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Veredas Pós-Modernas:
traços do sujeito pós-moderno na constituição da personagem Riobaldo
Gabriel Gomes (UFBA)
A escolha da narrativa ficcional como objeto de estudo, quando se pretende conhecer mais a respeito do homem, da cultura, da complexa teia das relações humanas, pode parecer um caminho enviesado, pouco econômico diante da imensa quantidade de material disponível muito mais objetivo. Revistas, artigos científicos ou mesmo recortes de jornais refletem, sem dúvida, os problemas e anseios da sociedade de modo mais direto. Mas a aventura de se enveredar nos caminhos oblíquos da literatura pode ser promissora, pois quanto mais as metáforas, as alegorias são capazes de transportar o leitor para mundos fantásticos, mais flagram a realidade factual, objetiva e palpável.
Em Grande sertão: veredas, o que poderia ser apenas a história de amor proibido do protagonista por Diadorim é, na verdade, uma reflexão a respeito de questões que afligem e marcam o homem da modernidade tardia. Entre elas, as relacionadas com a identidade, com o pertencimento a grupos e instituições: a religião, o trabalho, o gênero, a ética. Riobaldo, como o sujeito pós-moderno definido por Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade , é descentrado, plural, construído pela diferença, pelas relações de pertencimento móveis e instáveis. Seria esta personagem a representação do sujeito pós-moderno? Antes de estudar a personagem e seu discurso, é preciso apelar para uma negociação de ordem semântica: o que se entende por sujeito?
O deslocamento de Deus do centro do Universo - ocorrido na passagem da Idade Média para a modernidade -, dando lugar à razão, à ciência, ao homem, propiciou o surgimento desta entidade discursiva aqui chamada de sujeito. Stuart Hall apresenta três concepções de identidade no decorrer da Idade Moderna.
Primeiramente, Hall descreve o sujeito do iluminismo, um indivíduo, como o nome sugere, indivisível, centrado, dotado de razão e com a possibilidade de agir de acordo com uma consciência estável e fixa. O centro seria justamente a essência, que surgia com o nascimento da pessoa e, apesar de se desenvolver, permanecia o mesmo no decorrer da vida do indivíduo. Hall explica que “o centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa” 1. Com o desenvolvimento das ciências humanas, foi possível perceber que o núcleo desse sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas que se formava nas relações entre as pessoas. A relação mediava para o sujeito valores, sentidos e símbolos - cultura capaz de moldar o eu. De acordo com a visão sociológica do sujeito, a identidade se faz na interação do eu com a sociedade. Stuart Hall sintetiza esta relação da seguinte forma: “A identidade, então, sutura o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quantos os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis” 2.
Por fim, Stuart Hall apresenta o sujeito pós-moderno, fruto do rompimento da referida “sutura”, pois, com o permanente revolucionar da modernidade, os elos das relações são constantemente partidos, partindo com eles a identidade do eu. O sujeito pós-moderno, pois é este que vive a eterna crise de identidade. O sujeito pós-moderno não possui, portanto, uma identidade, mas múltiplas, e estas não formariam um sistema coerente em torno do eu. “ Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora ‘narrativa do eu'. A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia” 3.
A compreensão da diferença de uma abordagem essencialista do sujeito e uma construtivista é chave para o entendimento do processo de construção das identidades e da tensão social que envolve o assunto. Não obstante, é condição necessária para analisar o drama de Riobaldo.
De acordo com Kathryn Woodward 4, normalmente a identidade envolve reivindicações essencialistas sobre quem pertence e quem não pertence a um determinado grupo identitário, nas quais a identidade é vista como fixa e imutável. A afirmação de uma identidade essencial muitas vezes exige do indivíduo determinadas características “naturais” para que a relação de pertencimento ao grupo seja concernida. Raça, família, gênero etc.
A história de Riobaldo é a de um amor impossível. Um homem sertanejo, chefe de jagunço, que ainda garoto se encantou por outro. Riobaldo e esse menino voltam a se encontrar já adultos na jagunçagem. O menino, já crescido, apresentado como Reinaldo, fazia parte do bando que guerreava contra os assassinos de Joca Ramiro.
À medida que a narrativa se desenvolve é possível perceber que o amor por Reinaldo, que depois se revelou como Diadorim, vai se intensificando, do mesmo modo que cresce o seu dilema: afirmar o amor por Diadorim ou negá-lo. Um sofrimento solitário, um amor que para o próprio Riobaldo era inconcebível. Um sertanejo – jagunço - amar outro homem.
Se o sentimento de Riobaldo era inconcebível para ele mesmo, mais ainda seria para o grupo que ele chegou a liderar. Reconhecê-lo significaria ir de encontro aos valores da comunidade em que estava inserido, à tradição. Seria um desafio ético que Riobaldo não ousou enfrentar.
A localização geográfica e cultural - sertão – é um elemento intensificador do conflito. O clima árido, a dificuldade de sobrevivência, a criminalidade impune, o sol escaldante parecem exigir uma forma masculinizada de viver. Como faz lembrar a canção popular: “Paraíba masculina, mulher macho sim, senhor...”. “Ah que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus arredado do arrocho de autoridade”. 5 Palco da estória, o sertão é ao mesmo tempo espaço geográfico e metáfora da subjetividade: “Sertão é o sozinho”, “Sertão é dentro da gente” 6.
Tanto Stuart Hall como Kathryn Woodward fazem referência a uma afirmativa de K. Mercer: “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza”. Esta proposição provoca a reflexão: Riobaldo vive uma crise de identidade? Por quê?
Jagunço, mestre, amante, místico, contador de estória, filósofo, narrador. A cada momento da “vida” do protagonista, um sujeito se constitui. Para cada uma dessas máscaras, um eu, uma identidade se encena. Riobaldo não se identifica plenamente com nenhuma dessas identidades, nem mesmo um nome consegue se fixar nele. Tatarana, Ururutu-Branco, Riobaldo. As múltiplas identidades de Riobaldo estão sempre em crise: o jagunço com o religioso; o amante com o jagunço, o ético com o amante e com o jagunço.
Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunço. [...] Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda ou derrota – quase que tudo para ele é igual. Nunca vi. Para ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final. [...] Eu gosto muito é de moral. Raciocinar. Exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo. Minha mulher, que o senhor sabe, reza por mim: muito reza ela é uma abençoável . 7
Existe, no entanto, uma razão que prende Riobaldo ao bando: o amor por Diadorim. Se a consumação do amor é impossível, resta a possibilidade de estar perto. Diadorim é condição suficiente e necessária para existência dessa identidade: jagunço.
Aqui parece estar o ponto fundamental do conflito – ponto em que todas as identidades diferentes se chocam. Diadorim é obcecado por vingar o pai, sabe que não poderia conciliar amor e vingança. Por isso mesmo, não revela a Riobaldo sua identidade batismal: Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins. Diadorim disse que tinha algo a revelar quando acabasse a guerra, mas não teve tempo. Foi assassinado. Riobaldo só descobre que Diadorim era mulher quando o corpo dela foi lavado para o sepultamento.
Riobaldo precisa se integrar ao bando para ficar perto de Diadorim, mesmo que isso contrariasse suas outras identidades: a do mestre, do religioso, do benfeitor. Era necessário “justificar” sua permanência no grupo para que Riobaldo fosse reconhecido pelos pares e para que ele mesmo se reconhecesse como jagunço.
É interessante perceber no livro o modo como Riobaldo vai ganhando status no grupo até se tornar chefe do bando. Um jogo semiótico acontece. Riobaldo, aos poucos, começa a agir como os jagunços – chega a violentar sexualmente (mas se arrepende) uma mulher, como era a praxe. Pois é por meio das práticas simbólicas que damos sentido às nossas experiências e construímos nossa “cômoda estória sobre nós mesmos” (Hall).
Como explica Kathrin Woodward, “A identidade é, na verdade, relacional e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades”. A diferença de princípio entre Riobaldo e o resto do bando era tanta que ele precisou vender, num ato simbólico extremo, a alma ao diabo para se tornar um verdadeiro jagunço, capaz de liderar os demais. Era preciso minimizar as diferenças essenciais ao máximo e ser respeitado no bando.
Woodward explica que o essencialismo pode fundamentar suas afirmações tanto na história quanto na biologia. Segundo ela: “o corpo é um dos locais envolvidos no estabelecimento das fronteiras que definem quem nós somos, servindo de fundamento para identidade – por exemplo, para a identidade sexual. É necessário, entretanto, reivindicar uma base biológica para uma identidade sexual?” 8. Este ponto é de fundamental importância para se entender o problema de Riobaldo.
Meu corpo gostava de Diadorim. Estendi a mão para suas formas; mas quando ia, bobamente, ele me olhou – os olhos dele não me deixaram. Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi – ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha percebido? Eu estava me sabendo? 9
O fato de um homem amar outro homem entra em confronto com o discurso essencialista. Seria desafiar a lei da Natureza em que macho e fêmea têm seus papeis biologicamente marcados.
A figura do jagunço ou do cangaceiro está intimamente ligado com o arquétipo do macho, do cabra macho sim, senhor, tornando assim conflituosa a relação do Riobaldo amante com o Riobaldo Tatarana e, conseqüentemente, a interação dessas identidades com o grupo.
A leitura de Grande Sertão: Veredas sob a perspectiva dos Estudos Culturais nos permite compreender o que é fragmentação e deslocamento do sujeito, o modo como as identidades são construídas – a negociação semântica. Os símbolos funcionam como senhas para que a identidade seja estabelecida. O processo de identificação envolve poder. Nem que seja, como explica Woodward, para determinar quem é incluído e quem é excluído.
E afinal Riobaldo é a representação de um sujeito pós-moderno?
Possivelmente a resposta seja sim e não. Sim, porque a crise de identidade da personagem é a crise pela qual parecem passar as subjetividades situadas em determinados contextos culturais, em tempo de globalização. Sim, pela pluralidade do (s) sujeito (s), pelo seu descentramento. A comparação da obra literária com o texto teórico de Stuart Hall e dos que lhe precederam atesta esta similaridade. E o não? De acordo com Hall, a “narrativa do eu” é uma fantasia, algo que se constrói por uma espécie de comodidade, por um conforto alienante à caótica realidade do ser. A noção de sujeito pós-moderno nega qualquer possibilidade de uma essência e, sobretudo, da construção de uma plenitude. Mas o livro parece sugerir esta possibilidade, mesmo que seja em um não-lugar, “Nonada”.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 6 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p. 10-11.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 6 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p. 12.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 6 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p. 13
WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Prtrópolis, RJ: Vozes, 2000.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas . 36 ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1986. p.1
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas . 36 ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1986. p. 235
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas . 36 ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1986.
WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Prtrópolis, RJ: Vozes, 2000. p.15.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas . 36 ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1986. p. 157.