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Arquivo Godofredo Filho: um local para estudo da cultura
Mônica de Menezes Santos (UFBA)
O Sr. José entrou na conservatória, foi a secretaria do chefe, abriu a gaveta onde o esperavam a lanterna e o fio de Ariadne. Atou uma ponta do fio ao tornozelo e avançou para a escuridão.
José Saramago 1
É assim, lançando-se à escuridão, ao caótico arquivo da Conservatória Geral do Registro Civil em Lisboa que o Sr. José, protagonista do romance Todos os Nomes , de José Saramago, termina - sem finalizar - a sua trajetória nessa narrativa que conta a história de um pacato funcionário público, auxiliar de escrita, que vive uma rotina entediante há 26 anos, subordinado a uma estrutura funcional altamente hierarquizada e burocrática, chegando mesmo ao caricatural. Mas que em suas horas de folga resolve colecionar recortes de jornais sobre pessoas famosas. Enquanto mero colecionador, sua vida continua transcorrendo tranqüilamente até o momento em que deseja saber mais sobre essas personalidades. Assim tem início a aventura do Sr. José pesquisador no labirinto da Conservatória Geral de Registro Civil.
Trago esta imagem para introduzir a minha reflexão sobre a pesquisa feita em arquivos, porque o trabalho em arquivo é esse se lançar ao abismo, ao perigo, ao incerto: o arquivo como labirinto, no qual o pesquisador se perde entre os papeis riscados, embaralhados para então imprimir uma nova ordem - a sua ordem, sempre interessada e provisória - e constituir uma dobra crítica, um saber que vai além das certezas instituídas, como ressalta Maria Zilda Cury:
Encontrar, sob a aparente desconexão dos elementos que compõem um acervo ou um arquivo princípios geradores que dão vida, forma e ordem ao conjunto, mesmo que sempre provisórias e cambiáveis, é a função do seu estudioso 2.
Um saber cambiável é certo, em devir, que não deverá estabelecer verdades ou continuidades, mas, retomando a imagem de Homi Bhabha para entre-lugar, poderá ser uma ponte, local de trânsito de discursos entre dois ou mais lugares (eu/outro, interior/exterior, passado/presente/futuro, vida privada/vida pública).
Sempre, e sempre de modo diferente, a ponte acompanha os caminhos morosos ou apressados do homem para lá e para cá, de modo que eles possam alcançar outras margens... A ponte reúne enquanto passagem que atravessa 3
São considerados traços da pós-modernidade a desterritorialização disciplinar, o rompimento dos limites entre a chamada alta literatura e a cultura de massa e a disierarquização dos discursos. No campo da crítica literária, a autonomia e autoridade concedidas ao texto literário vêm sendo suplantadas por abordagens que articulam outros "textos", descentrando o espaço crítico - antes restrito a análises intrínsecas e exclusivas da literatura - e abrindo caminho, por exemplo, para o estudo das fontes documentais. Neste sentido, os arquivos literários têm-se apresentado como um "novo" local para o estudo da literatura e da cultura, na medida em que as abordagens contemporâneas dos estudos literários, da crítica biográfica ou da crítica cultural procuram, cada vez com mais insistência e habilidade, articular produção ficcional e documental do escritor, deslocando, segundo Eneida Maria de Souza, "o lugar exclusivo da literatura como corpus de análise" 4 e expandindo "o feixe de relações culturais". Para tanto, a eleição das fontes primárias, dos velhos papéis acondicionados em arquivos, "material fragmentado, espedaçado, lacunar, sujeito às intempéries da história, do fogo do tempo, dos vazios da memória e dos buracos das páginas" 5, recebem agora um outro tratamento que, no dizer de Maria Zilda Ferreira Cury, "abrange a proposta de tomá-los não como 'documento', que seria interpretado objetivando-se a reconstituição de um passado; mas como 'monumentos', preservando a sua complexidade e autonomia" 6. Além disso, este "novo" olhar lançado aos arquivos não se restringe à escolha do material estudado, pois não se privilegia apenas os manuscritos das obras literárias e lança-se também o olhar para o pequeno: fotos, recortes de jornal, revistas, marginalia, correspondência, documentos pessoais. Nova é, ainda, a maneira de se olhar para esses papeis, porque o objetivo não é mais o de resgatar a memória cultural, mas o de fazer uma leitura "perlaborativa" 7 desta memória com o intuito de ressignificá-la, de revesti-la de diferenciados sentidos. Este exercício perlaborativo da crítica contemporânea, caracterizado pela fragmentação e pela descontinuidade, marca mais uma vez a parcialidade e incompletude do saber pós-moderno: saber em processo, constituído pela memória e pelo esquecimento. Sobre isto escreveu Eneida Maria de Souza:
No exercício de perlaboração da crítica literária dos últimos anos, reconhecem-se os ganhos e as perdas que passam a ser avaliados mediante as condições teóricas de sua produção. Exige-se, para tal, a articulação da memória e do esquecimento, da presença e da ausência de dados que configurem o material cinzento e contraditório do passado. O saber contemporâneo não se constitui por acúmulo, mas por saltos, seguindo o compasso de uma temporalidade intermitente e serial, com efeitos equivalentes a posterioridade freudiana. 8
O crítico de arquivo é um genealogista - entendida aqui a genealogia na perspectiva nietzschiana e foucaultiana - ele "trabalha com pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos" 9. Ele espreita os acontecimentos "lá onde menos se os esperava e naquilo que é tido não possuindo história" 10. Ele "se demora nas meticulosidades e nos acasos dos começos" 11. Ele "agita o que se percebia imóvel, fragmenta o que se pensava unido e mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo" 12. Ele faz aparecer a confluência de traços que marcam o corpo enquanto existência efetiva: a proveniência. Ele mostra a entrada em cena das forças, dos valores: a emergência. Ele historiciza e reinterpreta as interpretações. Ele corta o saber e faz surgir dos seus interstícios o recalcado. Ele se coloca em cena enquanto sujeito teórico que "se inscreve como ator no discurso e personagem de uma narrativa em construção" 13.
O estudo em arquivos ou acervos nos reitera que voltar os olhos para a releitura do passado adquire sentido se o nosso olhar nos trouxer também uma compreensão iluminadora do presente. E como a pesquisa em arquivos, mais do que qualquer outra, também encena, em mosaico, a memória e a história do pesquisador e da crítica de forma mais explícita 14.
O lugar do sujeito no discurso, antes esvaziado pelo estruturalismo, reaparece na crítica contemporânea, acentuando-se o espetáculo da escrita sob a forma de ensaios. E o pesquisador de acervos, por sua vez, como articulador dos enunciados dispersos no arquivo, constrói uma leitura marcada por escolhas e esquecimentos, na qual imprime a sua subjetividade. Andréas Huyssen, ao se referi à natureza dialética dos museus - que aqui aproximo de arquivo - escreve:
Fundamentalmente dialético, o museu serve tanto como uma câmara mortuária do passado - com tudo que acarreta em termos de decadência, erosão e esquecimento -, quanto como um lugar de possíveis ressurreições , embora mediadas e contaminadas pelos olhos do espectador (grifo meu) 15.
A pesquisa feita em arquivos requer, do ponto de vista metodológico, uma dimensão mais coletiva do trabalho de pesquisa, uma vez que a grande quantidade de material e a sua dispersão em pastas e invólucros necessitam da parceria de várias mãos. Além disso, a diversidade documental encontrada nos arquivos, carece de abordagens diversificadas: transdisciplinares - ou multidisciplinares, interinstitucionais. A figura do pesquisador solitário encerrado na biblioteca ou no arquivo vem dando lugar, então, aos grupos de pesquisa, que - através de projetos integrados entre disciplinas, departamentos, cursos e instituições - constroem saberes híbridos, nos quais muitas vozes teórico-críticas dialogam. E, embora tantas vezes este diálogo ainda não aconteça na dimensão que esperamos, por contingências tanto institucionais quanto pessoais, cabe a nós - estudiosos de arquivos - trabalhar pela construção "de um lugar teórico para o qual convergem as diferenças e as contradições inerentes à enunciação de intelectuais situados em sociedades multiculturais, na periferia ou no centro do capitalismo tardio" 16.
Agora - colocando-me em cena enquanto sujeito crítico - quero falar da minha experiência como estudiosa de arquivo. Há cinco anos enveredei pelo Arquivo do escritor baiano Godofredo Filho, como bolsista de iniciação científica (CNPq/PIBIC) no Projeto Godofredo Filho: uma biografia intelectual , o qual tinha como objetivo principal a reconstituição de sua biografia, através dos documentos que ali se encontram. Este arquivo compreende originais (em várias versões) de poemas publicados e inéditos, diários, anotações biográficas, cadernos de viagens, correspondências (inclusive de terceiros), objetos de uso pessoal, material iconográfico (fotografias, desenhos, croquis, aquarelas), documentos pessoais, diplomas, recortes de jornais, periódicos, livros autografados pelo/para o titular. Esses materiais constituem documentos importantes para a história da cultura baiana e brasileira, porque permitem o resgate de aspectos literários, artísticos, histórico-sociais e políticos passíveis de releitura e capazes de abrir novas perspectivas de compreensão das relações multiculturais que articulam a região e o país. Lançar o olhar sobre estes documentos, a fim de empreender não leituras nostálgicas de relembranças ou de reparos de um passado longínquo, mas leituras ressignificativas desse passado, implica em reconfigurar este arquivo e torná-lo - como propõe Foucault - pungente.
... o arquivo é, também, o que faz com que todas as coisas ditas não se acumulem indefinidamente em uma massa amorfa, não se inscrevam, tampouco, em uma linearidade sem ruptura e não desapareçam ao simples acaso de acidentes externos, mas que se agrupem em figuras distintas, se componham umas com as outras segundo relações múltiplas, se mantenham ou se esfumem segundo regularidades específicas; ele é o que faz com que não se recuem no mesmo ritmo que o tempo, mas que as que brilham muito forte como as estrelas próximas venham até nós, na verdade de muito longe, quando outras contemporâneas já estão extremamente pálidas. 17
Então, na dissertação de mestrado, a qual dedico-me atualmente, estudo como Godofredo Filho configurou a cidade de Salvador da segunda metade do século XX nos seus textos, que narrativas construiu sobre ela, que itinerários geográficos e simbólicos percorreu e que cidade podemos (re) configurar agora relendo os seus relatos.
A peculiaridade deste arquivo ter sido incipientemente organizado pelo próprio titular também nos remete a várias possibilidades de leitura. Foi Eneida Maria de Souza quem falou sobre o "museu imaginário" 18 de Pedro Nava, que fez da sua casa um repositório de lembranças de amigos e familiares, personificadas nos retratos, nos móveis, nos objetos, nas cartas, nos livros e transformadas em texto em suas memórias. O poeta Godofredo Filho também construiu o seu arquivo, ao longo de sua vida guardou e catalogou as suas memórias e, como Nava, transformou-as em um longo texto - escrito e reescrito ao longo de cinqüenta anos - que ele mesmo denominou de seu diário íntimo . Por isso, o seu acervo documental, além de possibilitar a ressignificação da memória literária do seu titular e de períodos culturais relevantes para a história da Bahia e do Brasil (entre 1920 - 1992) pode, ainda, contribuir para a construção de uma "teoria da memória", enfatizada pela relação de Godofredo Filho com os seus papéis, objetos e com suas próprias lembranças.
Da precariedade dos objetos, das fontes, dos métodos, das teorias, dos olhares é que nasce o saber produzido a partir do arquivo. Saber esse, por sua vez, também precário na medida em que é apenas uma dentre as múltiplas possibilidades de leituras. Como o Sr. José que se perdeu entre as incontáveis pastas da Conservatória Geral do Registro Civil, nos - pesquisadores de arquivos - também nos perdemos no emaranhado de informações encontradas nesses locais. Mas é a partir desse caos que nasce uma nova ordem, a qual, por sua vez, não implica em verdade, mas em discurso:
Nós produzimos discurso, não produzimos verdade. 19
SARAMAGO, José. Todos os nomes . São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
CURY, Maria Zilda Ferreira. A pesquisa em acervos e o remanejamento da crítica. In: Manuscrítica (Revista de Crítica Genética) . Nº 04. São Paulo: APML, 1993. p. 78-93.
Heidegger, citado por Homi Bhabha no texto Locais da cultura, introdução do seu livro O local da cultura (vide bibliografia).
SOUZA, Eneida Maria de. Notas sobre a crítica biográfica. In : ___. Crítica Cult . Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 111-120.
CURY, Maria Zilda Ferreira. A pesquisa em acervos e o remanejamento da crítica. In: Manuscrítica (Revista de Crítica Genética) . Nº 04. São Paulo: APML, 1993. p. 78-93.
CURY, Maria Zilda Ferreira. Acervos: gênese de uma nova crítica. In: MIRANDA, Wander Melo (organizador). A trama do arquivo . Belo Horizonte: Editora UFMG, 1995. p. 53-63.
Perlaboração na acepção de anamnese - como propõe Lyotard retomando Freud - que não fornece conhecimento sobre algo, não reproduz algo, mas produz novos sentidos para uma cena apenas vislumbrada, intuída. ( LYOTARD, François. Considerações sobre o tempo. In: ___ . O inumano: considerações sobre o tempo . Lisboa: Ed. Estampa Ltda, 1989. p.40-49.)
SOUZA, Eneida Maria de. Tempo de pós-crítica. (MIMEO)
FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In: ___. Microfísica do poder . Org. e trad.: Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2003. p. 15-37.
SOUZA, Eneida Maria de. Notas sobre a crítica biográfica. In : ___. Crítica Cult . Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
CURY, Maria Zilda Ferreira. A pesquisa em acervos e o remanejamento da crítica. In: Manuscrítica (Revista de Crítica Genética) . Nº 04. São Paulo: APML, 1993. p. 78-93.
HUYSSEN, Andréas. Escapando da Amnésia. In: ___. Memórias do modernismo . Trad. Patrícia Farias. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997. p. 222-225.
LIMA, Rachel Esteves. Memória da crítica. Disponível na internet via: http://www.ceud.ufms.br/litcomp/forum/Raquel_Lima.doc. Acesso em 09 de junho de 2004.
FOUCAULT, Michel. O a priori histórico e o arquivo. In: ____. A arqueologia do saber . Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 6ª ed. Rio de Janeiro: Forence Universitária, 2002.
SOUZA, Eneida Maria de. O museu imaginário. In: ___. Pedro Nava - o risco da escrita . (no prelo)
Rachel Esteves Lima, aula de Crítica e Poética Moderna e Contemporânea, do dia 21 de janeiro de 2004, no Instituto de Letras da UFBA.