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De como Os Sertões atravessa a literatura brasileira e o conceito de Nação
Antonia Torreão Herrera (UFBA)
Um renomado filão da literatura brasileira, notadamente de cunho regionalista, circunscreve-se em representações literárias que fazem falar o sertão ou sertões, o sertanejo e as temáticas que envolvem o espaço de vivência, a terra, o homem que ali habita e a sua luta para sobreviver, seja no encalço da história que acompanha o progresso, buscando aí um tipo de inserção seja pela subsistência material, combatendo a seca e a fome. Esse rico filão de nossa literatura teve seu momento de maior insurgência no âmbito da historiografia literária, nas manifestações do regionalimo realista, porém se dissemina de modo constante e atual como marca de brasilidade. A diversidade geográfica, climática e a imensidão do território brasileiro são elementos propícios para o desenvolvimento de representações artísticas diferenciadas, mas todavia, vinculadas a uma problemática de cunho mais amplo que é o homem e sua relação com o seu locus. Do locus ameno e paradisíaco dos românticos e das primeiras manifestações literárias que tomaram como referência a terra do Brasil ao contato mais inquieto e duro com a luta pela sobrevivência, num território hostil, é complexo o conjunto de nossas representações artísticas.
Os Sertões de Euclides da Cunha é texto fundamental nesse panorama, conquanto guarda um caráter de texto fundador e matricial, de onde emergem questões relacionadas à nacionalidade, de ordem sócio-políticas, raciais, antropológicas e etnográficas, de natureza do discurso, do estatuto da história e do ficcional, da ciência e da arte, num conglomerado que o torna matriz única, fonte inesgotável de temas e estruturas, de modelo e anti-modelo, gerador de conceitos de fronteira, região, nação considerações sobre sertão e litoral, civilização e barbárie, etnia, raça, religião, povo e língua, além da disseminação de imagens, tratado de botânica, de geofísica, de estratégia.
A proposta desse Seminário tem a intenção de traçar parâmetros para o desenvolvimento de uma pesquisa de natureza interdisciplinar e interinstitucional, no sentido de mapearmos as representações literárias e artísticas que atravessem em qualquer linha pontilhada em Os Sertões , no intuito de realizar uma cartografia ampla que possa demarcar geograficamente os espaços denominados sertão, com suas especificidades e diferenças. Em outro cruzamento, destacam-se os tópicos, os temas, estabelecendo os paralelos, ressonâncias e características de cada narrativa; o lugar do narrador e a configuração da narrativa. Os Sertões é tomado como texto matriz para direcionar as reverberações em outros textos e no contexto da nacionalidade. Para discutir os estereótipos, conceitos e imagens concernentes ao sertão, no contexto sociocultural e no âmbito das narrativas literárias, considerações da ordem do regional e do nacional deverão ser aventadas, inclusive com inserção do conceito de fronteira. E ainda considerações sobre civilização e barbárie, nós e o outro, sobre etnia, raça, religião e povo.
O estudo das imagens e conceitos de sertão (estereótipos vinculados ao sertão e ao sertanejo) perpassa por um estudo de questões social, política e ficcional, a serem estudados em alguns textos da literatura brasileira, entre eles: Grande Sertão: veredas de João Guimarães Rosa. (1956), Vidas secas de Graciliano Ramos. (1938), O Quinze de Rachel de Queiroz.(1930), Pedra Bonita de José Lins do Rego (Nordeste e fanatismo) (1938), Fogo Morto de José Lins do Rego. (1943), A bagaceira de José Américo.(luta homem e terra -Região), O cabeleira de Franklin Távora (1876), Os brilhantes de Rodolfo Teófilo, Terras do sem fim de Jorge Amado, Sargento Getúlio(1971) e Vila Real(1979) de João Ubaldo, Aquele mundo de Vasabarros .( 1982) e A casca da serpente (1989) de José J. Veiga.
Os textos prévios sobre Canudos: Os jagunços de Afonso Arinos (1898) e O Rei dos jagunços de Manoel Benício (1899) serão considerados à luz que neles foi projetada a partir da existência de Os Sertões. O trabalho do Professor Calasans de dar visibilidade ao episódio de Canudos, mediante a emergência de textos reprimidos pela sombra feita pelo Os Sertões é de grande valia para nossa memória cultural, mas não desloca o lugar profícuo e prolixo de Os Sertões . Se Euclides soube apropriar-se de fontes e misturar as fronteiras do ficcional e do histórico, da ciência e da arte, o resultado, a fatura do objeto, ganha dimensão de monumento, documento, ficção, boom de denúncia nos meios de comunicação - resultado que se consagrou como representativo e referencial inconteste do caso Canudos.
É porque nos incomoda e nos fascina que um texto é o que é. Por não ser politicamente correto, por ser polêmico, falho, por ser contraditório e por parecer tão honesto e pretensioso e principalmente pelo modo como dá forma, realiza o que se configura como uma escrita literária, pelo poder de fazer imaginar, de comover, de nos tornar perplexos diante de nós.
Os Sertões é a referência indeslocável. Os textos que vieram depois à tona, o que foi relegado, recalcado, textos diacronicamente anteriores, os já citados Os jagunços de Afonso Arinos e O rei dos Jagunços de Manoel Benício ou outras referências não ocuparão jamais o lugar de monumento erigido, cultural e socialmente, a Os Sertões . Os Sertões é um sertão/deserto a ser percorrido, atravessado pelo leitor, devassados seus signos, seus símbolos. Mais que um livro é um monumento, mais que um monumento é um espaço simbólico que se põe no lugar de Canudos devastada e, posteriormente, submersa pelas águas do açude. Erige-se, assim, Os Sertões como espaço público, como suplemento, como simulacro do espaço elidido, como espectro da guerra que não presenciamos. Estabelece-se como texto fundador e, nesse sentido, é memória nacional e construtor de imagens de nossa identidade, como espaço político, social, cultural e étnico, identidade ao avesso, ironicamente postulada.
Ao escrever Os Sertões , três anos após o término das lutas, o sujeito/autor será atravessado por inúmeras reflexões e avaliações, posicionando-se como escritor, recolhendo subsídios para composição da obra, no campo das ciências naturais e sociais, investindo muito do seu sentimento de quem viu a chacina, e tendo como fator determinante de seu novo olhar a distância histórica que lhe permite avaliar, deslocar-se do lugar fixado anteriormente e também ficcionalizar. O elemento crucial, a meu ver, nesse processo de construção da obra é sua inserção na rede da escrita literária, campo que se abre para ele como o do possível, na força de jogar com a linguagem de modo a fazê-la apanhar o não dito do relato de campanha. A função memorialística da literatura relaciona-se com seu traço de esquecimento, no sentido de que para construir opera-se uma seleção de elementos, escolhas que sustentam o tecido das narrativas sem compromisso de adesão imediata aos fatos. Esses transmudados imagisticamente ganharão força de representação e poderão dizer mais do que um relato pretensamente fiel. O sujeito observador se deslocou de lugar, o olhar já não é o mesmo, mas o que fundamenta o novo discurso é seu novo estatuto. Ali, um narrador se embrenha na difícil tarefa de narrar, criar, construir imagens, ritmos, lidando não mais apenas com os fatos, mas com esses, permeados por um modo de dizê-los que os faz negacear, deslizar, mostrando a aparente fragilidade de um narrador que, em verdade, se vale do talento de escritor para conduzir o leitor por suas oscilações, tornando-se assim mais simpático, mais vulnerável e, por isso mesmo, mais cúmplice da escrita que engendra.
Na ética da escrita, a enunciação conforma-se ao enunciado, de modo a deixar, numa escrita dessa natureza, poros de significações a serem ressignificadas. Às questões: racial (principalmente no que diz respeito à mestiçagem), geográfica e política, mescla-se o incômodo da ética do sujeito que avalia o crime de uma nação, não podendo como cidadão, defensor da República e civilizado, dele se eximir. Ao classificá-lo como um crime da nacionalidade, e ao tentar justificá-lo, cientificamente, como a marcha da civilização instala, mais do que a contradição, o conflito. Implode-se a idéia cronológica da história pela convivência de dois tempos: antigo e moderno, no espaço da Nação.
Ademais, o acontecimento Canudos está inserido no processo histórico de modernização, encampado pela República o que, para Maria Alzira Brum Lemos, no artigo Os Sertões: modernidade e Atualidade 1, significa enfrentar, no campo das políticas e das linguagens, a diversidade geográfica e humana, renomeando as etnias, as formas de organização social e a geografia.
O sujeito/narrador/autor, no ato de construção do seu texto, está, pois, envolvido numa questão ética: os conceitos de superioridade de raça, de mestiçagem, de que lança mão da Ciência em voga e a condenação do misticismo, já efetuada pela secularização do processo de modernização e de constituição das nações, o que o leva a estruturar sua narrativa de modo a poder dar conta de seu papel progressista e de homem de elite, letrado
A estratégia racional de construção do livro se desmorona, assim como as estratégias militares das diversas expedições. Nas surpresas dos embates, novas atuações se impunham, na dinâmica do narrar e as contradições imprimem na letra o melhor do estilo: a frase curta, a constatação diferenciada dos prolegômenos iniciais, as antíteses, os oxímoros. Desautoriza seu testemunho elaborado, em face do registro dos que sofriam o embate da guerra - soldados e jagunços - cronistas que rabiscavam seus "protestos infernais": "Sem a preocupação da forma, sem fantasias enganadoras, aqueles cronistas rudes deixavam por ali, indelével, o esboço real do maior escândalo da nossa história..." 2.
Toda fundamentação teórica, científica que ele tenta sustentar ao longo da narrativa, no curso dos acontecimentos, embaralha-se, toma outro rumo. Aparecem as contradições: o sertanejo é um forte e é um jagunço bronco e fanático, uma raça já constituída, porém historicamente atrasada, politicamente é equivocado, sem ciência dos benefícios da República. A República é o regime da liberdade, no qual se avança historicamente e, mimetizando a Revolução francesa, massacra os cidadãos, ou então segrega os anti-republicanos como não cidadãos. A riqueza do conflito que perpassa as páginas de Os Sertões e, mais ainda, do sujeito / autor que se representa em outros escritos, confere tensão à narrativa e força ao estilo, resultando numa fatura artística que se estabelece como tal: o livro referência.
A tentativa de estabelecer as causas biológicas, geográficas, antropológicas e sociais do conflito, respaldado na natureza do sertanejo, apelidado de jagunço, e de conferir-lhe unidade racional de visão, se esbate com a realidade múltipla dos acontecimentos, dos atos, da feição moral dos defensores da República e dos míseros sertanejos. O conflito ético que se instala no sujeito decorre da força da multiplicidade de causas, do estranhamento ante fatores desconhecidos, do inexplicável, que foge à tentativa de unificação racional que o intelecto tenta conferir. Canudos põe em xeque os valores éticos de um sujeito que lega à humanidade sua denúncia como mea culpa , como desilusão de todo seu aparato científico tão bem herdado do Iluminismo.
Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo...
Forremo-nos à tarefa de descrever os seu últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos. 3
A tragicidade de tom esquiliano, fundada no equívoco histórico, proveniente de má leitura dos signos, que atribuiu a Antonio Conselheiro e sua gente o papel de insurgentes monarquistas, dá feição a um momento histórico que se repete, com base em modelo europeu da França, que já havia realizado sua chacina interna para consolidar sua nacionalidade. O crime de fundação é também um abalar sísmico em convicções do indivíduo.
Os estados modernos trazem a marca de sangue em seu lema de ordem e progresso, em seus ideais de liberdade e democracia. As idéias em confronto, naquela luta ideológica, não eram claras nem para os soldados nem para os fanáticos religiosos, não tinham fundamentos reais nas idéias republicanas nem monárquicas, era um feixe de símbolos, que, com palavras de ordem, mobilizavam, nos homens, seus instintos homicidas e paradoxalmente gregários. O espaço de vida se confronta com o espaço da violência no mais cruel dos embates humanos: a sobrevivência de idéias acima da sobrevivência biológica. Indivíduos e grupos atuam em consonância com suas crenças, sendo a resistência assombrosa dos sertanejos um exemplo da mola propulsora do ideal de construção. Os soldados não tinham o mesmo vigor no ideário republicano, do qual só conheciam as palavras de ordem. E ademais, diante do confronto real com o povo de Canudos, era provável o perpassar da dúvida em espíritos mais perceptivos. Denuncia "o cenário terrivelmente estúpido da guerra" 4 e condena a selvageria dos trucidamentos, apontando para a face imoral do indivíduo em seus ato, desprovidos de julgamento externo:
Ademais, não havia temer-se o juízo tremendo do futuro.
A História não iria até ali. 5
A história foi até ali e esse é o mérito incontestável de Os Sertões .
In: O clarim e a oração; cem anos de Os Sertões . Rinaldo de Fernandes (org.) . São Paulo: Geração Editorial, 2002. p. 67-84.
CUNHA, Euclides da Os Sertões . In. Obra Completa: em dois volumes. 2 ed. Rio de Janeiro. Ed. Nova Aguilar, 1995. Vol. I p.458.
CUNHA, Euclides da Os Sertões . In. Obra Completa: em dois volumes. 2 ed. Rio de Janeiro. Ed. Nova Aguilar, 1995. Vol. I. p. 513.
CUNHA, Euclides da Os Sertões . In. Obra Completa: em dois volumes. 2 ed. Rio de Janeiro. Ed. Nova Aguilar, 1995. Vol. I. p. 457.
CUNHA, Euclides da Os Sertões . In. Obra Completa: em dois volumes. 2 ed. Rio de Janeiro. Ed. Nova Aguilar, 1995. Vol. I. p. 486.