até em Clarice Lispector.

 

ALMEIDA, José Américo de. A bagaceira . 26 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1988. Doravante todas as citações serão feitas a partir dessa edição. p. 4.

Ibid., p. 13.

Ibid., p. 13.

Ibid., p. 15

Ibid., p. 44.

Ibid., p. 70.

Ibid., p. 14.

Ibid., p. 4 -5.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões . Ed crítica de Walnice Nogueira Galvão. 2 ed. São Paulo: Editora Ática, 2001. p.

Ibid., p. 72.

ALMEIDA, J. A. Op. Cit., p. 19

Ibid., p. 22.

Ibid., p. 4.

Ibid., p. 16.

Ibid., p. 44.

Ibid., p. 80

Ibid., p.

Ibid., p. 93

Ibid., p. 93

ALMEIDA, J. A. Op. Cit., p. 92

Ibid., p. 93

Ibid., p. 98

Ibid., p. 104

CUNHA, Euclides. Op. Cit., p. 100.

Ibid., p. 94.

Ibid., p. 103

Ibid., p. 105

ALMEIDA, J. A. Op. Cit., p. 31

ibid., p. 37

Ibid., p. 38

Ibid., p. 40