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Memórias de Cyro dos Anjos
Maria Rosilva Santos Ferreira (UFMG)

O narrador de A montanha mágica , de Thomas Mann, num de seus vários momentos analíticos, sugere que "Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido". 1 E provoca esquecimento porque a transferência suprime determinadas relações entre o homem e a realidade objetiva. Como na história do escritor alemão, existe uma mudança de espaço no Acervo de Escritores Mineiros. Essa mudança, obviamente, impõe um corte espaço-temporal que desliga algumas referências, ação percebida na própria localização e decoração do ambiente, por exemplo. Apesar disso, é patente a promessa de contato com o que foi o ambiente de trabalho do intelectual, visto que se preservou a mesma disposição dos objetos feita pelo titular. Dessa forma, fica evidenciada a perda, que independe da ação das pessoas, e a busca de reconstituição, com o máximo de aproximação, da atmosfera que abrigou o escritor e da organização material feita por ele.

Se, para o narrador de A montanha mágica , o deslocamento causa certo esquecimento, ou repouso de algumas relações, por colocar o indivíduo em estado livre, de maneira diferente expressa-se Belmiro Borba. Esta personagem do romance O amanuense Belmiro , de Cyro dos Anjos, procurou encontrar no espaço, voltando ao lugar onde viveu, as sensações de uma outra época. Tal busca é frustrada no momento em que o amanuense percebe que não consegue experimentar a mesma emoção diante daquela paisagem. E conclui, então, que "na verdade, as coisas estão é no tempo, e o tempo está é dentro de nós"(p.98) 2. Assim, não interessa somente a presença física do objeto, mas que deste emane o "espírito cotidiano".

Recorremos ao pensamento dessas duas personagens literárias para tentar demonstrar os sentimentos que nos assaltam frente ao trabalho de pesquisa no Acervo de Escritores Mineiros da UFMG. É bem diversa a experiência de se pesquisar num ambiente em que viveu o escritor, diante de pessoas que podem falar sobre ele, daquela em que há um arquivo organizado num espaço público, com sistema de segurança e com planejamento estético da sala. Contudo, percebemos aí um diferencial a favor de nosso locus de pesquisa, pois o lugar resgata a ambientação particularizada, idiossincrática do escritor. Como assinalou Silvana S. Santos, "a própria condição de privado e caráter pessoal da documentação contida no arquivo / biblioteca impõe certas 'regras' à sua organização uma vez que deve ser preservada, ao máximo, a identidade do titular do acervo"(p.106) 3. Devido ao Acervo ter mantido essa organização, na medida do possível, quando nos encontramos diante dos móveis, livros, e de tudo o que o compõe, sentimo-nos cercados pelo "espírito cotidiano", a que se referiu Belmiro Borba. A partir do estudo da documentação, aproximamo-nos daquela época. Naquele espaço, ainda que construído distante do que vivenciou, estão guardadas memórias de toda uma vida. Contardo Calligaris, no texto "Verdades de autobiografias e diários íntimos", em certa altura, ao tentar traçar a diferenciação, e também a definição, entre as diversas formas de escritas de si, destaca a memória material . Entendida como os arquivos pessoais, organizados ou não, que guardam desde "fotos de lembranças, até a simples acumulação de objetos e documentos" (p.46) 4.

No ambiente carregado de história e de arte tendemos, paradoxalmente, a duas vias. A primeira ocorre imediatamente ao correr das vistas pelas estantes de livros, fotografias, escrivaninha com os objetos intactos, pelo próprio cheiro que emana dos livros já tão manuseados. Aqui, para o apreciador, tocar os objetos é quase sacrilégio. Preservar é degustar como espectador, pois o caráter mítico é intocável. Entretanto, como pesquisadores, nossa tarefa é entender exatamente a trajetória que fez do artista esse ser especial, compreender as relações estabelecidas em suas obras e destas com a época e o momento sócio-histórico em que viveu. E, para tanto, é necessário o toque, o exame, a busca pelos vestígios materiais.

Ao longo do trabalho, estabelecemos contato com o lado mais íntimo do pesquisado, visto percorrermos seu pensamento em anotações presentes em livros, agendas e em sua correspondência. Tudo que reflete o pensamento do escritor é fonte privilegiada para pesquisa e crítica de sua obra. Nesse sentido é que Maria Zilda Cury afirma que "o estudo dos manuscritos e rascunhos redimensiona os paradigmas de leitura do texto, oferecendo uma amplitude maior para a atividade crítica" (p.54) 5. A esta altura, já estamos falando sobre a segunda via, a desmitificação. A imagem erigida de uma personalidade, às vezes, em nada deve à ação dela mesma, mas do público que a reconhece, ou que constrói uma representação, através das características da arte que produz. No que concerne a escritores, estamos inclinados a construir uma imagem a partir do que escrevem, relacionando vida e obra, por exemplo, ainda que saibamos do risco decorrente dessa relação. O trabalho de pesquisa nos arquivos literários permite tanto desfazer tais equívocos, se acaso existirem, quanto conhecer o labor que permitiu a elaboração da obra. Um trabalho que, inevitavelmente, gera a dessacralização. Citando novamente Maria Zilda Cury, ela afirma que:

Dessacraliza-se o texto literário porque, incidindo sobre seus antecedentes, logra-se percebê-lo nas suas hesitações, nos seus projetos, nas suas angústias, enfim, debruça-se sobre os ombros do escritor revelando-o na sua dimensão de artesão da palavra, no seu trabalho de releitura de si mesmo e da tradição. (CURY, 1995:59).

 

No Acervo de Escritores Mineiros ocupamo-nos da pesquisa sobre Cyro dos Anjos. Num sítio singular de estudo sobre sua vida e obra, percebemos a importância não só do que deixou escrito, mas também do que foi sua participação no cenário literário, social e político da época. Ali encontramos, além de sua biblioteca, vários documentos de um período importantíssimo para as letras mineiras e nacionais, qual seja, o Modernismo. Há, também, objetos de muito valor que confirmam seu lugar de destaque nas letras, como os prêmios literários, o fardão da Academia Brasileira de Letras e as primeiras edições de seus livros; há ainda outras publicações interessantes, como a do livro Montanha (1956), impresso em quadrinhos em 1957. O acervo é organizado em séries e subséries, dentre as primeiras podemos destacar a iconográfica, na qual encontramos fotografias do prosador montes-clarense em companhia da família, de amigos e de literatos. O valor documental desses registros supera o simples estudo da vida do escritor, pois é fonte de pesquisa sobre a sociedade e a interação entre as pessoas naquele contexto. Já a série correspondência é fecunda em informações sobre o fazer literário. Trata-se de um arquivo que nos presenteia com a deliciosa correspondência entre o escritor e seu amigo Carlos Drummond de Andrade, registrada desde 1930 até 1986. A pesquisa neste material não fica restrita ao caráter estilístico e poético, que certamente encontraremos. É nela que flagramos a ligação entre os dois escritores mineiros, que ultrapassa os limites do companheirismo, pois fica explícita nas cartas uma relação de compadrio. E é ali, também, que estão registradas as opiniões e críticas que ambos faziam sobre as produções um do outro.

A pesquisa nesses espaços revela, ainda, o gosto estético e as influências literárias. Obviamente são conjeturas que, posteriormente, poderão ser estabelecidas, mas à primeira vista parece-nos bastante pertinente. No que se refere a Cyro dos Anjos, a biblioteca é bastante sugestiva quando a confrontamos com sua obra. O ponto de partida para levantar algumas hipóteses surge em suas memórias, que nos oferecem algumas pistas sobre as possíveis trilhas a serem percorridas, pois é a partir de A menina do sobrado (1979) que conhecemos um pouco a personalidade do prosador quanto às suas preferências literárias, por exemplo. É ali que ele afirma não ter se filiado a postulados estéticos, mas a pessoas, e declara que no embate entre o novo e o velho, ficou com a poesia de Carlos Drummond de Andrade e com a prosa de João Alphonsus, mas, nas palavras dele, sem "atirar os velhos à geena" (p.396) 6. Expressão que significa, literalmente, lançar ao inferno a sua base eciana e machadiana. Tendo em vista tais afirmações, percebemos que sua biblioteca é bem diversificada, encontramos desde os clássicos gregos, muitos livros de José de Alencar e Machado de Assis, além de Olavo Bilac, Manuel Bandeira, até Raul Bopp e João Cabral de Melo Neto. Notamos, ainda, que devotava especial atenção aos escritores mineiros, como Eduardo Frieiro, Guilhermino César, Emílio Moura, Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles e, principalmente, Carlos Drummond de Andrade, referência que traz 50 entradas. Outra curiosidade perceptível ali é o grande número de livros memorialísticos, dos mais diversos autores.

Se, num arquivo literário, um dos caminhos mais percorridos é o do prototexto, termo que aqui designa os vários textos constitutivos da rota de construção do texto publicado, é impossível ignorar a quantidade de livros de Proust e outros tantos sobre este mesmo escritor francês. Para o leitor de Cyro dos Anjos, torna-se inevitável promover relação entre o fascínio pela obra do autor de Em busca do tempo perdido e a questão do tempo, que aparece constantemente na obra do prosador mineiro. A reflexão a respeito do que passou sobre os acontecimentos contemporâneos, o temporal, enfim, é mais evidenciada no romance O amanuense Belmiro e na recorrência em seus livros, da escrita de um diário. Assim sendo , mediante essas lucubrações, assinalamos que o que se procura é delinear, o mais fiel possível, o prototexto; é traçar o caminho de volta, inversamente ao que fez o escritor ao produzir sua obra.

Frente a esse caráter de exploração é que determinados objetos despertam nosso interesse. O que declaramos como, precisamente, uma das peculiaridades dos arquivos literários, visto nos permitirem entender melhor a escritura da obra, levando em consideração as influências literárias, do meio social que experimentou o escritor e, por que não, das suas relações pessoais; já que, como o próprio Cyro o afirmou, (como já antecipamos linhas atrás) "seguia a Carlos e João, sob o fascínio da poesia de um e os encantos da prosa do outro, ricas, originais, mensageiras ambas de uma novidade autônoma" (p.396) 7.

Se o espaço provoca olvido, também nós, pesquisadores, estamos fadados a isso. Ali, num outro local, rodeados pela história documentada de uma personalidade, para nós fascinante, somos remetidos àquele tempo e esquecemos da realidade aqui fora. Conduzidos pelo tal "espírito cotidiano", mergulhamos numa outra dimensão, por intermédio da percepção das relações pessoais, sociais e individuais contidos naqueles objetos. Espírito recuperado do tempo através daquilo que o próprio prosador deixou.

Esses objetos, tal qual o tempo, tal qual o espaço, apartam-nos do nosso mundo, "desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o em estado livre, primitivo" (p.12) 8, como está descrito no romance de Thomas Mann.

 

MANN, Thomas. A montanha mágica . 8 ed. Trad. Herbert Caro. Nova Fronteira: Rio de Janeiro. p.801, 1980.

ANJOS, Cyro dos. O amanuense Belmiro . 17 ed. Garnier: Belo Horizonte. p.227, 2002.

SANTOS, Silvana S. Acervos Privados. In: MIRANDA, Wander Melo. A trama do arquivo . Editora UFMG, Centro de Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG: Belo Horizonte. p105-110, 1995.

CALLIGARIS, Contardo. Verdades de autobiografias e diários íntimos. Estudos históricos . Editora da Fundação Getúlio Vargas: Rio de Janeiro. P.43-58. n.21, 1998.

CURY, Maria Zilda Ferreira. Acervos: gênese de uma nova crítica. In: MIRANDA, Wander Melo. A trama do arquivo . Editora UFMG, Centro de Estudos Literários da faculdade de Letras da UFMG: Belo Horizonte. p.53-63, 1995.

ANJOS, Cyro dos. A menina do sobrado . Garnier: Belo Horizonte. p.421, 1994.

Op. cit. p.5.

op. cit. p.1.