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Aldyr Schlee e o tema da fronteira: um mundo indiviso
Fabiana Resende (FURG)
Em texto de apresentação ao volume Fronteiras do Milênio , escrito à luz da virada do século, portanto numa época de passagem, a historiadora Sandra Pesavento dedica-se a pensar a questão da fronteira, multiplicando-a em pelo menos três acepções: a fronteira geográfica, a temporal e a do conhecimento. Aponta também para um mundo em busca da globalização, onde, pela lógica, as fronteiras cada vez mais deveriam ser diluídas. Porém, reconhece que ainda
Há uma tendência de pensar as fronteiras a partir de uma concepção que se ancora na territorialidade e se desdobra no político. Neste sentido, a fronteira constitui-se em encerramento de um espaço, limitação de algo, fixação de um conteúdo e de sentidos específicos, conceito que avança para os domínios da construção simbólica de pertencimento a que chamamos identidade e que corresponde a um marco de referência imaginária, definido pela diferença e alteridade com relação a outros. 1
Adverte, entretanto, que, dialeticamente, as fronteiras também induzem a pensar na passagem, na comunicação, no diálogo e no intercâmbio. (p. 8) Com isso, conclui que a
Fronteira é, por assim dizer, conceito ambivalente ou bifronte, que se compara como a uma espécie basculante entre o encerramento e a abertura, entre o marco que define e delimita e a janela ou porta que possibilita a comunicação. 2
Os estudos da professora Núbia Hanciau acerca das fronteiras, igualmente as concebem na direção de uma via de mão dupla, na qual
Além de abarcar amplos domínios, as fronteiras muitas vezes são porosas, permeáveis, flexíveis. Deslocam-se ou são deslocadas. Se há dificuldade em pensá-las, em apreendê-las, é porque aparecem tanto reais como imaginárias, intransponíveis e escamoteáveis. 3
A segunda possibilidade apontada por Pesavento, ou seja, a que vê na fronteira uma janela ou porta que permite a passagem e, conseqüentemente, a comunicação, a historiadora concebe o surgimento de algo novo, híbrido, diferente, mestiço, de um terceiro que se insinua nesta situação de passagem. 4Algo, portanto, que não é nem o primeiro nem o segundo, tendo um pouco dos dois ao mesmo tempo.
Num contexto de cruzamentos e diluição das fronteiras, as idéias lançadas pela historiadora gaúcha podem bem ser aplicadas à produção literária contemporânea, mais precisamente à obra do contista jaguarense Aldyr Garcia Schlee, ganhador da Bienal categoria conto no ano de 1984, elegendo a fronteira, assunto ainda incipiente nos estudos literários, como tema e como universo diegético senão único, predominante. Suas narrativas, seguindo a ordem de publicação, Contos de sempre , Uma terra só e Linha divisória , sugerem a todo o momento e em várias acepções, a idéia da fronteira (ainda que para apontar a sua “ausência). Obra de um homem nascido e criado na fronteira, escritor fronteiriço, portanto, que fala dos tipos humanos e do espaço da linha divisória, e se deixa influenciar por autores e obras "do outro lado", originando, a partir dessa mescla, uma literatura de fronteira, a qual denomina gaúcha . Porém não no sentido de restringi-la ao solo sul-rio-grandense, mas para alargá-la à região pampeana, incluindo nessa, além do Brasil, o Uruguai e a Argentina. E em sendo literatura gaúcha, não é nem brasileira nem rio-platense e, ao mesmo tempo, é a soma das duas, um produto híbrido, assumidamente matizado das cores e das formas de expressão próprias das três pátrias formadoras do Cone Sul da América.
Trabalhando de forma tão intensa e extensa o tema da fronteira, as narrativas de Aldyr Schlee sugerem, com tal escolha, o contraponto do discurso regionalista sulino, na medida em que, ultrapassando barreiras etnocêntricas e lingüísticas, estabelecem um diálogo entre a construção literária provinda dos dois lados da fronteira. Desse diálogo, brota uma literatura em que homens e mulheres compartilham medos, paixões e costumes semelhantes, interagindo e se misturando constantemente. Da mesma forma, mesclam-se escritores e escritos, o que faz Schlee declarar que sua literatura também é um tanto uruguaia, na temática e na amplidão geográfica. Ao assumir a influência platina, já percebida por ele nos textos de Simões Lopes, Schlee alimenta as discussões em torno das leituras românticas dos textos regionalistas sulinos, empreendida pela crítica, que sempre os distanciavam de qualquer provável influência hispânica. As fronteiras literárias, então, eram rigorosamente demarcadas e determinadas sobretudo por razões políticas.
Motivo central e ponto de partida da escrita schleeriana, a fronteira constitui também uma chave para interpretá-la e apreendê-la. Logo, não é por acaso que o bloco de textos de abertura do volume Contos de Sempre se situa temporalmente ainda na época das grandes guerras, travadas entre portugueses, espanhóis e ingleses pelo domínio territorial da rica e estratégica América do Sul. As lutas pelo alargamento e, ao mesmo tempo, pela proteção das fronteiras delimitam, pelo viés da diferença, o chão de dominação lusa e o de domínio hispânico. As mesmas disputas acabam por decretar as fronteiras físicas, separando o território brasileiro do uruguaio e do argentino e servindo como espécie de respaldo para a edificação do discurso regionalista, no que diz respeito, principalmente à concepção de representatividade do homem gaúcho. A própria historiografia sul-rio-grandense, já no século XX e na voz de Moysés Vellinho, um dos historiadores mais considerados no Rio Grande do Sul, incumbia-se de selar a diferença entre o gaúcho daqui e o de lá, apoiando-se, inclusive, nas atávicas lutas fronteiriças.
Nos Contos de Sempre, as fronteiras que determinam a divisão do volume em questão são temporais: as disputas fronteiriças configuram, em síntese, o tempo de ontem, enquanto a dominação de um ambiente urbano, obediente à ótica capitalista, o de hoje. A obra encontra-se dividida em dois blocos – os contos de ontem e os de hoje . Mas como se está tratando de um escritor que, falando da e na fronteira, intenta sempre ir rompendo com os limites por ela impostos, pode-se perceber, nas narrativas situadas no "tempo presente", ainda um passado redivivo, em muitas situações e circunstâncias.
Em sua segunda publicação, U ma terra só , as fronteiras espaciais e temporais tendem a tornarem-se nulas e o título da obra já constitui forte indício dessa diluição. O número de narrativas que compõe o volume, catorze, também é significativo no contexto, porquanto obtido pela soma de sete e sete, número que simboliza a totalidade do espaço e a totalidade do tempo . (...) a totalidade do universo em movimento. 5Uma terra só, no sentido de união e de completude.
Talvez esse mesmo título possa ser entendido no que Roberto Mara, em texto que serve ao prefácio de uma das edições de Martin Fierro , alude como um panamericanismo sem fronteiras. Na obra seguinte, Linha Divisória , o contínuo do movimento se repete e novamente se pensa a existência da fronteira, mais uma vez, antecipada pela leitura do título. Porém aqui, o critério de divisão não é mais temporal, mas sim espacial, dividindo a obra em duas partes: "Jaguarão... / ... E o resto do mundo". Nelas, novamente está em pauta a discussão acerca das fronteiras, especificamente as que delimitam o regional e o universal, o particular e o geral.
Pela via dialética, sob a qual Aldyr Schlee percebe a fronteira, aproxima-a da faceta ambivalente, apresentada pela linha divisória e destacada pela historiadora Sandra Pesavento no início deste texto. Por isso mesmo, os narradores schleerianos mencionam os jogos de futebol, a ponte, o rio, o trem, a música, a literatura, a língua, o comércio, a memória, a imaginação, o discurso histórico e os explora enquanto elementos fronteiriços que tanto selam a diferença e, conseqüentemente, a separação, quanto estabelecem a comunicação e a integração entre os dois lados. Como num movimento natural, orgânico.
Escritor habituado a se relacionar com a idéia de fronteira, Schlee perpassa sua escrita da constante tentativa de ultrapassar e romper limites pré-estabelecidos, na direção de um todo maior, onde a convivência das diferenças é possível e viável. Com isso, seus contos mesclam literatura e história, memória e imaginação, campo e cidade, Uruguai e Brasil, instância autoral e narrativa, passado e presente para, nesse intervalo, instaurar um discurso dialógico entre duas culturas e duas visões de mundo, resultando num fazer literário híbrido, capaz de comunicar vivências e experiências aos dois lados da fronteira e ao restante do mundo. A proposta de diálogo entre a literatura sul-rio-grandense e a hispânica, no tocante à concepção de homem e de espaço regional constitui, igualmente, uma quebra de fronteira, desta vez, das impostas pela tradição regionalista, caracterizada, segundo Schlee, por ser uma máquina de canonizar e excluir . 6
No espaço intervalar, no qual se inscreve a literatura do autor jaguarense, há uma proposta de relativização enquanto ângulo de percepção do homem e dos fatos, manifestada em relatos cujos narradores se assumem lacunares. Na desestabilização do poder absoluto desses mesmos narradores, principalmente nos contos de motivos históricos, o reforço dessa proposta de relativização, que vai de encontro às visões cristalizadas e excludentes.
Na tentativa de repensar as vozes hegemônicas, cristalizadas e canonizadas pelo processo literário sul-rio-grandense, os textos em questão, propõem uma releitura da tradição e dos moldes em que a mesma ergueu a representação do tipo gaúcho. Assim, tratam de materializar um homem que não teve vez nem voz na construção do regionalismo sulino nem do símbolo regional que esse elegeu. Um homem que, por estar situado na linha de fronteira, desde muito cedo afeita ao contrabando, não pertence a nenhum dos lados e, ao mesmo tempo, a ambos, o que o impede de configurar uma identidade solidificada e compacta. Era como um indefinido no espaço entre a semelhança e a diferença e absolutamente não interessava aos planos de parte dos estancieiros charqueadores, que em muito colaborarou para a legitimação do homem da Campanha como símbolo sul-rio-grandense.
A condição de fronteiriço, somada a fatores econômicos e políticos, fez com que o foco do regionalismo sul-rio-grandense fosse direcionado para o homem da Campanha, relegando o primeiro a uma condição menor, pensamento que se projetava para o espaço de fronteira, da mesma forma indefinido e desprovido do comprometimento com uma identidade sólida. As fronteiras estabelecidas pelo cânone literário, ao legitimarem o homem da Campanha como o “gaúcho”, impõem a exclusão do homem litorâneo – passível de contato com o estrangeiro – e do serrano – descendente do cruzamento de imigrantes europeus, principalmente italianos e alemães. Ao mesmo tempo, também impetra a diferenciação do gaucho platino, uma vez que o estrangeiro, na época da construção do mito do gaúcho, era a própria incorporação dos valores negativos e da caracterização do anti-herói, figurando apenas para reforçar a positividade do homem sul-rio-grandense.
Na tendência em pensar as fronteiras, apontada por Pesavento, na citação que introduz este capítulo, a existência de uma concordância com a ideologia regionalista sulina, no tocante a esse mesmo tema da fronteira, tão significativo para a edificação do regionalismo sul-rio-grandense, porquanto representou, simbolicamente e durante muito tempo, o último reduto sulino e brasileiro. O que significava o fim do habitat do gaúcho símbolo do RS, que não se queria semelhante ao gaucho platino, embora partilhassem um espaço, um tempo e certos costumes muito semelhantes. No contraponto das referidas semelhanças, a representação do gaúcho ergue-se à luz do critério das diferenças, que, com rigor, separavam o homem do lado de cá e o do lado de lá da fronteira, mesmo que comungassem de um mesmo estilo e alguns hábitos de vida, dentre eles a atividade guerreira. Ironicamente, tal hábito em comum selava também a separação, já que a zona de fronteira sul sempre foi palco de guerras sangrentas pela disputa de domínio entre a coroa lusa e a espanhola.
Logo, a linha divisória segmentava o homem do pampa em duas identidades distintas, que se erguem de costas uma para a outra, visão de que se impregna a contística regionalista sul-rio-grandense e da qual se torna grande difusora. Quase invariavelmente ambientadas no espaço da Campanha, as narrativas regionalistas convergem para a exploração da imensidão e do infinito sugeridos pela abertura da região pampeana. Entretanto, com a mesma freqüência, vêem na linha de fronteira o encerramento do espaço e, por extensão, da identidade sul-rio-grandense. O que estava do lado de lá não pertencia à raça gaúcha, tampouco se identificava com tal universo.
Na condição de paradigmática, cujo discurso fez-se hegemônico, a literatura regionalista sulina fechou suas portas tanto à zona de fronteira quanto ao homem fronteiriço, ambos incapacitados de representar o estado gaúcho e, portanto, excluídos do processo de construção da identidade sul-rio-grandense.
A produção de Schlee pode ser contextualizada, com o aval da relação que estabelece com os desdobramentos da questão das fronteiras, numa zona de descentramento geográfico e também literário. Especialmente se for pensada no seu diálogo com a produção regionalista sul-rio-grandense, no sentido de alargamento das fronteiras, tanto na proposta para representação do homem e do espaço, como na abertura à influência da escrita hispânica. Segundo o próprio Aldyr Schlee, assumir a influência platina implica, novamente, lidar com questões fronteiriças, já que a gauchesca do Prata provém de extração notadamente popular. O gaúcho sul-rio-grandense, ainda que representado pelo peão de estância, formou-se em bases eruditas e, entre as duas fontes, existe também uma fronteira que a literatura dita culta vem tentando diluir.
Os textos do contista jaguarense lançam uma nova luz à zona de fronteira, procurando perceber a integração provinda da organicidade que une as duas cidades. Isso significa dizer que ambas têm, na comunicação, um elemento que faz parte do seu mecanismo cotidiano. Mesmo primando pela naturalidade, na percepção da fronteira, comumente os textos analisados são perpassados pelo lirismo das breves descrições espaciais que, com freqüência, apontam para um horizonte infinito que o olhar não é capaz de dar conta. A própria concepção de literatura do autor dirige-se à capacidade e à necessidade do texto literário de nutrir-se de influências de outras literaturas, enxergando, nesse contexto, a literatura pampeana gaúcha. De uma América geograficamente mais distante, a voz do poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, representa um eco a essa concepção do fenômeno literário, entendendo que "a literatura é mais ampla do que as fronteiras" 7. Essa mirada se insinua a todo o momento na leitura das narrativas de Schlee, acentuada pela amplitude sugerida pela fronteira pampeana, que separa Brasil e Uruguai, entendendo-a eminentemente como contraponto ao encerramento e à univocidade do discurso imprimido pelo regionalismo sul-rio-grandense.
O rompimento de fronteiras se faz presente também no trabalho do crítico Aldyr Garcia Schlee, na medida em que suas palestras e conferências são comumente entremeadas por fragmentos de seus contos, fazendo com que, concomitante ao intelectual, brote o contista e o contador Aldyr Schlee. Assim, reúnem-se, em um só texto, teoria e prática literária de fronteira, ficção e crítica, numa acepção de diluição de limites e convenções, especialmente no que diz respeito ao cânone regionalista, uma vez que, além de sua inerente condição excludente, também fomentou uma tradição crítica que não se permitia trocas com a América Hispânica, ceifando as tentativas de leitura pelo viés da semelhança. Felizmente, autores, críticos, escritores e poetas fazem da literatura um espaço de convivência, em que as diferenças são possíveis, conforme já nos ensinou Fernando Aínsa, resgatando as fronteiras na esteira do encontro e da comunicação.
PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.) Fronteiras do Milênio . Porto Alegre: Editora da Universidade, 2001. p. 7/8
O entre-lugar , texto de autoria da Profª. Drª. Núbia Hanciau, apresentado no GT da ANPOLL Relações Literárias Interamericanas, na UFMG, 2003. (em fase de publicação)
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