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A solidão da obra: o texto e o vivido
Roberto Said (UFMG)
Quando escrever é entregar-se ao interminável, o escritor que aceita sustentar-lhe a essência perde o poder de dizer EU, perde então o poder de dizer EU a outros que não ELE. O que fala nele é uma decorrência do fato de que de uma maneira ou de outra, já não é ele mesmo, já não é ninguém. O ELE que toma o lugar do EU, eis a solidão que sobrevém ao escritor por intermédio da obra.
Maurice Blanchot
Em Blanchot, a literatura é pensada como uma experiência. Uma experiência pautada pelo risco da solidão. Todavia, a solidão vigente no espaço literário não diz respeito ao recolhimento, ao isolamento individualista e romântico do escritor. Esta seria simplesmente a solidão no mundo, a solidão de um eu absoluto que quer se afirmar sem os outros. A solidão mencionada pelo pensador françês, a solidão essencial, não se refere diretamente àquele que escreve, mas lhe interpela através da obra, deriva da exigência da obra. 1
Essa solidão, que cabe primeiramente à obra, seria uma espécie de condição da escrita literária. Ela exprime o fato de que, ao se lançar à página em branco, o escritor insere-se em um círculo de imensidade, onde o espaço não se fecha e o tempo não passa, ou melhor, onde o tempo não se dissipa, não deixa de ser presente. Ele se vê diante de uma tarefa interminável, pode-se dizer diante de uma "conversação infinita". Sua travessia não se consuma plenamente, pois, como observa Blanchot, o escritor nunca sabe se sua obra está realizada: o que terminou em um livro, será retomado ou destruído em outro, como se ele elaborasse sempre um único e mesmo texto, sempre inacabado e permanentemente re-escrito, mesmo quando se aventura em diferentes gêneros.
Conforme o teórico francês, o escritor, em seus descaminhos com a escrita, em seu incansável e insistente vir-a-ser, deve perder a capacidade de dizer eu . Pois se vê obrigado a renunciar a si, a perder seu próprio nome, a construir sua própria ausência, para que irrompa um outro, ao qual se deve evitar nomear com uma maiúscula, posto que não há aí uma presença substancial. A passagem que se dá é para um neutro, uma estranheza irredutível, um ele que toma o lugar do eu , um ele sem rosto, que já não é mais ele mesmo, mas alguém que se apaga, caminhando para o desaparecimento. Para Blanchot, a literatura é a arte de desaparecer; aquele que escreve é convidado ao apagamento. Apaga-se porque na travessia da obra é preciso que o ser falte, desapareça, se suprima, que não possa dizer prontamente eu sou , seguro de seus limites, para que venha a seu encontro o ser que a ausência de ser torna presente. Trata-se, portanto, de uma experiência desconcertante, tendo em vista que o escritor se constitui como sujeito e objeto; é a condição da escrita, mas também seu efeito, pois só se realiza em sua obra, só existe a partir dela.
Essas formulações de Blanchot acerca da literatura aparecem desdobradas nos pensadores do pós-estruturalismo, que se voltam à crítica da "metafísica da presença", a fim de desconstruir a ilusão substancialista de um sujeito do discurso idêntico a si mesmo. Pode-se dizer que tais concepções, assim como seus desdobramentos, incidem diretamente sobre o campo dos estudos dedicados à biografia que, contemporaneamente, sob o viés culturalista, se revigoram, explorando os processos de subjetivação do sujeito, o modo com os quais este reescreve sua identidade, de modo cifrar seu tempo e as marcas de sua cultura.
Em conjunto, tais concepções interessam à investigação biográfica, à medida que questionam os limiares e as hierarquias entre aquele que escreve e a sua escrita. Onde fazer passar a linha do limite? O limite entre a obra e seu autor? Onde começa, onde termina a obra? Para qual ponto se pode dirigir o olhar, se é o autor que nasce com o texto e não o contrário? Como restituir a trajetória de um sujeito que surge da escrita e caminha rumo a seu próprio apagamento? Seria possível seguir os passos de alguém cuja presença já não está garantida? Como entrever a história de um escritor e de sua obra se no processo autoral, tal como formulado pelo pensador francês, o que importa não é o inicio ou fim, mas o meio, o deslocamento, ou melhor, o desaparecimento?
O que está em jogo aqui é uma diluição das margens, ou melhor, uma descontrução das margens, a partir da qual as práticas e as pesquisas biográficas são impelidas a um desvio necessário. Pois, uma vez rompida a rígida tripartição entre a realidade, o texto e a subjetividade, como posicionar o olhar biográfico, que busca justamente os entrecruzamentos do sujeito com a escrita e a cultura? Qual é agora o corpus de um texto biográfico, se já não há a garantia da presença anterior e metafísica de um sujeito?
Deleuze, leitor assíduo e confesso de Blanchot, deixou-se tocar por essas questões. Suas considerações sobre a literatura também se organizaram em torno do ato de escrever, do vir-a-ser da escrita, como ele próprio anuncia em Crítica e clínica . Os ensaios desse livro focalizam, sobretudo, a experiência autoral, a fim de examinar os devires que ali se expressam, isto é, os atos mais imperceptíveis que só podem estar contidos em uma vida e presentes em uma escrita. Para Deleuze, "escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de se fazer, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida". 2 Escrever é tornar-se, é tornar-se outra coisa, mas não é de modo algum tornar-se o Escritor, alguém que impõe uma forma de expressão à imaginação ou ao vivido. O gesto da escrita estaria, assim, menos afeito ao desejo de significar que ao de cartografar regiões ainda por vir.
Nesses termos, o filósofo francês define a experiência literária como uma experiência cartográfica, pois há sempre uma viagem, uma multiplicidade de percursos legíveis e coexistentes em uma obra de arte, mas que só podem existir em virtude das trajetórias e dos caminhos interiores que os compõem. São percursos realizados com ou sob o texto, viagens reais e imaginárias, entradas e saídas que, ao operarem recortes no tempo e no espaço, ordenando territórios, elaboram um grande mapa - um mapa de afetos e devires. Segundo o autor, o mapa é aberto, "é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. 3
Nesses mapas traçados pela literatura, em que se entrecruzam linhas, pontos e rasuras, o que importa não é o ponto de partida ou o de chegada, a origem ou o pressuposto, mas sim as migrações, o entremeado de caminhos. O interessante é sempre o meio, pois o ato da escrita está sempre no meio, começa e termina sempre pelo meio, pelo qual transborda. O devir está sempre "entre". 4
Assim como Blanchot, Deleuze volta-se ao processo da escrita, para pensar a literatura como uma passagem de vida que atravessa o vivido, uma passagem de vida na linguagem, através da qual o pensamento se designa, se anuncia: "é a passagem da vida na linguagem que constitui as idéias". 5 Como a obra, o pensamento é um devir e não a representação de um sujeito ou de seu mundo. Nesse sentido, o filósofo também entende a literatura como uma experiência que leva a vida ao estado de uma potência não pessoal - mas não transcendente - na qual se perde o nome próprio, o nome que é a garantia de um ser e de um saber anteriores.
Diante dessa perspectiva, na qual a bio e a grafia têm o mesmo estatuto, embaralham-se as fronteiras entre o "cultural" e o "literário", entre o sujeito histórico e o sujeito da escrita, enfim, entre o corpo e a letra. Devem ser alterados, portanto, os procedimentos de leitura da crítica biográfica que, para além da vivência histórica do autor em foco, deve constituir doravante uma espécie de poética do vivido . Trata-se de restituir a passagem de vida encenada com a escrita, buscar a história da própria escrita, a história que se faz escrita, ou ainda, a história que se faz tal como uma escrita. Voltar-se aos jogos metafóricos entre o factual e o ficcional. Assim, como observa Eneida Maria de Souza, a vida pode ser lida como um texto, isto é, as experiências autorais são entendidas como "representações do vivido" 6, apresentando-se como material suplementar de leitura à obra propriamente literária. Justamente por isso, todos os ditos textos menores, como as cartas, as anotações particulares, os manuscritos inacabados e os diários íntimos podem ser colocados lado a lado com a produção "oficial" do biografado, compondo uma heterogênea rede textual.
Não obstante essa renovada demanda pelo material arquivístico e documental, as relações do biógrafo com acervos literários também foram deslocadas, posto que agora já não se trata de restituir a experiência da memória, os segredos dos bastidores da criação, nem tampouco de um retorno às origens. A busca não é a do tempo perdido, pois a estrutura de um arquivo literário é sempre espectral; é, como a própria obra, pautada por lacunas e pelo inacabamento, assombrada pela solidão e pelo desaparecimento de seu titular. Não há propriamente algo a ser descoberto, restaurado ou re-empregado, mas algo a ser produzido por meio de novos agenciamentos de leitura. O que se pode entrever nos arquivos, então, são as "impressões do autor", conforme expressão de Derrida. Para dizermos junto com ele,
o arquivo, como impressão, escritura, prótese ou técnica hipomnésica em geral, não é somente o local de estocagem e de conservação de um conteúdo arquivável do passado, que existiria de qualquer jeito e de tal maneira que, sem o arquivo, acreditaríamos ainda que aquilo aconteceu ou teria acontecido. Não, a estrutura técnica do arquivo arquivante determina também a estrutura do conteúdo arquivável em seu próprio surgimento e em sua relação com o futuro. 7
Sob o esteio do pensamento da desconstrução, os estudos biográficos podem transitar nos interstícios discursivos e textuais, voltando-se a uma historicidade descontínua, cuja meta consiste em investigar como se operam as passagens, as transformações estéticas, políticas e subjetivas de uma existência literária, abandonando os nexos causais ou deterministas que sinalizem uma totalidade. Podem tomar como pressuposto a multiplicidade e não a continuidade, os descaminhos da escrita e não a maturação do artista. Pois já não interessa ao biógrafo decifrar genealogias familiares, nem tampouco precisar fontes e influências literárias, estabelecer origens ou fins, mas avaliar os deslocamentos. Sobretudo porque o pensamento de um escritor não evolui progressivamente, mas procede por crises, cortes e fluxos elaborados nos agenciamentos culturais. Como afirma Deleuze, "a lógica de um pensamento é o conjunto das crises que ele atravessa, assemelha-se mais a uma cadeia vulcânica do que a um sistema tranqüilo e próximo do equilíbrio". 8
Na contemporaneidade, o biógrafo deve percorrer de uma ponta a outra a obra de seu biografado, como se examinasse um mapa, a fim de dar o salto para os processos coletivos, para as instâncias históricas, identitárias e culturais que atravessam o discurso literário. Isto porque o trajeto de uma escrita revela não só a subjetividade daquele que o percorreu, mas a subjetividade do próprio meio percorrido. Cada mapa traçado pela obra parece se superpor ao mapa real, como um espelho em posição oblíqua ao objeto refletido. Nesses termos, literatura, vida e história aparecem sobrepostas.
Esse olhar bio-cartográfico deve ainda se indagar quais são os agenciamentos discursivos, estéticos e políticos que atravessam uma obra, uma escrita, um livro. Quais as conexões, as multiplicidades culturais e subjetivas deflagradas por uma escrita? Pois assim, pode empreender uma leitura multidirecionada dos desejos e dos campos de forças que atravessam a escrita literária. Enfim, estudar quais os mapas ele traçava, os quadros que expõem o conjunto de posições de quem os pintou: singularidades traçadas sobre o espaço-tempo da modernidade .
Cf. BLANCHOT; O espaço literário ; RJ, Rocco; 1987; p. 11-12.
DELUZE, Gilles. Crítica e clinica; SP; Ed. 34; 1997; p.11.
DELEUZE, Gilles. Mil platôs, SP, Ed. 34, 1997, vol. 1. p. 22
Cf. DELUZE, Gilles, PARNET, Claire. Diálogos. SP; Escuta; 1998.
DELUZE, Gilles. Crítica e clinica; SP; Ed. 34; 1997; p.16.
SOUZA, Eneida Maria de. Crítica cult; Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2000. p.112.
DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo - uma impressão freudiana. RJ; Relume Dumará, 2001; p. 29.