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Estados mentais: o futurismo e os lugares do imaginário
Rosângela Fachel de Medeiros (UFRGS)

“Havíamos velado a noite inteira - meus amigos e eu - sob lâmpadas de mesquita com cúpulas de latão perfurado, estreladas como nossas almas, porque como estas irradiadas pelo fulgor fechado de um coração elétrico”. Assim Marinetti inicia seu “Fundação e manifesto do futurismo”, é da profundeza da primeira noite que os jovens futuristas precipitam-se ao encontro da outra noite. Conforme Blanchot, a primeira noite é acolhedora, nela “se avizinham a ausência, o silêncio, o repouso” , nela encontramos a morte e atingimos o esquecimento. Contudo, a outra noite é a morte que não se encontra, é a lembrança sem repouso.

Os jovens famélicos futuristas, inflamados pelo fulgor da vida moderna que pulsa em seus corpos, rompem então a primeira noite, adentrando-a em sua intimidade mais profunda, partem em seus automóveis, “feras bufantes”, para uma corrida noturna, encaminhando-se para a verdade da noite, para essa outra noite essencial. É nesse instante, entregue ao risco, qual o viajante que não consegue evitar o ponto em que o deserto se transfigura em miragem, que se desvela aos sentidos do poeta essa outra noite.

Nessa outra noite o poeta entra em relação com a morte, que o espreita a cada curva, e que eles, jovens "leões" futuristas perseguem: “A Morte, domesticada, ultrapassava-me em cada curva, para oferecer-me a pata com graça, e de vez em quando se estirava no chão, com um barulho de maxilares estridentes, enviando-me, de cada poça, olhares aveludados e acariciantes”. É na experiência máxima dessa morte não temida, mas sedutora que se encontra o ânimo futurista e é no jogo instaurado com ela, expondo essa liberdade de morrer, arriscando-se mortalmente, que o poeta lança-se na direção do insólito, conclamando aos demais: “Entreguemo-nos como pasto ao Desconhecido, não por desespero, mas somente para encher os poços profundos do Absurdo!” A morte é então o lugar extremo em que o poeta pode dispor extremamente de si mesmo, momento supremo, do qual a Arte é a veemente senhora.

Na tentativa de cartografar esse novo mundo veloz, elétrico, luminoso e simultâneo, lugar matriz do futurismo, há o afloramento de outros espaços, que se configuram através do contato entre o que Bachelard denominou de duas imensidões , a do espaço do mundo (imensidão externa) e a do espaço da intimidade (imensidão interna), que se tocam e se confundem. Os olhos e ouvidos de Marinetti abrem-se então para a novidade das luzes e sons conhecidos. Os ruídos cotidianos, convertem-se em rumores, murmúrios e rugidos; e a luz difrata-se resplandecente e multicolorida. Nessa paisagem moderna reconfigurada se anuncia o interminável, o projeto de um por vir sempre futuro. Com esse intuito, Marinetti conclama os artistas a romperem definitivamente com o passado. Como um Orfeu que se pretende infalível, o poeta futurista almeja ir sempre em frente sem olhar para trás, mas a própria negação do passado já instaura sua memória, sempre presente, como zona de sombra que não se deixa apreender. Cada tentativa de Marinetti em apagar as marcas deixadas no lugar pelo passado; atacando os museus, para ele, iguais a cemitérios, ou ouvindo o “estalar de ossos dos palácios moribundos”, faz com que elas retornem, entrecruzem e resiginifiquem o lugar. E é então, desse acúmulo de memórias e subjetividades, que não se deixam apagar, que se compõe o lugar imaginário futurista. Pois quanto mais tenta demarcar o lugar, mais ele se transfigura, pois há sempre uma área passível de ser dominada e outra que não se deixa dominar. A ânsia de Marinetti, mais que o desejo de cantar esse novo mundo moderno, é recompor o seu próprio lugar perdido, construção subjetiva, ou, nas palavras de Blanchot: “ponto profundamente obscuro para o qual parecem tender a arte, o desejo, a morte, a noite”.

A corrida frenética pelas ruas, “íngremes e profundas como leitos de torrente”, encerra-se bruscamente quando o poeta, tomado pela “chateação”, lança-se de rodas para cima em um fosso. Após emergir desse, que ele chama: “fosso materno”, o poeta entona suas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra, enumerando os ditames do movimento futurista. O fosso cheio de água barrenta, “lindo fosso de oficina”, é então lugar de travessia, espaço uterino, eterno lugar de origem, donde o poeta renasce, revigorado, da união entre as ferragens fumegantes do automóvel destruído e o fosso “materno” da oficina. O deslocamento realizado por Marinetti revela-se então não apenas enquanto deslocamento geográfico, mas também enquanto deslocamento no interior de sua subjetividade, que retorna ao seu lugar de origem para resignificá-lo.

O manifesto futurista, puro chamamento, é o canto das sereias, que encanta os jovens artistas, não tanto pelo que faz ouvir, mas pelo que brilha ao longe dessa fala, um lugar outro, indistinto e inapreensível. A voz pungente de Marinetti incita os jovens futuristas a perderem-se em suas distâncias interiores, pois há nessa poética da distância a possibilidade de traduzir o espaço existente entre o compreendido e o incompreendido, entre as possibilidades do mundo moderno e a voracidade interna do artista. Na busca por esse lugar ideal, mas sempre inalcansável, os artistas futuristas penetram inadvertidamente e sozinhos o lugar da criação artística, navegantes indômitos, que percebem haver nesta voz o canto de um espaço além. Contudo a voz de Marinetti nada promete além de uma ilusão de plenitude, mas é justamente nessa incompletude que se revela a essência e ao mesmo tempo a não-essência do lugar imaginário futurista. Assim, deixa o artista à deriva em sua própria imensidão, no limiar de seu abismo interior.

O pintor Umberto Boccioni escutou como ninguém a voz inflamada de Marinetti e seu tríptico Estados mentais , constituído respectivamente pelas obras: As despedidas , Os que partem , Os que ficam , foi eternizado como obra emblemática do Movimento Futurista.

A obra de Boccioni está intrinsecamente ligada à percepção do tempo proposta por Henri Bergson; que vê o tempo como uma sucessão dos estados de consciência, não sendo intermitente, mas algo contínuo, que nunca se repete de modo idêntico; e as fases da consciência são momentos heterogêneos que se compenetram reciprocamente e que não constituem um alinhamento simples e reversíveis, mas uma sucessão sempre mais rica e diversificada, ou seja, sendo essencialmente duração . Conforme o filósofo, só podemos conhecer a duração graças à intuição , que não estando a serviço da inteligência prática, tem como objeto o fluente, o orgânico, o que está em marcha; vendo a modificação das coisas em seu processo dinâmico. Os pintores futuristas incorporam a noção de tempo à produção artística, passando a produzir a partir de uma preocupação espaço temporal . Instituem-se então como máximas futuristas: as idéias de simultaneidade e de dinamismo . A idéia de simultaneidade busca representar a síntese entre o que se vê e o que se recorda. Essa consciência simultânea concentra-se, não só no tumulto dos fatos do mundo exterior e no reino da memória pessoal como também no mundo invisível da experiência corporal. Já a noção de dinamismo existe enquanto resultado da combinação entre o movimento absoluto e o movimento relativo . E intrínseca a essas idéias de dinamismo e simultaneidade está a percepção de uma nova característica da vida moderna, a velocidade fascinante do automóvel, que proporcionou ao olho humano uma nova visão do mundo.

Em sua obra, Boccioni tenta exprimir sentimentos e sensações experimentados no decorrer do tempo, duração bergsoniana. Trabalhando para isso com novos meios de expressão: as linhas de força , que visam atrair as percepções e reações emocionais do observador para o núcleo da pintura; a simultaneidade , que combina lembranças, impressões presentes e a antecipação de fatos futuros; e o ambiente emocional , no qual o artista, através da intuição , procura afinidades entre a cena exterior e a emoção interna. O pintor compõe assim um mundo de fluxo para a qual a imagem-reprodução é insuficiente. Essa nova paisagem é reconstruída na decomposição e na recomposição de fragmentos de imagens e de memórias, a partir de um arquivo residual vivo, articulado pela intuição.

No quadro denominado As despedidas vislumbram-se fragmentos transparentes de uma locomotiva vista em diversos ângulos e as formas fluidas de figuras humanas que se abraçam envoltas por ondas de fumaça, pelo fluxo do tempo e por pulsantes sinais de rádio. Os vulneráveis corpos humanos e as formas metálicas da locomotiva se fundem na intensificação de uma consciência que tenta abarcar as contradições da experiência do tempo e do espaço. A imagem é, pois, um caleidoscópio que sugere lampejos de memória, a angústia da separação e a excitada antecipação da viagem.

Em Os que partem , obra dominada por um tom azul frio e mecânico, o movimento dos passageiros no trem, passando velozmente por uma paisagem fragmentária de edifícios, é representado por linhas de força oblíquas.

Já a respeito da obra intitulada Os que ficam , disse Boccioni: “as silhuetas matematicamente espiritualizadas exprimem a desesperadora melancolia da alma dos que ficam”. As linhas verticais da obra formam um melancólico véu verde por trás do qual desaparecem os desanimados transeuntes que ficaram, como que abandonados, na plataforma de partida.

O tríptico de Boccioni redefine o tempo-espaço da estação ferroviária através das linhas de força e do dinamismo futurista que perpassam e fragmentam, em um jogo de sombras e transparências, cujas variadas nuances revelam um espaço outro em que as marcas do lugar de origem esvaecem sem serem apagadas. O espaço matriz, a estação ferroviária, se transforma aos olhos do artista, em um espaço de subjetividade no qual os diferentes estados da alma podem aflorar. A estação ferroviária, em essência um espaço de passagem, revelasse nas cores e movimentos de Boccioni enquanto paisagem da memória e da intuição, sendo então espaço de intermediações entre os que partem e os que ficam, reconfigurado na duração da despedida; despedida enquanto sensação e experimentação da angústia desse espaço de travessia em que os olhares de partida e de permanência se entrecruzam e resignificam. Espaço que é limite e fronteira, mas que ao ser transposto retorna a si, sendo o mesmo e sendo múltiplos aos olhos dos passantes.

O lugar matriz dos futuristas foi um admirável mundo novo de velocidade e energia mecânica, todo feito de movimento, dinamismo e de uma luz radiante e colorida, mas foi contudo da refração das subjetividades dos artistas, que atravessaram e entrecruzaram esse lugar, articulando-o através de várias modulações e compondo a fábula do lugar futurista. O lugar imaginário futurista é essa oscilação constante entre a fragmentação e a rearticulação do tempo-espaço pela incidência do olhar do artista que recompõem à intensa e tumultuada vida da nova paisagem urbana. Marinetti cantou o interdito desse momento, desse lugar extremo, através de uma fala lancinante, que nada mais é do que o canto de um paradoxo: sua própria experiência indizível nesse novo mundo que ele pretendia apreender, mas que foi sempre inapreensível. E Boccioni, cativado pelo insondável dessa voz, tentou figurar em suas obras a imagem dessa promessa inapreciável.

 

MARINETTI, F. T. “Fundação e manifesto futurista”. In: BERNARDINI, Aurora Fornoni (org). O Futurismo italiano . São Paulo: Editora Perspectiva, 1980, p. 31.

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário . Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 164.

MARINETTI, p. 32.

Idem, p. 33.

BLANCHOT, p. 171.

HUMPHREYS, Richard. Movimentos de arte moderna: Futurismo . São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2000, p. 32.