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Itinerários de Euclides da Cunha nos sertões Sul-americanos - visões do poeta e do estrategista
Ana Maria Roland (Universidade Católica de Brasília)

O sol descia para os lados do Urubamba... Os nosso olhos deslumbrados abrangiam, de um lance, três dos maiores vales da Terra; e naquela dilatação maravilhosa dos horizontes, banhados no fulgor de uma tarde incomparável, o que eu principalmente distingui , irrompendo de três quadrantes dilatados e trancando-os inteiramente - ao sul, ao norte e a leste - foi a imagem arrebatadora da nossa Pátria que nunca imaginei tão grande.

(Entrevista ao Jornal do Commercio , Manaus, 29.10.1905)

 

I - As viagens de Euclides da Cunha pelo interior do Brasil constituem-se no moto de sua escrita: o escritor as demandava. Não ocorreram ao devaneio do azar e é mais acertado dizer que as buscava como pretexto para conhecer o país e ... escrever. Já se sublinhou o bastante fatos da vida nômade do escritor, iniciadas com as perdas tempranas sofridas e que o obrigaram a deslocar-se menino de cidades e de casas - um lar que parece nunca ter se estabelecido; e que se prolonga na sua demanda continuada por "regiões esquecidas e abandonadas" - a terra ignota . E, finalmente, sabe-se dessa vocação errante mais compulsória, determinada pela sua engenharia tantas vezes por ele próprio adjetivada, que o fez deslocar-se a serviço pelo interior de São Paulo, na supervisão de obras públicas por todo o norte do Estado - na anotação criteriosa de Antônio da Gama Rodrigues, Euclides percorreu 31 municípios, reconstruindo pontes, prédios para escolas, presídios, mapeando estradas e caminhos, e foram encontrados 136 autos de obras da responsabilidade do engenheiro, referentes apenas aos dois últimos anos em que ali viveu como servidor público. A engenharia também o colocou diante de inusitadas tarefas tais como a busca de uma ilha no litoral paulista para a construção de um presídio; ou a responsabilidade de dar um parecer para o restauro de duas antigas fortalezas na enseada da Bertioga, em Santos, arruinadas pelo olvido, na luta entre a terra e o mar - tão ao gosto euclidiano.

Duas viagens foram decisivas para a sua produção escrita. A primeira, ao sertão baiano, resultou na sua obra mais expressiva e acabada, Os sertões . A segunda viagem, a expedição amazônica - que chefiou pelo lado brasileiro a Comissão Mista Brasileira e Peruana de Reconhecimento do Alto Purus - menos dramática e mais cenográfica do que a primeira, e que resultou em importantes ensaios, alguns incluídos em Contrastes e Confrontos , e livro Peru versus Bolívia , publicados em 1907; e um livro inconcluso, Um paraíso perdido , que se anunciava como outra obra-monumento, publicado postumamente numa reunião de ensaios, À margem da História (1909).

O conjunto desses ensaios e artigos têm entretanto um caráter acabado e original. Se são menos relevantes conforme se diz, segundo um critério literário, do que Os sertões - este estranho livro que resiste há mais de um século em terreno cultural de tradições pouco assentadas - o mesmo não se pode dizer do seu valor científico e político. Os ensaios sobre a Amazônia - estudos estratégicos regionais nos campos da geologia, orografia e hidrografia, botânica, história, sociologia, economia política - não perdem de vista o seu grande tema, o Brasil nação, e contemplam várias questões polêmicas sobre a inserção do país no continente Sul-americano. São ensaios que possuem intrigante capacidade de antever certos problemas que só muito mais tarde foram formulados. Aqui reside uma questão que julgo importante para os estudos euclidianos: os escritos em que trata de política continental revestem-se de durabilidade e alcance diversos do conhecimento científico, por natureza datado, ainda que impregnados do contexto histórico e dos quiliasmos de seu tempo.

II. Há alguns pontos de contato e de continuidade entre a obra canônica e os ensaios escritos desde o período preparatório à viagem pela Amazônia, em 1904. Após cartas e gestões junto aos amigos - desta vez José Veríssimo e Oliveira Lima intermediam o pedido a Rio Branco, para que Euclides chefiasse a Comissão - abriu-se para Euclides uma nova crônica de explorador, agora rumo à fronteira de outro sertão desconhecido. Conforme pude analisar em estudo anterior, o paralelo entre as duas obras é inevitável, até porque aquilo que se funda na obra inaugural - notáveis constantes, inclusive de equivalências assimétricas - permanece nos escritos da Amazônia. A partir de Os sertões define aquela sua nação causa de luta , principal constante de sua obra, a permanente demanda por uma nação afeita à terra e um povo incorporado - termo insistente em seus escritos - ao curso da história. Nos sertões baianos, descobre a nação-raça , de homens rocha que venceram o deserto, no povo tapuia enterroado e isolado por três séculos do litoral, embora formado sob o influxo da civilização. Na Amazônia, encontra uma terra migrante - a "terra sem pátria" - fato a princípio condicionado pela inundação e pelo próprio efeito das correntezas do grande rio, capazes de arrastar no seu leito três milhões de metros cúbicos de árvores, galhadas e argila num só dia.

O Amazonas é o menos brasileiro dos rios. É um estranho adversário, entregue dia e noite à faina de solapar a sua própria terra ( Á margem da História, In: Obra Completa , vol. I, p. 253) .

 

Os homens são igualmente imigrantes, e na selva tornam-se errantes e "decaídos", dada a insalubridade do clima e da condição servil que os aguarda nos seringais, onde formam um contingente de devedores do barracão, até mesmo das parcas ferramentas de trabalho. O seringueiro, na definição do escritor, é o prisioneiro da mais criminosa organização do trabalho que ainda engenhou o mais desaçamado egoísmo . Euclides retorna ao seu primeiro protagonista, o sertanejo do Norte, dessa vez para narrar a queda do herói. Só o caboclo resiste e se submete ao regime de servidão e ao deserto insalubre; os sulistas se vão. O paraíso exuberante das florestas úmidas torna-se, no texto euclidiano, o "paraíso diabólico dos seringais" - de anjos caídos. O escritor busca o efeito do paradoxo para intensificar o imenso conflito:

... o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se.

A economia extrativista da Amazônia brasileira e mais ainda da peruana que forjou um regime de "caçadores de árvores" e de nômades "fazedores de deserto". Os caucheros do Peru derrubam a cada investida uma árvore, a castiloa , cujo látex logo se extingue, e é ademais uma espécime mais rarefeita do que a seringueira, provocando o permanente nomadismo desses extratores do caucho. O tema da desertificação pela ação humana, lembremos, tem lugar destacado na análise euclidiana do sertão do Norte árido, e o entreviu nas queimadas, as capoeiras herdadas dos indígenas.

Mas outra vez o epicentro do conflito, na narrativa euclidiana da Amazônia, se situa na luta preconcebida entre a natureza e a vida, e nela o grande personagem é o rio, a floresta aquática; os homens e as árvores são pobres coadjuvantes na "imensa batalha sem ruídos" dessa geia ainda informe. É uma visão da terra e dos homens que se estrutura como as narrativas míticas, e onde a interpretação do fenômeno físico se traslada para uma aproximação analógica da physis com a condição dos humanos. Lembramos aqui a elegante análise de Nicolau Sevcenko - Literatura como missão 1 - onde observou uma característica do texto euclidiano, a transparência com relação à realidade dos fatos, e a passagem da notação da realidade à generalização e à abstração, conformando um saber, um texto científico e, jamais, o tratamento ficcional da história ou de um suposto romance histórico. Tais procedimentos conduzem mesmo assim

à realização de um drama em que os personagens são os próprios agentes naturais (...) Se o âmago da literatura reside nas vicissitudes da vontade dos personagens, Euclides dota a natureza e os seus elementos de infinitas disposições (Sevcenko, op.cit., p. 131) .

 

De acordo ainda com Nicolau Sevcenko, no texto euclidiano "as potências físicas são personagens mais bem acabados do que os indivíduos". E, em caminho inverso, o "escultor de personagens" é capaz de transformar um sujeito histórico em idealização de forças impessoais. Como procedeu em Os sertões , os homens guardam os atributos da terra e, nos escritos amazônicos, são migrantes nômades e instáveis, fragilizados pelo regime climático mórbido e pela terrível monotonia da paisagem. Da analogia entre a natureza e a história, o narrador avança para uma figuração metafórica da realidade, e fica a sugestão de que as forças históricas são comandadas por leis misteriosas do real, muito além da geografia e da geopolítica regional. Ao fim, como no mito reúne dimensões díspares e descontínuas no mesmo espaço narrativo:

É o efeito maravilhoso de uma espécie de migração telúrica. A terra abandona o homem. Vai em busca de outras latitudes. E o Amazonas, nesse construir o seu verdadeiro delta em zonas tão remotas do outro hemisfério, traduz, de fato a viagem incógnita de um território em marcha...

 

O fluxo entre os campos já se operara na primeira viagem, e o saber científico tem conexões abertas, desimpedidas, com a narrativa mítica e a profecia: aproxima-se outra vez da Geologia, no que tem esta ciência de visionária, substituindo as "profecias retrospectivas" das idades remotas da terra, de Huxley - expressão de que se vale mais de uma vez - por um texto apocalíptico em que o juízo final permanece em aberto e em curso ( viagem incógnita ). O escritor está bem acompanhado, então, nessa ciência que concebeu consorciada à arte - com que respondeu oportuno ao crítico José Veríssimo - e até surpreende-se, como Frederico Hartt, citando-o, nessa condição ambígua de cientista e poeta:

...tão despeado das concisas fórmulas científicas e tão alcandorado no sonho, que teve de colher de súbito todas as velas à fantasia. - Não sou poeta. Falo a prosa da minha ciência. Revenons!"

 

Serenada e já distante a contenda entre dois cânones - da ciência e da arte - que enfrentara nos primeiros tempos de sua carreira literária, e agora pertence a dois dos fóruns mais importantes do país, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil e a Academia Brasileira de Letras, coexistem enfim com todo o desaire, a partir da missão amazônica, o poeta visionário e o engenheiro militar politécnico - que nunca deixou de ser. E ressurge mais nítido, no narrador euclidiano, a voz do orador político. O orador está agora mais à vontade. Não para denunciar os crimes da nacionalidade, naquela suspensão da narrativa, reticente e ameaçadora, da página final de Os sertões ; mas sim para falar mais próximo, ladeando, ao governante, advertindo-o, informando-o, aconselhando-o. É o conselheiro do rei .

No mesmo estilo grandioso e eloqüente, é um escritor cada vez mais "interessado" e militante. Surge francamente o estrategista político, a propagar obras pioneiras e de reforma social, para consolidação das fronteiras mais remotas do país (... a urgência de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada ) . Parece fora de dúvida que a viagem à Amazônia aguçou o seu interesse crescente pelas questões continentais e de estratégia política brasileira, interna e externa. É esta última escrita que desejo percorrer a seguir e localizar alguns eixos, algumas constantes temáticas e desdobramentos, que possam contribuir para os estudos euclidianos.

III. O impacto da expedição amazônica na escrita euclidiana pode ser lido, ainda, como desdobramento de uma visão estratégica do Brasil no continente Sul-americano, embora permaneça uma escrita literária, feita com recursos diversos e num registro épico. O Brasil permanece então o objeto de sua escrita e afeição maior, enquanto surge o interesse pela questão continental Sul-americana. Mais além, tem nele aguçada a preocupação com problemas estratégicos de defesa nacional em face das "nações robustas", a que chamou francamente de imperialistas, vislumbrando naquela quadra uma "expansão imperialista das grandes potências"- incluía além da Inglaterra, de sabida tradição colonizadora, Estados Unidos e Rússia, e em aspectos mais pontuais, a França, a Holanda. As questões geopolíticas de franco interesse para o escritor não se restringem ao terreno das relações de força bélica, que até considera ultrapassadas, em face de novas questões de soberania nacional advindas de fórmulas mais contemporâneas de colonialismo, imposto agora pelo saber, pela técnica e pela ideologia.

Em ensaios desse mesmo período analisa óbices virtuais ou em curso que possam comprometer a inserção do Brasil no plano internacional. O engenheiro militar enquanto declara, por exemplo, aberta simpatia em relação à solidariedade política com os países vizinhos Sul-americanos, e com os demais latino-americanos, no mesmo passo condiciona inteiramente esses vínculos, de vasto fundamento histórico e cultural, aos interesses da nação brasileira. Em "Solidariedade Sul-americana" reivindica a imagem de serenidade do Brasil ( povo cavaleiro andante ) - o republicano evoca até a figura do Imperador como símbolo unificador e estável - como argumento de propaganda política que no passado impedia, no plano externo, a identificação com a desordem caudilhesca de pequenas nações do continente.

Dentre os ensaios que versam sobre questões de interesse estratégico do Brasil na imensa região alagada e fronteira com o Peru, destaquemos o projeto de uma ferrovia Transacreana, que serviria tanto como um cinturão de defesa, em caso de um possível conflito de fronteira, pois iria ligar em sentido transversal dois portos extremos (Cruzeiro do Sul e Porto Acre) e os demais rios que atravessam o então Território do Acre, e que "caem, de rijo...sobre a fronteira". De acordo com o estrategista, essas avenidas fluviais permitem o avanço sobre os vales e até possibilitaram a expansão das fronteiras brasileiras; mas, em caso de conflito com os países vizinhos, tornam-se flancos vulneráveis às investidas e, neste caso, vencidos em pontos isolados resta-nos o recurso único do recuo . O estrategista mostra, enfim, a outra face, a do diplomata, exortando - o leitor? - à necessária missão de ampliar o raio civilizatório e à desejável integração continental:

...o que se deve ver naquela via férrea é, sobretudo, uma grande estrada internacional de aliança civilizadora, e de paz ( p. 319).

 

Finalmente, destacamos uma questão mais ampla e mais complexa, em termos geopolíticos, entre as proposições e projetos euclidianos, e que respondem e antecipam a questões afetas à inserção do Brasil não apenas no continente Sul-americano, mas no plano mundial. No contundente artigo "Viação Sul-americana", examina a viabilidade da abertura de uma ferrovia de ligação do Atlântico brasileiro com o Pacífico, vale dizer, do porto de Santos, via La Paz e derivando por Arequipa. Antevia que no Pacífico, na Ásia e em especial no Japão "renovado", convergiriam "as energias do futuro".

Tão convencido estava dessa tendência da civilização na direção do Pacífico, quanto do futuro estratégico da Amazônia, no mundo. A região amazônica era, já naquele início do século XX, em seus termos o palco agitadíssimo de um episódio da concorrência vital entre os povos , antevendo a cobiça com que hoje as nações hegemônicas designam sob o eufemismo de "internacionalização da Amazônia". Naquela região remota em que reside um depósito de riquezas para a sobrevivência futura da nação, residiria também um alvo de virtuais conflitos separatistas ou intervencionista,

...onde mais cedo ou mais tarde se há de concentrar a civilização do globo, a Amazônia, mais cedo ou mais tarde, se destacará do Brasil...

E então, a estratégia de defesa por ele formulada é enfaticamente aquela mesma preconizada em relação aos jagunços e à população do Arraial: a incorporação de territórios e populações, seja na direção da expansão do raio de ocupação ou povoamento e a ser efetivada pelas vias de comunicação - estradas, ferrovias e linhas de telégrafo; seja pela expansão das idéias e da cultura letrada. Porém não é uma expansão de mão única, mas feita com ações que incorporem de lá a força e o gênio do sertanejo. Euclides quer fundar também na Amazônia, uma civitas no sertão. Veja-se o elogio comovido ao encontro com a cidade de Lábrea, "uma verdadeira cidade" no coração da floresta, com seus dois jornais, teatro, escolas.

Quando a questão tratada abrange os sertões dos países vizinhos Sul-americanos, são os interesses brasileiros que estão em jogo. Em face das "nações robustas", entende que é imperativo desenvolver uma armadura defensiva, a que chamou de "nativismo provisório", um ponto de vista brasileiro que enfeixasse um nacionalismo profilático e defensivo contra a expansão das nações poderosas. Em todos os percursos feitos, Euclides da Cunha inaugurando o moderno ensaísmo brasileiro se firma nessa odisséia de regresso às fontes da nacionalidade : quando viu passar uma ferrovia, que ligasse o Brasil ao Pacífico; ou quando trata do avanço dos seringueiros no território do Acre e os enxerga como agentes de povoamento, de incorporação daquelas fronteiras, fala de um ponto de vista brasileiro e de uma definição de soberania política e cultural. Este é o principal fundamento do seu nativismo provisório em que a simpatia pelo estrangeiro, baseamo-la, até movidos pelo egoísmo, nos nossos interesses imediatos e mais urgentes.

O narrador euclidiano comparece enfim com os seus desembaraçados recursos de cronista de feitos históricos, que já revelara na dramatização da luta sertaneja. Reaparece o cronista, mais sintético e mais econômico que o revelado nos sertões baianos e busca na Amazônia os seus personagens, o bandeirante pioneiro e o missionário, no jagunço. Porém o narrador se contém e sabe surpreender o leitor ao deparar-se nos ermos da Amazônia peruana com registros da presença de um grupo de pioneiros, que para ali se deslocaram e fundaram, na selva desértica, um núcleo próspero de povoamento em Puerto Victoria . Vingaram onde outros imigrantes alemães e franceses, fracassaram, e provocaram o ciúme nativista peruano que de lá os expulsaram: eram jagunços nordestinos - cearenses, paraibanos - a quem chama justamente de "Brasileiros" - assim com aspas, talvez para indicar que lá do outro lado da fronteira, o jagunço rude é um agente civilizatório e um cidadão incorporado à nação brasileira.

Os sertões , livro fundador da própria obra euclidiana, habita a missão amazônica. Do ponto de vista do traslado são ambos experimentados como uma provação de um viajante pelo deserto, numa entrada pela terra intacta, de onde 'observa' a formação da terra continental, nas sucessivas idades geológicas, tanto no narrador do sertão de Canudos quanto deste narrador que avança através das fronteiras Sul-americanas. Mas a travessia decisiva do escritor é aquela formulada com grave e trágica solenidade, a partir do sertão da Bahia, diante da incompreensível resistência do povo do arraial de Canudos. Opera-se a condensação de seu mais insistente tema, a busca da "rocha viva da nacionalidade", representado na narrativa que conhecemos: o heróico exército de miseráveis a impor a um numeroso exército, municiado com armas de repetição, cinco revezes vergonhosos, antes do massacre final. Daí advêm as semelhanças entre os dois itinerários. O inimigo transmudou-se, mas o exército sertanejo, o inimigo invisível nas trincheiras de espinhos, herói da epopéia de Canudos, permaneceu no terreno da batalha e na história - e esta foi a sua descoberta decisiva.

... aquela rude sociedade, incompreendida e olvidada, era o cerne vigoroso da nacionalidade.

 

Ali na Amazônia e se estendendo para o pantanal, na fronteira com a Bolívia, as questões geopolíticas e diplomáticas se impuseram, e Euclides da Cunha reencontra íntegro suas múltiplas vocações, compreendido agora a de homem público.

Precisamente no trecho final da viagem amazônica, a última visão narrada de seu trajeto naquela terra sem pátria , apreciada na outra margem, condensa o moto insistente de sua obra. Ali, na última estação da penosa viagem, no vale do Pucani - "a mais meridional de todas as nascentes do Purus" - tendo adiante os últimos poços rasos das nascentes do grande rio, no tempo da vazante, alcançadas em canoas e em "ubás esquias", a remo e varejão, a pé; enfermo com febre de impaludismo e carregado pelos auxiliares, o escritor se volta e vê - uma aparição... Completa a travessia, já não é da geografia o cenário que enxerga - e esta é uma questão que os teóricos do nacionalismo têm ainda a aprender dos escritores e poetas. Abandona subitamente a descrição, o relatório de viagem, e se envereda na confissão, breve e sintética: vê, comovido, um cenário majestoso, revelador - porque vem ao encontro da sua insistência visionária - do Brasil.

Nascia ali um trecho denso, embora inacabado, da literatura missionária de Euclides da Cunha.

 

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão - Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1983.