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Literatura e crítica em Marcha e no Suplemento Literário (Minas Gerais): arquivos dos anos 60
Haydée Ribeiro Coelho (UFMG)
O primeiro número do Suplemento foi lançado em Belo Horizonte, em 3 de setembro de 1966. Circulava semanalmente, era vendido aos sábados, separadamente de o Minas Gerais e buscava "inserir não só poesia, ensaio e ficção em prosa, mas também a crítica literária, a de artes plásticas, a de música. 1 Na edição de lançamento, no texto introdutório da publicação, o local e o universal já apareciam aí situados. O Suplemento procurava ser fiel ao local, sem perder, no entanto, a dimensão mais geral da cultura.
Afonso Ávila, Rui Mourão e Fábio Lucas participaram de forma ativa do Suplemento Literário . Esses críticos, companheiros de "Vocação", fundaram a revista Tendência da qual Rui Mourão foi Diretor em 1960.
Na apresentação de Tendência , aparecem as intenções dessa publicação: rejeição à neutralidade literária, defesa do patrimônio cultural, a recusa a qualquer tentativa de absorção ou de deformação com que culturas estranhas assediaram o "curso da História" e a consciência de que a emancipação de um povo começa "quando se generaliza a consciência de sua capacidade de traçar por si os rumos de sua História". 2 Nesse contexto, ressalto, ainda, o caráter de transcendência do nacional que aparece em inúmeros artigos e entrevistas desses críticos.
Com base nos itens sistematizados pelo poeta português Eugenio M. de Melo e Castro, em "Memórias: fragmentos e recomposição", 3 poderíamos entender a presença de Afonso Ávila, Rui Mourão e Fábio Lucas no Suplemento Literário, a partir da divulgação de textos críticos (Afonso Ávila, Rui Mourão e Fábio Lucas) sobre autores brasileiros e estrangeiros; publicação de parte de seus próprios textos críticos, (Afonso Ávila, Rui Mourão e Fábio Lucas), de fragmentos de romance (Rui Mourão) e de poemas (Afonso Ávila).
Esses aspectos, que os aproximam, também estabelecem diferenças entre as várias formas de atuação no Suplemento Literário do Minas Gerais . É importante ressaltar que Rui Mourão organizou vários números especiais do Suplemento Literário do Minas Gerais como: A literatura nova (Portugal); Emílio Moura: atualidade do poeta; Bárbara Heliodora com a colaboração de Laís Corrêa de Araújo; Bicentenário de O Uraguay ; sobre Cristiano Martins, Curt Lange, Rosa Codisburgo e Manuel Rodrigues Lapa.
Fábio Lucas publicou vários textos críticos sobre poetas brasileiros (Henriqueta Lisboa, Guilherme de Almeida, Carlos Drummond de Andrade, Abgar Renault, Murilo Mendes e Mário de Andrade). Analisou também textos ficcionais de Antonio Callado, Dalton Trevisan, Guimarães Rosa e Clarice Lispector e desenvolveu um estudo sobre Julio Cortazar.
Afonso Ávila dedicou-se ao estudo de vários poetas como: Emílio Moura, Mário de Andrade, Bueno de Rivera e Augusto de Campos. Constata-se também que há, no Suplemento muitos estudos sobre a poesia e a arte barroca em geral. Essa diversidade literária, que se observa, nos críticos mencionados, está presente também nos textos de Laís Corrêa de Araújo. Poeta, ensaísta, tradutora e fundadora do Suplemento Literário do Minas Gerais manteve uma coluna intitulada "Roda Gigante" entre 1966 e 1969. A ensaísta estava voltada para o ritmo dos textos, para o "movimento normal dos livros quando em torno do eixo da inteligência e da imaginação dos que sabem amá-los". 4
Considerando os textos divulgados em 1969, verifica-se que, na primeira parte da coluna aparecem obras resenhadas de autores brasileiros como: Gilberto Freyre, Murilo Mendes e poetas novos que escreviam em diferentes partes do Brasil. No âmbito internacional, salientem-se seus trabalhos sobre Pablo Neruda, Tennessee Williams, Umberto Eco, etc. Essa variedade de autores e de textos é suficiente para mostrar como Laís Corrêa de Araújo estava atenta às publicações nacionais, aos autores latino-americanos divulgados no Brasil, às traduções de textos estrangeiros e à produção poética de grupos novos que estavam realizando poesia fora do país.
Se essa heterogeneidade de estudos no âmbito da primeira parte de "Roda Gigante" já demonstra uma preocupação da ensaísta em fornecer indicações sobre textos de diferentes naturezas, não só literárias, o que dizer da multiplicidade decorrente das obras comentadas na segunda parte da coluna, intitulada "Informais"?
Em "Informais", a ensaísta divulgava o lançamento de traduções de peças de teatro; de textos de caráter filosófico, de psicologia, de livro de entrevistas (Drummond, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Di Cavalcânti, Câmara Cascudo e outros); de romances, de poemas e de estudos críticos diversos.
Dentre esses últimos lançamentos, cabe-me destacar os comentários sobre textos que, naquele momento político brasileiro, poderiam ser vistos com restrições por parte da censura como: Literatura e vida nacional , de Antonio Gramsci; Quatro séculos de latifúndio , de Alberto Passos Guimarães; América, mito e violência , de Newton Carlos, José Honório Rodrigues, Arthur José Poerner e Candido Mendes e O processo civilizatório , de Darcy Ribeiro, texto antropológico de um exilado brasileiro, recém-chegado do Uruguai e encarcerado durante nove meses no Brasil.
Ao comentar Literatura e Vida Nacional , de Antonio Gramsci, a poeta mineira assinalava que o ensaio do pensador italiano estabelecia "uma diferença entre a crítica estética e a crítica cultural-política da literatura ". Apear de o livro estar mais relacionado à sociologia do que à estética, tratava-se, "de qualquer forma, de obra que precisa ser conhecida, pelos problemas que levanta. O selo editorial é da Civilização Brasileira". 5
A posição da poeta mineira, a respeito da literatura e do intelectual, aparece reiterada em seu texto, com base no comentário de Arte e alienação: o papel do artista na sociedade , da autoria de Herbert Read, em que salienta a importância dessa obra para a conceituação da arte como uma revolução permanente. 6
A crise burguesa e a função do escritor aparecem também comentadas por Laís Corrêa de Araújo a partir da crítica e interpretação feita por ela, com base em Literatura e Humanismo , da autoria de Carlos Nelson Coutinho, 7 crítico marxista.
A diversidade crítica e literária evidenciada na coluna "Roda Gigante", também se manifesta em vários outros textos ensaísticos sobre a narrativa, a poesia e a crítica. No Suplemento , Laís Corrêa de Araújo, no âmbito da ficção, enfocava autores nacionais que já pertenciam ao cânone brasileiro; escritores que estavam escrevendo no momento, mas que já tinham prestígio nacional e novos contistas mineiros, como Oswaldo França Júnior e Luiz Vilela. Tratava-se de um período em que o conto alcançava grande prestígio entre nós. No âmbito da poesia, ressaltem-se os estudos sobre João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Mário Faustino, José Paulo Paes, Décio Pignatari e Emílio Moura.
Ao tecer comentários sobre textos teóricos, a responsável por "Roda Gigante", enveredava -se pela metacrítica, abordando críticos de tendências distintas como o Estruturalismo e a Sociologia do romance, alvos de polêmica no momento, como bem demonstrou Flora Sussekind em Literatura e vida literária . A ensaísta, no entanto, transcendia as polêmicas do momento, apresentando, na roda dos textos, os vários eixos da crítica brasileira.
O Suplemento Literário , em consonância com o destaque concedido à literatura latino-americana naquele período, também abrigou textos de autores hispano-americanos. Laís Corrêa de Araújo participou da divulgação dessa literatura com ensaios críticos, traduções e seleção de textos. Em 6 de maio de 1967, ao focalizar o romance do boliviano Augusto Céspedes, 8 constata que, no Congresso do PEN CLUB, realizado em Nova York, houve um debate sobre a função do escritor na América Latina e que o ficcionista uruguaio Carlos Martínez Moreno tinha salientado o desconhecimento recíproco dos escritores sul-americanos. Para Laís , era uma verdade incontestável que devia ser superada. A tradução feita no Brasil do romance Metal do diabo, do autor boliviano, ajudava a divulgação da literatura latino-americana.
Em relação ao romance comentado, a ensaísta mostra que "a crítica intencional ao imperialismo, encarnado na figura de Zenon Omont tende a deformar e a empobrecer o objeto estético que seria o romance como totalidade literária". Assim, mesmo admitindo a necessidade de um intelectual comprometido com a realidade político-cultural do país e da América Latina, Laís valorizava a elaboração estética dos textos. A poeta dedicou-se também ao estudo de outros autores latino-americanos como Gabriel Garcia Marquez e Pablo Neruda, dentre outros.
Entre 1966 e 1973, observa-se que há um crescente interesse pela divulgação e tradução de autores latino-americanos no Suplemento . Na década de 70, o periódico divulga várias traduções de textos de Júlio Cortazar e vários textos críticos de autores nacionais sobre escritores hispano-americanos.
Ultrapassar o nacional, o local e inserir outros sistemas críticos e literários no âmbito do suplemento constituíram os grandes desafios dos editores suplemento e dos seus colaboradores .
Marcha foi um semanário criado em 23 de junho de 1939 por Carlos Quijano e por um grupo de colaboradores. Segundo Ángel Rama, Marcha "confirió una importancia mayor a las secciones de literatura , artes, cine, teatro, ideas, historia, etc., (.) al punto de convertir al semanario en una especie de diario extraoficial de la universidade". 9
O periódico Marcha recebeu atenção de muitos autores e críticos, como se observa na bibliografia levantada por Luisa Peirano Basso em um estudo sobre Cuadernos de Marcha . A estudiosa uruguaia diz que existem mais estudos sobre o semanário do que sobre Cuadernos de Marcha . 10 Recentemente, Mabel Moraña e Horacio Machín editaram o livro Marcha y América Latina sobre o semanário, contendo artigos sob diversas perspectivas. Apesar dessa copiosa bibliografia sobre essa publicação, não conheço estudos que abordem comparativamente Marcha e outros periódicos.
A literatura e a cultura nos textos do autor uruguaio sempre tiveram associadas a uma perspectiva política, na linha da tradição de Lukacs y Lucien Goldmann, o que não o impediu de fazer análise estrutural de acordo com as orientações metodológicas de Lévi Strauss e segundo o modelo estabelecido por Gérard Genette. 11 Ángel Rama dirigiu a Seção Literária de Marcha de 1959 a 1968. Durante esse período e em outros, o ensaísta não se preocupou apenas com a literatura , pois a concepção que ele tinha dela estava relacionada ao seu pensamento sobre a cultura e o papel do intelectual. Em texto que publiquei no livro organizado por Mabel Moraña e Horacio Machin, 12 pude mostrar esse aspecto. A posição do intelectual era discutida no contexto do imperialismo e do progresso.
No artigo "Por uma cultura militante" (1965) Ángel Rama constata uma deterioração da cultura nacional que ocorria no contexto latino-americano e se encontrava relacionada à liquidação do estado liberal por "una acción conjugada de las oligarquías locales, el ejército y la intromisión activa de los Estados Unidos respondiendo a las imposiciones de su política mundial de guerra". 13
Norteado por essa concepção, faz várias críticas à postura política adotada pelo governo em relação à cultura. Embora muitos de seus comentários se baseiem em questões situadas no âmbito nacional, amplia essa perspectiva para a América Latina. No contexto de suas observações sobre o controle do saber exercido pelos Estados Unidos sobre a América Latina, trata da chamada "neutralização" ideológica, relacionada a uma certa idéia de desenvolvimento que clama que os estudantes não devem fazer política, que os trabalhadores devem trabalhar nas fábricas e os funcionários em seus escritórios.
Em oposição à "neutralização ideológica", Ángel Rama observava a necessidade de uma perspectiva militante, capaz de "recuperar con lucidez y coraje el contorno real en que el hombre está situado, y que cree en su acción positiva y transformadora, en todos los órdenes de la vida: social, moral, religiosa, artística". 14Em um texto publicado fora de Marcha , focaliza o desenvolvimento como nova etapa da América Latina, cujo processo fundamentado na concepção democrática da vida, responde a três fatores: o alto nível alcançado pelas sociedades industriais, a massificação no mundo e a imposição de um novo tipo de sociedade.
Em "Los intelectuales en la epoca desarrollista", Ángel Rama retomando a discussão sobre a neutralização, que corresponderia a um "apaziguamento ideológico", reporta-se ao "Congresso pela liberdade", realizado em Milão, em 1955 em que se falava sobre o fim das ideologias. Essa neutralização ou apaziguamento ideológico se faz presente no contexto do desenvolvimentismo. O intelectual ou o técnico, como peça importante desse processo, pode ser levado à despolitização, tornando-se uma nova espécie de "técnico" ou cientista; à submissão aos centros de poder e à adoção de uma linha de conduta que compromete não só o social como as idéias.
Essa discussão, a respeito do intelectual, da cultura e do desenvolvimento , que se faz de forma mais destacada em Marcha , está disseminada no Suplemento Literário do Minas Gerais pela divulgação de alguns críticos de formação marxista como Fábio Lucas, Antonio Candido e Carlos Nelson Coutinho; em entrevistas e em seções literárias, como a de Laís Corrêa de Araújo, conforme pude constatar anteriormente.
Na abordagem da literatura uruguaia e latino-americana, Ángel Rama fornece um painel múltiplo. Sob esse aspecto, tomo, como exemplificação, alguns de seus textos publicados em 1966. Em "El techo de la ballena", 15 comenta o movimento artístico de vanguarda que começou a se constituir no princípio de 1960 na Venezuela. Em relação à nova narrativa latino-americana, nas letras argentinas, destaca Rodolf Walsh com dois livros simultâneos: La Granada e Los Ofícios . Nesses comentários, ressalta o papel do jornalismo para a literatura do autor argentino. Ainda no âmbito da nova narrativa latino-americana, Angel Rama (11 de março de 1966), ao enfocar a arte do mexicano Juan García Ponce, no romance Figura de Paja (1964), mostra como esse autor dialoga com a obra do italiano Cesare Pavese.
Em 28 de março de 1969, Angel Rama, no artigo intitulado "Espaldarazo para uma literatura", ao comentar sobre a premiação de A casa de las Américas, mostra que o concurso permite a compreensão de um mapa cultural da América Latina não só no que se refere à pluralidade de regiões como também "em su pasmosa convivencia de niveis".
No âmbito da literatura nacional, destaco o artigo "Raros y malditos em la literatura uruguaya ( Marcha , 2 de set. 1966), em que Angel Rama constata uma linha imaginativa que está em Isidore Lucien Ducasse (Lautréamont) em (1867) e que também se faz presente em Felisberto Hernández e Horacio Quiroga.
Considerando as especificidades de Marcha e do Suplemento Literário do Minas Gerais , a possibilidade de confronto entre as duas publicações permite romper as barreiras culturais e também enfocar aspectos políticos cujos fios históricos estão entrelaçados, no caso analisado, pelo exílio brasileiro no Uruguai.
Enquanto vivíamos o golpe militar em 1964, os uruguaios conheciam uma democracia até 1973, apesar de em 1967 já se constatar a deterioração no regime democrático.
Para os brasileiros, o exílio representou a redescoberta da América Latina e suscitou um interesse crescente do Uruguai pelo Brasil. Muitos intelectuais políticos, que estavam no Uruguai (refiro-me aqui ao exílio de Darcy Ribeiro como um caso paradigmático), concediam entrevistas para o jornal Marcha , quebrando o distanciamento entre a América Portuguesa e a América Hispânica.
A atenção política de muitos intelectuais, voltada para o Brasil, estava também relacionada às estratégias do "gerdame continental" sobre a América Latina, incluindo o próprio Uruguai. Em junho de 1967, o jornalista Carlos Nuñez mostrava isso por ocasião da publicação de um documento confidencial do governo brasileiro. 16 A situação repressiva culmina no fechamento do jornal Marcha , depois da premiação do conto de Nelson Marra chamado "El guardaespaldas".
A compreensão do quadro histórico dos dois países é de fundamental importância quando se pretende comparar dois tipos de produções simbólicas. Se Marcha se mostrou de forma mais contundente em relação ao papel do intelectual, isso se deve à orientação do semanário e ao momento democrático vivido no Uruguai e a ameaça a esse mesmo sistema. O Suplemento Literário do Minas Gerais , apesar de estar ligado a um órgão oficial do Estado, não se submete a ele, publicando textos de críticos marxistas. É preciso driblar a censura e isso vai ser feito.
O fechamento de Marcha no Uruguai e a prisão de vários de seus colaboradores e a ida para o exílio de Angel Rama mostram-nos como a vida literária no Uruguai estava intimamente ligada à política. Os aspectos políticos, que envolvem as duas publicações, merecem uma discussão mais ampla. É importante dizer que, no exílio, o crítico uruguaio Angel Rama retoma muitas das questões sobre a literatura latino-americana e o papel do intelectual, como se observa em seu Diário . 17 O Suplemento Literário do Minas Gerais quebra o insulamento crítico e literário de Minas, buscando um diálogo com o resto do país. Inclui outros sistemas críticos e literários, intensificando sua interlocução com a literatura latino-americana.
É importante afirmar que tanto o Suplemento Literário do Minas Gerais como Marcha no Uruguai foram de extrema importância para a divulgação da literatura e da crítica, constituindo-se como arquivos da memória dos anos 60 e 70. Entende-se o termo arquivo não no sentido de fechamento, em relação ao passado, mas "com vistas ao futuro". 18
Apresentação. In: Suplemento Literário, n. 1, p.1, 1966.
A propósito desse aspecto consultar CONTERIS, 2001, p. 182.
Sorbonne aqui está em sentido pejorativo. Refere-se à ESG (Escola Superior de Guerra).
Bibliografia
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COELHO, Haydée Ribeiro. América Latina como alteridad: memorias de un campo identitario. In: MORAÑA, Mabel; MACHÍN, Horacio (Ed.).Pittsburg : Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, 2003. p. 299-311.
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