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"Um gosto a Ulisses – ou de como a Ética refunda a Poética em Manuel Alegre."
Anabelle Considera (UFF )
Para deixar-vos tenho o que não tenho
que para vos deixar não tenho mais
do que a escrita da vida e o eco estranho
de ritmos sons e signos e sinais
metáforas que têm o tamanho
do mundo que vos deixo. E nada mais. 1
Parece haver em determinados autores o desejo de combinar uma noção de narrar “com um fim”; combinar o desejo de narrar com o de ensinar e despertar os seus leitores para estes, no fim, se “salvarem”. Esse salvamento via arte se dá na instância da utopia ou na instância puramente dogmática e/ou doutrinária (de partidos e/ou religiões), neste último caso ressuscitando o debate sobre o impacto da ética, no seu sentido católico-doutrinário, no momento crucial do desenvolvimento da prosa narrativa portuguesa, que representa o Barroco literário. Talvez, daí, possamos abstrair as aproximações entre a ética camoniana (em certa parte da obra deste grande ícone das letras portuguesas) e a ética de Manuel Alegre.
Não se pode esquecer a ligação de certa parte da obra de Alegre com aquela narrativa do tipo “didática” que aparece justamente no barroco, sob a chancela da expressão doutrinária católica. Trata-se de mostrar, através da narração, lugares, espaços geográficos (reais e ou encantados); apresentar outros narratários e narradores, apresentando-se (o próprio narrador, com sua biografia de estatura moral e “cívica”) como o elo de ligação entre estes diversos nomes e outras biografias, de outros tempos e espaços. Alentejo e Ninguém (1996) é bem um exemplo disto... Até os “Sonetos do Português Errante” (vide Atlântico , 1981) apresentam esta “divisão didática interna”, coma presença de intercalações que os narradores barrocos também faziam (o Peregrino cede a palavra a narradores temporários e torna-se, de passagem, um narrador homodiegético. A presença destas histórias intercaladas – estrutura narrativa aliás tão típica da ficção da época – tem, no entanto, uma explicação lógica).
Pareceria, então, a ficção da História e da Memória, em Manuel Alegre, uma espécie de compêndio barroquizante? No que tem de “indisciplina”, talvez sim... No que tem de ludicismo textual, também sim. O Livro do Português Errante (2001), analisado mais detidamente no presente artigo, não deixa de ser, em certo sentido, uma sorte de “sermonário” pós-moderno, em que o autor cita e recita seus próprios cantares; encara a questão da morte e da perenidade da vida; insiste na elocução de outros tantos nomes que, ao lado do dele, ousaram tentar uma ortografia da História, em tantos abris.
A autoconsciência narrativa de Alegre não é só duma história contada , como também da questão da autoria dum compêndio escrito . E nquanto narrador estilisticamente preocupado, vai singrando pelas possibilidades da própria narrativa, até esgotá-las: procede uma mudança na qualidade do narrador – do narrador autodiegético do relato corrente, a um narrador heterodiegético, que se faz perceber e se quer “perseguido” pelo leitor em sua contação de uma nova utopia, ainda que em tempos sem utopias. De qualquer forma, se essa voz autoral se faz tão presente, e deseja ser ouvida (esforço ético ou moral?), ela também se “desfaz” na malha do texto, compromissada que está com a ficção – ou então, em outras palavras: compromissada que está mais com o ato de falar do que exatamente com aquilo que enuncia. Mas, mesmo essa fala, não deixa de ser um compromisso ético – com a literatura e com as formas de representação que dela podem “saltar para o lado de cá” (visto, aqui, como o presente, a vida cotidiana, a permanência inconsútil do caminhar humano sobre a face da terra).
Alegre combina uma voz quase doutrinal (a doutrina do socialismo e da utopização da narrativa humana) a uma alegorização tipicamente barroquizante e barroquizada (ao feitio camoniano, como prefere) e, de certa forma, uma dose de ironia que perpassa alguns de seus poemas, como numa grande celebração do desencaixe, da ruptura (ou, em última análise, do pós-moderno). Veja-se o poema “Deus não é maneta”, em que, numa só peleja, desacata a metafísica (de que não obstante se aproxima nas últimas obras) e o conviva José Saramago, re-citado do Memorial do Convento : “Deus não é maneta, é canhoto.” 2 Criar polêmica, apenas? Não parece que a biografia de Alegre, a esta altura, se permita a esses arroubos juvenis... Reconhecemos neste esforço artístico autoral, baseado na justaposição estilística de cunho renascentista e a alegoria medieval, por mais paradoxal que pareça a conclusão, também um sinal de pós-modernidade. Ou a busca por uma ética que refunde a poética.
Em vários de seus escritos, Manuel Alegre chama a atenção para uma tal “perda de sentido” da grande narrativa (e até mesmo das pequenas formas do narrar), delegando à poesia a tarefa de re-ler, re-tecer, re-dizer o percurso semântico que o mundo deixara passar (vide a negação do “passadismo” das estéticas de vanguarda). Numa perspectiva pós-moderna, as palavras convertem-se em discurso imagístico e iconográfico, em oposição à perda do significado perpetrado pelo modernismo e sua ausência de símbolos e de ornamentos. Surge, desta forma, a arte como espaço de emissão de mensagens, novamente; e de novo codificando textos em que se atam e desatam as tramas das história e da memória, para conferir um outro estatuto à literatura. Nesta acepção, os poemas que Alegre escreve em seu primeiro momento lírico, ainda em Praça da Canção (1965), por exemplo, configuram uma nova e velha forma de capturar os sentidos, ou de fazê-los “falar” nas vozes cantantes do texto poético: o brado coletivo do povo, na fala de seu novo-velho bardo, faz-se, então, a participante efetivo no jogo semiológico da construção do discurso. Neste sentido, tem-se a dimensão ética da poesia do autor, que deita raízes na fala popular tão alheada dos processos de formação do cânone e tão mal contemplada pela crítica literária, ainda em finais de século XX.
Das ruínas, como queria Benjamin, o poema de Alegre ensaiou fragmentos, projetos de utopias, e quis dialogar com a reinserção do indivíduo (e, por que não?, do autor) no devir do ser. A vertente utópica (e, portanto, reinstaurante de sentido para a própria práxis poética) surge, em Manuel Alegre, como fecunda possibilidade de ruptura, transformação, “reortografia”; trata-se da sua “ulisséia” pessoal e literária. Para o poeta, é viável e bela (no sentido de válida, ética) a palavra que acomoda real e imaginário, passado e futuro, valores populares e alta cultura. Dita de outra forma, esta “plataforma estética” enviesada ao sabor dos tempos pós-modernos fala de uma aproximação possível entre utopia poética e utopia política, mas sem ser panfletária. Toma as referências biográficas do autor (que são muitas e muito bem “datadas”, até quando rompem com a própria datação...) como ponto de partida, nunca de chegada. Totaliza a experiência do sujeito autoral, mas não globaliza suas leituras. Enfim, opta por reintroduzir na ordem do discurso poético sinais que a memória cataloga como perenes e dogmáticos, fazendo-os adquirem um caráter inteiramente novo e inexplorado, “pop”, democrático e temporário, dada a fluidez dos conceitos que a pós-modernidade traduz (ou tenta traduzir).
Através do projeto de reutopização da história, o presente transforma-se em seara quase mística, a partir da consciência que esta geração de poetas (da qual Alegre participa) tem de que o “futuro” ideal já chegou, e as utopias (ainda) não puderam falar; urge, portanto, fazer com que elas dialoguem com o leitor, e se ofereçam (ainda) para além dos próprios estereótipos que as constituem. Estratégia retórica ou empirismo poético, este diálogo é quase uma contra-dança, cuja cadência musical ganha significado autoral na obra do autor, uma vez que seu interlocutor mais constante é Camões – “toada” inscrita como criptografia na melopéia do bardo Alegre. Neste ínterim, o poeta ultrapassa a opção de seu quase-alterego Ulisses pela mediocridade reconfortadora, pela pacatez como um refúgio seguro, abraçado amorosamente pela sempre expectante-Penélope. O Ulisses que há em Alegre tem um outro “gosto”, que não é apenas o de querer ser o “Ninguém”, ou ficar a salvo da vida e da História.
Destaquemos o inevitável paralelo entre a seqüência dos “Sonetos do Português Errante”, de Atlântico , e, vinte anos depois, o Livro do Português Errante : Vivo justamente ao expirar do século/(...) Sente-se o brilho duma nova página/ em que tudo pode acontecer – lê-se na epígrafe do livro, que se segue à citação de “O Livro de Horas”, de Rilke. Há, ainda, uma tal “Canção do Tempo que Passa”, cuja evidente ressonância da tão celebrada “Trova do Vento que Passa” ( Pergunto ao vento que passa/ notícias do meu país/ e o vento cala a desgraça/ e o vento nada me diz ... 3), não se faz só pela semelhança de sonoridades, mas através, principalmente, de um sutil diálogo entre os dois textos.
Canção do tempo que passa
Contra a corrente
o tempo
o próprio pensamento.Contra o tempo se corre
e assim se morre
em frente ao mar.
Sobretudo ao crepúsculo
quando o mar nos interpela
e apela – num tempo
de não ficar. 4
Das mais diversas formas, os sonetos representam um “eterno retorno”, que implica a noção de errância, de um sujeito perdido num país miticamente recriado como lugar de partida e de adiado regresso. Por isso se justifica e se compreende a reiterada presença, na poesia de Manuel Alegre, da figura de Ulisses, na qual muitas vezes se transfigura este sujeito poético em permanente busca de Ítaca, como lugar de repouso – “azul” que fica “além do sul”, metáforas recorrentes na peregrinação-escrituração do poeta. Eu sou o emigrado o foragido/ regressado do longe e do azul/ trago em mim a saudade de ter sido/ quem foi além de si além do sul. 5 Por outro lado, há o retorno à insegurança, o pressentir de medos ocultos, de fantasmas ainda presentes, a incerteza em face de uma História que nunca é só passado. Quem foi e não voltou. E não voltando/ entre ter sido e ser está dividido./ Eu sou o que ficou aquém do quando/ pelo tempo em pedaços repartido . 6
Os poemas do Livro do Português Errante rematam uma experiência radical de errância e navegação interior, e são da estirpe lírica do exílio e da busca por um explicar(-se) mais uma vez as tantas voltas e glosas poéticas do tema (portuguesíssimo) da partida e do desejado retorno, ainda que numa outra clave. Esta clave outra é ressignificada na escolha do sujeito lírico por uma vox que traduza a sua experiência mais radical de alteridade, numa poética que desliza ... no grande deserto da linguagem 7, do sismo ao vento e depois à palavra 8, ...ou na parte de ti que está em mim (...) além da noite além de nós além do fim . 9 Sua identidade primordialmente se manifesta pelo deslocamento, pela contigüidade, porosa ao canto dissonante do (seu) mundo, e por isto mesmo está atravessada e modificada por ele. O poeta lírico que há em Alegre é, então, a figura que encarna o “ser entre”, a poesia em transição, cujo ...lugar é onde não há onde 10 e cuja promessa é a de encenar a linguagem (im)possível para além dos espaços fluidos da pós-modernidade, e para além dos cais seguros a que sua circunavegação poética nunca ousou querer mesmo aportar.
Há uma opção semântica pelo uso verbal de um pretérito quase presente, num jogo alegorizante que rememora a escrita barroca, nos primeiros poemas que compõem o Livro do Português Errante , como se o poeta assumisse a locução do seu Gênesis, lugar já perdido e só encontrado nos recantos da memória:
O VERBO
Era a língua
com sua música secreta
magnífica dos substantivos
as estrelas caídas para dentro
dos advérbios
o marulhar nostálgico de certos verbos.
Era a baba de Deus
e o cheiro a mênstruo na estação
do cio. Ocultas
profundas águas
de nenhum rio . 11
Figuram, aí, os sinais de um poeta lírico que recorre à tradição da própria metafísica cristã ocidental, num impulso, por que não dizer, “barroco”, para rascunhar o seu “verbo”. Na citação a San Juan de La Cruz ( [...]a proibida palavra/... infinita poesia/... E então por ela eu morria 12) ou a Maria Madalena ( Em sua boca florescem os vocábulos/ o leite e o mel inundam suas coxas/... Beijarei sua carne de inocência/ quem nunca amou atire/ a primeira pedra 13), as frases são costuradas “entre-fôlegos”, citações de citações, num ludismo verbal que remete ao passar pelo “buraco da agulha” de nossas crenças num porvir outro, que não nos é legado pela Divina Providência, mas que nos chama à construção ética, solitária ou em pares:
Vou de camelo pelo buraco de uma agulha
vou de camelo e não encontro o reino(...) Tens de vir outra vez para dizer
que não pode servir-se a dois senhores.(...)Tens de vir outra vez que os fariseus
não nos deixam passar não nos deixam passar . 14
Mas a experiência de Alegre com o oculto é múltipla, e traduz-se na metáfora ( Verso a /verso um deus inverso 15), além de também ter sido descrita com intensidade num poema anterior, dedicado à Senhora das Tempestades – epíteto de Iansã, deusa iorubá do espírito dos mortos. Essa dicção híbrida dá a nota de como são igualmente múltiplas as leituras do autor, que aprendeu no exílio em África a decifrar outros símbolos, fazendo de sua poesia uma síntese dos tantos consórcios culturais que Portugal (enquanto palavra e projeto político) pôde desenhar ao longo de sua história trágico-marítima. Pode-se dizer, ainda, que Manuel Alegre retorna, em Livro do Português Errante , com força vital ao lírico – retorno que já estava sinalizado em Atlântico – mas, agora, baseado em uma experiência pessoal e quase letal. Trata-se de um poeta em busca da um discurso que afirme uma certa “crença” em seus quês e porquês; um poeta atravessado pelas próprias contingências históricas e pelas suas próprias limitações físicas – rigorosamente humanas, afinal, como se lê em “Perfume de Nardo”:
Em verdade te digo: Não
espero a eternidade. E sei
que nenhum verso vence a morte.Procuro apenas um sinal
um ritmo que me restitua
a imperceptível respiração da terra.Talvez os cabelos de Maria
irmã de Marta
a enxugar-me os pés.Porque todos os poemas são mortais
e o que fica é talvez
um perfume de nardo. E nada mais . 16
O Livro do Português Errante traz, ainda, a convocação da mais cara das leituras de Alegre: Camões, o demónio azul 17 que espreita o ritmo e o oculto de todos os rios que afluem à sua poesia. Do alto de seus mais de tinta anos dedicados à literatura, faz o sujeito lírico anunciar que Um livro escreve-se uma vez e outra vez./ Um livro se repete. O mesmo livro./ Sempre. Ou a mesma pergunta. Ou/ talvez/ o não haver resposta . 18 É uma ode a uma grande referência literária camoniana – que esteve antes de tudo, e antes de toda a escrita, segundo afirma o próprio autor, em várias de suas poesias e entrevistas – e, ao mesmo tempo, uma demarcação de seu próprio fazer poético, prenhe de citações e reescrituras de suas próprias poesias. Por isso, reafirma o bardo que a escrita é Navegação por dentro/ errância que não chega a nenhuma Ítaca./ Um livro se repete. Um livro/ essa pergunta/ incognoscível código do ser . 19, tomando a si, efetivamente, a “autoria” dos poemas do português errante, escrita reverberante e insistente – como que parte de um processo metafórico que possa dar conta da instância ética de seu discurso:
Metáfora de cornos e pés de cabra.
Um livro. Esse buscar
Coisa nenhuma.
Ou só o espaço
O grande interminável espaço em branco
Por onde corre o sangue a escrita a vida.
Um livro . 20
Na clave da resistência pela palavra, Manuel Alegre procede também à defesa de uma outra sorte de contra-cultura, encenando modos de dizer esta religação entre o homem e o universo, entre os homens e o Pai perdido (Deus), entre os homens e seus pares e do homem que busca “desexilar”-se de si mesmo– ...e no meio das filas de trânsito procuro/ o caminho perdido para Ítaca . 21 O próprio poeta, no volume Arte de Marear (2002), explica essa ligação fulcral com o sentido ético de sua produção literária: Penso que há cada vez mais lugar para a poesia. Dantes pensávamos que era preciso mudar o mundo para mudar a forma. Hoje é por demais evidente que só mudando a forma se pode mudar o resto. 22 E remata: Esse é o papel da poesia e este é de novo um tempo de oráculos . 23 Esta sua poesia, sempre entre “O cravo e o travo ” (grifo nosso; título de um poema do Livro do Português Errante , em que se lê: ... tínhamos... um sentido da História uma espécie de Deus 24), inscreve-se num mundo que aponta cada vez mais para o caos e para a desagregação, e que necessita de procurar nova dicção, em termos estéticos, ou, em termos éticos, novas formas de vida em harmonia.
Lírica do fora, contra-poesia, “po-ética” do eu e da alteridade, a poesia de Alegre-Ulisses está repleta de viagens e de falas. Fragmentos que se interpelam em cada subscrito de um poeta que ainda tem a coragem de vaticinar sobre Portugal: Para deixar-vos nada que deixar/ só um país e as ilhas adjacentes/... as índias que ficaram por achar 25. E palavras que se imbuem do espírito das coisas que proferem, não se eximindo do mergulho na experiência sensorial e pessoal do autor, que adverte: Também penso que devemos defender-nos do excesso de biografismo, mas (...) Tenho saudade da literatura como partilha, como comunicação, como circulação fraterna . 26 Chegar lá, ao outro-leitor; comunicar e inscrever no livro do mundo as metáforas que têm o tamanho do planeta que se deixa para as outras gerações é o desejo sincero deste lusíada exilado. Além, é claro, de grafar ... a escrita da vida... E nada mais . 27
idem, ibidem . p. 93. Este poema foi imortalizado musicalmente por Adriano Correia de Oliveira.
ALEGRE, M. (1997) “O segundo soneto do Português Errante”, p. 382.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALEGRE, Manuel. 30 Anos de Poesia . (Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Publicações D. Quixote, 1997.
______________. Arte de Marear . Lisboa: D. Quixote, 2002.
______________. Livro do Português Errante . Lisboa: Publicações D. Quixote, 2001.