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Rebimba: a morte na terceira pessoa
Iris Cristina N. O. Pires (UEL)
“ Si vis vitam, para mortem ”.
“Se queres suportar a vida, prepara-te para a morte”.
(Freud)
Freud (1856-1939), em “Considerações de atualidade sobre a guerra e a morte” 1, comenta que a psicanálise pode afirmar que o homem não acredita na própria morte, uma vez que ele se vê como um espectador: a imagem da morte é associada ao outro e a própria morte é, no máximo, imaginada. Mesmo sendo inevitável, a morte é negada, é um assunto evitado e adiado em prol de uma pretensa existência segura e tranqüila, afastada de temas que envolvam a finitude do ser.
No conto “Rebimba, o bom”, de João Guimarães Rosa (1908-1967), presente na obra Tutaméia – Terceiras Estórias (1967), o leitor acompanha o rememorar de um homem já velho que conta sua trajetória de vida marcada pelo vai-e-vem da sorte e pela morte de pessoas ligadas a ele de formas diversas. Na tentativa de negar sua própria finitude, ele tenta esquecer estas mortes, evita incorporar experiências que lhe causem dor e sofrimento. Na vida, porém, ou “no jogo da balança quinhoã” 2 (185), não se escolhe a natureza das experiências. Assim, ele não consegue escapar de um aprendizado por intermédio de reveses e da confrontação da morte dos outros.
O narrador-protagonista, não nominado, inicia sua história pela morte de seus pais, advinda de uma epidemia de varíola que assolou sua terra e matou muitas pessoas. Muito jovem ainda, ele conhece a dor das lágrimas. Sua tristeza, no entanto, não é somente por aqueles que se foram, mas também (ou principalmente) por ele que fica, pelo seu destino. Não somente a presença física dos que morreram faz falta ao sobrevivente, mas também as situações de satisfação criadas por eles, enquanto vivos: a segurança, o conforto, o carinho...
Restado só entre estranhos, o protagonista é mandado a outro arraial para que um tio “incerto”, Joaquim José, o amparasse. Este tio, porém, não é encontrado e o órfão, meio tísico, com tosse e febre sente-se molestado pela saúde e ordem do lugar. Sua mente ainda perto dos mortos admira-se ao constatar que a morte pela bexiga-preta não havia atingido aquele povo, que havia destinos diferentes: “Entendi por que é que as pessoas nascem em datas separadas” (184).
Desconhecido pelos moradores, sujo, sem dinheiro e tratado com desconfiança, o então jovem protagonista desiste: “Detido no chão, em metade de choupana que o tempo abria, resolvi, ia me ficar jazido ali, eu não era para como viver, não sabia” (184). Ele confessa que não sabe viver e descobre que não consegue deixar-se morrer à medida que a fome, as necessidades básicas do corpo o requerem – “profundo o corpo mesmo é incômodo, viver vem é assim”, ele sentencia (184). É necessário aprender a viver, perceber que a vida não se restringe ao ato de saciar as necessidades inerentes ao homem – a satisfação pela satisfação. Mas esta consciência só é desenvolvida quando há a aceitação da morte e o protagonista, ainda, tenta negar sua condição de ser mortal.
Perto do lugar onde o jovem se deixa ficar está Cilda, que observa toda a angustiante situação e, por seu intermédio, levam o orfão adoentado para a “casa-dos-pobres”, onde ele é tratado pelo caridoso Daça, pai da mocinha. O tratamento que Daça lhe aplica não provém somente de remédios, mas da fé em Rebimba, o bom. Daça fala ao jovem sobre este homem, um benfazejo que ampara e cura os desvalidos. O protagonista tem sede de fé, ele necessita acreditar e acredita. Rebimba, o desconhecido milagreiro que mora a “estiradas léguas”, passa a ser, assim, seu provedor de segurança contra todos os males e tristezas; e essa crença o reconcilia com a alegria, com a vida.
Graças ao Daça, ele se vê totalmente curado e tratado com cordialidade. Estavam prestes a arranjar-lhe serviços leves quando seu tio, por obra do acaso, aparece. Ele é um negociante, morador do arraial vizinho e seu nome é Aquino Jaques e não Joaquim José. O encontro com o tio afiança, ao protagonista, o novo desejo pela vida: “Feliz perturbado virei, pude amornar lugar, viver a sabor. Tio Quim leal para mim, e a tia, quieta, maninha. E rareei. Esqueci, de tudo, muito; conforme o encargo da natureza” (185). Amparado pelo conforto proporcionado pelo tio, o protagonista entrega-se a uma vida de esquecimentos e prazeres. Ele esquece a bexiga-preta, as mortes, os pais – não nominados, não mais mencionados, mortos pela varíola e extintos pelo esquecimento . Negando a morte, ele pensa poder evitá-la. Ele também esquece de Cilda, de Daça e de Rebimba: elementos que fizeram parte de um passado de dissabores que precisa ser enterrado para que ele possa gozar a boa vida presente. Daça e Rebimba foram considerados bons enquanto o jovem se sentia um desventurado. Na fartura, eles não são necessários e Rebimba passa a ser visto como uma invenção, uma baboseira. Essa busca da exterioridade do viver caracteriza uma tentativa de acreditar-se acima da inevitabilidade da morte, uma tentativa de torná-la ludibriável.
Neste estado de arrogante segurança, o protagonista perde o tio. Diferentemente de sua reação perante a morte dos pais, quando chega a hora do tio, ele diz que seu acolhedor “de fato morreu, conforme o destino produz, em paz” (185). Quando os pais morrem, o protagonista é um órfão miserável e adoentado, que inseguro quanto ao seu destino, vê nessas mortes a perda de sua segurança, de seu amparo. Na ocasião da morte do tio, ele já não é um “precisado”; ao contrário, ele vive uma época de bonança e desfrute, uma vez que o tio deixa-lhe sócio, “encaminhado, medrado de fortuna” (185). A segurança financeira adquirida, porém, é fugaz, “como sonho não se agarra, como perfumes passantes”, uma vez que a herança se constitui de “dívidas e perdas”, “pagamentos obrigados em prazo” (186). A sorte muda novamente e o narrador desabafa: “a gente ia quebrar falência, tive de ver o avesso” (186).
A verdade dos fatos adoece o infeliz. Os esquecimentos não mais oferecem paz; ele precisa lembrar, ele necessita reavivar a fé em Rebimba, o bom. O pensamento no benfazejo o reanima e este resgate torna-se sua tramontana, seu norte em direção a Cilda, a mocinha que outrora havia lhe despertado um “agrado singular” (184). Os dois se casam abençoados por Daça, que por estar velho, caduco e próximo da morte, não mais conta casos sobre Rebimba, nem mesmo lembra o lugar onde esse mora.
O tempo passa e o protagonista volta a sentir-se afortunado: de “feliz perturbado” (185) ele passa a “aquietado feliz” (186). Sua felicidade, contudo, não provém somente da prosperidade conquistada, mas de Cilda: “minha mulher, arredava de mim o que de nosso canto não fizesse parte, os pontos da inquietação. Com doçuras” (186). Ele aquieta seus medos e encontra em Cilda um escudo contra tudo que possa conturbar seu bem estar espiritual. “Estando fartado, prosperidoso” (186) e confortado por esse amor, o protagonista adia seus planos de tentar achar e conhecer até Rebimba. O benfazejo só é lembrado quando há alguma preocupação ou dúvida, mas “só às curtas vezes, sem detenças” (186). Rebimba torna-se um “recurso, adiante mas remoto, certo e velho como as idéias” (186) e, neste momento, é qualificado como “o escondido” (186). É à Cilda que o protagonista confia sua vida.
Cilda, inesperadamente, morre e o narrador comenta: “em tanto, pois, que, vinda a hora, por primeira vez ela me iludiu, fiquei viúvo. Esse, foi o sofrimento. (...) Eu acabei, de certo modo” (186). O sentimento inicial é de acusação: ele sente-se traído, abandonado; ter morrido é a única falha da esposa. Em seguida, há o imenso sentimento de perda: o narrador conta que “esse” foi o sofrimento, essa foi a morte que fez com que ele mesmo sentisse o fim de alguma maneira. A sensação de perder parte de si mesmo lembra Freud quando esse afirma que ao morrer uma pessoa amada, aquele que fica também enterra suas esperanças, aspirações, satisfações e um fragmento de seu próprio Ego.
Nada nem ninguém trazem consolo ao viúvo: nem mesmo seus filhos ou Rebimba, que, agora, é “o perdido” (186). Esse estado pode ser explicado pelo desabafo de Santo Agostinho diante da morte de um amigo de infância, em Confissões 3:
Os meus olhos indagavam-no por toda parte, e não me era restituído. Tudo me aborrecia, porque nada o continha... Interrogava à minha alma por que andava triste e se perturbava tanto, e nada me sabia responder. Se lhe dizia: ‘Espera em Deus', não obedecia. E com razão, pois o homem tão querido que perdera era mais verdadeiro e melhor que o fantasma em que lhe mandava ter esperança (59).
No conto rosiano, o narrador relembra sua raiva, seu amargor – sentimentos que podem dominar o homem perante a morte de um ente amado. Incapaz de enfrentar a realidade, ele isola-se dos vivos e, por vezes, cultiva um secreto sentimento de culpa, a exemplo da recordação da esposa, do Daça e dos tios que não aplacam a dor do viúvo, ao contrário, fecunda-lhe o remorso: “para eles, todos, eu não tinha sido eu, devidamente, não pagara o bem com o bem, bastante” (187). Aquele que permanece vivo vê-se obrigado a enfrentar que não há como recuperar oportunidades perdidas.
A morte de Cilda não lhe desperta somente saudades ou o costumeiro desalento que sentiu após as outras mortes. O que lhe persegue é “o desconhecer do espírito”. A morte representa o desconhecido para esse personagem. Ele negou a existência da morte, ele a baniu de sua lembranças e, agora, ela ressurge em sua vida como um poder implacável com o qual ele não sabe lidar. Ele desabafa: “O mundo era para os outros, e nem sei se mesmo isto, de feder eu imaginava os existentes e os falecidos” (187). As lembranças reprimidas assombram-no: “Da bexiga-preta, tantos tão de repente amontoadamente mortos, as caras com apostemas e buracos. Disso, temi ficar louco. Dito que temia já o fétido de meu bafo” (187). A referência ao fétido de seu bafo denuncia o temor pela própria morte. Há um início de reconhecimento de sua finitude tal qual o homem primitivo que, segundo a teoria freudiana, viu morrer alguém amado e, em sua dor, teve a experiência de que ele mesmo podia morrer e todo o seu ser se revoltou contra isso.
O pavor diante da consciência de sua condição de ser mortal é imenso e o protagonista foge, viaja para longe. Na volta, ele passa por um arraial chamado Rio-do-Peixe, onde uma procissão de pessoas está caminhando e ouvindo forte música. Curioso ele pergunta e fica sabendo que estão enterrando Rebimba, nesse momento, “o bom, pessoa qualificada” (187). Finalmente, o protagonista conhece o benfazejo: ele descobre a cabeça de Rebimba, que está “público, guardado no caixão” e soluça, mas enquanto ele reage tristemente pela morte daquele que, em crença, foi sua esperança em momentos de aflição e de derrota, o povo chora e ri, entusiasticamente. E ele entende: a alegria daquela gente era por aquele homem ter existido e pela oportunidade de terem convivido com ele. A morte não apagara o que Rebimba havia sido ou o seu significado para aquele povo. Rebimba continuava vivo na lembrança das pessoas – uma forma de imortalidade.
O funeral de Rebimba é o único rememorado pelo narrador-protagonista, talvez representando o momento no qual ele começa a refletir sobre sua finitude. Os escudos contra a realidade da vida já não existem: o tio, Cilda e Rebimba estão mortos, e sua busca por esquecimento havia arrefecido diante da dor pela morte da esposa. Resta-lhe compreender e aceitar a inexorabilidade da morte, que atingira até mesmo Rebimba. Kübler-Ross 4 comenta que o funeral é uma ocasião de amadurecimento que apresenta vários propósitos e um dos mais importantes é facilitar o consolo. Segundo a psiquiatra, a reação imediata dos sobreviventes é o choque seguido da negação; no funeral há um contato frontal com a realidade da morte, um importante passo para a aceitação não só intelectual, mas emocional e, conseqüentemente, para o consolo.
O protagonista, após o funeral do benfazejo, entende que a dor faz parte da vida tanto quanto a alegria: “Sorri, ri, por o contrário de chorar, também. O que dura” (187). A morte passa a ser encarada como uma etapa (final?) da existência: “ora eu não tenha medo de morrer, os castigos, os hábitos” (187). Já velho, o narrador está maduro, sente que cumpriu o seu ciclo vital: nasceu, cresceu, assistiu o nascimento de seus filhos, presenciou mortes, reconciliou-se com suas lembranças e com sua fé. Ele comenta: “Porque envelheci, a vida não me puxa mais a orelha. Com certeza, o mundo hoje está em paz” (187).
Há, nas derradeiras palavras do narrador, o reconhecimento de sua finitude e uma oposição ao seu discurso inicial. Percebe-se um processo gradativo de conscientização: a morte, a princípio, é transformada em um acontecimento impessoal, algo a ser esquecido; perante o falecimento de Cilda, há o detonar da dor e do medo de sua própria morte; e no funeral de Rebimba, o protagonista vê que até mesmo “o bom” não prevalece à morte. Nesse processo, a morte deixa de ser apenas dos “outros”, na terceira pessoa, e passa a ser em primeira.
Rebimba é, no final, “o valedor”, a lembrança da qual o narrador se vale diante de suas possíveis incertezas. Consciente de sua finitude, o narrador louva o que há na vida: “ Louvado seja o que há ” (187) e renova memórias para perpetuar o seu viver.
FREUD, Sigmund. Obras Completas de Sigmund Freud . Rio de Janeiro: Delta, [19--]. v. 7, p. 221-234.
As citações e os números de páginas referem-se à 8ª edição de Tutaméia – Terceiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 183-187.
AGOSTINHO, Santo. Confissões . 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Morte : estágio final da evolução. Rio de Janeiro: Record, 1975.