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A literatura pós-moderna nos livros didáticos
Sonia Jaconi (UPM)
Toda mudança é ameaça à estabilidade . (Aldous Huxley)
Todo mestre deseja despertar em seu aprendiz o valor do conhecimento e a sua importância para uma vida mais completa.
Tal qual um semeador que cuida da terra antes de lançar as sementes para depois acompanhar o desenvolvimento de sua plantação, assim é o professor quando ministra a sua aula.
Palavras, textos, características, histórias,... enfim, são esses os elementos que, como sementes, são lançados no terreno humano, o seu aprendiz.
Assim como a terra pode rejeitar uma semente, mesmo com o esforço do agricultor, e não produzir bons frutos, o aluno também pode não se interessar por aqueles elementos que lhe são oferecidos. Aquele, preocupado com os resultados da colheita, vai tratar novamente o solo ou procurar uma semente que melhor adapte as condições climáticas da região, esse, na grande maioria, mesmo percebendo um resultado frustrante, pois o aprendiz não está captando as informações recebidas e transformando em algo útil para a completude de sua vida, não consegue nem voltar para tratar novamente o seu terreno, pois o tempo é curto e o programa precisa ser cumprido, e muito menos mudar a forma de plantio dos elementos distribuídos para os seus discípulos.
É nessa relação metafórica, que discuto o ensino da literatura brasileira e portuguesa em nossas escolas de ensino médio.
Não é raro ouvir do estudante expressões como; “Não gosto de literatura, pois estudo história duas vezes”; ou ainda, “A literatura só estuda a vida e a obra de pessoas que já morreram”. É com essas e outras citações, nota-se que o ensino da literatura, muitas vezes, não cumpre bem o seu papel, isto é, o lado lúdico, a exploração da língua no seu sentido conotativo, a utilização dos recursos lingüísticos na produção do texto para criar este ou aquele efeito de sentido, a musicalidade nas poesias, a imagem pintada com as palavras, etc, ficam sem ganhar importância e, o que é ainda mais grave, o aluno fica com a impressão de que a literatura já aconteceu, ou seja, é como se hoje não houvesse grandes escritores como no passado. Desta forma, afastamos do aprendiz o interesse e o prazer pela leitura dos grandes clássicos, pois se de um lado a parte artística do texto é pouco explorada, do outro os textos contemporâneos são ignorados, já que o ensino da literatura limita-se em estudar apenas os cânones da literatura.
Com base na observação desta realidade, este trabalho tem como objetivo discutir as condições desta disciplina no ensino médio, traçando sempre um diálogo com os PCN´s.
Para iniciar a discussão, primeiramente precisamos levar em conta o panorama atual da educação e dos jovens em nosso país.
De um lado temos a luta por um ensino cada vez mais adequado a realidade do mundo no qual vivemos. Um mundo que valoriza o moderno, o conhecimento fragmentado, (reflexo de uma sociedade fragmentada), o dinamismo, o descartável, enfim, o consumo.
Podemos falar que esse consumo fica bipartido em bens materiais e culturais. O primeiro é fortemente disputado, pois o poder é exibido em forma de “coisas”. Já o segundo, não garante o exibicionismo tão cultuado nesse mundo regido pelo consumismo.
E nessa realidade, temos os jovens mergulhados nessa filosofia do mundo moderno. Ele busca um conhecimento que lhe traga rapidamente esses bens materiais.
É o imediatismo que rege o seu aprendizado.
Diante desse panorama, encontra-se o professor de literatura. Uma disciplina que deve trabalhar explorando a sensibilidade, a paciência, os sentimentos, enfim, prefere mais substantivos abstratos a substantivos concretos.
É nesse momento que o conflito aparece. Professores querendo despertar nos alunos o interesse pela leitura dos grandes clássicos, geralmente recheados de expressões arcaicas, narrativas lentas, descrições minuciosas, ricos nas digressões, e com um vocabulário rebuscado, e jovens recusando realizar tais leituras.
E aí, retomo o inicio desse texto, a grande maioria dos alunos acredita que a literatura já aconteceu. Reforça-se então a idéia de uma disciplina que volta-se somente para o passado, ou seja, é como se estivem estudando mais uma vez a história, agora não sobre as conquistas de novas terras, de heróis ou descobertas de novos povos, mas uma história de pessoas que, antes de morrer, escreveram poesias, romances e contos. Conclui-se então, que a literatura parou no tempo. E sabemos que isso não é verdade.
Não cabe aqui discutirmos a maneira mais adequada para apresentar a literatura para o aluno, mas sim questionar a não exploração de uma fatia tão importante na literatura, que é justamente a parte dos escritores contemporâneos que ficam “do lado de fora” da sala de aula. Quando acontece alguma menção sobre esses escritores, ela acontece de uma maneira muito sutil e acredito que são dois os principais fatores que retiram do alcance dos estudantes esses escritores contemporâneos.
Primeiro é a questão do ensino cronológico das escolas literárias. Uma vez que o professor tem um tempo limitado para concluir o seu conteúdo, ele acaba obedecendo rigorosamente à linha do tempo da literatura. Começando sempre do século XII até o início do século XX. Com isso, o aluno chega a concluir o ensino médio sem ter a oportunidade de conhecer outros autores, além daqueles autores já consagrados.
A outra questão é o preparo do professor. Nesse ponto, vale lembrar que a atualização do profissional é essencial para que o ensino caminhe sempre com o seu tempo.
Para se ensinar a literatura contemporânea e a literatura pós-moderna, precisaria, antes de mais nada, de um professor atualizado e, conseqüentemente, mais íntimo com esses escritores modernos como são com aqueles autores dos séculos anteriores.
Sabemos que essa atualização nem sempre depende só do esforço do professor, mas de uma mudança unificada do ensino.
Se voltarmos os olhos para o PNLEM/2005 – (Programa Nacional do Livro do Ensino Médio) – do Ministério da Educação que tem o objetivo de oferecer a síntese das obras de Língua Portuguesa e de Matemática avaliadas e aprovadas para auxiliar o professor na escolha do melhor material de apoio à prática pedagógica, veremos que no que se refere a questão da literatura, a maioria apresenta o ensino da literatura com poucas inovações.
Comprova-se então, mais uma vez que os alunos raramente terão a oportunidade de estudar uma literatura mais atual.
Poetas como Manoel de Barros, Adélia Prado, Haroldo de Campos, Affonso Ávila, Duda Machado, Horácio Costa, etc... e grandes escritores de romances e contos como; Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Décio Pignatari, Hilda Hilst, João Ubaldo Ribeiro, Sérgio Sant' Anna, Ignácio Loyola Brandão, Fernando Bonassi, Raduan Nassar, Zulmira Ribeiro Tavares, etc... e muito mais, são pessoas totalmente desconhecidas para os nossos alunos.
Talvez se as obras e seus autores contemporâneos tivessem o mesmo peso que as grandes obras literárias e autores do passado têm, os jovens aproximariam mais da literatura.
È importante frisar que não estou discutindo o valor de um época em relação a outra, o que questiono é o desprezo por grandes escritores da atualidade.
Não podemos negar que a aproximação do estudante com o objeto estudado torna-se muito mais atraente quando ambos pertencem ao mesmo tempo e espaço.
Mais uma vez, retomo ao que mencionei no inicio deste trabalho que a literatura acontece todos os dias, e não é algo que já foi.
Existem grandes escritores produzindo atualmente e que podemos apreciar as suas obras sentindo a presença real do seu criador.
Enfim, ainda estamos longe de aproximar os nossos adolescentes da literatura, mas cabe a nós, educadores, encontrarmos meios para despertar o interesse e o prazer pela leitura tanto das principais obras que marcaram os movimentos literários, os cânones da literatura brasileira e portuguesa, como também das obras-primas contemporâneas.
Quando os alunos olharem para a literatura como uma disciplina que trabalha a língua artisticamente e que tanto os autores do passado como os atuais trabalham com as palavras para levar ao público o melhor dessa arte, o semeador da leitura terá uma colheita garantida.