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Lendo o passado no presente da revista Cult
Fabiola Alves da Silva (UFSC)

Ouve-se certo murmúrio que declara de forma nostálgica o esgotamento da memória histórica, cultural, enfim, a memória da humanidade. Os que afirmam essa aniquilação, geralmente, atribuem como sua causa a avassaladora aceleração da vida moderna, que bombardeia o cotidiano dos indivíduos com enxurradas de informações, propagandas, horários e compromissos a cumprir. O tempo voa e "tempo é dinheiro". Não há mais lugar para a contemplação do que já passou. Entretanto parece haver um paradoxo, que reside no fato de essa memória exterminada ter deixado por todas partes indícios de sua passagem. Para onde quer que se olhe se verá algum rastro do já vivido, dentre os mais evidentes, encontram-se os museus, os monumentos, os nomes de ruas e instituições públicas, as datas comemorativas, em suma, todos os sinais de uma dita "memória coletiva". E entre as marcas não tão óbvias, em geral, aquelas do âmbito mais doméstico e pessoal, pode-se destacar as fotografias e as sepulturas que revelam a travessia de uma pessoa. A enumeração desses vestígios pode ser infinita, mas aqui ela será restrita aos arquivos literários, tema deste simpósio.

Os arquivos literários, como seu próprio nome diz, são conjuntos, coleções de documentos, que podem abrigar em seu seio - além do acervo, da correspondência, dos inéditos de certos escritores - publicações periódicas culturais, que, assim como esses outros elementos constituintes do arquivo, auxiliam na leitura de determinados períodos, colaboram para o estudo dos processos de construção de valores e resgatam a memória cultural. Afunilando ainda mais o ponto de enfoque, será analisado, especificamente, dentro do universo dessas publicações, o corpus formado por 36 números da Revista Cult , correspondendo a seus três primeiros anos de publicação, iniciada em julho de 1997. Pretende-se detectar ou pelo menos esboçar hipóteses sobre as diretrizes que norteiam as páginas deste "arquivo", o qual parece estar atravessado pela marca da pluralidade, pela combinação de elementos da cultura de massa e da dita "cultura erudita", e que dá a impressão de oferecer mais destaque à memória dos autores e obras já canonizados em detrimento dos novos produtores culturais.

Revista Brasileira de Literatura 1, subtítulo da Cult , já aponta o principal campo que será abordado pela publicação: o da literatura. A auto-designação de "revista de literatura" faz pensar nas publicações independentes de instituições, idealizadas por pequenos grupos intelectuais, com pouca tiragem e público especializado, ou ainda, a equipara às revistas de programas de pós-graduação, como Travessia e Teresa , que também se denominam "revista literária" 2. A Cult possui muitos pontos de contato com essas publicações, mas não pode ser encaixada plenamente no perfil traçado por elas. Tampouco caberia dizer que ela é uma revista de amenidades e variedades. Seu lugar, ou melhor "entre-lugar", é justamente esse vaivém entre a reflexão e a informação, aproximando-se do magazine literário, que Maria Lucia de Barros Camargo especifica:

 

"magazines" literários e culturais frutos de empreendimentos comerciais, dirigidos a um público mais amplo e não especializado, porém "culto" (ou "chic"), como Cult , Bravo , Ventura ou a pernambucana Continente ; são ricamente ilustrados e, embora publiquem alguns ensaios críticos, dão espaços maiores às reportagens culturais e às entrevistas; podem ser pensados como a versão contemporânea e mais "especializada" das revistas ilustradas do século XIX (...) 3

 

Ainda seguindo as explicações da autora, vê-se que a palavra "magazine", derivada do árabe mahazin , "se aplica aos bazares, aos armazéns, aos grandes estabelecimentos comerciais que expõem e vendem de tudo um pouco". Também nesse sentido de veicular uma grande variedade de assuntos é que a Cult se aproxima do magazine, parecendo por vezes uma vitrine cultural, que tem por trás de si as imposições do mercado e que é disposta de modo a atingir um público amplo de consumidores/leitores. Tendo em vista esse grande alcance de olhares, sua fórmula não podia estar restrita a assuntos específicos, pelo contrário, deveria ser mais ampla, com abundância de temas para satisfazer as diversas preferências, como a própria revista enfatiza no seu primeiro editorial:

 

Partindo do mundo dos livros e seus autores, a Cult quer dar um retrato multifacetado do panorama cultural, um retrato necessariamente pluralista (embora seletivo) de uma realidade fragmentária como a nossa (...) 4

 

O signo da pluralidade, entranhado nas páginas da Cult , é fruto de dois fatores: primeiro, da característica contemporânea da diversidade que a revista tenta "retratar" e, segundo, da necessidade de adaptação da publicação às demandas do mercado cultural. Surgem no bojo dessa multiplicidade aparentes contradições, que na verdade irão dar lugar a constituição híbrida da revista, que, por um lado, está atada à comercialização, à massificação, mas que, por outro, volta seus olhos para o circuito alternativo, como revela seu nome. Tal hibridação/ambigüidade a coloca ora no espaço das revistas de massas, das "revistas ilustradas", ora no caminho das revistas acadêmicas/científicas. A duplicidade fica bem evidente no nome "cult", nos tipos de escritos veiculados e na linguagem utilizada por eles.

Para a língua inglesa a palavra "cult" significa "culto, veneração", entretanto, sua crescente utilização para qualificar os filmes de arte, acabou proliferando as acepções de seu conceito original. O "filme cult", além de ser digno de admiração, adquire certo ar de elegância e distinção; sua produção, geralmente, independente e sua distribuição restrita levaram à idéia de "cinema alternativo", completamente afastado das mega-produções cinematográficas atreladas aos ditames da indústria cultural. Mas ainda há uma outra utilização da expressão "cult", a que lhe conferem os responsáveis pela revista: "(...) a idéia do nome CULT, fragmento da palavra "cultura" (...) procura traduzir a instantaneidade e a rapidez caleidoscópica da comunicação contemporânea." 5 Tal definição, que seciona a palavra "cultura" para de alguma maneira traduzir a velocidade galopante e cambiante da comunicação atual, movimenta novamente o significado do vocábulo "cult" que volta-se para o efêmero, o superficial e, por que não, para a linguagem mais acessível. É a partir da articulação desses sentidos destoantes que a revista se configura, demonstrando a dificuldade da sua classificação e gerando certo contra-senso ao ser veiculada em bancas de jornais e apresentar em seu nome a noção de "culto", de produção "alternativa".

A feição dúbia da publicação é confirmada, também, pela variada gama de textos que nela transitam, que vão desde os escritos instrutivos, didáticos até os opinativos, reflexivos, sem contar os de "exercício criativo" 6. Não é raro ver conciliados em uma mesma página, por exemplo, um ensaio crítico mais aprofundado sobre determinado escritor e informações para-textuais sobre a vida e obra desse escritor. As resenhas e os ensaios literários apresentam, quase sempre, mais erudição e mais hermetismo; em contrabalanço aparecem as notas e algumas colunas ou séries com função mais educativa, como a seção "Na ponta da Língua" e a série "Fortuna Crítica" 7, a primeira, assinada pelo Prof. Pasquale Cipro Neto, discorrendo sobre os erros cometidos freqüentemente pelos falantes da língua portuguesa, e a segunda, a cargo de Ivan Teixeira, faz um panorama de algumas das "correntes da crítica literária e das teorias poéticas". A convivência dos elementos pedagógicos/informativos com aqueles mais voltados para reflexão, ao raciocínio acadêmico, também presentes na linguagem, revelam os objetivos da Cult que, segundo o editor Manuel da Costa Pinto, busca "atingir um padrão de equilíbrio entre a atualidade jornalística das matérias e a profundidade ensaística com que são tratadas" 8, em outras palavras, converte-se em um guia de leitura para os não iniciados e em uma "re-vista", um voltar a ver que complementa a ilustração dos que pertencem ao mundo intelectual literário.

Apesar de se constatar o caráter pluralista da Revista Cult , verifica-se a barreira do "embora seletivo", que, quase sempre, recai sobre aqueles que ainda não adquiriram o prestígio, a consagração. Há um jogo de forças que tende a dar crédito aos autores já afiançados pelo cânone literário, como bem o demonstram, em sua maioria, as imagens reproduzidas nas capas, os entrevistados e os temas dos dossiês. É interessante notar como a seção reservada ao "Dossiê" tem adquirido certo cunho memorialista, já que a maioria dos assuntos ali tratados se relacionavam à homenagens e celebrações de nascimento ou morte de escritores, intelectuais ou de tendências literárias já canônicos. Tal "culto" à memória de grandes autores e obras parece ser um mecanismo também empregado por outros periódicos culturais contemporâneos, como o Suplemento Cultural da Folha de São Paulo , o Caderno Mais! , que utiliza como estratégia editorial a lógica da comemoração. 9

Tentando entender o por quê do amplo espaço cedido a essa rememoração são lançadas algumas hipóteses: a primeira, mais óbvia, indica as regras comerciais como norteadoras desse tipo de artifício, que aposta somente naquilo que terá retorno garantido, ou seja, investirá na bolsa de valores daqueles que estão em alta na cotação da moda e da fama, por isso ilustres desconhecidos, os que estão à margem, ficam fora do eixo dominante. (Digno de nota a semelhança com nosso sistema econômico global.) Entretanto, tal argumento fica debilitado ao se constatar que a proliferação de efemérides se dá em outras publicações periódicas culturais não vinculadas tão diretamente ao circuito comercial, como por exemplo a Revista USP , institucionalizada, ligada mais às normas científicas, acadêmicas e distribuída a um público mais seleto ao ser vendida em livrarias ao invés de bancas de jornais.

Tem-se a impressão de que esse fenômeno, o da celebração da memória, converteu-se em lugar comum em muitas dessas publicações contemporâneas, o que leva à segunda hipótese que parte para uma reflexão mais geral, pois lança-se sobre a idéia de que esses eventos memoráveis voltam à tona para preencher certo vazio do presente. Cabe esclarecer que esse "presente lacunar" não está se referindo a uma baixa produção cultural, o que está em jogo é uma certa dificuldade de focalizar o nosso presente.

Tal impasse de alguma maneira se conecta ao empobrecimento da experiência, detectado e amplamente discutido por Walter Benjamin em muitos de seus estudos, nos quais repara que as transformações ocorridas na estrutura da experiência levam à incapacidade de representá-la, de "narrá-la", como o próprio autor afirma: "É a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. (...) É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências." 10 A incomunicabilidade da experiência decorre do processo de queda da "experiência" comunitária, acumulativa, comunicável ( Erfahrung ) e de ascensão da "vivência" individual, assimilada pelos efeitos imediatos ( Erlebnis ). Para o autor de "O narrador" o fator que desencadeou essa ação foi o choque trazido pela era do capitalismo, que impôs ao "frágil e minúsculo corpo humano" as experiências de choque: das guerras de trincheiras, dos flagelos econômicos, da adaptação do corpo às máquinas, dos encontrões dos transeuntes nas grandes cidades.

Do momento do pensamento de Benjamin aos dias de hoje muita coisa mudou, porém a inabilidade de retratar a experiência parece ainda se manter e ter se agravado ainda mais devido a proliferação alucinante dos choques, que antes pareciam se restringir à alguns setores, mas que agora invadem todos os âmbitos. Frente aos obstáculos de apreender e retratar o presente, invoca-se o já vivido. "Já vivido" que também pede a sua volta, como bem aponta Walter Benjamin, ao falar sobre as crianças e sua ânsia pela repetição - detectada por Freud -, " (...) toda e qualquer experiência mais profunda deseja insaciavelmente, até o final de todas as coisas, repetição e retorno, restabelecimento de uma situação primordial da qual nasceu o impulso primeiro." 11

A última hipótese proposta para o resgate da memória efetuado pela Cult , aproxima-se desse impulso de "repetição e retorno" do passado que não é ativado pelo presente, e sim pelo próprio passado que deixa marcas tão profundas a ponto de determinar o seu porvir. Tais sinais são os de "fundação", como explica Josefina Ludmer 12:

 

La Fundación es un sitio y un corte temporal que abre un ciclo y define, en el pasado, el presente . Es un modo de pensar el presente en relación con un momento fundador: un modo de pensar "hacia atrás". Un acontecimiento del pasado funda el presente y lo determina; el presente se vuelve sin cesar a ese pasado donde está el sentido (también como dirección) para identificarse y definirse. 13

 

Vê-se nesse elemento de "fundação" a reciprocidade entre o passado e o presente: este sendo direcionado pelo seu ato fundador e aquele se perpetuando como um "eterno presente". O que se lê nessa política de regresso ao passado são movimentos duplos e cíclicos de ida e volta constante, ou ainda, pode-se interpretar a existência de simultaneidades de tempos no presente, que contem em si o passado que o define e o futuro para o qual o mesmo momento "fundador" está apontando.

Em suma, o que parece estar na base das hipóteses mencionadas, apesar das distinções entre elas, é o problema de representar o presente, dando-lhe uma direção e situando-o por ele mesmo. Tentando ultrapassar o obstáculo emergem as máscaras, as ruínas, que na sua tentativa de obliterar a lacuna, acabam pondo ainda mais em evidência a ausência desse presente. Presente, que pelas observações aqui discutidas, não deve existir isoladamente, e sim no diálogo, na convivência dos elementos múltiplos e díspares que a Revista Cult vem apresentando sob o signo da hibridação e da pluralidade.

 

Este subtítulo só aparecerá a partir do terceiro número e mudará para Revista Brasileira de Cultura no 57º. exemplar, com a venda da revista para a Editora 17.

Maria Lucia de Barros Camargo, no ensaio "Sobre revistas, periódicos e qualis tais", discorre com mais profundidade sobre as dificuldades de classificação dos tipos de revistas e publicações periódicas.

CAMARGO, Maria Lucia de Barros. Sobre revistas, periódicos e qualis tais. Outra travessia - Revista de Literatura . Florianópolis, nº. 40/1, 2º. semestre de 2003, pp.21-36.

LEMOS, Paulo; PINTO, Manuel da Costa. Ao leitor. Cult - Revista Brasileira de Literatura . São Paulo, nº. 1, julho/1997, p.2.

Idem , ibidem .

A produção de ficção e poesia começa a ter mais destaque e um espaço fixo a partir do surgimento das seções "Criação", no 12º. exemplar, e "Gaveta de Guardados", no 22º. número. A partir do número 36 estas seções passam a fazer parte do "Radar Cult ".

Esta série surge no número 12 da Revista Cult e se estende até o número 17, trazendo matérias sobre a retórica de Aristóteles e Quintiliano, o formalismo, o new criticism , o estruturalismo, o new historicism e o desconstrucionismo.

PINTO, Manuel da Costa. Ao leitor. Cult - Revista Brasileira de Literatura . São Paulo, nº. 12, julho/1998, p.2.

A afirmação desta estratégia no Mais! é a base da tese de doutorado Memórias do Presente , de Valdir Prigol (disponível em versão eletrônica no site http://www.cce.ufsc.br/~nelic).

BENJAMIN, Walter. O narrador - Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Magia e técnica, arte e política - Obras Escolhidas - Vol. 1 . Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 4 a . ed. Editora Brasiliense, São Paulo, 253 pgs., s/d.

Idem . Brinquedos e jogos. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação . Trad. Marcus Vinicius Mazzari. Summus, São Paulo, 120 pgs, 1984.

Vale notar que Ludmer elabora essa idéia a partir das suas leituras das temporalidades das ficções e da realidade Argentina no ano de 2000, no entanto, estou me valendo aqui apenas da essência desse conceito.

LUDMER, Josefina. Temporalidades del presente. Margens/Márgenes - Revista de Cultura . Belo Horizonte, nº. 2, dezembro/2002, pp.14-27.