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Travessias finesseculares: o discreto charme das cidades modernas
Rogério Augusto Lima de Britto (UFRJ)

Senhor professor, há duas semanas o mundo ainda parecia em ordem...,
Não para mim.

Theodor Adorno à revista alemã "Der Spiegel" em 1969.

 

Este trabalho visa pensar as cidades modernas ao mesmo tempo em que pensa analogamente à Literatura. O nosso foco é a cidade de Manaus que no final do século XIX e início do XX teve papel preponderante quando se pensa economia e sociedade analogamente às transformações que o capital trouxe para a região nesse período. No entanto, o deslocamento do capital e o enfraquecimento das relações econômicas fez com que a cidade de Manaus entrasse em profundo declínio criando uma cultura urbana da exclusão e da violência. Essa significação social da autoridade se dá por meio do sentido que a violência ganha nas esferas sociais. Desse modo, o que se vê no conto A caligrafia de Deus , de Márcio Souza é uma visão pré-definida do que seria a violência nos bairros de periferia, é o olhar do outro sobre a natureza das ações praticadas entre seus pares.

Em virtude disso, a cidade é reflexo de uma trajetória intelectual marcada por um esquema de forças políticas com interesses bem definidos, plantados na atual evolução da marcha do capitalismo, conhecida como neocolonialismo. Tal proposta, em primeiro lugar, é uma abordagem em que o neocolonialismo está associado à idéia de poder imperialista fortemente centrado em métodos despóticos de manipulação que se formou em todo o mundo a partir do levante das antigas colônias contra as metrópoles dominadoras. Com isso, os países centrais e detentores do poder econômico encontraram nessas antigas colônias um vasto espaço para o seu crescimento e enriquecimento. Nesse sentido, o capitalismo monopolista centralizado nos grandes países traz à tona uma proposta política de crescimento vinculado ao sistema internacional que nada mais é do que a internacionalização da economia numa escala elevadíssima, a ponto do capitalismo internacional atingir proporções sem precedentes no interior das nações denominadas e periféricas. Essa dependência periférica influencia profundamente a dinâmica dos países dominados. No entanto, se por um lado, as estruturas de desenvolvimento impostas pelo capitalismo internacional resultam numa dinâmica em determinadas regiões ou localidades; por outro, tal política se apresenta de forma completamente diversa nas demais regiões como sendo fruto de uma avassaladora erosão cultural.

Dentro desta perspectiva, o eixo principal passa pelo contraste cada vez mais acentuado do mundo moderno, das imagens urbanas, da inseparável forma de exercer a hegemonia econômica, política e cultural.

Contrariamente às modas prevalescentes, a cidade tenta reduzir aquele que a observa à estupefação. Certas tentativas de compreensão da cidade costumam vê-la como espaço da imensidão, da multiplicidade e do fragmentário, como objeto mutante e, de certa maneira, caótico, desorganizado. Esfinge aparentemente indecifrável, a cidade moderna é definida por uma certa mitologia do urbano como espaço de desordem e da ausência de lógica organizacional. Expressão, por um lado, de uma vida que aflora como tumor, indiscriminada e abundantemente. Por outro lado, porém, a cidade pode ser vista como o espaço por excelência da civilidade, e daí torna-se, contraditoriamente, o espaço da regra, da delimitação dos contornos e dos papéis, como espaço e instrumento de regularização da vida social.

Por isso, é importante pensar as cidades modernas através da diversidade levando em consideração a idéia de cidade que imprime contornos e ritmos variados.

No vasto e intrincado painel que se desenha em torno da cidade moderna , os efeitos do pensamento diante das imagens projetadas no cotidiano nos remete de forma quase descritiva e imediata ao plano das percepções fenomenais, dando conta de uma certa maneira como as representações vêm sendo apreendidas e representadas. No conto A caligrafia de Deus , de Márcio Souza, temos a ruptura da promessa de felicidade, onde certos espaços, certas possibilidades de imaginar outras formas de viver, de trabalhar e de sentir são esgarçadas, de difícil separação entre a barbárie e a civilização.

Se pensar as cidades é pensar a diversidade, em A caligrafia de Deus a idéia da cidade de Manaus é o mundo da barbárie. Sem uma mediação clara que nos permita vislumbrar as diferenças que tomam corpo nesse universo, a imagem que temos da cidade é de um organismo esquizofrênico que perdeu o encanto sem ao menos analisar as circunstâncias que mostram, de maneira diferente, na tradição ocidental a cidade moderna tem sido o ponto de convergência de processos diversos, onde a mesma é um sem número de traços, linhas, cores e sinais que deviam ser compreendidos historicamente como partes integrantes de diferentes fenômenos sociais.

Sem sutileza de estilo, a felicidade não é para todos. A promessa, essa sim, chega de forma fetichizada; manipulando, enlouquecendo, criando sucessivos mecanismos de beleza, riqueza e sucesso. É a identificação com o opressor. É o consumo de imagens projetadas por meio da “lanterna mágica” que, de forma grosseira reduz o indivíduo a sujeito social autônomo, fragmentário, leve e pitoresco.

Desta maneira, uma cidade, à medida que se acerca de olhares, parece aumentar de tamanho rapidamente, como se quisesse preencher por completo todo os espaços. Eis aí a fantasmagoria do mundo, a ótica ilusionista que aumenta ou diminui de tamanho as imagens projetadas através da manipulação de lentes.

Como se vê, o espetáculo da fantasmagoria, associada ao espaço urbano da cidade e suas construções urbanístico-arquitetônica renovadoras forjaram novos cenários conforme a projeção desses sujeitos que, sem nenhum projeto crítico que se oponha frontalmente à lógica do capital, que dá sentido às tensões do cotidiano, do sujeito dividido e conflitante acerca dessa realidade histórica e imaginária, criando ele próprio cenários teatrais capazes de renovar com maestria as facetas do espaço urbano, trazendo promessas de felicidade, mesmo que ilusórias e banais, apontando uma forma diferenciada de se combater a dureza da realidade.

Por isso mesmo, é preciso ver a cidade de Manaus como um livro, cifrado é certo, mas legível se os caminhos e ruas forem percorridos com afinco. Não há que se esperar clareza da cidade, ela não é transparente, por outro lado deve-se evitar a facilidade dislumbradora de vê-la como espaço caótico, refratário à análise. Ao observar a cidade descobrimos várias cidades, vários prismas, vários universos, e subjetividades que aí transitam, significam a si mesmos e ao que os cerca. Essa é a cidade que tem voz - mesmo quando não consegue ressonância.

Mais que um já estar posto no presente da metrópole ou da grande cidade, percebemos a grandiosidade dos projetos para a economia brasileira em especial e latino-americana no geral, onde há sempre um sentido econômico na realidade urbana. Por isso mesmo através do olhar de Max Weber, o conceito de cidade implica a centralização do mercado , conseqüentemente, a divisão do trabalho, o consumo, a produção, a renda, o dinheiro. De resto, há uma outra dimensão decisiva para caracterizar a cidade, que é a diversidade , que ao mesmo tempo é dividida e conflitante. É o cotidiano que se altera de maneira radical, sem que se entendam as causas, contrastando o mais pacato e o mais rotineiro com o mais inesperado e estranho.

Posto em contexto social mais amplo, somos levados a pensar a própria condição humana nos limites estipulados pelo capitalismo que em nenhum momento, visa eliminar o caráter de submissão que se encontra desde muitos anos plantado no coração desse povo.

De uma série de questionamentos, alguns passaram a ocupar papel de destaque: a compreensão das discussões que se faz hoje em relação à modernidade; a busca de seu antigo perfil e a representação de um novo tipo de sistema social o qual concentra-se sobre as transformações institucionais que beiram uma nova ordem mundial; a relação entre cidade modernizada e periferia atrasada. Essas questões de caráter amplo, são resultados de uma busca incessante a partir dos referenciais econômicos, históricos e literários. Alguns leitores menos avisados fazem questão de dizer que não há um eixo de ligação entre a Literatura propriamente dita e a Economia ou a História. Temos a certeza de que o estudo da Literatura somente adquire significação se ela for capaz de estabelecer pontes, de refletir, de formular questões em função das inquietações que emergem no mundo. Assim, os conceitos culturais, históricos e econômicos ajudam-nos a olhar de forma diferenciada às evidências emergentes, ao invés de se apresentarem como categorias analíticas de abordagem.

Com isso, a forma literária toma distância, muda a direção do olhar, sem endossar o mundo abstrato das coisas, dialogando com outras coisas que se tornaram alheias, distantes, refratárias e que ao mesmo tempo provoca um mal-estar perene nos sujeitos identificáveis nas cidades. Digo isso porque quando se lê A caligrafia de Deus , fica evidente a violência da Manaus que coabita a barbárie e a civilidade e busca, em salto grandiosos da metrópole periférica que se moderniza.

Inseparável da cidade moderna, a violência é um tema difícil explorado o mais das vezes como exposição nua e continuada de diferentes circunstâncias.

Assim, um pouco como faz Rubem Fonseca com o Rio de Janeiro pós anos 70, em que a brutalidade é posta crua e direta, sem mediações construtivas, Márcio Souza nos mostra os conflitos de classe na cidade periférica em vias de modernizar-se. Pecando em algumas sutilezas, as quais que a cultura política das elites locais tem permitido transformar o sono sobre um barril de pólvora em repouso em berço esplêndido. Afinal, por séculos a fio eles não apenas conviveram como reproduziram mediante a exclusão social o tipo de sociedade mais estável para seus propósitos.

O que mais choca é o amoralismo dos bandidos. Seja no Rio de Janeiro de Rubem Fonseca ou em Manaus de Márcio Souza, em nenhum momento eles são atormentados por qualquer remorso, qualquer culpa. São perversos e frios, venham das camadas populares ou dos estratos superiores. Por assim dizer, A caligrafia de Deus, é o retrato da violência tipicamente brasileira, em que os pobres são as personagens principais, não como sujeito identificáveis num universo determinado pelas relações entre centro e periferia, ou mesmo através de mecanismo reais de poder em que, de fato, conflitos e contradições apontem sempre para um mundo fetichizado das mercadorias. Não, não é a promessa de felicidade que estancou, ou o sonho de uma vida melhor que acabou obstruído pela fragilidade do sistema ou mesmo pela utopia da vida social. Sem qualquer ilusão de mudar a realidade, o cotidiano e a história são postos numa rica ilusão imaginativa, onde a realidade e a imaginação se misturam na incursão policial, cheia de pistas astuciosas. As cidades parecem vazias de inquietação ética, a não ser por alguns indivíduos que, em meio ao horror, agem movidos por um sentimento qualquer de justiça, como é o caso do criminalista Mandrake, em A grande arte , o delegado Vilela, em A coleira do cão , e o comissário Mattos, em Agosto .

Contrariamente, em A caligrafia de Deus , temos o comissário Frota. Policial violento que percorre as ruas dos bairros excluídos em suas operações que figuram entre ilusões da realidade e miopia histórica, numa espécie de guerra civil não declarada. Às vezes esta violência brota das circunstâncias sociais. Outras vezes ela emerge de pulsões subterrâneas dos indivíduos que experimentam o fascínio do mal, independentemente da classe a qual pertencem. São sujeitos que se desenraizam e são lançados na vida urbana, de maneira abrupta e violenta, tendo que se adaptar às novas regras do jogo, muitas vezes sem o apoio dado pela comunidade, pela família, pela religião, pela cultura. Estes personagens, inabaláveis na sua força motriz, trazem a magia, o sonho, o subconsciente, as drogas, o erotismo, o jogo, o acaso, a infância e mesmo a loucura como vias de acesso, como formas de ir além da rígida determinação pragmática do real.

Neste estilo, sai de cena o lirismo ordenado que busca decifrar os inúmeros movimentos da vida cotidiana e entra a figura do comissário capaz de dar murros, de arrancar confissões de personagens que transitam entre o bem e o mal. Num mundo sujo e infame, onde a moral e a ética foram dissolvidas, onde o vilão e o mocinho desaparecem, estes personagens erguem um protesto quase solitário contra esta realidade que apesar de tudo continuará suja e infame, seja o criminoso eliminado ou não.

Antes de continuar, cabe distinguir nesta mistura ideológica Dois irmãos , de Milton Hatoum, onde a cidade de Manaus é uma personagem que ocupa um lugar central e que não se deixa levar por pistas falsas de culpa e pecado. Nesse romance de 2002, em que o autor utilizando forma literária bem elaborada, faz emergir o encontro de civilizações e culturas muito diversas, onde um filho de libanês situa todo seu imaginário. É a celebração da vida, do acaso, do amor, do jogo e da imaginação, esses antídotos contra a violência pura e gratuita, a rotina e o tédio. Hatoum pertence a grande linhagem dos escritores modernos, que levaram a linguagem a seus limites, que romperam as formas convencionais de narrar, que inventaram novas maneiras de viver o cotidiano, de buscar outras maneiras de olhar o mundo desencantado, sem reduzir o realismo a meros efeitos de realidade ou mesmo transformar o texto literário num objeto auto-referente.

Bem contextualizado, Hatoum passa por uma discussão mediada em que os problemas econômicos, político e de classes são tratados de forma sistemática e pontual. Mesmo o leitor mais desatento, não passará despercebido pelo tom crítico que de forma alguma deixa de passar pelas diferenças sociais concretas e bem determinadas.

Num nível de maior complexidade de elaboração, fica cada vez mais claro que uma compreensão satisfatória do processo de modernidade tardia nas cidades contemporâneas não poderia ser desvinculada de uma análise mais profunda que fosse capaz de dar conta da constituição e das transformações ocorridas em dois eixos simétricos: o eixo das abcissas que abarcaria todo o processo histórico, o qual resgata desde a colonização com o modo de produção escravista, passando pela formação do sistema mercantil e o advento do liberalismo até chegar à modernidade imposta; e no eixo das ordenadas, onde deparamo-nos com a abordagem específica da cidade moderna como lugar de leitura que se desloca desse mundo chapado onde a periférica representa o meio do nada e o centro é permeado de miragens e ilusões fáceis e oportunistas.

Ao contabilizar esse trabalho pertinentes às cidades modernas, surge a preocupação de operacionalizar todo o processo de constituição de um projeto que não olha a cidade como paraíso perdido, nem terra prometida, nem condenada ao progresso, nem a fatalidade do atraso. Essa diversidade é uma das características mais marcantes da cidade moderna.