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Clarice Lispector e Monteiro Lobato: uma amizade atravessada pela fidelidade
Lucilene Machado Garcia Arf (UFMG/CPTL)

Quanto a mim, continuo a ler Monteiro Lobato. Ele deu iluminação de alegria a muita infância infeliz. Nos momentos difíceis de agora, sinto um desamparo infantil, e Monteiro Lobato me traz luz.

LISPECTOR. A descoberta do mundo.

 

A relação de amizade entre Clarice Lispector e Monteiro Lobato, se estabelece através da fidelidade constituída em diversos momentos da obra clariciana e por meio de traços biográficos da leitora-escritora. Na verdade, são momentos de inusitada demonstração de afeto e admiração, como se Clarice visse em Lobato um modelo de identificação, ponto de referência, ou, à maneira de Borges, estivesse escolhendo seu precursor, "o que acarreta a formação de um círculo imaginário de amigos reunidos por interesses comuns, parceiros que se unem pela produção de um vínculo nascido na região fantasmática da literatura" 1 . Um imaginário ortodoxo para o qual buscamos alguns subsídios a fim de que sejam feitas aproximações entres os textos dos mesmos, e se estabeleçam relações que expliquem semelhanças (ou diferenças) na arte e na vida, partindo do pressuposto de que a vida de Clarice pode ser considerada como texto e suas personagens como figurantes deste cenário de representação. Nosso interesse é sublinhar essa ligação e o lugar que ela ocupa na obra da escritora, recolhendo elementos entendidos como importantes no estabelecimento desse elo de fidelidade, considerado aqui o ponto potencial da amizade entre ambos.

Devemos lembrar que tal amizade só pode ser estabelecida no campo da imaginação literária, como metáfora, uma vez que ambos os escritores de fato não se conheceram. Daí pensarmos que, se num primeiro momento, tal relação é atravessada por um hiato, cabe ao estudo biográfico preencher metaforicamente tal hiato, ou seja, criticamente. Lembremos que Clarice inicia sua vida literária pouco antes de Lobato morrer, e que a voz do autor continua, de certa forma, a viver no exercício de leitura da jovem escritora. Exemplo dessa relação é mostrado por Souza ao tratar da relação entre Borges e Oscar Wilde. Um encontro que recupera um século de distanciamento.

Encontros ficcionais e amizades literárias formam redes e possibilitam o diálogo entre vozes no espaço aberto da ficção: "Uma crítica técnica de Wilde torna-se para mim impossível. Pensar nele é pensar num amigo íntimo, que não vimos nunca mas cuja voz conhecemos, e que sentimos, a cada dia, a sua falta." 2

 

Tal falta pode ser encontrada no conto "Felicidade Clandestina", do volume homônimo publicado em 1971, que se lê: "guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo " 3 , o que leva, desde logo, a perceber que a escritora cria um território sagrado e sacrílego que é o livro, o "amor pelo mundo" é o universo expandido pela leitura da obra Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato, por quem Clarice professa seu encantamento.

O conto estrutura-se em torno de um caso de infância, vivenciado pela personagem-narradora na cidade de Recife, onde, de fato, Clarice viveu. A narradora, adulta, sem qualquer imparcialidade, cria suas duas personagens principais a partir de uma excessiva descrição. Com adjetivos hiperbólicos e desmedidos, apresenta a "filha do dono de livraria" - maneira como a personagem é denominada na obra - como uma garota gorda, sardenta, de cabelos excessivamente crespos que chupava bala com barulhos . Paralelamente, a personagem-narradora mostra também sua face voraz como uma devoradora de histórias . Todavia, logo vemos que, em contraposição a esses excessos das personagens, surge uma carência básica: "Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia" 4 . O que também se entende como incompletude do caráter e já os matizes de uma paixão que a narradora chamou de "esperança de alegria" . A promessa de um livro - que não é um livro qualquer - e o sonho que a personagem acalenta lançam-na em um mar suave: "eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam" 5. Provavelmente a protagonista já possuía um conhecimento prévio a respeito da tão desejada obra ou de seu autor, o que a levou a uma cumplicidade com o livro, ainda, anteriormente à sua leitura. Deixar-se levar pelas ondas requer entrega total, confiança, indiferente de quais sejam os movimentos do mar. A analogia sugere que, à personagem-narradora, não importa o conteúdo que encontraria na obra, importa a posse do objeto-fetiche para a sua adoração. Sua fidelidade ultrapassa o teor do texto que em nenhum momento é questionado, faz-se apenas uma referência a ele como "algumas linhas maravilhosas". A certeza de algo valoroso imprime à obra uma verdade única que movimenta a construção ficcional e transforma o livro em objeto idealizado e erotizado, configurando uma estranha intimidade com a obra de Lobato: "um livro grosso (...) para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo.(...) / Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante" 6.

De acordo com o relato, o livro Reinações de Narizinho , considerado como "expressão da plenitude" 7, é exaltado num enredo em que se traduz angústia e prazer e um claro exercício de lidar com os próprios desejos e os desejos do outro. Mas por que tanta inquietação em tocar a obra e posteriormente tanta resistência para a leitura?

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abrio-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. (...) Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. 8

 

De posse do objeto, resguarda, desvia, simula, ajusta-o ao corpo em êxtase. A "devoração" do livro esperada pelo leitor dá lugar a um momento epifânico. A figura hiperbólica da menina devoradora de livros é desmontada. Há o silêncio do não-dito, um esvaziamento da razão cedendo lugar a uma flagrante prova de amor à arte, à literatura e, por extensão, a Lobato que diz algo familiar em cartas de sua juventude, quando ainda era estudante de direito: "Sobre a cama dormiam um Flaubert e um Coelho Neto. Não os despertei." 9 O teor da colocação feita por Clarice ao declarar que era um livro para se ficar dormindo com ele, dialoga com o que Lobato escreveu em 1903. Ambos se pautam pelo caráter fabuloso e identitário do livro. Também o caráter antropofágico de devoração pode ser encontrado na obra de Lobato quando Visconde se "empaturrou de álgebra", precisando de uma cirurgia, feita pelo Doutor Caramujo para retirada do excesso. "(...) Estou tirando só o que é álgebra. Álgebra é pior que jabuticaba com caroço para entupir um freguês." 10

Para Iannace, Clarice cria no conto "as mais falsas dificuldades" 11 , ou, uma incessante e lúdica dissimulação que tempos depois lhe subsidiaria o processo criativo. Quando confere à obra Reinações de Narizinho o seu "amor pelo mundo", Clarice aproxima-se de Lobato pela via indireta do conto. Segundo Souza, encontros imaginários entre escritores que, na vida real, nunca se viram, seja por questões de ordem temporais ou por falta de oportunidades, mas que resulta "no estabelecimento de novas linhagens literárias que ampliam o conceito restrito de família." 12

 

Reinações clandestinas

A narradora-criança que protagoniza o conto "Felicidade Clandestina" é de índole irrequieta, com uma ânsia impetuosa e insaciável. "No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. (...) mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife" 13.

De modo semelhante, Lobato constrói a personagem Lúcia de Reinações de Narizinho . Inquieta e sempre ansiosa na esperança do que lhe haveria de acontecer de novo, a protagonista Narizinho na companhia das outras crianças está sempre arquitetando novos planos em busca de expansão de seu mundo encantado do faz-de-conta. Na história "No palácio", Narizinho encontra-se com Dona Carochinha a queixar-se do desaparecimento do Pequeno Polegar que fugiu do livro onde morava. A menina indaga o porquê do sumiço e Dona Carochinha responde:

eu tenho notado que muitos dos personagens das minhas histórias já andam aborrecidos de viverem toda a vida presos dentro delas. Querem novidades. Falam em correr o mundo a fim de se meterem em novas aventuras. (...) Andam todos revoltados, dando-me um trabalhão para contê-los. Mas o pior é que ameaçam fugir, e o Pequeno Polegar já deu exemplo.

Narizinho gostou tanto daquela revolta que chegou a bater palmas de alegria, na esperança de ainda encontrar pelo seu caminho alguns daqueles queridos personagens. 14

 

Ambas as personagens são tomadas pelo devaneio da leitura, um prazer desejado que ganha corpo no texto e alimenta a vontade de conhecer o mundo, tanto o real de Clarice, como o ficcional de Narizinho. Na história de Lobato, também é imprimida ao livro uma outra conotação. Uma concepção que ganha outras nuances nas metáforas que representam o livro como objeto-casa. O ato de ler, como dar vida ao texto, ultrapassa a decifração de códigos. As personagens recusam-se a viver dentro das obras. Movimento esse que conta com o apoio de Narizinho em enfrentamento à Dona da Carochinha: "vou aconselhá-lo, a ele e a todos os mais, a fugirem dos seus livros bolorentos, sabe?". 15 Lobato apresenta, nesta história, o livro como um espaço, lugar definido onde mora as personagens, configurando-se uma nova metáfora para a ação de ler. Ainda, como sugere Couvêa, ao associar o livro à casa, "Lobato lança mão de recursos que vêm falar da imaginação e do recuperar, através da escrita, um sentimento imemorial, situado, no entanto, na infância." 16 Gouvêa refere-se, no caso, a leituras experimentadas por Lobato em sua infância. Não é esse o procedimento de Clarice ao estruturar "Felicidade Clandestina"? Além de reiterar o caráter de verossimilhança do texto, ela articula suas leituras e as leituras de Lobato, o que pode ser visto no conto "Os desastres de sofia" quando reescreve a história de "Chapeuzinho Vermelho", valendo-se da leitura de Lobato que, desde menino, soube aproveitar de forma prazerosa as informações presentes na tradição, ressaltando também o fato do mesmo ter traduzido Andersen, Grimm, Lewis Carrol, Perrault e outros. Nesse sentido, como afirmou Ortega, "falar de amizade é falar de multiplicidade, intensidade, experimentação, desterritorialização." 17

Pode-se, ainda, observar outras semelhanças entre as duas personagens femininas, do conto e da história, quando estas se sobrepõem às demais através do conhecimento. Em "Felicidade Clandestina" isso fica explícito no domínio de uma menina sobre a outra. A que tem o pai livreiro, apesar de ter o poder material, não tira proveito dele, não possui a capacidade de fruição, está destituída do universo imaginário. O que é marcado pela sua falta de criatividade:

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. 18

 

Também no objeto de inveja, que tudo leva a crer, seja o devaneio da leitura presente na personagem-narradora.

Em "No Palácio", Lobato confere à Lúcia essa supremacia, seu fascínio chega a "influenciar" as personagens presentes nos clássicos da literatura infantil. Institui-se um intercâmbio entre o mundo do texto representado pelas personagens dos contos de fada e o mundo dos leitores representado aqui pela personagem lobatiana, que consagra, efetivamente, o papel do leitor dentro do texto. Narizinho chega a sugerir, ao afirmar que o livro da Carochinha estaria embolorado, que as histórias nele contidas estariam ultrapassadas, precisando de uma renovação.

O traço irônico encontrado nas ações da personagem lobatiana apontam traços comuns entre as duas narrativas. Uma estreita vinculação, ainda que marcada pela temporalidade, permite demonstrar o fascínio que Lobato exerceu sobre Clarice. Vários momentos da vida e da escrita da autora se imbricam no estabelecimento de uma ligação responsável pela fidelidade que ela apregoou por toda a vida. Na crônica "O Primeiro Livro de Cada Uma de Minhas Vidas", de 1973, Clarice reforça a admiração por Lobato:

Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narizinho. (...) Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida. 19

 

Acrescenta também pontos que esclarecem ainda mais a posição assumida na década de 60 quando escreveu o conto "Felicidade Clandestina". A versão, agora, da crônica, continua presentificando sua fidelidade voluntária como amiga ou, mais uma de suas fabulações, criando um jogo estratégico singularíssimo que permite enredar o leitor.

Seguindo o caráter social ou anti-social de ambos os escritores, no sistema organizado de cartas e bilhetes, não há menção de qualquer referência à Clarice por parte de Lobato . Nem este ocupou na "peleja" literária o mesmo lado da trincheira onde e escritora resistiu em luta. Pois, o que é realizado na obra de Lispector, o que toma forma e enseja, é o estar no mundo - o que alguns críticos chamam de epifania, esta revelação imediata do mundo, um estar imerso e ser feito do mesmo tecido das coisas. Mas, este estado de graça, ou crise, como o chamou a escritora, não é coerente com a mercantilização intrínseca à obra de Lobato. Desse modo, o caráter de intimidade encontrado nessa relação, desperta estranheza, já que os demais escritores com quem a obra de Clarice dialoga não recebem o mesmo tratamento:

"pasmava-se quando diziam que sofrera influência de James Joyce ou de Virgínia Woolf, escritores que de fato não leu. Um jornal francês, comentando a tradução de seu primeiro romance, apontou nele a influência de Sartre . "Acontece que só vim saber da existência de Sartre no meu segundo livro" (...) Na verdade nenhum autor a influenciou . 20

 

Segundo Borelli, a linguagem de Clarice era fruto de uma experiência direta dela consigo própria e com o mundo, sem a intermediação da literatura. Esta hipótese, também defendida pela escritora ironiza a crítica literária que constata similaridades entre as obras desta e Virgínia Woolf, Katherine Mansfield, Joyce, Sartre, Kafka. Por que Clarice insistia em negar qualquer relação literária entre estes autores enquanto "puxava" Lobato do fundo de seus arquivos pessoais? O caráter afetivo que Clarice demonstrava a Lobato seria em próprio benefício? Seria, essa negação categórica aos demais, pistas falsas para ocultar alguma apropriação de idéias?

Clarice não admite influências de outros escritores mesmo quando as obras mencionadas estejam voltadas para o mesmo vértice que o seu. Fora, entretanto, complacente com Lobato, embora a crítica não tenha ressaltado as confluências entre as duas literaturas.

Assim, precisar o rastro de Monteiro Lobato no pensamento clariciano constitui uma tarefa importante para os estudiosos de ambas as obras, e não se trata de roubar alguma originalidade de Clarice, mas de mostrar como, à maneira de Borges, o presente pode influenciar o passado.

 

1 SOUZA. Notas sobre crítica biográfica. In PEREIRA, Maria Antonieta. REIS. Eliana Lourenço de L. (orgs .) Literatura e estudos culturais. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2000, p. 48.

2 SOUZA, Eneida. O século de Borges . Belo Horizonte: Contra Capa/Rio de Janeiro: Autêntica, 1999. p.113.

3 LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina , Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.9. (Grifo nosso).

4 Ibidem, p.9.

5 Ibidem. p.10.

6 Ibidem. p. 12.

7 ROSENBAUM, Yudith. Metamorfoses do mal : uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Edusp, p. 76.

8 LISPECTOR. Felicidade clandestina , Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.12.

9VIEIRA, Adriana Silene. In LOPES, Eliane Marta Teixeira. GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. (Orgs.). Lendo e escrevendo Lobato. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, p. 52.

10 Ibidem. p. 5

11 IANNACE, Ricardo. A leitora Clarice Lispector , São Paulo:Edusp, 2001, p.51.

12 SOUZA Eneida. Notas sobre crítica biográfica. In PEREIRA, Maria Antonieta. REIS. Eliana Lourenço de L. (orgs. ) Literatura e estudos culturais. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2000., p. 49

13 LISPECTOR. Felicidade clandestina , Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 10

14 LOBATO. Reinações de narizinho no reino das águas claras, São Paulo: editora brasiliense, 1998. p. 19 e 20

15 Ibidem. p. 20

16 LOPES, Eliane Marta Teixeira. GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. (Orgs.). Lendo e escrevendo Lobato. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p.18

17 ORTEGA, Francisco. Amizade e estética da existência em foucault, Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999, p.157.

18 LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina , Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p.9

19 LISPECTOR, Clarice . A descoberta do mundo . Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 452

20 BORELLI. Clarice lispector : esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 66 e 67 (Grifo da autora).