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A vida em sépia
Rosana Cássia Kamita (UFSC/UEL)
Escolástica de Moraes era filha de Américo Gonçalves de Moraes e de Narciza dos Santos Moraes. Nasceu em Morretes (PR), em 30 de outubro de 1874 e faleceu em 1º de janeiro de 1961, em Curitiba, para onde, em 1886, a mãe, já viúva, e a filha adolescente, haviam se transferido. Em 1893 casou-se com Dario Persiano de Castro Vellozo. 1
A escritora, mesmo tendo constituído a numerosa família que lhe absorvia a atenção, nunca abandonou por completo as artes a que se dedicara antes. Apenas passou a dispensar-lhes mais ou menos tempo, segundo as exigências da vida privada. Pertenceu à Loja Teosófica Nova Crótona, 2 da qual o marido foi um dos fundadores e ela mesma, em 1937, atuou como vice-presidente. A escritora foi, também, uma das fundadoras do Instituto Neopitagórico, do qual, com o nome iniciático de Ione, participou ativamente.
Escolática Vellozo ficou viúva em 1937 e, a partir de então, isolou-se no Retiro Saudoso. Viveu até avançada idade, mantendo-se lúcida e continuando a escrever, em especial, suas memórias. Deixou os originais de “Fragmentos”, “Pétalas de saudade”, “Dario Vellozo”, “Histórias para meus netos”, “Um desfiar de reminiscências” e “Rocal de saudades”. 3
Nas últimas décadas do século XIX, dominavam a cena literária brasileira tendências estéticas cujo escopo era a representação direta e minuciosamente dos fatos e a descrição objetiva das personagens. Vigorava o realismo, movimento literário que pretendeu retratar com a máxima fidelidade o ser humano no seu meio social, bem como representar a realidade no seu aspecto cotidiano e material; ou, então, o naturalismo, que perseguiu os mesmos princípios do realismo, ampliados, entretanto, pela lente do cientificismo finissecular, transformando a obra de arte literária em veículo de demonstração de teses científicas, ou, enfim, o parnasianismo, a vertente poética do realismo/naturalismo cuja temática pretendeu se fundamentar na impessoalidade, na análise fria e distanciada do objeto retratado, e cuja feição exigiu o formalismo rígido e mecânico das leis da arte poética e dos tratados de versificação, dentre outras características. No país, entretanto, nem tudo o que se consubstanciou como produção literária entre nós se submeteu aos ditames estéticos do realismo nos fins do século XIX. Movimentos de reação insurgiram-se contra essa padronização da produção estética dominante, procurando dar vazão às emoções, atendendo aos movimentos pendulares e espontâneos do espírito, valorizando, para isto, o subjetivismo e a idealização da realidade como matérias-primas, usando, primordialmente o símbolo como veículo da realidade representada. Entre tais movimentos, um em particular, o simbolismo, ganhou expressão e cresceu naquela época.
O simbolismo – ou decadentismo, como foi de início chamado pelos seus principais detratores, os partidários do parnasianismo – surgiu na França, em 1890 e, sem que um movimento lograsse excluir o out ro, ambos alcançaram o novo século. Com o tempo e com o aumento cada vez maior de prosélitos, constituiu-se no movimento poético mais expressivo em reação à cena literária “oficial”. Passou logo a ser denominado exclusivamente por simbolismo. Não tardou em buscar novas bases, revestindo-se de um caráter mais acentuado, como o subjetivismo profundo e a expressão simbólica carregada de tendências místicas e sobrenaturais.
Nos fins do século XIX, a literatura que se produziu no Paraná, viveu seu momento áureo com o movimento simbolista, graças a um representativo grupo de escritores. Entre estes, por exemplo, se encontravam Dario Vellozo, Emiliano Perneta e Rocha Pombo, que impulsionaram o movimento, fazendo, inclusive, com que transpusesse não somente as fronteiras daquele estado, mas prepararam terreno para que ultrapassasse os limites do seu tempo e se estendesse até a segunda década do século XX. 4
Escolástica de Moraes Vellozo, sem dúvida, se incluía no grupo de escritores simbolistas paranaenses, não apenas fisicamente, ao acompanhar o marido em suas empreitadas sociais e culturais, ocasiões em que manteve permanente e estreito contato com as doutrinas esotéricas e o clima místico que envolvia a Curitiba da época, mas também intelectualmente, como demonstram as características de suas produções literárias.
Uma obra de Escolástica de Moraes Vellozo de muita sensibilidade e forte carga sentimental foi Pétalas de saudades (reminiscências) . Publicada em 1961, começou a ser escrita em 1938, alguns meses depois da morte de Dario Vellozo, e se estendeu até 1950. Como o título sugere, registra suas memórias, mas, ao escrever sobre os episódios importantes de sua vida e sobre o significado que pudessem ter para ela, a morte de duas pessoas queridas, o filho e o marido, por exemplo, Escolástica Vellozo procura estabelecer com seu leitor uma relação de cumplicidade: as cenas se sucedem, nos capítulos, como se a escritora fizesse permanente convite a um passeio no tempo. É como se ela não quisesse ir só, mas acompanhada de quem a está lendo. No entanto, sabemos que o passado nunca pode ser recuperado com exatidão, por mais que o escritor se empenhe nesse sentido e se comprometa com a fidelidade aos fatos. De acordo com as considerações de Roger Cartier, é natural que “episódios da existência passada sejam esquecidos, recalcados pela consciência, enterrados num segredo que o próprio indivíduo não pode revelar”, 5 porque haverá sempre o filtro do tempo e o descompasso temporal, quando se está no presente escrevendo sobre o que já passou, pois o [...] simples fato de lembrar o passado, no presente , exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista. 6
Esse descompasso conduz à reavaliação dos episódios, permite vê-los de maneira diferente, com os olhos da maturidade. Mas, no caso de Escolástica Vellozo, a escritora e também a pessoa, sob a emoção da perda, o luto dificulta-lhe muitíssimo esse previsível distanciamento crítico dos fatos. Hennezel e Leloup destacam a importância que a morte adquire, o quanto ela significa e mesmo transcende a capacidade de cada um compreendê-la:
Partimos de uma constatação: nosso mundo denega a morte e, assim, priva-se de uma reflexão e de uma meditação sobre a questão do sentido e do sagrado. Alguns momentos da vida, em particular, as crises, os lutos, levam-nos a enfrentar essas questões essenciais. A abordagem da morte, sobretudo, desperta em cada um de nós o que qualificamos de “sofrimento espiritual”, sofrimento diante da ausência de sentido ou, simplesmente, diante da impossibilidade de compartilhar com outros nossas interrogações íntimas. 7
A questão maior não é quem morre, mas o que a morte de determinada pessoa representa. Depois de enviuvar, a escritora se isolou e em suas memórias dialoga com marido morto sobre acontecimentos passados e sobre o que estes representaram para ambos, utilizando-se sempre da expressão “lembras-te?”. Também dialoga sobre os fatos que aconteceram mas dirigidos à memória dele ou relacionados com ele, como, por exemplo, uma homenagem póstuma. Por certo a solidão a levou a procurar refúgio em suas reminiscências, com as quais recompõe um universo de sonhos que só elas possibilitam. E, na recomposição desse universo, Escolástica Vellozo se utiliza permanentemente de uma linguagem sensível, carregada de recursos poéticos, a despeito de escrever em prosa. Outro aspecto importante: apesar de tudo resultar em relatos que expõem fatos muito íntimos de sua vida, a escritora não parece ter descartado o propósito de publicação, conforme nos esclarece seu filho, Alcyone Vellozo:
Nos teus últimos tempos de vida, quiseste, assim reunidas – em volume publicado – tuas Pétalas de saudade , fosse distribuído aos seus íntimos, amigos e parentes. Última expressão do teu ser, coração e alma de noiva, esposa e companheira, oferenda da tua viuvez solitária e triste, derradeira homenagem à memória querida do eleito, de há tanto desaparecido nas insondáveis brumas do desconhecido. 8
Escolástica Vellozo, nos primeiros capítulos da obra, recorda-se dos momentos finais da vida do marido e da tristeza que sentia. O capítulo mais melancólico é o que trata da morte do filho de apenas cinco anos. Relata que suas lembranças se avivaram ao reler O livro de Alir , em que Dario Vellozo pranteia a memória do filho. Desta obra ela transcreve alguns trechos:
Hoje, nas minhas horas de angústia, em que a razão por vezes se obscurece, é evocando reminiscências que suavizar consigo a minha saudade e a minha grande dor de sua ausência para todo o sempre. 9
Sua Mãe ou eu o tomávamos ao colo, e o rostinho febril, ao nosso aconchegado, ficava-se, aos lábios encantador sorriso, a voz de inefável doçura, merencório e resignado, pensativo, fitando, fitando a luz a extinguir-se, tênue, vaga, desaparecendo...
[....]
Reunir-nos-emos todos no Além, e voltaremos, todos, a pugnar no Orbe – pela Paz, pela Concórdia, pelo Bem, pela Harmonia.
O Horto de Lysis será nosso horto, o Templo das Musas o nosso Templo, o Retiro Saudoso o nosso tugúrio. 10
A escritora conclui com uma demonstração de desalento: “Quanta ilusão...”. 11 Ela se mostra com freqüência muito melancólica e mística, mas raras vezes descrente, como nesse dasabafo. E arrisca-se sobre o destino, imponderável, a que todas aquelas recordações a conduzirão: “As tuas asas róseas e diáfanas vão levando-me a páramos ideais, perlustrados outrora no País do Sonho, num passado longínquo, pleno de esperanças e de ilusões!...” 12 A escritora participara, como se viu antes, da intensa corrente mística e esotérica, naquele momento, porém, a morte do marido a fez questionar-se ainda mais sobre os mistérios do que ela chama de “incognoscível”. Chega mesmo a clamar ao filósofo morto por uma resposta : “Qual farol que te guia, diz-me [...]”. 13
Há um capítulo, “Sinfonia das Rosas”, que é essencialmente simbólico. Escolástica Vellozo elabora uma lenda segundo a qual a sinfonia seria composta de fragmentos evocativos das músicas preferidas “de um esteta, filósofo e poeta”, seu marido:
Conta uma lenda recente, que, por noites enluaradas, retardatários que cruzam a Mansão dos Mortos, se ficam extasiados em ouvindo música estranha, que se eleva de um humilde túmulo, onde repousa o invólucro material da alma de um esteta, filósofo e poeta e, onde rosas floriram em profusão.
Ao ouvi-la, dizem uns: é a música das Esferas. Outros: é uma liturgia sacra; é o coro dos Anjos e das Virgens celestiais.
Outros afirmam ainda: é a Sinfonia das Rosas em louvor ao Poeta, em que as harpas eólias são tangidas por mãos de Fadas; liras dedilhadas por Musas inspiradoras; Stradivarius de Cremona, de sons aveludados, em surdina, por almas de apaixonados que se evolaram da terra dentro de um Sonho róseo; flautas que pelo ritmo amoroso evocam a de Pã, acompanhando a dança das Ninfas. 14
Em seguida, ela conversa com as rosas que ornam o túmulo, as quais, uma por uma, descrevem a si próprias, revelando o que representam. Eis o que diz a de cor roxa: “– Eu sou a rosa da Saudade, da cor violácea da mágoa e da melancolia. [...] Quanto mais intensa a Saudade, mais intenso meu perfume e meu colorido se torna indelével, do roxo negro das cicatrizes”.
O capítulo “Rememorando” foi escrito em 1947, uma década depois do início de sua memórias. Dirige-se a Dario Vellozo, mas principia evocando-lhe o pseudônimo neopitagórico Apolônio. Passa a narrar-lhe todo o preito que renderam à sua memória, por ocasião dos dez anos de seu falecimento. Em seguida, ela lhe confidencia: “E... como custa a viver na velhice!...” 15. Escrito dois anos depois, o capítulo “Pétalas de Saudade” retoma o mesmo tom. Nele a escritora reflete acerca da própria senectude: setenta e cinco anos de vida. O tom entristecido se mantém, mas com o acréscimo de certa decepção em frente às pessoas e à vida.
Em “A última pétala”, capítulo datado de 1950, ela se despede de seu Apolônio, comunica-lhe que está encerrando as recordações e registra um lamento final: “E hoje, na velhice, ‘Nas brumas da saudade o sonho já sepulto', a Trança Loura se cobriu de neve, não da neve das Estações, mas da neve dos sentimentos recalcados pelas incompreensões, sem o teu arrimo e conforto espiritual [...]”. 16
Dario Vellozo nasceu no Rio de Janeiro em 1869 e se transferiu para Curitiba, PR, onde terminou seus estudos de Humanidades. Ocupou vários cargos públicos e, concomitantemente, foi pedagogo e professor, lecionando, além de História Universal e do Brasil, outras matérias, como Português e Literatura, no Ginásio Curitibano e na Escola Normal. Escritor, publicou várias obras de pedagogia e de história. Poeta, foi um dos precursores e principais representantes do movimento simbolista paranaense, publicando entre outras obras poética, Efêmera , Esquifes , Alma penitente . Fundou, em Curitiba, o Instituto Neopitagórico de expressiva atuação filosófica e cultural. Morreu na capital paranaense em 1937.
A Teosofia, um conjunto de doutrinas religioso-filosóficas, foi difundida pela russa Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891); a sociedade teosófica fundamenta-se em objetivos que levam em conta a fraternidade universal, o incentivo ao estudo da religião comparada, filosofia e ciência e a investigação das leis da natureza ainda não explicadas, assim como das capacidades latentes no ser humano.
Radhail Grein de Castro Vellozo, neta da escritora, recebeu-me gentilmente no Instituto Neopitagórico auxiliando com informações e materiais sobre a avó. Das obras acima citadas foram publicados: Fragmentos (1915), algumas poesias no livro Um século de poesia . Poetisas do Paraná (1959) e Pétalas de saudade (1961), publicação póstuma. Os outros, sua neta acredita que tenham permanecido inéditos.
V. Prof. Andrade Muricy, em seu Panorama do movimento simbolista brasileiro . [São Paulo: Perspectiva, 1987].
Ver prefácio a “Mulheres de papel”, de Roger Chartier, traduzido por Isabel Monteiro. Transcrito na coletânea de Lílian de Lacerda, Álbum de leitura . Memória de vida, histórias de leitoras.[São Paulo: UNESP, 2003].
Ver Ecléa Bosi, na p. 17 de seu Memória e sociedade: lembranças de velho [São Paulo: T. A. Queiroz, 1983].
Ver p. 141, da obra de Marie de Hennezel e Jean-Yves Leloup. A arte de morrer , traduzido por. Guilherme J. F. Teixeira [ Petrópolis: Vozes, 1999].
Ver p. 10 de Pétalas de saudades. (Reminiscências), de Escolástica de Morais Vellozo, cit.