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Escrita da vida e da morte, com os enfeites da poesia
Rosa Maria Santos Mundim (Unileste)
UMA FORMA DE FALAR DE VIDA – E DE MORTE
Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso ando um pouco de banda.
(Carlos Drummond de Andrade, De bolso )
Muito se tem falado da escritora mineira Adélia Prado, essa poeta que, desde o primeiro poema de Bagagem, em que homenageia Carlos Drummond de Andrade, demarca um espaço próprio, singular, e tem consciência disso: "Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. / Inauguro linhagens, fundo reinos." (p. 11) E o que seria a “bagagem” que Adélia nos revela para cumprir sua sina? São pedaços do cotidiano, um erotismo às vezes impregnado de religiosidade, reflexões sobre o fazer poético, lembranças do passado e, especialmente, tudo aquilo que marca o caminhar dos seres humanos, como a vida e a morte.
Mortes fazem parte, assim, do caminhar de Adélia, uma escritora que diz: “Escrevo o que vivi e vivo”. E, curiosamente, é a partir da perda de uma pessoa querida que ela começa a se colocar como poeta: “Até que um dia, propriamente após a morte do meu pai, começo a escrever torrencialmente e percebo uma fala minha, diversa dos autores que amava." (Entrevista ao Projeto Releituras ).
Desde Bagagem , portanto, há na fala de Adélia um espaço para os mortos. Seja em títulos de poemas - “Orfandade”, “Chorinho doce”, “As mortes sucessivas”- seja em versos que falam de doença e morte, é possível até conversar com os que se foram como se estivessem ainda neste mundo: “me chamou como em vida...” (p. 129), vê-los: ”Seguia de opa vermelha, em procissão,uma banda de música e cantava...” (p. 130), lembrar suas palavras: “Minha mãe achava estudo /a coisa mais fina do mundo”. (p.116)*, reinventá-los e, assim como diz o poeta Drummond, carregá-los do lado esquerdo.
Uma das vertentes mais importantes de sua obra é a memorialística. Através de seus textos, o leitor pode chegar ao interior de Minas, voltar ao passado, conhecer modos de vida e pessoas que ali habitaram. A autora pode fazer,assim, um resgate dos mortos, um ajuste de contas com o passado, aceitar sua morte e reinterpretar sua vida. Pois, como diz Walter Benjamin, “...o importante, para o autor que rememora, não é o que ele viveu, mas o tecido de sua rememoração, o trabalho de Penélope da reminiscência.” (Benjamin, 1985, p.37). Assim, pelos pontos e marcas do tecido de que seu texto é feito, pode-se redesenhar mesmo o retrato de alguém que já se foi, como a narradora faz no conto Sem enfeite nenhum.
RETRATO EM PRETO E BRANCO
Quando minha mãe posou
para este que foi seu único retrato,
mal consentiu em ter as têmporas curvas.
Contudo, há um desejo de beleza no seu rosto
que uma doutrina dura fez contid o
(Adélia Prado, Fotografia )
A maioria dos leitores conhece Adélia Prado como poeta, mas nem todos são leitores de seus textos em prosa, embora a escritora já tenha vários volumes publicados. O conto Sem enfeite nenhum faz parte do primeiro livro de prosa escrito por Adélia, Solte os cachorros (1979) e foi escolhido por Ítalo Moriconi como um dos "cem melhores contos brasileiros do século".
No conto, a filha adulta ajunta pedaços de lembranças para recompor o retrato da mãe falecida. O próprio título - Sem enfeite nenhum – dá margem a várias leituras: pode ser quase como uma homenagem a uma mãe que não se dava ao luxo de enfeites, pode ligar-se à própria vida, que às vezes não dá margem a nenhuma ilusão ou alegria; ou pode ser a tentativa de traçar, no texto, um retrato verdadeiro da mãe, sem empregar, no entanto, o costumeiro tom laudatório presente nos escritos sobre uma pessoa querida que partiu.
Na vida dessa mãe, a presença da morte é constante, não apenas no sentido físico, como acontece no final do conto. Percebe-se que a filha lamenta, desde o início, a morte que se esgueira através da doença, da dureza de uma vida sem alegrias, dos sacrifícios e até, pode-se dizer, um certo empenho em não buscar a felicidade neste mundo.
Embora sofrendo de moléstia grave, a mãe não se dá ao luxo do repouso e sofre desmaios na beirada do tanque. Como se não pudesse perder um minuto, levanta-se ao amanhecer para ir à missa, numa hora em que os enfeites não são necessários, pois o escuro iguala e apaga a todos. Até o espaço do cinema, que também é mencionado e, supostamente, deveria ser um lugar de diversão, só é freqüentado uma única vez, mesmo assim quando um filme religioso é exibido.
A marca de uma religiosidade severa e triste, aliás, está presente em todos os lugares, como nas falas da mãe que revelam a valorização da castidade e do rigor da vida religiosa: "Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era isto: meu Jesus misericórdia..." (Prado, 2001, p. 76) 1 Assim, na visão materna, o mundo se apresenta como um lugar de pecado e sofrimento, do qual o ser humano só se libertaria através da morte. Na sua religião, a cruz é especialmente valorizada, a cruz despojada, "sem enfeite nenhum" -símbolo perfeito de sofrimento e morte.
No entanto, é também da religião que vem a única esperança de consolo e perdão, a crença nos poderes das bênçãos e orações para livrar as almas do sofrimento eterno. E, talvez por pressentir que vai partir cedo, a personagem não se deixa prender às ilusões do mundo e tenta passar para os filhos a visão de que a existência humana é principalmente dor e sacrifício. Não deixa também espaço no dia-a-dia para sentimentalismos, o que faz com que a adolescente componha da mãe a imagem de uma pessoa extremamente severa.
EU JÁ TIVE E PERDI....
Não me falou em amor./ Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado, Ensinamento )
Num livro em que analisa a memória na escrita feminina, a professora Lúcia Castello Branco fala da importância da seleção das lembranças no ato da escrita, como uma forma de resgatar um tempo passado e pessoas que já se foram:
Sim, porque se há algo que inevitavelmente se foi, há, entretanto, alguma coisa que fica. E talvez a busca que neste texto se efetua se resuma a uma incômoda questão: afinal, o que fica das pegadas no chão da memória? Fica o que significa, pode-se pensar. Ou talvez o contrário: o que significa passa a ficar.
(Castello Branco, 1994, p. 11)
Para que esse chão da memória adeliana se mantenha firme, a escolha do foco narrativo em primeira pessoa imprime um toque de credibilidade ao que se narra;o tom do texto é confessional; a narradora inicia sua fala com uma frase definitiva, que é também uma espécie de desabafo: "A mãe era desse jeito" (p. 76), como se colocasse logo, de modo claro, para si mesma e para o leitor, a firmeza de caráter da personagem. A idéia dessa frase inicial será retomada e reforçada mais adiante, com outra afirmação definidora : "Era a mulher mais difícil, a mãe. Difícil, assim, de ser agradada." (p. 77) Em torno dessas duas afirmações, os fatos são lembrados, numa tentativa que a filha adulta faz para comprovar se a imagem severa e triste que fez da mãe, quando jovem, é a verdadeira.
Mas a definição inicial mostra-se simplificadora desde o começo. Por trás da aparente frieza que a mãe apresenta, já se pode vislumbrar, na reação provocada pelo filme que conta os milagres, um lampejo de emoção que aparece na fala "excitada", no gesto nervoso de enrolar um cacho de cabelo e na pergunta que mostra um desejo ou, talvez, a esperança de ficar curada pelas virtudes do padre santo: "Se eu fosse lá, quem sabe?" (p. 76)
Essa primeira amostra de humanidade, entretanto, é logo quebrada na lembrança do episódio do relógio, em que se revela a decepção da adolescente, que deixa de receber um presente, pela objeção da mãe em ver a jóia como símbolo de leviandade e desperdício. A mágoa da jovem aparece na confissão: "Foi água na fervura minha e do pai." (p. 76) e também marca a oposição que é feita pela adolescente entre as duas figuras: do pai, que sempre se volta para a alegria e a vida; enquanto a mãe escolhe a privação e a morte.
"A mulher mais difícil" e sempre contida, porém, se transforma e se emociona quando fala de estudo. Luxo, para a mãe, é o estudo, a linguagem correta. Na cena do desenho, a mãe se permite o luxo de deixar o sentimento fluir, colore com uma cor vibrante -"laranjado"- , dá conselhos à filha com a voz alterada, fala cortando as palavras, como se tivesse "o coração disparado".
Essa revelação da mãe emocionada faz a narradora descobrir que também há boas lembranças. Nelas a descoberta da beleza feminina, da mãe-mulher jovem, passando creme no rosto, sorrindo. Através dos olhos alheios, na escola, a confirmação de que a mãe é bonita. Mas suas roupas preferidas têm cores sombrias, um "vestido de seda branco e preto e um mantô acinzentado" (p. 78), severas para uma mulher ainda jovem, e fazem retornar, de novo, as lembranças "ruins".
PARA PERPÉTUA MEMÓRIA
Quem me consolará desta lembrança?
(Adélia Prado, As mortes sucessivas )
A primeira frase do conto, “ A mãe era desse jeito”, já revela ao leitor que se vai falar de uma pessoa morta. Entretanto, há outra morte no conto e nas duas, o rigor do caráter materno é realçado. No episódio da morte da vizinha Ricardina, "que não podia ver nem cueca de homem que ficava doida" (p. 77), o temor do castigo eterno faz com que mãe, sempre tão controlada e corajosa, seja tomada de aflição e pavor, pois para ela, este é o momento terrível do acerto de contas com o Deus temido, que só será aplacado com o arrependimento e uma última confissão.
No entanto, talvez porque se tenha preparado para este momento durante toda a vida, a personagem enfrenta a própria morte com resignação e coragem. Essa morte desde o início já parecia prevista e anunciada, como na história do crucifixo, em que é reforçada a idéia de que "Era a mulher mais difícil, a mãe. Difícil, assim, de ser agradada" (p. 77), alguém que não se deixava levar pelas tentações do mundo. Também a expressão que descreve a cruz desejada pela mãe, "sem enfeite nenhum", simboliza a idéia da vida e da morte ligadas ao sacrifício e à dor.
Enquanto a filha se detém com detalhes nas outras passagens da vida da mãe, o anúncio da sua morte é feito bruscamente, em apenas duas linhas: “Morreu sem fazer trinta e cinco anos, da morte mais agoniada, encomendando com a maior coragem: a oração dos agonizantes, reza aí pra mim, gente. “ (p. 78) Assim, se cumpre, finalmente, a vontade de quem não desejava, em nada seu, nenhum enfeite.
COM OS ENFEITES DA POESIA
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande...
(Adélia Prado, Orfandade )
Nos tempos antigos, era costume retratar o morto em seu caixão, para que essa imagem ficasse como uma última lembrança. É o que Adélia Prado faz, com palavras, quando traça no conto um retrato da mãe. Como no momento de sua morte, continua ainda hipnotizada, como se não pudesse acreditar na cena que tem diante dos olhos. Ao compor, na escrita, a figura da mãe, a filha também se desenha por uma espécie de contraste, que se faz entre duas mulheres que vêem a vida com olhares diferentes.
Assim, a evocação da mãe que quase não se permite demonstrar sentimentos de afeto, que enxerga a vida "sem enfeite nenhum", permite à narradora, por oposição,revelar-se ao leitor como uma pessoa em que tudo é intenso. Nos episódios relembrados, pode-se perceber uma gama desses sentimentos vividos pela jovem: decepção (por não ganhar o relógio, pela mãe não sentir a alegria pelo nascimento do irmão); curiosidade quase divertida (ao ouvir a fala da mãe sobre a ida para o convento, a preocupação com os pecados da Ricardina); aflição quando algo de bom acontece (na cena do desenho); alegria (quando a mãe passa creme no rosto e ri); raiva (quando o pai tenta presentear e é repelido); espanto e admiração (na cena da morte) e, finalmente, a descoberta e a reconciliação no final do texto.
Mas o leitor do conto pode ver também a narradora, no plano do presente, como a mulher adulta que se volta para o passado, revisita cenas e lugares, resgata palavras e é capaz de dar a tudo, hoje, uma dimensão nova. Desse modo, é possível até encontrar os enfeites e o colorido que a vida pode ter,e mesmo as passagens "ruins" podem ser agora relidas de modo diferente. Ao ligar a visão da mãe no caixão ao nascimento do irmão -cenas que marcam o início e fim da existência- a narradora percebe que, ao contrário do que pensava a mãe, morte e vida não precisam ser unidas somente pela dor, mas podem ser ambas formas de um fato novo, de transformação, de recomeço.
Talvez a filha não tivesse, na época, maturidade para avaliar o tamanho da perda que sofre, mesmo porque a morte da mãe coincide com um momento delicado de sua adolescência, o início da vida de mulher. Confrontada com a figura de um pai que “caçava o que fazer para gastar sua alegria” (p. 19), rebela-se contra a figura dessa mãe sempre severa, melancólica, às voltas com a cozinha e as orações. Só na maturidade a narradora torna-se capaz de compreender que “o amor, essa palavra de luxo”(p.116) que não era falado pela mãe, sempre se praticava em pequenos gestos de cuidado e até mesmo havia ternura por trás das palavras secas.
Ao escrever o texto, o autor também se escreve. Ao final do percurso que faz nessa escrita, ele já não é mais o mesmo, o seu olhar já vê de modo diferente. Assim, no conto, o retrato que se inicia em preto e branco toma colorido, adquire vida, revela novos detalhes. No capítulo “Exílios da memória”, Lúcia Castelo Branco, no livro já citado, lembra: “
..o sujeito da rememoração funciona, à maneira das narrativas míticas, como um poeta ou adivinho – ele sabe o que ainda não foi contado, mas ao contar o que sabe, outra coisa, precisamente nesse lugar, se constrói: o texto, esse estranho produto de sua memória, que agora já o olhará como a um outro.
(Castelo Branco, 1994, p. 31)
Com a escrita da lembrança, a narradora reconhece a dor da perda, liberta a mãe de seus cuidados e sofrimentos, aceita sua morte, retribui-lhe as orações abençoando-a e guarda-a dentro de si, finalmente apaziguada. Enquanto a mãe se dirigia a Deus para pedir misericórdia e perdão pelos pecados, a filha, ao final do relato, invoca para abençoar a mãe a "bênção de São Francisco", santo ligado à alegria, à comunhão com todos os seres do universo, e à paz. E assim, finalmente, o "antusiasmo " da mãe quase consegue ser recuperado, com todos enfeites da poesia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião- 10 livros de poesia . José Olympio, Rio de Janeiro, 1969.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Brasiliense, São Paulo, 1987.
BRANCO, Lúcia Castello. A traição de Penélope . ANNABLUME, São Paulo, 1994.
PRADO, Adélia. Prosa reunida . Siciliano, São Paulo, 2001.
PRADO, Adélia. Poesia reunida . Siciliano, São Paulo, 2002.
PRADO, Adélia. A experiência do prazer (Entrevista). PenAzul . Disponível em: < http://medei.sites.uol.br/penazul/geral/entrevis/prado.htm > Acesso em: 22 jan. 2004.
PRADO, Adélia. Prosa reunida . Editora Siciliano; São Paulo; 474; 2001 - Todas as citações do conto serão dessa edição, indicadas apenas pelos números das páginas.