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A imagem em Utopia selvagem, de Darcy Ribeiro:
Uma evocação ao cinema glauberiano
Pablo Alexandre Gobira de Souza Ricardo (UFMG)
Nossa estética será esplendor
quanto mais mestiça for .
- Glauber Rocha
Este artigo é parte de uma monografia em que abordei teoricamente a questão da imagem , montagem e representação nos textos de André Bazin, Sergei Eisenstein , Jacques Aumont , Maria de Lourdes Oliveira e César Guimarães , analisando as imagens existentes na fábula Utopia Selvagem: saudades da inocência perdida , de Darcy Ribeiro, e no filme A idade da Terra , de Glauber Rocha.
Em meu trabalho, não parto da gênese da imagem , mas de sua temática. Porém, para realizar esse estudo, se faz necessário uma revisão crítica dos conceitos de imagem na Teoria da Literatura e do Cinema. André Bazin , teórico francês ocupado com a questão crítica do Cinema, apresenta-nos o seguinte conceito:
Por imagem , entendo de modo bem geral tudo aquilo que a representação na tela pode acrescentar à coisa representada. Tal contribuição é complexa, mas podemos reduzi-la essencialmente a dois grupos de fatos: a plástica da imagem e os recursos da montagem (que não é outra coisa senão a organização das imagens no tempo). (Bazin 1991: 67)
Neste momento, o conceito geral de Bazin nos basta para estudar as relações entre Literatura e Cinema, a partir das obras do Cineasta e do Antropólogo aqui em foco. Ocupo-me com a imagem que se forma no processo de montagem do qual fala o crítico francês, técnica comum aos dois meios artísticos. É a imagem formada o objeto de estudo deste trabalho. Nos interessa o efeito das imagens no leitor/espectador como imagens críticas e não o seu processo de criação.
Entendo por imagens críticas , aquelas presentes nas obras de Darcy Ribeiro e de Glauber Rocha, que suscitam a formação de uma consciência crítica, na desconstrução de narrativas históricas, ou discursos fabricados pelo olhar do 'outro', seja esse 'outro' o europeu, ou o norte-americano.
As imagens críticas em Darcy Ribeiro e em Glauber Rocha
Categorizei três grupos de imagens críticas presentes nas duas obras, sabendo que há outros que podem ser selecionados. São eles: as imagens da construção da Terra; imagens da mestiçagem; e imagens da resistência.
As imagens da construção da Terra são as que desconstrõem o saber histórico vigente, criado a partir da narrativa do colonizador que chegou nas Américas há quinhentos anos. As imagens da mestiçagem são as que apontam para a construção da Terra a partir da formação do povo latino-americano. E as imagens da resistência, são as que se reportam a resistência do povo, na narrativa fílmica e literária.
Nesta presente análise detenho-me nas imagens da mestiçagem nas duas obras. Vemos, que A idade da Terra foi realizado por influência de Pasolini que, em 1964, filmou O evangelho segundo São Mateus . Glauber Rocha revela essa influência quando seu narrador interfere no filme dizendo que buscou mostrar a vida de um Cristo do Terceiro Mundo sob a perspectiva terceiro mundista.
O percurso dos Cristos na narrativa diz respeito a Estética do sonho de Glauber Rocha, publicado em 1981, na coletânea Revolução do Cinema Novo . As imagens incomuns na realidade, como o Cristo de várias etnias e classes vivendo no Brasil contemporâneo, asseguram ao filme essa característica de sonho.
Optei por identificar em A idade da Terra a existência de quatro Cristos, cada um com seu percurso próprio: um Adão-Cristo-índio, um Cristo-negro, um Cristo-militar-branco e um Cristo-revolucionário.
Através dessa exposição de Cristos que representam as classes e etnias formadoras e mantenedoras do Brasil e da América Latina, passando por cenários tais como Brasília, Rio de Janeiro e Bahia - travessia entre o poder público e o carnaval - Glauber Rocha constrói os quinhentos anos de História a partir da não-linearidade narrativa do sonho, em que há o deslocamento de figuras históricas, bíblicas, etc., para cenários contemporâneos, e assim segue o choque provocado pelas construções imagéticas da estética do sonho .
Em A idade da Terra , as imagens da mestiçagem se concentram em duas representações. Primeiro, na existência de Cristos provindos de povos diferentes. Segundo, na miscigenação cultural e textual presente nas seqüências do filme de Glauber Rocha.
Começo por expor essa segunda representação, a miscigenação cultural, como aquela relacionada aos percursos dos Cristos em várias experiências culturais e religiosas durante o filme. Destaco a imagem do batismo nas águas que se assemelha a um culto pagão, e as vestimentas de batalha do Adão-Cristo-índio, figurino simbólico composto pelo arco e flecha.
Enquanto narrativa, o filme não escapa da "miscigenação" ou "colagem" de textos. Em A idade da Terra , vemos um personagem recitando Os Lusíadas de Camões, temos a colagem do hino dos Estados Unidos, passagens da Bíblia sendo lidas textualmente sem fazer com que o filme se torne uma adaptação de algum outro texto.
Aqui, mestiçagem será entendida do modo como Haydée Ribeiro Coelho, em seu texto Revisitando a mestiçagem , irá tratar do tema: como conceito a ser pensado contemporaneamente. Interessa a seguinte exposição:
Também em O Brasil como problema , Darcy Ribeiro nos fala desse 'nascimento, desfazimento, refazimento e multiplicação pela mestiçagem' . Assim, segundo ele, foi "desindianizando o índio, desafricanizando o africano, deseuropeizando o europeu e fundindo suas lembranças culturais que nos fizemos". Ora, a mestiçagem, vista sob essa perspectiva, mostra um processo de formação 'altamente conflitivo' que implica o conceito de 'ninguendade', que consiste na consciência de ser outro e, portanto, não ser ninguém (Coelho 2003: 65).
É a partir dessa passagem, que posso supor que a mestiçagem, tal como pensa Darcy Ribeiro, será a mistura de raças que serão negadas ao constituir aquele novo ser mestiço. Em A idade da Terra , temos isso visualmente. Os quatro Cristos são interpretados por atores "mestiços" - no sentido de que são indivíduos originários da mistura de matrizes étnicas que formam o povo brasileiro. Isso faz com que a representação no filme seja a montagem de duas imagens. A primeira é o que se quer representar: quatro Cristos provindos de cada etnia e classe. E a segunda, o conflito com o que se é de fato: atores mestiços que representam quatro Cristos de etnias e classes diferentes, simbolizando um Cristo unificado.
A imagem dos Cristos se funde de forma múltipla pela montagem em A idade da Terra . O resultado de tal montagem é o Cristo do Terceiro Mundo, miscigenado. Acredito ser essa a montagem que o cineasta diz ter realizado inicialmente em seu filme sobre Di Cavalcanti .
Concebendo os quatro Cristos como a representação do "Cristo terceiro mundista", cuja vida é contada no filme, tem-se então, o processo de negação das etnias originárias para a concretização da mestiçagem, em um Cristo mestiço latino-americano. Glauber Rocha executa a crítica à consciência predominante na América Latina, que é aquela de querer ser um branco europeu. Ao criticar essa consciência negadora da mestiçagem, o cineasta cria uma imagem crítica que afirma a consciência latino-americana de culturas e povos diversos. Assim, a originalidade do latino-americano é a diversidade. É desse modo que as imagens da mestiçagem tornam-se também imagens de resistência à realidade da consciência do outro.
Em Utopia Selvagem: saudades da inocência perdida, uma fábula de Darcy Ribeiro não é muito diferente. Nas palavras de Darcy Ribeiro, a fábula:
É aparentemente uma história de um preto que cai na terceira dimensão, entre as amazonas. As aventuras dele ali com as amazonas têm uma espécie de Orwell, de sociedade inventada (Ribeiro 1997 apud Coelho 1997: 47).
Utopia Selvagem é constituída por diversos textos. Parece escrita por várias mãos. Darcy, antropófago que é, percorre as tradições literárias brasileiras passando da antropofagia de Oswald de Andrade, à sua expressão maior em Macunaíma de Mário de Andrade, incluindo, ainda, relatos de viajantes e pensadores europeus como Thomas Morus e Jean-Jacques Rousseau dentre muitos outros. Nas palavras do próprio Darcy Ribeiro:
Utopia Selvagem tem mais de 20 autores, entre os quais Russell, Shakespeare, Thomas Morus, Anchieta, Padre Vieira, Manuel de Nóbrega, Américo Vespúcio, Cristóvão Colombo, pois trata-se de um livro escrito a partir das minhas leituras, das minhas preocupações intelectuais mas, antes de tudo, um texto engraçado que, para ser franco, já agradou até a minha sogra (Ribeiro 1982. apud Rebello 1982).
A crítica que Utopia Selvagem realiza, segundo o antropólogo, é a crítica ao real. Esse real é a realidade latino-americana de submissão ao olhar europeu, vivendo para o mundo externo e não para si. E nesse contexto, a concepção de mestiçagem de Darcy Ribeiro é um fator preponderante em toda a narrativa, inclusive em sua construção textual, que é uma curiosa mistura de textos, como já observaram João Domingues Maia e Susana Scramim em sua dissertação e tese respectivamente e, anterior a eles, assinalado pelo próprio autor.
Darcy Ribeiro acreditava na mestiçagem como princípio de unificação do povo latino-americano. Glauber Rocha, ao nos apresentar a imagem do Cristo unificado, representante do Terceiro Mundo mestiço, também nos mostra a proposta de unificação do povo latino-americano a partir da mestiçagem.
Constato a crença na mestiçagem como elemento fundamental para a formação da consciência latino-americana em Utopia Selvagem , com a primeira imagem da mestiçagem que encontro na fábula: os mil povos que se mesclam. Exporei as imagens em ordem de importância para o andamento da narrativa de Darcy Ribeiro. Essa primeira imagem é descrita da seguinte forma:
Nosso enigma é muitíssimo mais complicado. Começa com a tenebrosa invasão civilizadora. Mil povos únicos, saídos virgens da mão do Criador, com suas mil caras e falas próprias, são dissolvidos no tacho com milhões de pituns, para fundar a Nova Roma Multitudinária. Uma Galibia Neolatina tão grande como assombrada de si mesma. Inexplicável. Aqueles tontos povos singelos que aqui eram já intrigaram demais ao descobridor e seus teólogos:
- Gentes são ou são bichos racionais? Têm alma capaz de culpa? Podem comungar? O enxame de mestiços que deles devieram na mais prodigiosa misturação de raças intriga ainda mais (Ribeiro 1982: 32).
Da imagem da mistura dos povos, surge a questão fundamental do livro de Darcy Ribeiro, essencial para consolidar a consciência americana:
- Quem somos nós ? Nós mesmos? Eles? Ninguém?
Acordando como nações no meio desta balbúrdia, nos perguntamos com o Libertador:
- Quem somos nós, se não somos europeus, nem somos índios, senão uma espécie intermediária, entre aborígenes e espanhóis?
Somos os que fomos desfeitos no que éramos, sem jamais chegar a ser o que formos ou quiséramos. Não sabendo quem éramos quando demorávamos inocentes neles, inscientes de nós, menos sabemos quem seremos.
(...) Os povos sem história que cá éramos frente aos façanhudos que de lá vieram naquela hora sumiram ou confluíram e trocaram de ser (Ribeiro 1982: 32).
A afirmação da identidade do povo latino-americano se dá, então, com a imagem crítica da mestiçagem. E, finalmente, acreditando-se mestiço, conquista-se parte dessa identidade, descobrindo o que se é de verdade ao invés de se espelhar no "outro". Assim, o latino-americano se descoloniza pouco a pouco.
A segunda imagem da mestiçagem envolve o ex-tenente que é o procriador da tribo das Amazonas. O negro gaúcho, ao ser raptado para a tribo, exerce a função de "macho prenhador" com muito gosto. Contudo, não percebe que está gerando crianças mestiças, e assim construindo um novo povo. O narrador tece o seguinte comentário sobre a situação de Pitum:
Alegre e feliz devia ele estar, também, porque vai gerar - está gerando - uma mulataria de guerreiras cafusas, fogosas e bravas de dar gosto. Acho até que Pitum gostaria desta vida se soubesse que podia durar, vivendo anos aqui, para criar suas filhas todas e depois, as netas, filhas delas. Às vezes até sonhará com isto (Ribeiro 1982: 66).
Essa imagem é a criação de uma utopia de guerreiras-amazonas que se fazem pela mestiçagem: uma imagem da resistência e força que nasce da mistura de povos. Provavelmente, todas as guerreiras Icamiabas são o resultado mestiço de cruzamentos étnicos através do rapto de homens de outras "tribos", para exercer a mesma função que exerceu Pitum. É claro, que essa imagem se completa somente com a permanência do Tenente Carvalhal entre elas, quando ele, negro gaúcho, se mescla com as índias guerreiras. Essa é, portanto, uma imagem concreta da mestiçagem na fábula.
A imagem do mestiço é recorrente porque se integra à idéia utópica de uma América Latina mestiça, de Jose Martí , em oposição a uma América que deseja ser branca e européia.
Em A idade da Terra , de Glauber Rocha, destaquei a imagem dos quatro Cristos, representantes das etnias e classes que fundam e mantém o Brasil e a América Latina, como a imagem da mestiçagem. Afirmei que esses quatro Cristos montam a imagem crítica de um Cristo terceiro mundista, mestiço em suas etnias, e representante das classes sociais em conflito no Terceiro Mundo. Essa imagem de Glauber Rocha se aproxima das imagens da mestiçagem de Darcy Ribeiro, na medida em que as entendemos como imagens de criação do povo latino-americano e assim, da Terra, da América Latina, como proposta à assunção de uma identidade diferenciada.
Ambos autores consideram a prática da mestiçagem como fator essencial para a formação da consciência latino-americana. O antropólogo e o cineasta simbolizam em suas obras esses momentos da história da América Latina, seja através da reescrita da História Cristã, transformando o "Cristo europeu" em um "Cristo terceiro mundista", ou ainda deslocando a História das Américas contada pelos europeus, passando a ser contada pela narrativa latino-americana, pelo viés da mestiçagem.
Acredito que, com a análise das imagens da mestiçagem em A idade da Terra e em Utopia Selvagem , pude demonstrar a aproximação entre os intelectuais a partir das suas imagens críticas , assegurando a afirmativa de que as obras se inserem no contexto de formação da consciência latino-americana.
Para Darcy Ribeiro, reconstruir a América Latina deveria ser a prática da intelectualidade latino-americana, é por isso que ele toma para si esse papel. Em Voz viva da América Latina de 1978 , o antropólogo diz que a:
intelectualidade não tem o direito de se dar ao luxo de não ser revolucionária, porque como intelectualidade e como consciência de povos que fracassaram na história, a sua função é explicar esse fracasso e é sair desse fracasso, não lamentá-lo (Ribeiro 1978: 22).
Glauber Rocha não foge dessa mesma opinião. No livro de José Carlos Avellar, A ponte clandestina , lemos um comentário do cineasta que trata do papel do intelectual:
o primeiro que tem a fazer o intelectual latino-americano é negar-se, desmistificar-se completamente desse papel de interprete crítico da história sem uma participação concreta, política. (...) a única forma de revolucionar-se e desmistificar-se é fazer do pensamento e da ação política algo integrado. Tem uma oportunidade rara na história, de resolver a falsa contradição entre intelectual e político (Rocha s/d apud Avellar 1995: 104).
Ambos autores cumprem esse papel de revolucionar a situação latino-americana, fazendo o que José Martí já sinalizava na juventude americana de fins do século XIX, quando dizia:
Os jovens da América arregaçam as mangas, põem as mãos na massa e a fazem crescer com a levedura de seu suor. Entendem que se imita demais e que a salvação é criar. Criar é a palavra-chave desta geração (Martí 1891).
Conclui-se que, pelas imagens críticas , Darcy Ribeiro e Glauber Rocha se alinham a um pensamento latino-americano, de tradição crítica, como Martí, Roberto Fernández Retamar, Leopoldo Zea, Angel Rama, Eduardo Galeano e tantos outros interlocutores do antropólogo e do cineasta brasileiros.
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