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Bufo & Spallanzani – versões das personagens
Daniela Barbagli (Universidade Presbiteriana Mackenzie)
INTRODUÇÃO
A adaptação fílmica do romance Bufo & Spallanzani , realizada em 2001 pelo cineasta Flávio R. Tambellini é o objeto de estudo do trabalho. A obra é baseada na história literária publicada por Rubem Fonseca em 1985.
O trabalho aborda a forma pela qual o roteiro viabilizou a transposição do livro para a forma fílmica, as adaptações necessárias escolhidas pelo trio de roteiristas (Patrícia Melo, Flávio R. Tambellini e Rubem Fonseca), focando nos perfis das personagens em ambas as obras.
O LIVRO
A trama do livro apresenta-se de forma rocambolesca, a qual tem a clara intenção de confundir o leitor. Por se tratar de um romance policial, opta-se pela introdução de sub-tramas, as quais ramificam as possibilidades de desfecho para o crime apresentado.
O livro é narrado em primeira pessoa pelo protagonista da história, Gustavo Flávio, um escritor famoso, que começa por se auto-denominar um sátiro e um glutão. Inicia-se com uma conversa de Gustavo, no tempo presente, com sua namorada, Minolta.
Gustavo está escrevendo um livro, Bufo & Spallanzani , o que torna o livro uma metalinguagem.
Minolta e Gustavo Flávio têm um relacionamento aberto. Eles moram em cidades diferentes e Gustavo, para satisfazer sua satiríase, tem relacionamentos amorosos com outras mulheres. Uma de suas amantes é Delfina Delamare, casada com o milionário Eugênio Delamare, que aparece morta.
A investigação do crime é conduzida por Guedes, um funcionário exemplarmente honesto da polícia carioca. O policial inicia suas investigações considerando tratar-se de um caso de suicídio, hipótese reforçada pela confirmação médica que Delfina tinha um câncer incurável, mas a possibilidade de suicídio é descartada depois dos exames periciais.
Dentro do porta-luvas do carro de Delfina, Guedes encontra o livro de Gustavo Flávio e descobre, com algumas outras informações, que Gustavo era amante de Delfina.
Gustavo passa a ser interrogado a respeito do crime e, assustado com as acusações, levanta a suspeita sobre o marido de Delfina, Eugênio, que tinha conhecimento da traição da esposa e já o havia ameaçado anteriormente.
Guedes procura Eugênio Delamare, que estava na Europa quando da morte da esposa, e este quer que o investigador caracterize o crime como assalto seguido de assassinato (já que a hipótese de suicídio, preferida pelo marido, fora oficialmente descartada). Contando com a corrupção de Guedes, Eugênio oferece a ele uma quantia em dinheiro para que o inquérito seja definido conforme suas propostas, o que não é aceito pelo policial e acaba por reforçar suas suspeitas sobre o marido, como mandante do assassinato.
Surge na trama um rapaz que se diz responsável pelo assassinato de Delfina Delamare: Agenor é preso e confessa o crime.
A presença da polícia e das investigações tão próximas, fazem com que Gustavo se aflija a todo o momento. Ele acaba revelando o motivo disto: seu passado negro. Há mais de dez anos Gustavo era Ivan Canabrava, um professor da rede pública, casado informalmente com Zilda, que intermedia um novo trabalho para ele como investigador numa companhia de seguros. Ivan descobre uma fraude contra a empresa. Um dos segurados teria usado de uma mistura de veneno de sapo com um tipo de planta para manter-se em estado de catalepsia e ser considerado morto.
Ivan está excessivamente envolvido com o trabalho. O relacionamento entre Zilda e Ivan não se sustenta mais e ela decide sair de casa.
Imediatamente depois Ivan conhece Minolta, uma jovem hippie, que está sem lugar para morar. Ivan a convida-a para morar em sua casa e, logo depois, leva mais dois amigos para morarem no apartamento de Ivan: Siri e Mariazinha.
Com a ajuda de seus novos hóspedes, Ivan faz a mistura venenosa e a toma entrando em estado cataléptico, conseguindo assim seu próprio atestado de óbito.
Ele conta ao chefe, que fica com as provas, e é despedido no dia seguinte. Percebendo que seu chefe está envolvido na fraude contra a própria empresa, ele tenta provar sua teoria procurando obter um novo atestado, mas o médico que o forneceu fora corrompido e desmente que tenha assinado tal atestado. Para refazer a experiência ele recorre ao cientista que o ajudou, mas ele está morto. A única chance que resta a Ivan é arrombar o túmulo e provar que não existe nenhum corpo enterrado na sepultura. Ao tentar esta manobra acompanhado de Minolta, Ivan ataca um coveiro e mata-o acidentalmente.
Descoberto pela polícia, Ivan é preso no manicômio judiciário. Foge de lá disfarçado, ficando Siri em seu lugar.
Ele sai do Rio, com Minolta, para Iguaba, onde ficam por dez anos. É durante esse período que Gustavo se transforma num sátiro e glutão, devido à sua, agora, namorada.
Voltando ao tempo presente, Gustavo Flávio tem uma crise de criatividade, não conseguindo escrever. Ele segue os conselhos de Minolta, e viaja sozinho para o Refúgio do Pico do Gavião. Lá encontra apenas casais, duas mulheres (que também formam um casal) e um homem solteiro (na verdade uma mulher travestida). Essa combinação pouco propícia a seu envolvimento afetivo faz com que ele compense seus prazeres sexuais, se esbaldando com os prazeres da mesa. Temos, por todo o capítulo, a descrição das refeições da pousada.
Um assassinato acontece no Refúgio e Gustavo Flávio é posto como principal suspeito. Novamente, a presença da polícia o incomoda. Afinal ele era um fugitivo da lei, como já sabemos nesse ponto da narrativa. Mas o caso é resolvido sem maiores desdobramentos.
O capítulo é bastante inócuo, apenas justificável por um pensamento do próprio Gustavo Flávio, quando consideramos a narrativa metalingüística:
“O diabo é que para um escritor como eu, que precisava de dinheiro para sustentar o seu vício barregão, cada maldita palavra, um oh entre cem mil vocábulos, valia algum dinheirinho. Escrever é cortar palavras, disse um escritor, que não devia ter amantes. Escrever é contar palavras, quanto mais melhor, disse outro que, como eu, precisava escrever um Bufo & Spallanzani a cada dois anos”
Guedes acredita que Agenor tenha sido contratado para confessar o assalto seguido de assassinato, em razão das inverossimilhanças entre a história contada pelo réu e os indícios da cena do crime. Como Agenor confirma a idéia do investigador, Guedes deixa-o fugir para que ele não tenha problemas com os que o contrataram. Agenor, apesar da ajuda do investigador é assassinado. O tira chega, através de investigações, ao nome de Eugênio Delamare como mandante da contratação.
Temendo por sua própria vida, após alerta de Guedes, Gustavo decide comprar uma arma para se proteger de Eugênio, o que se mostra totalmente ineficaz. Eugênio o procura com seus capatazes, raptando-o em sua casa. Ele cumpre sua promessa feita anteriormente e corta os testículos do amante de sua esposa, mas a sessão sádica é interrompida pela polícia, antes do assassinato de Gustavo.
Quando Guedes intervém, ele já estava ciente do assassino de Delfina. Uma senhora era testemunha do caso. Guedes, entretanto, fora suspenso da polícia.
A polícia opta por culpar Agenor, mesmo assim, Gustavo decide confessar à sua namorada Minolta que fora ele quem matou Delfina a pedido da mesma, pois ela afirmara que não conseguiria cometer suicídio. Gustavo pergunta a Minolta o que ele deveria fazer, se ela queria que ele se entregasse.
É com este final aberto que este livro termina para o leitor.
A continuidade da trama, entretanto, é dada em um livro seguinte de Rubem Fonseca: E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto , neste segundo livro, ficamos sabendo que Minolta deixou Gustavo depois do caso Delamare e ele, continuou impune perante a polícia.
O FILME
O enredo do filme é um pouco mais conciso que sua versão original, apesar de ser bastante fiel ao livro: a compactação da história não faz com que ela perca as suas principais características, mantendo-se em acordo com a proto-obra.
A solução encontrada pelos roteiristas para a viabilização da transposição de uma obra tão extensa num filme de menor duração foi a acumulação de papéis por alguns personagens e a supressão de sub-tramas, como o capítulo sobre o refúgio do Pico do Gavião.
No filme, suprimindo o desenrolar das investigações até se chegar ao nome de Gustavo Flávio, é ele mesmo quem procura a polícia para falar sobre o caso Delamare, o qual, segundo ele, havia sabido pelos jornais. Essa opção enfraquece uma característica de Gustavo no livro: seu medo da justiça, ou suas formas de representação, tal qual a polícia.
Zilda, primeira mulher de Ivan, que havia arrumado a ele um emprego por intermédio de um amigo é a própria pessoa que trabalha na companhia de seguros como secretária do chefe. Desta forma, eliminam-se dois personagens secundários: o amigo de Zilda e a secretária do chefe. A presença de Zilda na companhia de seguro ainda é válida por viabilizar uma constante interação entre ambos.
O próprio chefe de Ivan, originalmente Dr. Zumbano, passa a ser representado por Eugênio Delamare, criando uma história de vingança bem anterior à trazida no livro. Isso faz com que passe a existir um vínculo entre as histórias. É uma boa solução, visto que ambas as personagens do livro têm o mesmo perfil: são corruptas e interessadas em dinheiro.
Isso possibilita ainda um questionamento sobre a ascensão e poder de Eugênio, apresentando-a de maneira bastante contundente.
Os amigos hippies de Minolta também desaparecem da trama. No filme Ivan foge da polícia para a Serra da Bocaina (e não Iguaba) sem ser preso no manicômio Judiciário. Desta forma elimina-se a necessidade de alguém para substituí-lo no hospício.
Siri e Mariazinha também haviam participado ativamente da experiência com o veneno do sapo. Na versão fílmica quem ajuda Minolta com a poção é o cientista que lhes havia fornecido as soluções para as misturas. Essa é também uma escolha interessante, pois o cientista, substitui outros dois personagens e, o faz de forma mais plausível, por sua sapiência.
A justificativa do título do livro Bufo & Spallanzani , feita em vários momentos durante o livro, se reduz no filme a uma conversa com o cientista e uma cena sonhada durante a catalepsia de Ivan. Os sapos se transformam em uma referência visual. Eles estão presentes no filme na forma física: objetos e animais da pousada de Minolta, enquanto que no livro eles permeiam a história e são constantemente associados às atitudes de Gustavo Flávio.
A pousada da Serra da Bocaina é propriedade de Minolta. É para lá que Gustavo vai quando tenta se esconder de Eugênio, mas mesmo assim é encontrado e atacado.
CONCLUSÃO
Algumas alterações da trama refletem nas alterações das personalidades das novas personagens propostas pelo filme, assim, apesar de a trama se manter bastante fiel à proto-obra, as personagens apresentam-se em diferentes versões no livro e no filme.
Gustavo ir ao encontro de Guedes na delegacia muda seu perfil: ele não teme a policia como no livro, no qual percebemos um pânico excessivo de Gustavo pela constante presença do investigador ou outras coisas relativas à justiça. Ele sempre se sente ameaçado, acha-se perseguido, mas mesmo assim não consegue fugir das ameaças reais. No filme, Gustavo aparece bem mais centrado e auto-suficiente.
Minolta foi descrita no livro como uma hippie, com pensamentos alternativos como a poligamia, que fazia meditação, pintava, era poetiza, esotérica e macrobiótica. No filme as únicas passagens que apontam para Minolta como uma pessoa alternativa são as cenas em que ela se mantém despretensiosamente nua perante Ivan.
Suas roupas são largas e coloridas na primeira fase, mas continuam assim depois. Nada é excessivo, que chame a atenção a ponto de apresentá-la como uma caricatura do movimento hippie, acontecido um pouco antes da elaboração do livro. No filme ela se rende ao capitalismo e torna-se uma empresária, dona de pousada. Ascensão financeira e profissional, não indicada inicialmente.
Minolta, que era uma defensora dos micos-leões dourados, tem seus ideais distorcidos quando sugere a Gustavo compre uma arma para matar Eugênio Delamare.
É ela quem tem controle absoluto da relação durante o livro, o que não fica tão óbvio no filme. É ela quem quer saber dos casos extra-conjugais de Gustavo. É ela quem defende primeiramente a poligamia. Minolta guia Gustavo, mas isso não é tão claro no filme, onde ele tem um maior controle sobre suas decisões, não se apresenta tão inseguro e dependente. Em sua nova versão, Gustavo é capaz de questionar as crenças advinhatórias de Minolta, enquanto que na obra original ele era incapaz de qualquer tipo de enfrentamento com suas mulheres. Suas atitudes eram muito mais passivas, não questionando nem criando conflitos.
Dentre os personagens principais, Guedes é o mais fiel. O tira incorruptível, com uma lógica particular, solitário, de blusão ensebado é caracterizado da mesma forma em ambas as obras. No filme, para reforçar a caracterização de seu blusão ensebado, recorre-se ao visual: o personagem de Tony Ramos usa um mesmo casaco em todas as cenas, mesmo com o calor. O restante de suas vestimentas é bastante similares entre si.
É inserido no filme um personagem que age como interlocutor para Guedes. Ele é Osmar, um outro funcionário da polícia que interage com o investigador, permitindo que ele expresse seus pensamentos e raciocínios, justificando suas atitudes.
Os personagens de apoio, como Delfina, Zilda, Ferreira, Clara Estrucho e Ceresso aparecem de forma conciliatória com a apresentação escrita, apenas com mudanças sutis.
Nosso protagonista, entretanto, é o mais problemático do ponto de vista da caracterização. Iniciando pela física, quando Rubem Fonseca o descreve como um mulato gordo, de mais de cem quilos e é feita a opção de José Mayer para interpretar o papel.
Ser glutão é uma característica recorrente na caracterização do personagem de Gustavo Flávio. Na adaptação cinematográfica, sua fixação por comidas desapareceu. Tal característica é relevante a um personagem que engordou trinta quilos durante alguns anos.
O comportamento glutão vem sempre associado ao de sátiro. Sexo e comida são os condutores do comportamento de GF. É assim que ele começa ao se descrever.
No filme, também a satiríase, apesar de citada é fracamente representada. O sexo deixa de ter a mesma importância na nova obra. Durante a trama escrita ele se interessa por todas as mulheres que cruzam seu caminho, substituindo seu objeto de atenção quando este se apresenta inatingível. No filme os relacionamentos de Gustavo se restringem às suas principais mulheres: Zilda, Minolta e Delfina.
O tom erótico presente no livro, com descrições minuciosas das relações de Gustavo, é suprimido no filme. Ele tem com Delfina uma única relação sexual (filmada de forma delicada, conforme indicação do próprio roteiro ) e existe uma foto dos dois nus – atitude mais audaciosa de registrar seus encontros com uma mulher casada (os registros fotográficos já faziam parte da trama do livro). Em seus encontros com Minolta, eles apenas se beijam, deixando subentendido o que aconteceria depois.
Este tipo de tratamento está em duplamente em desacordo: primeiro com o personagem auto denominado sátiro, como Gustavo; em segundo perante à escrita de um autor de linguajar explícito, como Rubem Fonseca.
Fica claro no livro que foi Minolta quem o despertou para o sexo, antes disso ele praticamente não se interessava por Zilda, a única mulher que ele conhecera enquanto Ivan Canabrava. Essa hipótese é de difícil associação à figura de José Mayer, já composto no imaginário coletivo como um conquistador. José Mayer como o sátiro Gustavo Flávio convence, mas como um Ivan Canabrava assexuado torna-se dificilmente crível.
Como observou Paulo Emílio Salles Gomes:
“Via de regra, a encenação se processa através de gente que conhecemos muito bem, em atores que nos são familiares. Aliás, nos casos mais expressivos, tais atores são muito mais do que familiares; já são personagens de ficção para a imaginação coletiva, num contexto quase mitológico”
A transformação de Ivan para Gustavo Flávio é sutil no filme. Fisicamente não há mudança sensível, financeiramente, percebe-se um melhor padrão no seu novo apartamento, mas é só o que é mostrado, sem alterações significativas de outras conquistas materiais ou de vestuário.
Ambas as histórias que estamos lendo/ vendo se remetem à história escrita por Gustavo Flávio. No livro a vantagem é que temos o processo metalingüístico, com a desvantagem de um inusitado narrador onisciente em primeira pessoa. O filme perde a metalinguagem (mantém-se a escritura do livro no filme) e é narrado em terceira pessoa, pela câmera.
Por se tratarem de códigos semióticos distintos, com formatações e características únicas, há a necessidade de adaptação entre as obras. Cada código tem suas especificidades e a transposição de um a outro exige adequações. As mudanças propostas pelos adaptadores podem ser classificadas dentro de um espectro que varia entre a fidelidade total e a adaptação livre, segundo Noriega .
No caso da obra estudada, temos uma variação, dependendo da abordagem feita que podemos dizer que a obra fílmica situa-se entre os modelos de transposição, se considerarmos a trama, por se eliminarem as sub-tramas, dando agilidade ao modelo cinematográfico; e de interpretação, quando levamos em conta a caracterização das personagens apresentadas neste estudo, pois alterou-se a forma básica de apresentação das personagens da trama. A supressão de informações sobre a caracterização das personagens e mesmo à suas transformações físicas e psicológicas radicais.
Nas histórias policiais, a caracterização das personagens é secundária em relação à trama, e por isso temos na adaptação de Bufo & Spallanzani a alteração das personagens sem alteração da base da trama, se mantém na mesma direção da proposta original.
FONSECA, Rubem. Bufo & Spallanzani . 13 ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1985.
TAMBELLINI, Flávio Ramos. Bufo & Spallanzani . 2001.
FONSECA, Rubem. Bufo & Spallanzani . 13 ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1985. p. 188
FONSECA, Rubem. E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
FONSECA, Rubem; MELO, Patrícia; TAMBELLINI, Flávio. Bufo & Spallanzani – roteiro . Sétima Versão, Maio 1999.
GOMES, Paulo Emílio Salles. A personagem cinematográfica. A personagem de Ficção. 4ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974. (p. 114)
NORIEGA, José L.S. De la literatura al cine – teoria y analisis de la adaptación. Buenos Aires: Paidós, 2000.