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Mongólia, a narrativa do não-lugar
Nádia Regina Barbosa Da Silva (UFF/ Universidade Estácio de Sá )

Não seria a literatura moderna, como diria Rancière, a doença da linguagem, doença que serviria de sintoma para o estado da sociedade? Indaga Luiz Costa Lima 1 em artigo dedicado à questão do ficcional, em Teatro , romance de Bernardo Carvalho. Costa Lima ainda esclarece: “ contudo, para que se revele como doença da linguagem, o texto literário há de diminuir suas concessões ao leitor, isto é, não pode conceder que ele a receba como divertimento” .

Essa doença, indicadora do que se passa na sociedade, articularia esse diagnóstico a um dilema de todo romancista: como construir algo incomum sem a perda do leitor majoritário, “que antes se interessa em ser cativado pelo enredo do que pelas questões que formule?” 2.

Carvalho parece ter tido em mente essas questões quando escreveu Mongólia, um romance pós-moderno, incomum do ponto de vista da maneira de como o autor conta a história, ou seja, da enunciação, onde ficção e realidade se misturam em forma de diários de viagem e narrativa ficcional. Ao contrário dos outros romances anteriores, como Teatro, onde o autor parecia buscar tornar verossímil o inverossímil, em Mongólia isso se resolve, e a ficção se revela com propriedade, sem ceder ao leitor empírico, ao mesmo tempo em que sinaliza um estado de sociedade e de cultura contemporâneas.

Sobre esse romance, já um clássico, como diria Beatriz Resende, muito se pode arriscar a dizer. A começar pelo fato de ter resultado de uma encomenda.

Pela segunda vez um romance do escritor envolve a problemática da encomenda na literatura e, por conseguinte, o papel do autor (e do editor). Porém, é sempre na resposta a ela que o autor se impõe. Inicialmente podemos crer que a encomenda, sendo um mecanismo de repetição, pode ser encarada como programa a ser cumprido - e o escritor obedece-lhe aos termos como se lhe ditassem o livro - ou pode ser encarada como um problema a resolver - e aí o escritor busca nos termos da encomenda o intervalo da possibilidade de escrever um livro.

O mais significativo é que essa singular conjunção de perversidade e de um apurado sentido da composição romanesca, típica dos livros de Bernardo Carvalho, parece forjar-se para responder a esta encomenda. E daí que, de modo paradoxal, Mongólia também seja, como Medo de Sade – o outro romance encomendado -, ao mesmo tempo uma plena e inteligente resposta à encomenda e uma fuga radical aos termos dela.

Podemos afirmar que a encomenda é um modo de produção de literatura, à medida que tem em vista o mercado. A origem deste livro está na bolsa que a Fundação Oriente e a editora portuguesa Cotovia concederam ao escritor, enviando-o em viagem ao país escolhido, a Mongólia, para escrevê-lo.

Essa relação literatura/mercado/consumo, um tanto perversa se pensarmos de forma romântica e ingênua, se faz na extensão exata e efetiva da trilha da modernidade. Hoje, em tempos de globalização, vivemos uma exacerbação da situação observada no século XVIII, momento de ruptura da modernidade, cuja referência histórica é a Revolução Francesa, otimista, burguesa, racionalista e hipócrita, quando se desenhara o princípio que ainda fundamenta ideologicamente, nesta modernidade tardia, um modelo social, perverso e cruel. Esse princípio se configuraria, enquanto expressão, no resultado da engrenagem da técnica ligada à cultura capitalista, que funcionaria como a máquina de expressão deleuziana 3, numa relação direta entre técnica/ desejo/ consumo/crueldade. Máquina essa que desloca, (des)centra, diasporiza. Essa é a primeira questão, que, a rigor, não se desvincula da seguinte.

A segunda, diz respeito ao texto em si. Em certa entrevista, Bernardo Carvalho foi questionado quanto ao que se espera de um escritor, a que respondeu: escrever bem é um a priori . Logo, todo apelo político, social ou de outra natureza será sempre secundário diante do trabalho com a linguagem, próprio da literatura. Se a obra não se realiza no plano estético, não haverá "vozes" ideológicas, sociais ou políticas, presentes na própria linguagem, que a justifiquem. Nesse sentido, a resposta dada pelo escritor sintetiza, de algum modo, a sua obra, sobretudo Mongólia , no que tange ao apuro da linguagem, cujas "vozes" inerentes se encontram em harmonia, a despeito dos sintomas que sinalizam.

O romance, uma espécie de diário de viagem escrito ao longo de cinco mil quilômetros de andança pelo país asiático, é menos um relato de um choque cultural do que a criação de um não-lugar, em linguagem bem cuidada, de alusão à temporalidade capitalista globalizada, que nos convida à reflexão.

No relato, um dos personagens afirma “ na Mongólia, lugares diferentes têm o mesmo nome, como se o próprio terreno fosse movediço.” Isso nos remete a uma sensação de delírio, recorrente nas escrituras do autor, juntamente com seus relatos espiralados, com sua tipologia paranóica do discurso, suas identidades confusas, buscas por verdades que se esgotam por si e, finalmente, com a repetição. Tudo isso podemos vincular à figura de teatro que é o autor. Do teatro das relações sociais, do cotidiano do homem esquizo, por si teatral, que se vê num tempo comprimido, o qual o estilhaça no espaço pulverizado da pós-modernidade.

Nesse romance está presente uma concepção de lugar como delírio, ao mesmo tempo paranóico e racional. A paranóia, lembremos, é a perda da possibilidade de distinguir entre ficção e verdade (e portanto de verificar suas interpretações); dito de outro modo, paranóico é quem perdeu o uso dos indicadores que servem para distinguir o que é do que não é realidade 4. Isto é sentido no texto. De um lado pela sua estrutura formal, assentada em três níveis narrativos que se misturam: o do narrador (ex-embaixador brasileiro na China), responsável pela investigação diplomática sobre o desaparecimento de um fotógrafo brasileiro no interior da Mongólia; as anotações (espécie de diário e desabafo) de um diplomata escolhido para encontrar o desaparecido e o diário do desaparecido. Por outro, na sensação de estranhamento diante dos lugares, causada pela percepção, passada pelo narrador, do aspecto inóspito e artificial do lugar, ou do não-lugar, que dinamitiza ou desconstrói estereótipos, levando a uma sensação de deslocamento ainda maior dos narradores. Porém, esse deslocamento, ou essa sensação de deslocamento, não significa a condição de estrangeiro num país estranho, a Mongólia. Significa, talvez, a situação de estrangeiro no Mundo, sem referências e pertencimentos, agravada pela condição pós-moderna e inserida numa cultura, ao mesmo tempo, localizada e global, diaspórica, sem fronteiras, places de passage , como diria Derrida.

A narrativa que poderia parecer, portanto, um relato de “choque de civilização”, uma reflexão sobre o desconforto causado pelo desconhecido, pelo diferente, pelo outro, revela-se como um relato de um mal-estar claustrofóbico globalizado, que registra a perplexidade do homem ocidental em viagem ao Oriente. Um Oriente que ora parece um exílio indesejado, ora um abrigo buscado. No romance, o narrador principal relata o seguinte a respeito do diplomata escalado para localizar o desaparecido:

 

Desde que pusera os pés em Pequim, a cidade lhe parecera opressiva e irreal, outra capital do poder, como Brasília ou Washington, que era justamente do que ele vinha tentando escapar. Sofria de irrealidade. Era mais um pesadelo (...) p.16.

 

A diferença, sabemos, é essencial ao significado, e o significado é crucial à cultura. Sabemos que sempre haverá um “deslize” inevitável do significado, na semiose aberta de uma cultura. A fantasia de um significado final continuará sempre assombrada pela “falta” ou “excesso”, sem nunca ser apreensível na plenitude de sua presença a si mesma. Tudo isso se tornou mais problemático nesta temporalidade, cujos centros de produção de significado, assim como de valor, são extraterritoriais e emancipados de restrições locais. Segundo Bauman 5, o que mais assusta é a progressiva ruptura de comunicação entre as elites extraterritoriais cada vez mais globais e a população mais “localizada”, à qual aqueles significados deveriam informar e dar sentido.

A Mongólia do romance é um delírio que nos mostra a dificuldade de encontrar significados, embora Mongólia , o romance, nos aponte uma capacidade inversa que só a literatura possui de ordenar e de dar algum sentido ao caótico da vida.

No romance, não estamos apenas no campo da suposição, pois a viagem foi realizada. O autor coloca diante do leitor ficção e realidade, imaginação e documentalismo e trava um combate acirrado. A história do país é contada, seus costumes discutidos, sua cultura é avaliada e nessa avaliação, desmistificada.

No combate que se desdobra na narrativa, a arma da ficção é o discurso, a da realidade, o estranhamento 6. A enunciação organiza-se de uma forma que atende a curiosidade do leitor, isto é, através de um diário de viagem, como já foi dito, a um país cuja cultura é tão diversa e a geografia tão peculiar. Por outro lado, a realidade é garantida por um enredo simples, por vezes emocionante. Entretanto, a curiosidade do leitor se frustra, na medida em que se depara com lacunas surgidas ao longo do texto, causadas, entre outras, pela estratégia da repetição. Por fim, a ficção se impõe, através de uma construção discursiva, que doma a realidade e incorpora seus elementos, como que emoldurada por eles.

A história é passada, na maior parte, entre os nômades mongóis. A narrativa é plena de idas e vindas, parece se mover em círculos, como o fazem os nômades, em suas viagens de iurta em iurta, sempre iguais. Essa repetição, que é condição fundamental para a sobrevivência dos nômades, no romance, é recurso narrativo. Ela constrói trajetos e retoma percursos já feitos, em que ações se repetem. Tal recurso se utiliza da mistura dos diários do Ocidental (o diplomata que se lança à busca) e o do rapaz desaparecido (o desajustado, como os mongóis o chamavam), onde, a despeito das versões opostas da realidade, observa-se, ao mesmo tempo, repetições de registros: " Parece que eu estava ouvindo a mesma pessoa" , diz o narrador. Essa estratégia garante ao texto a resistência ao divertimento, ao conforto da leitura, pois foge à narrativa comum, que quase sempre não deixa espaço para reflexão. Pelo contrário, ao longo do texto instalam-se dúvidas e silêncios, que provocam o leitor, forçando-o a buscar soluções.

A exemplo disso, tem-se a identificação do fotógrafo, só sabida bem ao final do romance, depois dos dias, que o diplomata escritor dedicou-se a escrever. Isso causa uma certa inquietação ou desapontamento ao leitor inflado de expectativas, esvaziadas pela falta de resposta.

Também caberá ao leitor solucionar alguns mistérios, não revelados, que se interpõem e “atrapalham” o fluxo contínuo da leitura, como por exemplo, as significações ambíguas, do motivo que levou o fotógrafo desajustado à Mongólia; ou, da mesma forma, sobre o significado de uma imagem espantosa de Narkhajid, mulher vermelha e nua; ou ainda, se Mongólia é mesmo tão sedutora quanto sua paisagem que convida ao movimento, ou não, e se os mongóis são acolhedores, ou se intimidam, etc.

Essas incertezas recorrentes se movem nos diários, que constroem o discurso narrativo. Diários de bordo, de viagem que houve verdadeiramente. O que queremos dizer é que a própria realidade viajada nos parece incerta, móvel e repetitiva. Essa realidade, decididamente, perdeu as marcas de pureza de uma cultura diferente , a que chamamos de “marcas de uma nação”. Essas marcas expropriadas se misturam a outras, e não se permitem claras, definidas ou puras. Ao serem incorporadas à engrenagem globalizada de domínio ocidental, comprometeram a tradição, tornaram-se híbridas, porém, com um denominador comum: o traço da transnacionalidade, da manifestação do fluxo global do capital, das tecnologias e sistemas de comunicação que transcendem e tiram do jogo a antiga estrutura do Estado-nação. Essa nova fase transnacional do sistema tem seu “centro” cultural em todo lugar e em lugar nenhum.

Quais seriam, portanto, os sintomas sociais, que alude o texto, atravessados nessa linguagem doente , paranóica e livre, muito bem apurada?

Segundo Edward Said 7, a sociedade e a cultura literária só podem ser entendidas e estudadas juntas, o que reafirma, de certa forma, a observação de Ranciére. Aprofundemos, portanto, um pouco mais esses sintomas sócio-culturais que atravessam Mongólia .

A história tem nos mostrado o quanto que as relações de poder muito afetam a rede simbólica. Nesse sentido, Stuart Hall 8afirma que hoje as nações, não são apenas entidades políticas soberanas, mas “comunidades imaginadas”. E indaga de que forma devemos pensar a questão do “pertencimento” à luz da experiência diaspórica da cultura capitalista na modernidade tardia.

A cidade de Pequim, no romance, é descrita, por um personagem, dessa forma:

 

Os edifícios espalhados, vistos de longe, são como torres de uma cidade de ficção científica, um mundo ao mesmo tempo futurista e decadente (...). A arquitetura monumental das portas dos antigos muros da cidade e do seu núcleo, a Cidade Proibida, oprime o ser humano pela grandiosidade, reduzindo-o à insignificância. É uma arquitetura avassaladora, ao mesmo tempo majestosa e inóspita (...). Os espaços enormes e as esplanadas esvaziadas de árvores ou vegetação são as bases de uma cidade concebida segunda a idéia do labirinto (uma muralha após a outra) (...). A idéia da muralha , e de um muro após o outro que tanto fascinou Kafka e Borges, está representada na planta baixa da capital, mesmo quando já não há construções, mesmo onde os edifícios e os velhos hutongs foram derrubados para dar lugar às largas avenidas e esplanadas vazias (...) . A idéia de labirinto está entranhada até nos subterrâneos da cidade (...). O labirinto é o vazio. (p. 17-18.)

 

Um mal-estar globalizado claustrofóbico – no sentido kafkiano do termo - é provocado pelas marcas dos labirintos, espaços da repetição própria da cultura mongol, misturadas à metrópole ocidentalizada e moderna.

Quanto à tese da doença da linguagem , esses sintomas, que perpassariam o discurso, estariam sintonizados com as forças operantes de uma sociedade moderna e globalizada, a qual põe em crise o paradigma de Estado-nação e propicia um caráter “translocal” às culturas tradicionalmente localizadas, que por não permanecerem absolutamente submissas a padronizações mundiais, colocam-se “abertas para fora”, a mercê de expropriações e reapropriações, dependentes de forças que dão e interpretam sentidos, forças que elas não controlam 9 .

Essa impureza, tão freqüentemente construída como carga e perda, parece ser em si mesma uma condição necessária à sua modernidade. O hibridismo, a mistura, a transformação que vem de novas e inusitadas combinações dos seres humanos, culturas, idéias, políticas, artes é como a novidade entra no mundo 10 . Os momentos de “liberdade” nos quais essas histórias continuam a ser vivamente retrabalhadas, são necessariamente, portanto, momentos de luta cultural, de revisão e de reapropriação.

Logo, é importante ver a perspectiva diaspórica da cultura, como uma subversão aos modelos culturais tradicionais orientados para a nação. Esse processo de globalização cultural é desterriorializante em seus efeitos. Suas compressões espaço-temporais, impulsionadas pelas novas tecnologias, afrouxam os laços entre a cultura e o “lugar”. Disjunturas abertas de tempo e espaço são convocadas, sem eliminar seus ritmos e tempos diferenciais. As culturas, é claro, têm seus “locais”, porém, não é mais tão fácil dizer de onde elas se originam. O que podemos mapear é mais semelhante a um processo de repetição com diferença, ou de reciprocidade-sem-começo 11.

Nesse sentido, tanto faz descrever a China, a Mongólia ou o próprio Brasil: teremos sempre a sensação da descrição de uma miragem, de um cenário subjetivo, que se repetirá indefinidamente, a despeito das geografias. “ É como se todos mentissem e as mentiras fossem complementares” , escreve o diplomata em seu diário. Essa idéia é recorrente ao longo da narrativa, e ainda no ambiente extra-textual: a capa do livro, de autoria do próprio autor, põe abaixo qualquer alteridade mais óbvia ou folclórica – trata-se de um grupo de mongóis jogando bilhar no meio do deserto. Algo estranho, mas ao mesmo tempo familiar.

 

Costa Lima , Luiz. Intervenções . São Paulo: Edusp, 428p, 2002.

Idem .

Deleuze , G & Guattari , F. Kafka – por uma literatura menor . Rio de Janeiro: Editora Imago, 127p, 1977.

Todorov , T. Os gêneros do discurso . São Paulo: Martins Fontes, 305p, 1980.

Bauman , Z. Globalização: as conseqüências humanas . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 145 p, 1999.

Resende , B. “Mongólia”. Artigo publicado no Caderno Idéias do Jornal do Brasil , Rio de Janeiro em 24 de janeiro de 2004.

Apud Resende , B. op. cit.

Hall , Stuart. Da diáspora . Belo Horizonte: Ed. UFMG; Brasília: Representação da UNESCO no Brasil, 434 p, 2003.

Bauman , op. cit. p. 8.

Hall, op. cit. p. 34.

Idem , p. 37.