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O arquivo literário de Lima Barreto
Zélia R. Nolasco dos S. Freire (UEMS)
Quando me julgo - nada valho; quando me comparo, sou grande.
Lima Barreto (Diário íntimo, 1904)
O projeto literário de Lima Barreto (1881-1922), por muito tempo, foi alvo de críticas negativas, distanciando-o assim do reconhecimento na literatura brasileira. Dada a riqueza de sua obra, ainda por explorar em muitos aspectos e considerando outros caminhos teóricos, principalmente, o arquivístico, busca-se através da ida ao arquivo literário do escritor, apresentar Lima Barreto como leitor e interlocutor de outros autores. Uma vez comprovado que Lima Barreto, ou melhor, que sua obra dialoga com escritores consagrados, renomados e integrantes da tradição literária, tais como: Tolstoi, Dostoievski, Turguênief e outros, automaticamente, reforçará a qualidade da obra e do projeto literário barretiano.
Engana-se quem, ainda, atribui ao escritor Lima Barreto o adjetivo de "desleixado", tal como a crítica o classificou no início de sua atividade literária, em 1905, pois a visita ao seu arquivo mostra-nos o quanto o escritor já se preocupava com os princípios que norteariam sua produção literária, buscando uma forma de inscrever-se no universo literário e assim, na história ao lado de grandes homens. Essa atitude é explicitada através do personagem Vicente Mascarenhas, do O Cemitério dos Vivos (1953): "que me importa o presente! No futuro é que está a existência dos verdadeiros homens". Daí o fato de encontrarmos no acervo do escritor um vasto material paraliterário, como a correspondência entre colegas, diário, fotos, agendas, documentos pessoais, além da biblioteca e de objetos pessoais. Uma primeira catalogação feita pelo biógrafo de Lima, Francisco de Assis Barbosa, encontra-se relacionados todos os exemplares e as obras constantes na biblioteca "Limana", assim designada pelo escritor. Quanto aos livros que compõem essa biblioteca são basicamente obras da literatura nacional e universal, que nos revelam, por exemplo, o Lima Barreto leitor de Machado de Assis a quem nega sempre qualquer aproximação. Conforme se constata em carta enviada a Austregésilo de Ataíde, datada de 19 de janeiro de 1921: "Que me falem de Maupassant, de Dickens, de Swift, de Balzac, de Daudet - vá lá; mas Machado, nunca! Até em Turguênieff, em Tolstoi podiam ir buscar os meus modelos; mas, em Machado, não! "Le moi"..." 1. Sua biblioteca reflete, contudo, a própria formação intelectual do escritor.
O acervo do escritor encontra-se na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e a obra completa de Lima é composta por dezessete volumes incluindo romances, sátiras, artigos, crônicas, crítica, memórias e as correspondências ativa e passiva, além do material não-ficcional. Em 2001, foi publicado pela Editora Nova Aguilar LIMA BARRETO Prosa Seleta , volume único, organizado por Eliane Vasconcellos. Ressalta-se também que o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) teve uma edição crítica coordenada por Antonio Houaiss e Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo através da Coleção Arquivos, em 1997. Edição essa que nos revela a preocupação do autor com o texto através das alterações ocorridas entre as três publicações apresentadas e os manuscritos. A primeira publicação, em forma de folhetim, saiu no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro; a segunda, O Livro de Bolso, s.d. [1943] e a terceira, que é a quinta edição em livro, da editora Brasiliense, 1956, dirigida por Francisco de Assis Barbosa, com a colaboração de Antonio Houaiss e M. Cavalcante Proença.
A linha que separa o ficcional do não-ficcional na obra barretiana é muito tênue, ao transformar as pessoas de seu convívio em personagens, pelo grau de ficcionalização a eles conferido, ou ao se inspirar em imagens presentes nos livros e nas obras de arte, Barreto embaralha os limites entre ficção e realidade, daí o fato dos críticos, no início do século XX, classificarem sua obra como memorialista e autobiográfica, designando-a assim de forma pejorativa para aquele período.
O fato de ter iniciado a atividade literária através do jornal possibilitou ao escritor maior liberdade de expressão, uma vez que reinava o uso de uma escrita catedrática. Neste sentido, percebe-se que a crítica literária - atuante nas primeiras décadas do século XX - não detectou a ruptura que a escrita barretiana instaurava com o exercício vigente. O escritor ao optar por uma linguagem mais coloquial pôde expressar e denunciar questões da realidade nacional pouco visitadas: o preconceito racial, a luta pela sobrevivência, a manutenção da vida fora dos eventos sociais. Opção consciente que se reafirma em um projeto literário voltado para a função social da literatura, ou melhor, para uma literatura militante, que como conseqüência ocorre o desencontro entre o escritor e a recepção crítica. Desencontro este que se escancara já na estréia literária, em 1909, com o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha , período no qual o nome do escritor é proibido de circular por cinqüenta anos no poderoso Jornal Correio da Manhã de Raimundo Bittencourt.
O escritor Lima Barreto tido como figura estranha sofreu toda espécie de perseguição e acumulou entraves e barreiras na construção que o firmasse como um dos mais eminentes escritores - dos novos tempos - que a entrada do século XX exigia. Para a crítica especializada, a condição do homem parece ter subjugado a do escritor. Situação que Gilberto Freyre denuncia no prefácio de "O Diário Íntimo de Lima Barreto", publicado em 1954:
Faltou-lhe estímulo - talvez se devesse dizer a justiça: justiça social - de uma crítica esclarecida que prestigiasse nele o intelectual, autor desde a mocidade de livros que hoje o situam entre os romancistas mais significativos do Brasil.
Falta de justiça, este é o fato que marca - até os dias de hoje - a obra barretiana devido à intensidade negativa da crítica. Observa-se que Lima Barreto é reconhecido - apenas - como autor do romance Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), excluindo o restante de sua obra. A escrita literária é a arma que o escritor utiliza para reivindicar justiça para si e para os seus iguais, quer seja na cor da pele ou na condição social. Pois, desde o início da carreira, Lima opta por um caminho decisivo. Influenciado pela própria história de vida, não havia como fugir do compromisso com uma concepção artística que fosse, de caráter social, em que a preocupação com a solidariedade e com as relações humanas ganhava sempre a mais forte expressão, chegando inclusive, a ganhar um caráter utópico, como se vê na citação abaixo onde se refere à função da literatura na sociedade:
A missão da literatura é fazer comunicar umas almas com as outras, é dar-lhes um mais perfeito entendimento entre elas, é liga-las mais fortemente, reforçando deste modo a solidariedade humana, tornando os homens mais capazes para conquista do planeta e se entenderem melhor, no único intuito de sua felicidade 2.
Em vários outros momentos esta concepção sociológica aflora-lhe no discurso, pois a finalidade da obra de arte estava-lhe sempre associada a um sentido social específico: melhorar o convívio entre os homens. Na conferência de Mirassol, não pronunciada - "O destino da literatura" - procurou mostrar que a compreensão do fenômeno artístico só poderia ser efetivada ao se apreender a estreita relação entre esta e a sociedade:
O debate a esse respeito [função da literatura] não está encerrado enquanto não concordarem os sábios e as autoridades no assunto que o fenômeno artístico é um fenômeno social e o da arte é social para não dizer sociológico 3.
Relacionando integralmente arte e sociedade, o escritor acreditava que a origem e finalidade daquela estavam diretamente associadas a esta, quando atesta veementemente que "a arte é uma instituição social; ela surge da sociedade para a sociedade" 4. A raiz desse posicionamento sociológico vem, antes de tudo, da profunda crença adquirida ao longo dos anos de vida; de que através do mover dos próprios homens é que a sociedade pode se transformar, reformando os modelos de atuação dentro dela: "É chegada no mundo, a hora de reformarmos a sociedade, a humanidade, não politicamente que nada adianta; mas socialmente que é tudo" 5.
Contudo, tal posicionamento não adveio apenas de uma história de vida conturbada. Acrescida a esse fato pesam as influências das leituras efetivadas por Lima Barreto. Percebe-se que vários são os autores que, numa medida ou em outra, servem de orientação para fundamentar os pressupostos estéticos do escritor evidenciados na obra barretiana através de freqüentes citações ou referências:
Temos que rever os fundamentos de pátria, da família, do Estado, da propriedade; temos que rever os fundamentos da arte e da ciência; e que campo vasto está aí para uma grande literatura, tal e qual nos deu a Rússia, a imortal literatura dos Tourguêneffs, dos Tolstoi, do gigantesco Dostoievski, igual a Shakespeare, e, mesmo do Gorki! E só falo nestes; ainda poderia falar em outros de outras nacionalidades como Ibsen, George Elliot, Johan Bojer e quantos mais? 6
Vê-se através dessa citação a quantidade de escritores aos quais Lima faz menção. O mais importante percebe-se não ser mera citação ou simples referência. Ao que parece, Lima não o faz por simplesmente fazer. Muito menos por recurso retórico vazio ou demagógico: "e que campo vasto está aí para uma grande literatura, do gigante Dostoievski". Sugere vivenciar a fundo, a ponto de transpor para a vida e a obra muitas reflexões e pensamentos desses grandes mestres. É notável a admiração de Lima pelos escritores russos e isto lhe está explícito no projeto literário. A relação do escritor com a literatura russa torna-se transparente na obra barretiana e, também, outro aspecto bastante relevante para sua compreensão refere-se à concepção de Arte do escritor. Concepção esta que se mostra diretamente ligada à concepção de Arte do escritor russo Leon Tolstoi, o qual Lima cita na conferência "O destino da literatura", momento em que questiona a influência da literatura ou da arte na felicidade de um povo.
É possível dizer que Lima Barreto foi seriamente "contagiado artisticamente" pela concepção de arte de Tolstoi. Embora não tenha concluído o Curso de Engenharia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, isso não o impediu de escrever grandes obras. Para Tolstoi, quanto maior o poder de contágio, maior é o poder de comunicação; quanto mais forte a comunicação, mais verdadeira é a arte. Segundo Tolstoi, são três as condições básicas que determinam o grau de comunicação da arte: singularidade dos sentimentos expressos, clareza de expressão e sinceridade da emoção transmitida. Visto isso, nos parece plausível uma associação ao projeto/atitude literária de Barreto.
De todos os ensinamentos colhidos em Tolstoi, a sinceridade como condição essencial da arte foi lição jamais esquecida. Está presente desde o artigo de apresentação da revista Floreal, em que afirmava não se tratar de "uma revista de escola, de uma publicação de 'clã' ou maloca literária":
Não se destina, pois a Floreal a trazer a público obras que revelem uma estética novíssima e apurada, ela não traz senão nomes dispostos a dizer abnegadamente as suas opiniões sobre tudo o que interessar a nossa sociedade, guardando as conveniências de quem quer ser respeitado 7.
O contato com o arquivo literário de Lima mostra-nos o quanto Tolstoi se faz presente, percebe-se que a busca pela clareza de expressão traz a singularidade dos sentimentos expressos, nota-se que essas três condições tolstoianas estão presentes na obra de Lima e pode se dizer que a embasam: "Seriam como que exercícios para bem escrever com fluidez, claro, simples, atraente, de modo a dirigir-me à maioria dos leitores" 8. O escritor desde o princípio da carreira literária mantém firme uma linha norteadora de projeto literário. Idéias, concepções que se consolidam com o passar do tempo. Como vimos, a revista Floreal, lançada em 1907, traz a público desde a estréia, características e idéias do escritor que serão reforçadas nos escritos da maturidade, como em "Amplius" de 1916, no qual, respondendo a críticas sobre o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), reafirma seus ideais estético-literários:
Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda a disciplina exterior dos gêneros e aproveitar de cada um deles o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que caibam todas, pela revelação das almas individuais e do que elas têm de comum e dependente entre si 9 .
Constata-se que o escritor propõe uma ruptura com a tradição, através de atitudes favoráveis à renovação que viria a partir de 1922, com a Semana de Arte Moderna. Lima procura estabelecer uma literatura mais próxima do povo com a intenção de diminuir o distanciamento entre escritor-público tão comum na virada do século XIX, com o culto ao academicismo aristocrático que se mantinha através da literatura de Machado de Assis, Coelho Neto, Rui Barbosa, entre outros. Volta-se para a cultura popular que encontra expressão não apenas na linguagem, a qual foi fator preponderante para o "estranhamento" que a obra causou no meio literário, mas também na música, nas danças, nas formas de reunião social. É exatamente essa descida de tom que demonstra uma opção literária do escritor e justifica todo o projeto literário barretiano, e não falta de talento literário como queriam os críticos.
Segundo Maria Zilda F. Cury, reler os arquivos significa: "Fazer falar as fontes é voltar o olhar para as ruas das cidades em cujos calçamentos ainda ressoam os passos de escritores e intelectuais e os seus sonhos de mudança". 10 Assim, entrar em contato com o arquivo de Lima nos leva a rever o universo ficcional do escritor com suas angústias e sofrimento e a reconstruir os caminhos percorridos pelo escritor para a produção das obras. Principalmente, o subúrbio do Rio de Janeiro que nos parece estar vivo nas obras barretiana. Ainda citando Cury, com a ida ao arquivo de Lima busca-se "repensar o lugar da crítica e para reviso da história da literatura". 11
Percebe-se que Lima ao escrever: "que me importa o presente! No futuro é que está a existência dos verdadeiros homens" demonstra-se ciente da importância dos arquivos para se inscrever na história, lugar conquistado de tal forma que fica difícil desvencilhar as marcas do homem e do escritor.
BARRETO, Lima. Correspondência . Tomo II. p. 257.
BARRETO, Lima. Impressões de leitura . 2 a . Edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1961. p. 190.
BARRETO, Lima. Impressões de Leitura . 2 a . Edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1961. p. 56.
BARRETO, Lima . Impressões de leitura . 2 a . Edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1961. p. 216.
BARRETO, Lima . Impressões de Leitura . 2 A . Edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1961. p.165.
BARRETO, Lima. Impressões de Leitura . 2 A . Edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1961. p. 165.
BARRETO, Lima . Impressões de Leitura . 2 a . Edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1961. p. 119.
BARRETO, Lima . Impressões de Leitura . 2 a . Edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1961. p. 11.
BARRETO, Lima. Amplius ! Rio, 31-8-16.
CURY, Maria Zilda F. A pesquisa em acervos e o remanejamento da crítica . Manuscrítica . São Paulo. n. 04, 1993. p. 78-93.
CURY, Maria Zilda F. A pesquisa em acervos e o remanejamento da crítica . Manuscrítica . São Paulo. no.04, 1993. p.78.