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A recepção de Infância, em 1945, nos arquivos do Museu Casa de Graciliano Ramos
Márcia Cabral (UERJ)
É bem conhecida a dificuldade no campo da história literária de encontrarmos registros relativos às primeiras edições dos livros publicados. Tal dificuldade deve-se, em parte, à raridade dos catálogos das editoras, à conservação das primeiras edições das obras, dentre outros aspectos, que envolvem a memória social.
Nessa perspectiva, o Museu Casa de Graciliano Ramos, situado à rua José Pinto de Barros, nº 90, Centro, em Palmeiras dos Índios, Alagoas, guarda algumas surpresas.
Inaugurada em 5 de outubro de 1973, inscreve-se na categoria de museu municipal e casa de cultura, subordinados à Fundação de Assistência Cultural e Educacional de Palmeiras dos Índios (FACEPI).
O pesquisador desavisado talvez estranhe a simplicidade arquitetônica da casa, que pouco se distingue das demais construções localizadas à margem da rua José Pinto de Barros. Depois de percorrermos algumas quadras, avistamos um antigo casarão restaurado, cuja única distinção externa é um jardim, com as iniciais G.R., gravadas em cimento.
Motivo de orgulho dos moradores de Palmeira dos índios; foi nessa residência que Graciliano Ramos viveu parte da vida, trabalhando na loja Sincera do pai, exercendo a função de prefeito (1927 - 1931) e dedicando-se à escrita dos originais de seu primeiro romance. Vejam-se alguns registros extraídos da ata de inauguração do Museu Casa de Graciliano Ramos:
A casa de Graciliano Ramos em Palmeira dos índios é sem dúvida uma das mais importantes casas de cultura de Alagoas, não só pelo precioso acervo referente à vida e seu patrono, mas também por ser instalada no imóvel onde Graciliano viveu e escreveu "Caetés". 1
De fato, no "precioso acervo", é possível encontrar objetos de uso pessoal, livros, artigos de jornais, revistas, ensaios, críticas, primeiras publicações e edições estrangeiras. Lamentavelmente, a crer nas palavras do técnico em conservação do acervo, as condições não parecem ser das mais favoráveis, pois:
Não temos instrumentos de pesquisa ou catálogos sobre as peças, fruto da carência de pessoal especializado e ausência de bibliografia técnica que nos auxilie no tratamento do acervo. Percebe-se que se existisse algum instrumento que divulgasse o acervo, o acesso ao mesmo seria melhor. A ampliação do acesso aos arquivos, lugares privilegiados para a reflexão sobre a cultura, resultará na possibilidade democrática de se transformarem em patrimônio de muitos. 2
Não obstante o descaso em relação ao arquivo por parte do poder público, é digno de nota o fato de que o pesquisador possa encontrar documentos pessoais do escritor, manuscritos - com correção do próprio punho - objetos pessoais mantidos em espaços e invólucros aparentemente adequados para conservação. Além disso, ao iniciarmos pesquisa acerca da obra Infância, pudemos encontrar interessante material relacionado à recepção do livro por parte da crítica, além de ter acesso às primeiras edições da obra em português, inglês, francês, espanhol e examiná-las para fins de cotejo.
A idéia de estender a pesquisa, que começou no Arquivo Público de Maceió, deveu-se à urgência de coletar dados expressivos sobre Infância, relacionados à opinião da crítica. A pesquisadora necessitava escrever um capítulo de sua tese de doutorado 3, com foco em uma teoria dos gêneros e sua relação com a história. Fazia-se necessário postular as fronteiras entre veracidade e verossimilhança do que Graciliano Ramos rememorava sobre sua formação de leitor, no período da infância. Afinal, o que dizia a crítica a este respeito à época da publicação? Como coletar dados aparentemente tão dispersos?
Para alegria da pesquisadora, o material organizado no Museu Casa de Graciliano Ramos trazia respostas muito interessantes.
A metodologia da pesquisa, naquela etapa, pautou-se na coleta, leitura e análise de 14 artigos extraídos de jornais e revistas de 1945 e de 1946 e no exame de apontamentos críticos retirados da 2ª edição de Infância.
COMO A CRÍTICA JULGOU INFÂNCIA
Observem-se alguns desses julgamentos da crítica brasileira sobre Infância, incluídos na orelha e quarta capa da mencionada edição:
À medida que ele recapitula factos e episódios, êle reconstitui tipos e imagens. Êstes surgem e repontam, aqui, acolá, acentuam-se, tomam coloridos, agitam-se, escolhem atitudes, instalam-se nas nossas simpatias, como entes da razão (Eloy Pontes).
Obra-prima pelo estilo, mais redondo e macio que o de S. Bernardo e de tão boa qualidade quanto êle. Obra-prima pela transposição magistral da vida em obra de arte, pela imparcialidade com que sobrepõe os direitos do artista às solicitações da vaidade e da discrição (Antônio Cândido).
Infância desenvolve-se em dois planos perfeitamente nítidos: o da memória e o do comentário - o mundo pequeno-burguês do Nordeste e a análise metódica das coisas e dos homens. O primeiro plano é descritivo; o segundo, analítico (Edmundo Rossi). 4
Para Eloy Pontes, não se trata apenas de rememorar fatos vividos, mas de reconstituir tipos e imagens de cores diferenciadas, que se movem, adotam atitudes próprias: "a medida que ele recapitula factos e episódios, ele reconstitui tipos e imagens". No julgamento de Antonio Cândido, houve transposição da vida em obra de arte: "Obra-prima pela transposição magistral da vida em obra de arte". Ambos os críticos indicam, portanto, a natureza modificada dos fatos vividos em matéria literária. Ao que Edmundo Rossi acrescentaria um tratamento analítico ao conteúdo dos fatos evocados pela memória: "Infância desenvolve-se em dois planos perfeitamente nítidos: o da memória e o do comentário - o mundo pequeno-burguês do nordeste e a análise metódica das coisas e dos homens".
Com efeito, segundo a visão desses críticos, há algo além do plano vivido que mereceria ser examinado. Talvez fosse o caso, então, de se refletir sobre os limites do tratamento de Infância a partir das diversas possibilidades sugeridas: romance autobiográfico, memórias ou autobiografia, simplesmente.
Além dos julgamentos dos críticos à época da publicação de Infância, alguns elementos relacionados à materialidade do impresso pareciam indicar pistas para a compreensão do gênero. Observem-se as inscrições na imagem abaixo:

Fig. 1: capa da 1ª edição de Infância
A primeira edição de Infância data de 1945 e foi publicada em uma Coleção organizada pela Livraria José Olympio Editora intitulada Memórias, Diários, Confissões. Além de Infância, constam no catálogo desta editora do ano de 1946, conforme figura abaixo, outros títulos sugestivos que remetem a algumas dessas denominações: Recordações de Infância e Juventude, de Ernest Renan, Memórias, de Leon Tolstoi, Memórias de Casanova e Memórias de Gandhi. Ao que a quarta capa da primeira edição de Infância viria complementar, indicando, igualmente, outros títulos do gênero: Cartas Íntimas, de Ernest Renan e Henriette Renan, Confissões de um Comedor de Ópio, de Thomas de Quincey, Memórias, de Goethe, Memórias de um Revolucionário, de Kropotkin, Memórias do Conde de Gramont, Autobiografia, de Mark Twain e Memórias, de Rabindranath Tagore.

Fig. 2: página 18 do Catálogo da José Olympio,de 1946.
Curioso observar, na figura acima, o fato de que Infância seja o único título comentado por Otávio Tarquino, crítico de prestígio, o que faz supor a intenção por parte da editora de inscrever a nova publicação no mesmo status das obras estrangeiras relacionadas.
Considerando, pois, a coleção em que se insere o livro uma primeira indicação da leitura pretendida, é possível que Infância tenha sido inscrita à época, aleatoriamente, em qualquer uma dessas denominações. O periódico Carioca, de 13 de outubro de 1945, 5 por exemplo, analisando a recepção inicial de Infância, opta pela denominação memórias:
"Infância", de Graciliano Ramos.
Graciliano Ramos, o autor de tantos romances de sucesso, o grande escritor brasileiro tão justamente apreciado por quantos o têm lido, publica hoje, na Coleção Memórias, Diários e Confissões, da livraria José Olympio, a história de sua infância.
Nossos escritores raramente publicam as suas memórias . Ensaiaram-no com sucesso Medeiros e Albuquerque e Humberto de Campos. Outros que o poderiam e o deveriam fazer mais para a posteridade do que mesmo para eles não o fizeram. A idéia de que o homem que escreve sobre si próprio está fazendo obra de cabotinismo revela apenas uma estreiteza mental. Todo escritor, todo político, todo artista, todo homem público, enfim, deveriam divulgar as suas memórias ou o seu diário. (CARIOCA, 1945), (grifos meus).
Como se pode observar, o crítico ora se refere à escrita da história da infância do escritor, ora considera ter Graciliano produzido as suas memórias. Talvez as três categorias indicadas na Coleção - Memórias, Diários, Confissões - induzissem a crítica, de início, a "ler" o livro segundo uma das três possibilidades. Não se tratando de diário, escrita de foro mais íntimo, datada, narrada, em geral, no presente, nem sendo confissão, uma vez que esta modalidade de escrita pressupõe a alusão à própria vida com louvor a Deus ou confissão aos homens, só restaria a possibilidade de inscrevê-lo como memórias, tal como Memórias de Casanova, por exemplo. 6
Já o periódico A Vida dos Livros, de outubro de 1945, 7 parecia não limitar Infância ao gênero Memórias simplesmente. Prova disso é a ênfase do artigo ao tratamento estético a partir do qual Graciliano Ramos escreveu a obra e, de tal modo, pode ir além do valor estritamente documental.
Um Novo Memorialista
De há muito Graciliano Ramos vinha anunciando as suas memórias, cuja primeira parte, sob o título de INFÂNCIA, acaba de aparecer na Coleção Memórias, Diários e Confissões.
Dos escritores que surgiram de 32 para cá, Graciliano Ramos é, sem dúvida, uma das figuras mais brilhantes e aquêle em que o estilo, como marca da personalidade e do senso de arte do autor, o consagra um dos grandes prosadores modernos do Brasil. Enquanto muitos se preocuparam, apenas, com o valor documentário do romance, o autor de Vidas Secas teve em vista o postulado de que a arte, para servir a idéias sociais, deve faze-lo pelos seus meios adequados, isto é, os meios estéticos. Sua obra vem-se construindo toda assim, dentro desse princípio. Por isso mesmo, Graciliano não tem pressa. Trabalha devagar, consciosamente, construindo a forma com a meticulosidade de um artista clássico. (A VIDA DOS LIVROS,1945, p. 3)
Ao que Edmundo Rossi, acrescentaria :
Em Infância (Coleção Memórias, Diários, Confissões, Livraria José Olympio, Rio, 1945) o Sr. Graciliano Ramos obtém o máximo de resultado de suas técnicas de memória. Mas, de certa forma, ainda se trata de ficção: a experiência é penetrada de análise, transformando-se em objeto de um esmiuçamento, às vezes cruel, que revolve os componentes do meio social. (O ESTADO DE SÃO PAULO, 22 de setembro de 1945) 8
Contudo, aspectos relacionados à materialidade do suporte trazem alguns outros índices esclarecedores. Quando examinada a capa da segunda edição de Infância, datada de 1952, percebe-se que, passados sete anos da primeira edição, acaba prevalecendo, ao menos na visão dos editores, a noção de memórias atribuída à obra.
Não é de se estranhar, portanto, a grande oscilação quanto à classificação do gênero por parte dos estudiosos do assunto.

Fig. 3: capa da 2ª edição de Infância.
Outros arquivos literários foram consultados ao longo da pesquisa, como o Acervo IEB - Instituto de Estudos Brasileiros da USP -, o Centro de Documentação Alexandre Eulálio, no Instituto de Estudos da Linguagem - UNICAMP, a seção de manuscritos da Biblioteca Nacional. Contudo, os dados coletados no Museu Casa de Graciliano Ramos foram os elementos iniciais, que permitiram compreender Infância na categoria de escrita autobiográfica, para além da designação de gênero.
A razão deste trabalho foi a de compartilhar alguns elementos relacionados à metodologia da pesquisa na área dos estudos de teoria e história literária, o que pode apontar para a relevância dos arquivos, contribuindo para o resgate de parte expressiva da produção cultural brasileira .
SILVA, Maria Aparecida. Anotações extraídas da ata de inauguração do Museu Casa de Graciliano Ramos. Palmeira dos Índios, julho de 1985.
PEREIRA, João Tenório. Depoimento registrado em carta, endereçada à pesquisadora, em 21 de maio de 2004.
Trata-se da tese de doutorado intitulada Infância , de Graciliano Ramos: uma história da formação do leitor no Brasil , defendida no IEL - Unicamp, em março de 2004.
Quarta capa e orelha de Infância , 2ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio, 1952.
Infância, de Graciliano Ramos, Carioca , 13 de outubro de 1945. Depositário: Museu Casa de Graciliano Ramos, Palmeira dos Indios, Alagoas. Pesquisa realizada em julho de 2002. Agradeço a gentileza do funcionário João Tenório Pereira pela localização desse e demais documentos, que fazem parte do acervo dessa instituição.
Conforme assinala Gusdorf (1991), a genealogia do gênero autobiográfico deveria ser considerada a partir das Confissões de Santo Agostinho, no século V. Contudo esta posição parece não ser consensual, pois boa parte de suas argumentações polemiza com a posição do estudioso Philippe Lejeune (1996), para quem a origem do gênero deve ser considerada a partir das Confissões de Rousseau, no século XVIII. Ver: GUSDORF, Georges. Les écritures du moi . Lignes de vie 1. Paris: Éditions Odile Jacob, 1991 e LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique . Paris: éditions du Seil, 1996.
Um Novo Memorialista, A Vida dos Livros , outubro de 1945. Depositário: Museu Casa de Graciliano Ramos. Palmeira dos Índios, Alagoas. Pesquisa realizada em julho de 2002.
ROSSI, Edmundo . Infância. O Estado de São Paulo . São Paulo, 1945.