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O texto da cidade ausente nas ruínas de Carandiru
Claudio Gonçalves (UNIVERSO)

A Pós-Modernidade nos põe diante de uma nova percepção do tempo. A transformação da vivência e do valor que se dá ao tempo é marcante no contexto atual. O tempo virtual parece ter fundido todos os tempos possíveis, estejam eles no passado, no presente, no futuro ou mesmo dentro de nós mesmos, um tempo psicológico. Parece haver uma destemporalização e a sua conseqüência mais notável é a morte do passado. Ou seja, o sujeito contemporâneo parece não devotar mais nada ao passado, sua vida se faz a cada átimo como uma construção virtual na tela de computador em que as palavras( discursos) vão se sobrepondo e apagando todos os resquícios.

Os resquícios como os vestígios são efeitos material do passado, ou seja eles realizam o passado no presente através de uma evocação voluntária. Mas os resquícios também não são o passado, pois são memória e a memória é uma construção que busca inventar passados tornando-os lógico ao presente.

A morte do passado, expressa através da negativa percepção da sua experiência, expõe as dramatizações em tempos do presente. Assim, as memórias por um lado e os esquecimentos por outro, ditam uma luta pela detenção de uma razão arbitrária que justifique a dramatização e temporização do passado.

Ora, se o passado não existe mais e sim narrativas que o inventam, nós estamos diante da eficácia destas histórias no sentido de dar logicidade maior ou menor ao presente que se tem. Assim, são usadas estratégias, nas mais das vezes, invisíveis nesta construção.

O confronto de duas experiências uma de passado e outra de memória se mostra peculiar na dimensão da discussão. Trata-se de duas experiências que podem nos revelar os argumentos necessários à compreensão desta complexa composição da realidade.

O Carandiru ou “O cadeião”, como era chamado, materializava em experiência um complexo arquitetural de nove edifícios, compondo aquilo que ficou conhecido como Casa de Detenção do Carandiru, maior complexo penitenciário da América Latina A experiência do passado foi vivida durante muitos anos, porém tornou-se notória a partir do “massacre” de 1992 em que morreram 111 detentos. Já a experiência de memória, a invenção do passado que se extinguiu, se dá através da narrativa de Estação Carandiru de Drauzio Varela, em que a despeito de seu registro contundente, deixa à vista na sua estrutura de construção o embate entre o passado real que já não há e o presente continuum.

Passado com conotação negativa por expressar-se através da experiência cruel com detentos, o Cadeião é implodido em 2002, com toda atenção da Mídia. Não é patrimônio e parece não interessar ser, é apenas uma construção com uma forte carga pejorativa marcada por experiências perversas. Notemos que a não-eleição patrimonial pode ser entendida como uma eficaz estratégia, bem definida, de esquecimento. Por que, afinal, receber o status de patrimônio quando se tem a periculosidade na experiência?

Assim, a detenção da memória e do esquecimento é um processo indubitável de poder. É através da memória expressa em bens patrimoniais que se constrói e perpetua os meios de dominação. A conclusão é satisfatória e em si, não traz novidades. A grande mirada diz respeito a apreensão não só da memória como também do esquecimento invisíveis. Ou seja, aqueles de aparência inócua, de dimensão reduzida. Estes se tornam estratégias complexas, no entanto eficazes, do uso patrimônio como instrumento de detenção de poder. É através da compreensão destes meios invisíveis que podemos assegurar um discernimento conjuntural das estruturas que informam a realidade. Neste sentido é sintomático o caso Carandiru. Ora o “Cadeião”, guardava uma memória negativa, jamais fora considerado um patrimônio de qualquer espécie. Na essência, porém, dentro da perspectiva da detenção invisível poderíamos notar esta não-eleição patrimonial como uma astuta condução da memória e do esquecimento. A quem interessa preservar ou simplesmente lembrar ( premissa básica do conceito de patrimônio) este enredo mental repercutido na Casa de Detenção?

Certamente havia uma bem sucedida estratégia de detenção da memória no caso do “Cadeião”. A sua revelação traria uma perigosa lembrança das equivocadas ações políticas, da realidade social, da própria miséria humana a que estamos subjugados nos dias atuais.

A implosão da cadeia parecia o ato final de sustentação e perpetuação do esquecimento, visto que a memória estava lá, viva, e a qualquer momento poderia ser recuperada como ícone detrator. Então era preciso não correr riscos, quiçá futuros. É aí que se desenha a parte reveladora e dramática deste enredo. Qual uma narrativa que foge às mãos do seu autor, ironicamente o ato de erradicação de qualquer possibilidade de levantamento da memória, mesmo que futura, desencadeia um processo inverso. Novos atores são alçados à superfície de forma descontrolada.

A implosão acompanhada pela mídia como grande acontecimento deixa concretamente apenas espojos da construção. No entanto, simbolicamente estes despojos são ruínas, e ruínas trazem um passado imanente. E este passado, embora não concreto, pode vir à tona através das memórias que as ruínas do Carandiru suscitam. As pessoas fazem fila para visitar o passado expresso nas ruínas, quando na verdade vêem memória. Nas imediações, os ambulantes começam a vender as relíquias do maior presídio da América latina, que trazem consigo a lembrança do que foi, e transforma em signo uma evocação do que estava acomodado nas camadas invisíveis da construção. A miséria humana, contextos de opulência e, mais que isto, o recorte de uma época e de uma sociedade estão expostos na realidade das ruínas transformadas em presente através da memória e que agora falam do que se calou durante tanto tempo.

A Casa de Detenção não existe mais. Foi demolida como um reclame da sociedade após o massacre dos presos. Em seu lugar ficou apenas o grande vazio da experiência traumática de uma sociedade que com esta demolição pensou estar “varrendo” todos os vestígios daquela prática.

A cidade, esta entidade que pertence mais ao campo do sentimento e das práticas habituais num dado cotidiano, não quer mais se reconhecer naquela nociva experiência. Então, apaga-se todo e qualquer vestígio, ou seja, o indicativo da proximidade material.

A ruína, então, que traz em si os despojos do passado, mas não é passado é lida em outras ordens de diferentes naturezas. O Carandiru aparentava ser tão somente uma construção denegatória da experiência vivida de uma sociedade. A sua visibilidade insistia na aproximação com esta sociedade, como produto e sintoma dela. É neste sentido que a dinâmica de erradicação de todo e qualquer construto de pertencimento passa a vigorar.

Em oposição a memória que se constitui em tarefa seletiva e de conservação e reinvenção do passado, empreendeu-se um esforço de esquecimento, pois este protege, num âmbito ilimitado, da brutalidade das impressões vividas. Assim, a empresa previsível deste enredo foi a aniquilação das representações efetivas e afetivas desta perigosa teia de relações, que a história poderia a qualquer momento assaltar em forma de rememoração, ou seja, como tentativa de dar organicidade às coisas, subestimando sua falsa aparência.

A ruína propicia novas experiências de narrar; a partir dela tem-se uma ordenação retificadora que demanda a redenção, pois é fruto de violenta mutação sofrida ou procurada. Se é certo que o caráter negativo está evidenciado na destruição do Carandiru, nas suas ruínas, é certo também que esta destruição propicia as novas narrativas, novas ordens que codificam a realidade. Neste aspecto, acompanhamos Benjamin quando aponta na experiência requalificada uma nova ordem de narratividade que nada tem de nostálgico. 1

Ora, a formulação de narração apela para a construção plena daquilo que não existe mais ou nunca existiu. Sem considerar tais condições, a narração se torna uma outra natureza que não funda nada, apenas apropria-se de reminiscências, descaracterizando seu caráter instrumental e fundador.

Em Estação Carandiru temos uma narração que se mostra como organizadora de sentido, de compreensão da realidade, ao instituir modalidade singular. Na verdade o texto se situa no trânsito entre pretensa ficção e uma história concebida, bem como entre a memória e o esquecimento.

Se o passado é finito, a memória que funda ( a narração) busca a perpetuação ao mesmo tempo que essencialmente concebe uma natureza diversa. Assim, Estação Carandiru dá uma percepção do passado no presente sem jamais fazer concessão a linearidade.

Publicado em 1999, o livro se mostra algo inconfundível na tradição dos gêneros literários. Longe de ser um romance,conto ou novela, a estes se assemelham na medida em que seus atores são quase que personagens, pontuando uma fronteira complexa. A capacidade de mascaramento ou mutação destes atores ( em personagens ) se dá justamente pela extinção de seus passados. Destarte, constituem novas realidades ( novas ordens) atestadas por suas perfomances fictícias.

A narrativa, chamemos assim, responde então a dupla demanda: a de fundar uma nova ordem comprometida com a invenção e a de realizar a presentificação do passado através da memória reinventando-o. Seus capítulos, alternam passagens descritivas “ do lado oposto, vizinho à copa da diretoria, há um canteiro de flores e uma fontezinha assentada num receptáculo de caco de cerâmica, no qual um dia nadaram peixinhos ornamentais. 2” E impressionistas; “o pavilhão é para aqueles com nome deito no crime. Geralmente, o habitante do oito é mais velho e não se envolve em confusão. Olha, escuta e fica quieto. Não age, reage. 3Esta alternância já insinua o caráter fronteiriço do texto, ou para sermos mais precisos, esta dupla função narrativa, a fictícia e a histórica.

A fundação de uma nova ordem se explicita já na introdução, quando o autor (?) observa: “Neste livro, procuro mostrar que a perda da liberdade e a restrição do espaço físico não conduzem à barbárie, ao contrário do que muitos pensam.” A explicação em forma de advertência exposta no trecho, traz um dado ratificador do trânsito ou da duplicidade em que a obra se insere, pois a introdução, também ela, parece já ser narrativa, ficção na estrutura organizativa do texto, ao mesmo tempo procura certa dissimulação ao conotar um caráter algo científico que faz com que saia do âmbito comprometido do texto.

O texto se projeta, então, nesta dupla acepção entre memória e esquecimento; entre memória e história; entre ficção e realidade. O próprio autor que se abre a uma perspectiva de narrador ( em 1ª pessoa) parece ter dúvida de sua condição, ora se afastando para um ponto de vista quase científico; “estudamos em grupo de 82 travestis presos na Casa e constatamos que 78% eram portadores do vírus 4.”; ora se deixando levar pela convicção fictícia: “Fui movido por uma sensação racional de confiança, mas estava com medo. Atravessei o cinema. 5..”

Na verdade, a insegurança atestada na narração nada mais é que a expressão desta dualidade da própria natureza da obra.

O texto se projeta em dualidades construtivas. Embora faça uso de personagens e espaços consistentes, não admite o conflito na encadeação narrativa. Daí, observarmos que esta aparência literária parecem querer dar legitimidade adequada ao texto. No entanto, isto se faz no terreno da dúvida. O jogo da ação presente na obra remete-nos à realidade ofuscada. É como se os personagens (?) ao se relacionarem estivessem habitando ou se referindo a um ente exterior às suas próprias existências, alguém que não conseguem identificar, ver.

O texto flui, porque sua narrativa é formulada a partir de um sentido que emerge do que não é mais e, neste sentido, instaura as duas realidades, a fictícia e a histórica.

 

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Magia e técnica, Arte e Política. São Paulo, ed. Brasiliense, 1985.

VARELLA, Drauzio . Estação Carandiru; São Paulo, Cia das Letras, 1999, p.17

Idem. P.34.

Idem. P.65.

idem. P.72.