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Morte na poesia romântica: heroicização e convergências
Alessandra Navarro Fernandes (UEL)
Na poesia romântica brasileira a morte figura como tema recorrente e como dado estético, refletindo uma sensibilidade da época, voltada para os aspectos relacionados a ela. Este fator deve-se a uma mudança no modo como o homem do século XIX relacionava-se com a idéia da morte. Verificando-se estudos como os de Philippe Ariès sobre a história da morte no Ocidente, somos informados de que a morte nos séculos anteriores possuiu representações que iam desde a familiaridade com a finitude do homem (por exemplo na Idade Média), passando pela difícil aceitação da morte (no século XIX) e culminando na recusa da idéia de morrer, a partir de então. Ciente das particularidades históricas e culturais de cada país onde se desenvolveu o Romantismo, pode-se testemunhar a constatação de Ariès como uma da possibilidades de estudo da representação da morte para o homem ocidental. A literatura, entendida como registro valioso da história das idéias, é um importante meio de se conhecer a representação da idéia da morte. Na literatura romântica brasileira, especialmente na lírica, a morte é tema e estética, representando os ideais do homem romântico. Destes ideais, participa a morte como heroicização.
Heroicizar uma morte é torná-la heróica; segundo Caudas Aulete 1 o termo herói define “o homem notável pelas suas qualidades extraordinárias, pelo seu valor e coragem acima do vulgar, pelas altas qualidades guerreiras, atos de bravura, magnanimidade, denôdo (...) O que se distingue pelas suas virtudes, nobreza de alma e caráter irrepreensível (...)”. Um homem, por ocasião de sua morte, pode ser heroicizado por estas diferentes instâncias citadas, que vão desde as realizações em combate – físico ou intelectual – até as características morais como a virtude e a nobreza, esta última referindo-se à atitude e à origem social do homem.
A heroicização da morte está presente em vários poemas românticos da literatura brasileira. Neste trabalho, o citado aspecto será analisado a partir dos seguintes poemas: `A Sentidíssima Morte do Senhor Major Carlos Miguel de Lima , de Araújo Porto Alegre publicado por volta de 1846; e I-Juca Pirama publicado nos Últimos Cantos (1851), de Gonçalves Dias. Escritores da chamada primeira fase do Romantismo brasileiro, Araújo Porto Alegre e Gonçalves Dias refletiam em suas obras uma preocupação com a construção dos valores nacionais e patrióticos.
Nos citados poemas, a morte do herói é narrada por um eu poético que revela ter uma relação de proximidade com o morto ou com a família deste. Em I-Juca Pirama , há uma junção de vozes narrativas, entre as quais: a narração do caso, feita por um velho índio que fora testemunha; a fala do índio que torna-se herói depois de morto; e a fala do pai deste índio, que representa os valores da tribo. Portanto, os dois poemas tratam da heroicização da morte do outro; apenas um trata da heroicização da morte própria, em que o eu poético fala de sua própria morte. O índio narrando seu confronto com a morte e, concomitantemente à presença de sua fala, a voz do pai do índio que interfere no confronto da morte, enfrentado pelo filho, representando a fala sobre a morte do outro .
A morte do outro , na poesia romântica, é sentida de forma profundamente dramática: tanto que, em alguns poemas, verifica-se o desejo dos vivos de se unirem a seus mortos, deixando a vida; o profundo lamento que manifestam, a não aceitação imediata, a purgação de seus entes mortos, enfim, expressões de um luto que requer demonstração de sentimentos. Ariès afirma:
A partir do século XVIII, o homem das sociedades ocidentais tende a dar à morte um sentido novo. Exalta-a, dramatiza-a, deseja-a impressionante e arrebatadora. Mas ao mesmo tempo, já se ocupa menos de sua própria morte, e assim a morte romântica, retórica, é antes de tudo a morte do outro – o outro cuja saudade e lembrança inspiram, nos séculos XIX e XX, o novo culto dos túmulos e dos cemitérios. 2
A morte de alguém que se relaciona com o eu poético é sempre lamentada e, consequentemente, indesejada. Em contrapartida, a representação da morte de si mesmo – do eu poético – figura nos poemas tanto como indesejável e lamentada, como desejável e planejada. José Júlio Chiavenato afirma que:
O homem não tem experiência pessoal da morte – a morte que ele conhece e ‘experimenta' é a morte do outro: a sua consciência é a da morte alheia. (...) O que temos é a experiência da morte e não a experiência pessoal da nossa morte. (...) O sentimento mais marcante que temos em referência à morte é a sensação de perda – tanto daquele que morreu quanto daquilo que, durante a nossa vivência do morrer, sabemos que vamos perder. 3
Portanto, pode-se afirmar, de uma maneira geral, que não se deseja a morte do outro , pelo qual se tenha afeto, mas é possível desejar a própria morte. Por extensão, heroiciza-se a morte do outro , mas, não se anseia esse prestígio para ele; porém, pode-se desejar para si, uma imortalidade da identidade pessoal, com o advento da morte, a qual passa a ser vislumbrada como passaporte para tal objetivo. Não se heroiciza a si mesmo porque o reconhecimento provém do outro .
À exceção destas conclusões, impõe-se a morte do índio, representada no poema I - Juca Pirama . Nele, a representação da morte é abordada, essencialmente, por duas perspectivas: a do próprio índio diante da idéia de morrer, e a do pai deste índio, diante da hesitação do filho perante o cumprimento de seu destino. A bravura de um índio em face da morte na tribo inimigo é tida como uma morte respeitável no ambiente retratado no poema. A hesitação diante deste confronto traduz um receio da morte, o que denota a não respeitabilidade do grupo. A decisão de confrontar-se com a morte, adiada em princípio, é executada quando a auto-afirmação ou a afirmação diante do grupo prevalece para o índio: ele escolhe obter o mérito da heroicização, pela dignidade que a morte traz. De outra parte, o pai, representando os valores de toda uma tribo, também deseja para seu filho a honra indígena, ainda que sob o preço da morte. Trata-se então de uma morte desejável do outro .
Ao analisar-se a morte do índio na poesia denominada indianista, vertente estética da poesia romântica brasileira, deve-se levar em conta a visão do homem branco sobre o outro – o índio – que é a ótica do autor. Antonio Soares Amora, afirma:
Para o consenso do grande público e de muitos poetas românticos, a temática nacional se resumia principalmente na paisagem e no índio. (...) Gonçalves Dias e Fagundes Varela conseguiram autêntica poesia, com a transfiguração lírica da paisagem brasileira e com a idealização sentimental e estética do índio e da sua mitografia (Marabá, Leito de Folhas Verdes, I-Juca-Pirama). 4
Sob este prisma, a morte indígena na poesia de Gonçalves Dias reflete a idealização do índio feita pelo homem branco, que heroiciza sua morte segundo um sistema de valores da sociedade tribal reconstruído no poema. Ou seja, o sistema de valores da sociedade indígena, recriado na poesia romântica, idealizado ou realista, não deixa de ser a visão do outro , de alguém fora do convívio real com o aborígene.
A busca pelo tema da heroicização da morte romântica na historiografia literária brasileira revela que este aspecto, quando mencionado, é sempre associado ao indianismo. Isto porque o indianismo, além de figurar como preferência temática pela estética idealizada daquele mito, constituía-se em instrumento de valoração nacional da pátria. Antonio Candido afirma que:
A altivez, o culto da vindita, a destreza bélica, a generosidade, encontravam alguma ressonância nos costumes aborígenes, como os descreveram cronistas nem sempre capazes de observar fora dos padrões europeus e, sobretudo, os quiseram deliberadamente ver escritores animados do desejo patriótico de chancelar a independência política do país com o brilho de uma grandeza heróica especificamente brasileira. 5
Analisando-se a morte como heroicização nos poemas românticos, pode-se constatar três alcances básicos deste significado: o político, o pessoal e o social. No primeiro alcance, o político, a morte heroicizada relaciona-se ao aspecto de construção dos valores patrióticos da nação; no segundo, o pessoal, refere-se à constatação de que a heroicização da morte não se dá somente diante da nação, mas também diante da relação particular do eu poético com o morto; e no terceiro, o social, reflete a razão pela qual, para o homem do século XIX, era desejável ver a morte heroicizada: havia uma preocupação com o morrer bem. A seguir, serão racionalizadas as concepções contidas em cada área.
No século XIX, fermentavam os anseios de construção de uma identidade brasileira, a identidade da nação. No campo literário, igualmente, buscava-se a representação nacional; na lírica, evidenciavam-se os sentimentos patrióticos, através do louvor a imagens típicas do país: o índio e a natureza, entre outros. No entanto, não bastaria à nação olhar apenas para o futuro – a concretude de um plano, no caso, da imagem nacional – nem tampouco, seria suficiente o olhar para o presente – este terreno de reconhecimento, de realização. Era necessário reconhecer o passado para realizar o presente; organizar o histórico brasileiro para fundamentar a identidade. Esta organização do passado pressupunha um resgate memorial de pessoas e acontecimentos relevantes na história do país. Daí avultavam antigos heróis, verdadeiros pilares para a construção de uma nação que também se pretendia heróica. A lírica instrumentalizava-se das figuras heróicas do passado, para revelar uma concepção politicamente edificante da morte: a heroicização.
Tal assertiva pode ser verificada no poema `A Sentidíssima Morte do Senhor Major Carlos Miguel de Lima , de Araújo Porto Alegre. À heroicidade da morte do major, é enumerada uma lista de nomes valorosos como o dele:
A Providência quis que do teu astro
A órbita incompleta se apagasse
Nesse berço de bravos e de heróis!
Que teus dias tão curtos, tão saudosos,
Se submergissem nesse solo ovante,
Nessa terra invencível, de altos fastos,
E pra mais avultar-se a jovem glória
Tuas cinzas mesclou na mesma terra
Onde dormem Abreus, Marques e Câmaras,
Onde os Cantos, Manecos e Bandeiras,
Os Barretos, Medeiros e Fontouras
Com o insuperável gladio do mundo deram
Mais de uma vez rude prova da ousadia
Do braço brasileiro nos combates. 6
Destaca-se, aqui, a terra brasileira como genitora de heróis, ou seja, a idéia do valor patriótico que se desejava demonstrar, e não somente o valor daquele herói morto, especificamente.
A heroicização nos poemas românticos, por conter a relação do eu poético com a pessoa falecida de quem trata, e não puramente a relação do herói morto com a pátria, constitui-se não somente em apontamento de valores nacionais, mas também em exaltação do morto na particularidade de sua pessoa, no relacionamento com o eu poético que o canta. Neste sentido, a heroicização dialoga com outro significado da morte romântica: a purgação. A dedicação de um poema à morte de determinada personalidade célebre já faz parte da ritualística que intenta proporcionar ao morto honra até pela ocasião da morte, bem como purgar as dores dos viventes referentes àquela perda. No louvor à celebridade do morto, desaparecem-lhe quaisquer vestígios ruins – tanto de personalidade como de ações – restando apenas os bons aspectos de sua vida. A heroicização, no entanto, promove este recorte de boas ações tendo em vista a construção de uma imagem heróica para o morto e para a nação, e objetivando também a purgação deste morto, embora num plano discursivo menor.
A dor da morte relaciona-se ao luto, que é tradicionalmente o período de reorganização da vida dos viventes após a perda. Edgar Morin afirma que: “O luto exprime socialmente a inadaptação individual à morte, mas, ao mesmo tempo, é o processo social de adaptação que tende a fazer cicatrizar a ferida dos indivíduos que sobrevivem”. 7 Assim é que os ritos de acompanhamento do morto, bem como a atitude particular dos viventes – a demonstração pública ou não de seus sentimentos – constituem-se em instrumentos de purgação do morto. Uma exposição desse diálogo possível entre a morte heroicizada e a morte como purgação, encontra-se no poema `A Sentidíssima Morte do Senhor Major Carlos Miguel de Lima , de Araújo Porto Alegre. Nele a relação do eu poético para com o morto mostra-se repleta de sentimentos, a exemplo:
Lamento –
Nunca mais te verei honrado Carlos;
(...)
Mas agra sorte derramou seu tóxico
Neste alegre delírio; e n'áurea página
Da falaz epopéia do meu peito
As lágrimas da dor correndo súbito,
Tudo desvaneceram para sempre!;
Saudade –
A par de um gênio , do fiel amigo,
Que junta a sua voz ao côro lúgubre
Que te chora, meu Carlos, que saudoso
Sempre e sempre será, enquanto errarmos
Neste ergástulo escuro, neste exílio!
(...)
Mas quem minha saudade dolorosa
poderá consolar; quem este vácuo
No trono do meu peito, onde eras círio,
Poderá preencher? ;
Afeto –
Tu não eras meu sangue, sim minha alma
(...)
Eu sempre te amarei, querido Carlos,
Assaz no peito meu gravado estavas
Para eterna memória consagrar-te.
Neste poema, a morte como heroicização patriótica sobrepõe-se à relação de afeto particular entre o eu poético e o morto, mas não a anula. Daí a presença marcante do testemunho da morte do outro, que é próximo ao eu poético: morreu para a pátria, mas morreu para o eu poético também. Pode-se concluir, então, que o morto herói, neste poema, não pode existir somente no contexto global (a pátria), mas é louvado a partir da relação pessoal do eu poético com ele, que é quem decide dedicar-lhe um poema. O morto herói não o é somente para a sociedade, ele pode ser heroicizado pela condição de purgação. Na seguinte estrofe o eu poético explicita claramente a cisão que ele sente entre o morto amigo e o morto herói:
Tu perdeste um irmão, a pátria um bravo,
E eu perdi um amigo, um bom amigo;
Choremos ambos com saudade eterna.
Ou seja, o herói morreu para a pátria, mas morreu também para o convívio particular de seus amigos e parentes.
A obsessão na temática da morte na poesia romântica, a qual utiliza uma variedade de cenas para descrever as idéias acerca do tema, aponta para a seguinte dedução de João José Reis 8: para o homem do século XIX, a grande preocupação relacionada à morte era a de morrer bem. À boa morte, como o próprio Reis observa, concernem vários fatores: a necessidade de ritual, de luto, do leito próprio como local ideal do passamento, entre outros. Estes fatores dividem-se entre a preocupação com o mundo dos vivos e a preocupação com o mundo dos mortos. Para o romântico, a morte era tida como passagem para uma outra vida, aspecto este revelado pela lírica, onde há freqüente menção aos domínios imaginários – céu, inferno, paraíso. Paralelamente a esta crença, havia também a preocupação com o fim desta vida, dos apegos terrestres. Portanto, a idéia de morrer bem cingia-se entre a encomenda da alma ao domínio celestial e a realização de obras em vida. Esta última, ajusta-se bem à ação de heroicizar a morte. A heroicização da morte, nos poemas escolhidos, é pautada na condição original de herói do morto.
No poema À Sentidíssima Morte do Senhor Major Carlos Miguel de Lima a condição de herói do morto é atribuída principalmente a seu título de Major. Em I-Juca Pirama , a heroicização não se dá somente pela bravura diante da morte. Para o índio guerreiro, o louvor parte das tribos envolvidas, e a valoração se dá pela opção do guerreiro em dar continuidade aos valores de honra indígena, em detrimento de seu receio de morrer. A variação na origem da condição do herói pode pressupor que a consciência de se deixar obras na terra, através do variado prestígio, garantiria situar os referidos heróis para sempre na memória da terra, livrando-os assim do risco do esquecimento. Uma espécie de proteção da individualidade.
A heroicização da morte na poesia romântica brasileira, conforme analisado ao longo deste trabalho, possui uma significação ampla, alcançando as dimensões política, individual – respeitante ao caráter intrínseco da poesia – e social. A viabilização do registro das idéias acerca da morte, vigorantes na sociedade brasileira do século XIX, se dá nestes aspectos, revelando a complexidade existente no tratamento dispensado à morte na poesia romântica. A representação da heroicização da morte, conclusivamente, não se desvincula dos aspectos afetivos, nem das crenças sociais relativas à morte.
Caldas Aulete. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa . Vol.III. Rio de Janeiro: Delta, 1958. p.2569.
Phillipe Áries. História da Morte no Ocidente . São Paulo: Ediouro, 2003. p.64.
Júlio José Chiavenato. A Morte: uma abordagem sociocultural . São Paulo: Moderna, 1998. p.105.
Antonio Soares Amora. História da Literatura Brasileira . 4 ed. São Paulo: Saraiva, 1963. p.56.
Antonio Candido . Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos . Vol II. 8. ed. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Itatiaia, 1997. p.20.
Frederico José da Silva Ramos. Grandes poetas Românticos do Brasil . Tomo I. São Paulo: LEP, 1959. p 13-15.
Edgar Morin . O Homem e a Morte . Portugal: Publicações Europa-América, 1970. p. 75.
João José Reis . O Cotidiano da Morte no Brasil Oitocentista . In: Alencastro, Luiz Fellipe. Org. História da Vida Privada no Brasil 2. 4 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 96.