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The Laramie Project: da dramaturgia como espaço imaginário da ausência
Isabella Santos Mundim (Unileste)

A linguagem é antes de mais nada o traço – substituto nunca perfeito e satisfatório – de uma falta, de uma ausência.

Márcio Seligman-Silva, A literatura do trauma 1

 

Novembro de 1998 em Laramie, Wyoming. Mathew Sheppard, estudante universitário, gay, é brutalmente espancado e, após cair na inconsciência, é amarrado a uma das muitas cercas que atravessam as planícies do condado. Ele seria encontrado dezoito horas mais tarde, por um rapaz que se dirigia, em sua bicicleta, a nenhum lugar. É este rapaz quem contacta o serviço de emergência e é ele, juntamente com os policiais que atendem ao chamado, as primeiras testemunhas da violência que havia sido perpetrada no corpo de Mathew. Com lacerações na cabeça, na face e no pescoço; o rosto e peito cobertos por sangue; os pulsos em carne viva, a vítima incorpora o martírio, e sua morte, uma semana após o resgate, desorganiza e assusta a comunidade rural na qual ele vivia.

Os habitantes dessa comunidade, a maioria pessoas acostumadas a uma vida simples, livre de controvérsias, assistem a interrupção abrupta e prematura de uma vida, a quebra de um ciclo ilusoriamente previsível (os filhos sobrevivem aos pais, os jovens sobrevivem aos mais velhos). Não bastasse isso, a polícia descobre, durante o curso das investigações, que a responsabilidade pelo assassinato recairia sobre “dois dos deles,” Russel Anderson e Aaron McKinney, jovens de vinte anos nascidos, criados e residentes em Laramie. Descobre-se ainda que toda a crueldade fora motivada, de acordo com depoimento dos próprios acusados, por um desejo de punir aquele rapaz que havia ousado insinuar-se, que havia ofendido-lhes a masculinidade. Segue então o choque, a negação, a culpa e a revolta; instaura-se o trauma que a cidade lutaria para superar.

O trabalho de luto, entretanto, torna-se tarefa quase impossível quando a mídia invade Laramie. O crime, de conotação nitidamente preconceituosa, é manchete nacional e transforma a cidade, antes pacata, em centro das atenções da sociedade norte americana. O público de programas televisivos, os leitores de jornais e revistas, as associações de classe, os políticos, o cidadão médio, todos exigem uma resposta, necessitam de uma explicação que dê conta do horror do acontecido. Mas o que não se entende é intraduzível. A ausência completa de empatia pelo outro, o ódio que tem raiz na incompreensão e no medo da diferença permanecem mistério, a evadir e implicar o homem comum, fazendo-o cúmplice da cultura que oferece justificativa para atos tais quais os de Anderson e McKinney.

A impossibilidade da exoneração de culpa por parte das outras comunidades, a incerteza relativa a potencial, deles e de seus vizinhos, para ação de tamanha crueldade acabam por impelir esses “estrangeiros” a demonizarem a cidade de Wyoming. Esta é terra de caubóis, isolada de quaisquer centros cosmopolitas, perdida em meio a um mar de pradarias. Lar de caipiras reacionários, não surpreende que ela tenha sido palco de um linchamento homofóbico, que o inimaginável tenha ocorrido ali.

Moisés Kaufman escolhe esse momento de história e histeria para encenar intervenção. Um dentre milhares de observadores, o dramaturgo e diretor teatral manifesta interesse em investigar as circunstâncias que culminaram no assassinato de Mathew Shepard bem como em estudar a repercussão do evento traumático na vida dos que moram na região. Assim escreve: “[Desejava] informar-me melhor sobre a razão do crime, sobre aquela noite decisiva, sobre a cidade de Laramie. Desejava ouvir as pessoas que lá viviam. Seriam Laramie e a outra América tão distintas? Ou essa se assemelharia ao resto do país?” 2. Para tanto, Kaufman arregimenta ajuda dos demais membros da Tectonic Theater Project e, nos dois anos que se seguem, ele e seus onze colaboradores debruçam-se sobre a tragédia que se abateu sobre Laramie, deconstruindo-a, percebendo-a e simbolizando-a a partir de diretrizes condizentes com uma filosofia de trabalho bastante específica.

Na tradição do docudrama da prestigiada autora/artista performática Anna Deavere Smith, Kaufman e sua trupe visitam uma comunidade estremecida, cuja rotina foi perturbada por episódio exceptional, uma eclosão desmedida de violência. Desse modo, além da planície que não finda, do traçado de ruas, do campus da Universidade, das construções reminiscentes do Velho Oeste a cidade revela-se repositório de lembranças e, fragilizada, expõe seu corpo de concreto e asfalto aos atores/jornalistas amadores, deixa a descoberto os sobreviventes, aqueles que trazem na enunciação, na hesitação e no silêncio as cicatrizes da experiência. A cidade fala, e as suas vozes, múltiplas, são a matéria-prima para o texto. Entrevistas e depoimentos, espontaneidade e artifício, ultraje e tristeza, ódio e esperança, incredulidade e vergonha formam coro dissonante, mosaico representativo da diversidade de discursos, que ecoam, contradizem ou declaram independência.

MOMENTO: VIVA E DEIXE VIVER.
Narrador: Sargento Hing:
Sargento Hing: Como algo assim pôde acontecer? Eu-eu acredito que muitas pessoas não compreendam, eu mesmo não compreendo como alguém é capaz de agir dessa maneira. Aqui em Laramie existe uma das populações gay mais atuantes do estado... E a regra é: Viva e deixe viver.
Narrador: Residente Jeffrey Lockwood:
Jeffrey Lockwood: Minha esperança, secreta, era que eles [os acusados] fossem forasteiros, assim um residente poderia distanciar-se dos acontecimentos: Nós não criamos crianças assim aqui. Bem, é bastante óbvio que esse não é o caso, e nós criamos, sim, crianças assim aqui...
Catherine Connolly: O indiciamento transcorreu sem incidentes, e minha reação-estava paralisada-não dormia, não comia. Não-sabe, não me deixe sozinha nesse momento.
John Peacock: Mais e mais detalhes a respeito da brutalidade, um, das motivações, de como ocorreu vieram à público. E então, francamente, a cidade foi invadida pela mídia e não havia mais tempo para refletirmos sobre o crime 3.

Ainda,

MOMENTO: ISSO ACONTECEU AQUI.
Zubaida Ula: Fomos até o local onde estava acontecendo a vigília.
Narrador: Zubaida Ula:
Zubaida Ula: E me senti comfortada por estar na companhia de pessoas que se sentiam miseráveis. Eu não parava de pensar, eu não mereço me sentir tão mal, sabe? E então alguém se levantou e disse, “E aí, gente, vamos mostrar ao mundo que Laramie não é esse tipo de cidade.” Mas Laramie é esse tipo de cidade. Se Laramie não fosse assim, como justificaríamos o que ocorreu aqui? Entende, você me entende, é como-o que disseram é mentira. Porque o linchamento aconteceu aqui. Então como posso dizer que Laramie não é esse tipo de cidade? É como-como se admirássemos uma pintura Escher e nos perdêssemos em sua lógica circular; como podemos dizer algo assim? E temos de lamentar o ocorrido e temos de experimentar a dor de vivermos em uma cidade, um estado, um país onde uma droga como essa acontece. E eu não vou negar a realidade e dizer, “Temos de mostrar ao mundo que não somos esse tipo de cidade, esse tipo de comunidade.” Sabe, essas pessoas estão distanciando-se desse crime. E nós precisamos assumir esse crime. Eu acredito. Todos têm de assumí-lo. Nós somos assim. Nós SOMOS assim. NÓS somos ASSIM 4.

 

Os testemunhos de sessenta e quatro habitantes da infame cidade configuram portanto núcleo central de The Laramie Project , em torno do qual se acrescentam trechos dos processos criminais que condenaram Anderson e McKinney, registros diarísticos dos membros da companhia que Kaufman dirige, depoimentos do próprio Kaufman, boletins médicos sobre o estado da vítima e notícias de telejornais da época, numa colagem aparentemente simples. Importante notar que Mathew Shepard nunca é citado verbatim . Sua voz não é recriada; ele não é personagem nessa peça que versa, entre outras questões, sobre sua agonia. Nada mais adequado, já que a resposta dos outros (família, colegas de faculdade, residentes hostis...) à falta é, esta sim, a estrutura dentro da qual se movimenta a máquina cênica, o artifício que ressemantiza o vazio.

Logo, The Laramie Project supera o mero registro. Excede-o, retirando do episódio não apenas os mecanismos sociais que impulsionam a tragédia, mas a complexidade mesma de uma gente que se defronta, a cada dia, com a tarefa de rememorar o trauma e dar limites à ferida. Para além da vitimização de Mathew pela intolerância de uma sociedade supostamente moralista, o autor aponta o temperamento de quem não consegue escapar à responsabilidade de narrar o choque, de simbolizar a perda.

Em um dos momentos que compõem a obra, por exemplo, um ministro batista, em conversa telefônica com a atriz Amanda Gronich, discorre a respeito do impacto do assassinato sobre sua congregação. Dela faz parte a namorada de um dos acusados e os fiéis encontram-se, justificadamente, abalados. Ele prossegue dizendo acreditar que Anderson e McKinney mereçam a pena de morte. Isso não significa, entretanto, que ele absolva Mathew Shepard. Sua orientação sexual, seu estilo de vida foram instrumento, adverte o ministro, para o desenrolar de eventos que lhe interrompeu a vida. Que sua história sirva de aviso; e que Mathew, em seus últimos instantes de consciência, tenha refletido sobre os ensinamentos do Senhor e se arrependido de suas escolhas 5. Trata-se aqui de uma das muitas reatualizações do acontecido, com o ministro assimilando a perplexidade frente à morte do jovem através de enunciação que assemelha-se a fábula cautelatória ( cautionary tale ). Para superar o luto, ele relega o episódio à categoria de “castigo divino,” que acaba explicando tudo e funciona como afirmação quase absoluta do poder do destino.

Outro momento, intitulado BOAS VINDAS, apresenta os monólogos de Philip Dubois, reitor da Universidade de Wyoming, Harry Woods, residente de Laramie, e Matt Galloway, colega de faculdade de Mathew. Todos descrevem as emoções experimentadas durante aquele desfile que marca, tradicionalmente, o início da temporada esportiva. A população toma as ruas, à espera da exibição dos atletas. Em 1998, todavia, o fim de semana que pretende-se comemorativo acontece dias após o falecimento de Mathew Shepard e a comunidade universitária, contrita, resolve organizar uma manifestação. Portando faixas e tarjas negras, eles fecham o desfile. O grupo, que de início é pequeno, cresce em tamanho à medida que caminha. Ao final do percurso, mais de quinhentas pessoas prestam homenagem à memória de Mathew. Nas palavras de uma das testemunhas,

Vocês podem imaginar? A manifestação era maior que o desfile inteiro. [E isso era... isso era simplesmente... Eu tenho cinqüenta e dois anos e sou gay. Vivo aqui há muitos anos e achava ter visto de tudo. E essa manifestação... ela me comoveu.] Me reduziu às lágrimas. E então eu pensei: “Graças a Deus pude ver isso.” E meu segundo pensamento foi, “Obrigado, Mathew.” 6

 

Os três relatos contidos neste trecho são percorridos por um fio comum de pesar e gratidão. Cada um dos três homens descobre-se capaz de extrair esperança da dor: há vida na angústia e revolta que sentem; há anseio por transformação, e confiança na possibilidade de recomeço. Deste modo, quando Dubois, Woods e Galloway envolvem-se naquele ritual de despedida, eles dão-se conta de sua condição de seres mortais, e sinalizam renúncia do resgate da rotina que precedeu o incidente. Seguem adiante, mudados, manifestando-se; narrando a barbárie e ajudando a decifrar os sentimentos belos que podem – e devem - fluir da perda.

Ao delinearem perspectivas diferentes sobre o significado do homicídio, Kaufman e os demais componentes da Tectonic Theather Project realizam então uma vivência estética do luto, enquanto convertem cacos e ruínas do passado recente em dramaturgia. O resultado desse empreendimento é uma gramática teatral provocadora, que encoraja a experimentação com linguagem e forma e desafia as convenções do drama tradicional. Uma gramática, ainda, que ambiciona instaurar mudanças, que insiste na criação de uma relação dialética entre a arte e a política e incita questionamentos. Nessa perspectiva, o caminho trilhado pela companhia nova-iorquina assemelha-se ao processo criativo de um outro dramaturgo, qual seja, o alemão Bertold Bretch.

Kaufman e colaboradores, ao seguirem o exemplo do celebrado autor, introduzem reformas no teatro, dissolvendo a estrutura rigorosa dos gêneros realista e naturalista, quebrando o encadeamento causal da ação linear, e deixando que a representação mostre que é representação. Tal fato reforça a afirmativa de que a preocupação de quem faz teatro é, idealmente, a de unir crítica à diversão, explorando ao máximo as potencialidades estéticas e ideológicas do palco, convidando o público a refletir, via arte, sobre os erros do passado e verem em que medida eles permanecem presentes entre nós, com que razões, por que motivos. Esse ressaltar da artificialidade da estrutura dramática conjugado à inclinação para a polêmica produz efeitos múltiplos sobre os espectadores (leitores) que, no desfecho do espetáculo (livro), devem saber-se aptos a vislumbrarem as injustiças do cotidiano, a indignarem-se frente às mesmas, a atuarem, de alguma maneira, sobre o ambiente social.

A peça de Kaufman, pois, é arte engajada, que se quer antídoto contra a complacência. Pode-se dizer: uma peça a serviço da comunidade, daquelas pessoas que nomeia. Como diz o próprio Kaufman,

o projeto ensinou-me [...] que a origem do teatro é uma comunidade interagindo, comunicando-se. Surpreendeu-me pensar que, na Grécia antiga, quando tudo tem início, o teatro pudesse versar sobre “nós” ou sobre a idéia do que fôssemos. Foi chocante pensar, “Meu Deus, então é sobre isso que devemos escrever, é essa a função da dramaturgia.” 7

 

O pronunciamento transcrito; o texto mesmo, cuja organização recusa cronologia; a disposição de momentos, em substituição às clássicas cenas, no espaço imaginário da escrita; a filosofia que informa o trabalho da companhia, tudo isto sugere um interesse, por parte da Tectonic Theater Project , em fomentar discussão. Em The Laramie Project , a representação da memória (individual e coletiva) não foge à conflito. Até a falta traz em si o germe da investigação, e as lacunas que porventura existam fazem lembrar de quem lá não está, dão presença à ausência, resgatando Mathew Shepard e o crime do qual foi vítima do ostracismo.

A versão final da obra, ponto de referência para as muitas montagens desde a estréia, é local privilegiado de interação entre o passado, a história, a memória e a nossa contemporaneidade; mais que isso, é local onde se forjam alianças insuspeitadas, onde se celebra a multiplicidade de enunciados artísticos, onde se lêem as cicatrizes e elabora-se a perda. Quando a assistimos (lemos), estabelecemos, por meio de seu intermédio, uma relação de continuidade com o que já foi, com aquele período durante o qual o assassinato e o julgamento ocorreram. O passado remete a instantes de violência e intolerância intensas; o presente, a complicações provenientes de trauma que não se conseguiu evitar e o futuro, a possibilidades e incertezas. Espacialidades e temporalidades coexistem, com as falas e os personagens a evocarem e invocarem a tensão entre lembrança e esquecimento, entre história oficial e pontos de vista discordantes, atravessados pela diferença.

A narrativa de Mathew Shepard e dos que o conheciam (em morte ou em vida) se insere então nesse domínio, onde a versão homogeneizante, unificadora hesita, omite e silencia. Com isso, a dramatização de eventos criada por Kaufman aponta necessariamente para outras verdades do mundo real, que ficaram nos vazios da frenética cobertura jornalística. Dentro de The Laramie Project , é a comunidade quem fala, em vozes que oferecem testemunhos, os mais diversos, sobre a luta incessante que é a convivência com o vazio. Essa dramaturgia, portanto, não é coisa única, estanque. Ela é linguagem e morte, transmutação da dor e jogo de luto, representação da vida que se foi (e das que seguem) e monumento.

 

SELIGMANN–SILVA, Márcio. A literatura do trauma. Disponível em: < http://acd.ufrj.br/pacc/z/z_fase_um/rever/4/ensaios/seligmann.html >. Acesso em: 28 ago. 2004.

KAUFMAN, Moisés e membros do Tectonic Theater Project. The Laramie Project . 1st. Vintage Books, 2001. p. 07. Daqui em diante, todas as citações referentes ao texto dramático serão indicadas pelo número da página.

p. 32-33.

p. 46-47.

p. 49-50.

p. 62.

SHEWEY, Don. The Laramie Projec: A Play Has a Second Life as a Stage for Discussion. Disponível em: < http://www.donshewey.com/theater_articles/laramie_project_for%20_NYT.html >. Acesso em: 28 ago. 2004.