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Jogo de espelhos ou travessias em tempos e espaços
Neiva Petry Panozzo (UCS/UFRGS)

Os textos contemporâneos estão impregnados de indícios que, simultaneamente, misturam passado e presente, faces novas e antigas, eu e o outro. São produções que, enquanto se expõem, também velam e desvelam outros textos e nem sempre o leitor está atento a essas relações. Uma formulação textual que mistura linguagens , cria igualmente uma articulação entre um olhar retrospectivo sobre um universo conhecido e projeta aquele desconhecido, para fazer surgir o novo, estabelecem-se conexões e possíveis diálogos com outros textos. O leitor tem o poder de transformar o texto em uma superfície especular e nesta diferentes imagens se movem, atravessam o tempo e o espaço, ora num jogo que oculta, faz mistério, traz o incógnito, ou por vezes é revelador , ao direcionar-se claramente a outros textos .

O universo de produção do texto literário para a infância, principalmente a partir da década de 90 recebeu uma migração de artistas plásticos e os livros vêm mostrando imagens que citam o universo da Arte. A produção contemporânea de ilustrações realiza incursões explícitas e implícitas a um mundo imagético que originalmente não pertence àquele infantil. Eduardo Peñuela Cañizal (1993) analisa a intertextualidade nas artes plásticas, afirmando que essa é uma maneira de estabelecer relações com a imagem, como num jogo de espelhos, onde mecanismos de criação e informação interagem, um texto cita outro em processos associatórios que causam prazer ao leitor. Mas sabe-se que isso também implica para o leitor um conhecimento prévio da fonte geradora desses textos. No processo de leitura o sujeito-leitor interage nesse jogo e conecta, além do olhar, suas experiências sensíveis e inteligíveis, agregando os textos preexistentes para estabelecer as relações de sentido. A partir disso é preciso articular os pontos de entrelaçamento dessa rede de relações para se poder compreender mais e melhor.

O mergulho necessário ao ler um texto é fazer ver, nas articulações entre os seus componentes, nas combinações entre palavras, linhas, cores e formas distribuídas no espaço, como se constitui a significação. Também a organização das imagens concorre para guiar a leitura, incita o leitor a percorrer os labirintos textuais, criando um campo de energia que sustenta o prazer de transformar cada experiência num momento novo. A imagem transforma-se em sujeito que se mostra e ao mesmo tempo indaga, fazendo instalar a relação estética, sensível e inteligível entre o livro e o leitor . Ocorre a intertextualidade na linguagem plástica quando uma imagem reflete-se na existência de outra imagem e constituindo o sentido. A distinção das possíveis relações intertextuais é marcada por analogias que se estabelecem em diferentes planos das obras, de ícones às organizações de linhas, formas, posições, cenários, objetos, temas, pois essas criam conjuntos que se vinculam na construção de sentido entre textos. Portanto, é possível definir perspectivas de apreensão de um olhar que participa do jogo de espelhos, esse que reflete, duplica, distorce e mesmo faz ver o que não se mostra face a face. Um olhar que dialoga no tempo e no espaço, convida para a leitura de um produto cultural que reúne linguagens expressivas, experiências sensíveis, circulação de informação e que participa ativamente das práticas de formação do leitor, o livro de literatura infantil. Um olhar semiótico sobre esses objetos, classificados na categoria infanto-juvenil, tem nas suas ilustrações um forte apelo, pois oferece um tipo de texto que propicia experiências de leitura ricas em qualidades sensíveis e inteligíveis.

A trajetória de produção do livro de literatura infantil foi se modificando ao longo do tempo. Os artistas plásticos que passam a atuar nesse campo e mesmo alguns escritores e ilustradores , trazem do contexto da história da arte e da visualidade contemporânea, os mais variados recursos para a criação desse objeto cultural.

Certamente os olhares, tanto do público a que se destina, como de qualquer leitor curioso, são atraídos pelas formas e cores até à palavra. O livro Griso – o unicórnio, de Roger Mello (1999), pode ser um bom exemplo de aceitação do convite para um olhar curioso e aberto à mágica da visualidade e das letras. Essa obra, mesmo classificada na categoria infanto-juvenil, pertence ao mundo da vivência humana e não se limita a destinatários de uma fase específica. Nela se apresenta a trajetória do último unicórnio que procura pelo mundo afora um outro, seu igual. O personagem Griso percorre lugares, faz contato com seres que povoam esses espaços situados em cenários de diferentes períodos da História da Arte, olha e pouco é visto; sente medo, mas persiste na sua procura solitária do outro. A busca desse que é a ilusão da imagem no espelho e lhe oferece identidade. O encontro com esse Outro remete ao conceito de alteridade, na vertente psicanalítica lacaniana, configurando o terreno da racionalidade e da consciência, sem que estas se dêem conta disso. Assim, no ato do discurso, o modo de combinar os significantes mostra o sujeito do discurso sendo controlado pela ordem simbólica que o domina e o constitui como sujeito. Nesse texto, há uma ponte com a História da Arte fornece alguns indicadores do estado de alma do personagem, sendo que as referências prévias do leitor permitem o aprofundamento dessa leitura.

No campo verbal, o texto se desenvolve de forma metafórica, nesse jogo de espelhos de olhar e ser olhado; a trajetória da busca de identidade trata do senso de pertencimento e da solidão humana. Ao mesmo tempo, o campo da visualidade dialoga com a narrativa, tanto pelo espaço plástico criado, como pela menção a períodos e estilos artísticos em seus contextos. A estrutura verbal é poética, com rimas internas, inversão da ordem de termos estruturais das frases, figuras de linguagem, enfim, colocando em ação certas propriedades que provocam no leitor o estado ou emoção poética, vislumbrando um mundo de magens que se reflete e é refletido por e com ele. O protagonista unicórnio evoca o imaginário do leitor ao trazer a herança da mitologia e da tradição de muitas culturas, com farta carga simbólica e mítica que provém de registros anteriores à era cristã, da época medieval, mesmo da China antiga. As descrições de características disponíveis mostram-se variadas, mas mantém traços em comum na representação de um pequeno cavalo branco, com patas afiladas de antílope e um longo chifre retorcido na testa.

Griso carrega no seu nome o acinzentar ou mesmo o envelhecer. Esse nome materializa e imprime no nomeado uma marca um tanto paradoxal, diante da sua metamorfose na profusão de imagens, cores e simbolismos. Inclui o desgaste, o estado daquele que passa a vida à procura de algo. A designação remete à cor cinza, neutra, mas as formas e cores do personagem, em cada nova página, traduzem as múltiplas explicações culturais dadas a esse personagem, bem como seus estados de alma através das referências à arte universal e seus contextos de produção. Palavra e imagem participam sincreticamente do jogo de construção de sentido, mas os efeitos que produzem são identificados a partir de conhecimentos prévios do leitor sobre o contexto de diferentes estilos das artes plásticas, que marcam tempos e espaços muito diversos, assim como estados do personagem. A importação de elementos formais de determinado período da história da arte é clara, sem contudo remeter a alguma obra de arte em especial. A intertextualidade está presente e é explícita na sucessão de imagens a cada página. Assim, o texto torna-se um espaço de reescrita, resultado das escolhas do enunciador e traz à visibilidade um mosaico de citações em combinatórias de componentes advindos dos diversos períodos da arte, que são nomeados anotação no final do livro.

Lançando luz e sombras

O contexto criado na capa e contracapa remete a um cenário oriental, de fantasia, de magia das mil e uma noites de Sherazade . As “mil histórias” são também geradas na fonte de “mil imagens” que se sucedem. Griso se mostra todo azul, como uma pintura indiana do século XVIII, de patas dobradas e apoiado sobre um tapete azul escuro. Essa é a única ilustração que se repete internamente, porém aparecerá de forma invertida. Na capa, o unicórnio posiciona-se em direção à entrada de leitura, e internamente, faz um espelhamento, voltando-se para a esquerda. Essa repetição invertendo signos é um indicador do outro, do duplo a ser seguido. A procura oferece um ponto de partida no jogo estabelecido pela rede textual entre eu e o outro, o interno e o externo. A leitura da história é flexível e também pode mesmo se iniciar desde aqui, pois o texto diz: “Noite desenha bichos nas sombras dos galhos...” Griso mergulha no indeterminado, no mundo do sonho, da fantasia, da liberação do inconsciente e aceita o presente da Noite, um “cobertor azul, bordado com unicórnios de sombras”, e a ela se entrega para encontrar o seu igual. A sombra prenuncia também plasticamente a presença do duplo desse personagem no enredo, fortalece a relação entre palavras e imagens, como dois sistemas de linguagem que dialogam. A ação concreta da luz cria a zona de sombra, correspondendo à própria imagem mutante do unicórnio, condicionada ao deslocamento do foco emissor de claridade, do enunciador e do leitor.

A alternância de opostos, mostrada na capa e na seqüência interna das imagens, é repetida no espaço interno das páginas de guarda, trabalhadas como um tabuleiro de jogo de xadrez, preto e azul. Esse jogo originário da Índia, de estratégia guerreira, é um combate entre peças brancas e pretas, faz eco às origens da imagem e dos efeitos de sombra e luz. A meta é a tomada de controle, não só sobre adversários e sobre um território, mas também sobre si mesmo, sobre o próprio eu, pois coexiste a divisão interior do psiquismo humano, como num cenário de combate. Esse xadrez traduz, na entrada da leitura, o engendramento temático, a relação entre o verbal e a visualidade, e apresenta o conflito que vivencia o personagem.

Noite é a desencadeadora do texto e ela conduz ao sonho, à fantasia do unicórnio. A sombra, a escuridão, a ausência de luz, através do uso do preto, é também um fio condutor do olhar, que desde os pequenos quadrados do xadrez se expande na superfície das quatro páginas iniciais e se mantém como rodapé de página, este que sustenta o texto escrito em letras brancas e, no final do livro, invade novamente e domina a superfície para encerrá-lo, repetindo o jogo quadriculado inicial. Em meio à variedade de imagens, o preto dá unidade e sentido de permanência.

Griso se mostra como imagem mutante que, a cada caracterização, se manifesta, na sua trajetória, de maneira diferente. Na metamorfose figurativa, o conteúdo formal oferece um reconhecimento estabilizador, pois na repetição da estrutura de quadrúpede e na constância do chifre, identifica-se o unicórnio. De resto, tudo é mutação e nela inscreve-se a idéia de ciclos, de existência, do aparente caos que ordena a vida. No corpo do livro, o personagem aparece em contraste à capa. Antes de porte avantajado, surge pequeno e inserido em uma pequena janela verde, que se abre na grande superfície negra. Sua cor era azul, agora tem o corpo branco, malhado de verde, com patas e cabeça dessa mesma cor. Movimenta-se, como a trotar para adiante da página. Virando essa folha, surge outro Griso , negro a dominar sobre um fundo vermelho, tem as patas estendidas, flagrado em pleno salto. Sozinho no espaço de fundo plano, não há referências à paisagem e o personagem é marcado com detalhes brancos nos flancos, formando desenhos típicos dos padrões entrelaçados irlandeses, que figuravam nas iluminuras do século VII, sem volume nem perspectiva. Esse tratamento formal bem caracteriza o período da arte germânica, ressaltando a falta de identidade de autoria das obras de arte na época. Griso busca, como individualidade, o reconhecimento, precisa ver-se no outro para realmente ser. O momento do salto também atualiza o estado de solidão e busca do personagem, em suas múltiplas passagens temporais, espaciais e contextuais, num ir e vir das próprias emoções. A persistência na busca de seu duplo é também a afirmação da própria identidade, a substituição da desintegração pela unidade.

A seqüência das ilustrações traz um caráter onírico, a fantasia e a renovação na trajetória empreendida. Esses aspectos marcam a narrativa e fortalecem o intertexto com o movimento surrealista e seu caráter de ativação do inconsciente e de total mudança nos valores vigentes, artísticos, morais, políticos e filosóficos. Griso é uma mancha branca, uma forma vazia para a qual os demais olhares se dirigem, mas ele está de costas, alheio. A disposição dos elementos formais direciona o olhar do leitor para o unicórnio. A legenda expressa: “sem nada encontrar”. O personagem nada vê, mas é visto pelos componentes da imagem e pelo leitor; é uma sombra percebida e que não percebe a si mesma. Em seguida, está ao centro da nova página dupla, e está caracterizado por elementos geométricos, em estilização da arte primitiva africana, como perfil de uma máscara de madeira, em sua cor terrosa. Detalhes tribais emolduram seis búfalos, formam uma massa violeta que envolve a figura Griso , encarando-se e parecendo dialogar. A arte primitiva, na sua expressão de cultura genuína, homologa o desejo do enraizamento , da origem e do pertencimento.

Nova cena com detalhes de frisos e cromatismos que se ajustam ao período identificado com a pintura em vasos na Grécia do século VI e V a.C. e aludem a um mundo idealizado e mesmo o desgaste de energias nessa busca desse unicórnio de linhas esguias. A cena de um entardecer mostra que o tempo passa, mas o tão desejado encontro não acontece.

Um clima renascentista acolhe o unicórnio renovado, todo branco na página seguinte, postado majestosamente sobre um manto azul e se estende sobre um penhasco. Ele contempla o mar, os rochedos e as baleias-de-chifre, que confundem e fazem acreditar tratar-se do objeto de sua procura, criando nova frustração. A Renascença também trata as formas plásticas com efeitos de luz e sombra, o modelado, para obter o efeito de verossimilhança. O ideal permanece, o ser é a medida de todas as coisas e, aqui, de todas as buscas. O jogo textual, ao mesmo tempo mostra e esconde, fazendo um contraponto à situação do unicórnio que, estando à mostra, permanece ignorado pelos demais protagonistas.

A transformação do personagem continua e assume agora a forma de cavalo em uma pintura mural, a mesma utilizada como decoração das grutas da Ásia Central, na China do século VII. A técnica de cartões perfurados da época facilitava a execução, porém restringia a criação do artista, com ênfase à duplicação de modelos com poucas variações. Griso é igual aos outros na forma, poderia seguir a trilha desses quatro cavalos de cor terrosa que se deslocam para a esquerda, seria mais simples e mais fácil. Porém se diferencia pela cor cinza e se afasta do bando na direção oposta, para a direita do texto e saída da leitura. As diferenças sutis, dadas por detalhes de cor e direção, promovem o desencontro e a fuga intencional.

A ilustração subseqüente é colorida, e um clima medieval de cavaleiro andante lembra o encontro com São Jorge e o dragão, trazendo mitos e medos produzidos pela incerteza e pelo desconhecido. Griso parece estar submetido ao cavaleiro que lhe aponta a lança e, sob essa ameaça, a palavra esclarece: foge. Permanece estático na ilustração seguinte, como num baixo-relevo persa. Após tantos percursos, imobiliza-se, entrega-se a oráculos e sortilégios da cultura mencionada. Não tem mais forças para seguir adiante e o melhor mesmo será ser conduzido pelas sendas do destino. Porém, o virar da página mostra uma sombra que aparece. O tratamento da literatura de cordel e a gravura xilográfica emprestam forças ao esgotado Griso para dar continuidade à busca. Uma ponta de asa negra surge do rodapé da página e anuncia uma aproximação.

O que se mostra na seqüência são novos elementos decorativos em xadrez verde, azul, vermelho e laranja e estilizações da arte egípcia a conduzir o olhar. Sob um fundo ocre, um cavalo verde e vermelho, portando enormes asas paira sobre o cavalo de chifre, vermelho, de patas e rabo verdes. A arte egípica preconizava leis de representação das figuras com predomínio na estaticidade , ou a permanência, pois uma função era ser o registro para a posteridade, a garantia da memória para aqueles que esperavam ressurgir do mundo dos mortos. Griso ressurge, se transforma continuamente e o encontro com o cavalo de asas modifica o jogo instalado no início. Novamente o elemento xadrez, como signo do conflito do personagem, se modifica na dimensão do quadriculado, que se reduz à elemento decorativo, no uso das cores complementares vermelha e verde, essas que também aparecem no unicórnio e no cavalo alado, refletindo o encontro. A vibração criada pela presença dessas duas cores é suavizada pelo azul, laranja e ocre, fazendo com que a relação cromática contrastante presente nos personagens seja harmoniosa e a narrativa verbal encerra com a repetição da expressão inicial “à procura de um outro, seu igual”.

A próxima e última ilustração não possui legenda nenhuma, é um momento de ficar sem palavras. Griso e Pégaso estão em uma superfície de tom terra, tratados por elementos plásticos de pintura rupestre, como uma volta às origens e parecem prontos a sair do limite da página.

Repetem-se, no final do livro, as páginas de superfície negra e as de xadrez preto e azul. Noite sempre volta oferecendo as condições propícias para um mergulho nos sonhos e desejos, assim como nunca termina o jogo de forças antagônicas que agem na constituição dos sujeitos e de todo o universo. A narrativa não possui um final fechado. Cabe ao leitor dar a continuidade sobre a concretização ou não do encontro do unicórinio com o cavalo alado e possível seqüência da narrativa.

O jogo semântico

A característica marcante da leitura é a variedade e a transformação. Além da aparência plural que assume e do espaço diferenciado por onde Griso se desloca, estes períodos e a correspondente visão de mundo podem fornecer pistas que acrescentam elementos para a trama de um novo texto. Na tradução dos signos verbais e visuais são acionadas as memórias do leitor e a falta de referenciais da arte universal pode ser um fator limitador às possibilidades de compreensão e de promoção do prazer do reconhecimento e de diálogo para uma reflexão mais aprofundada

Fig. 1 - Griso

O percurso dos labirintos textuais criados pela palavra e pela imagem incita o desencadear um diálogo de transposição intersemiótica, numa lógica comunicativa onde transitam signos de diferentes naturezas: material, imagética, verbal, mitológica, sensível... É um jogo de alianças entre a experiência poética e estética que

se expresa y comunica en la imagen no explica: invita a recrearla y, literalmente, a revivirla ... trasmuta al hombre y lo convierte a su vez en imagen, esto es, en espacio donde los contrarios se funden. Y el hombre mismo, desgarrado desde el nacer, se reconcilia consigo cuando se hace imagen, cuando se hace otro. (Octavio Paz, 1986)