VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Dialogismo e estudo do texto literário: lírica moderna na poesia Drummondiana e intertextualidade em Chico Buarque
Cláudia do Amaral (Universidade Presbiteriana Mackenzie)

Combinando uma simulação com uma dissimulação, o discurso é uma trapaça: ele simula ser meu para dissimular que é do outro.

Edward Lopes in “Discurso, texto e Significação”.

 

O objetivo do presente estudo é aplicar os conceitos teóricos fundamentais do dialogismo e da intertextualidade para o estudo do discurso literário. O que provoca alguém a produzir um texto literário (ou um quadro, escultura etc.) é uma percepção de mundo, dentro de certa tonalidade afetiva, ou seja, o autor situa sua obra no seu aqui e no seu agora, de modo que o artista é porta-voz de seu tempo, de sua época e de sua comunidade. Há de se considerar que sendo abrangente o repertório de textos do mediador (leitor-crítico) será rica a percepção de todo processo de construção de um texto e toda interpretação cabível, sendo esse fator determinante para iluminar e promover uma elaborada interpretação, pois, sendo dialógica a linguagem é dialógico o texto. Segundo Kristeva, todo texto é um mosaico de citações, uma retomada de outros textos, e tal apropriação pode se dar desde a simples veiculação a um gênero até a retomada explícita de um determinado texto.

Este estudo irá ater-se em dissertar sobre a lírica moderna presente na poesia drummondiana, especificamente no Poema de Sete Faces, já que o tema “guacherie” é perseguido pelo poeta em suas obras. A grande temática deste ilustre poeta é estar assim, retorcido, torto, com pensamentos curvos, sofridos.

Num segundo momento se tratará da intertextualidade bíblica presente no poema e na intertextualidade drummondiana presente na letra da música “Até o Fim“ de Chico Buarque de Hollanda, escrita em 1978.

Há mais entre lírica e poesia do que sonha a linguagem...

A lingüística moderna considera, hoje, o texto tanto um objeto de significação quanto um objetivo de comunicação, o que torna relevante o contexto sócio histórico em que se encontra inserida a produção. Devemos ter uma visão de conjunto do texto como propôs Bakhtin.

Antes que se inicie a análise das obras propostas, cabe lembrar que segundo Adorno falar de lírica é falar do impalpável, do que justamente quer manter-se fora da razão e da socialização ou superá-la.

Estabelecendo o que tomamos por lírica:

A lírica clássica seguia os tradicionais padrões greco-latinos e poetas maravilhavam o lei-tor com suas expressões épicas, satíricas, trágicas, cômicas. Tratavam-se de expressões suspi-rosas, que não deveriam ferir o leitor ou o ouvinte, daí serem feitos por palavras apropriadas, bem escolhidas, com recursos retóricos, estéticos, estilísticos e ainda com o rigor da métrica e da rima. Essa poesia, muitas vezes exterior, vedava os sentimentos fazendo com que somente poetas muito bem preparados conseguissem burlar regras e imprimir toques pessoais.

Um tempo de mudanças, porém, levou a arte a um novo estilo a partir de um mesmo conceito: o lirismo. Lírica é emoção, o “eu” em ebulição que alguns podem captar e transformar em arte. Ainda segundo Adorno, um poeta diz antes o que não foi dito e resiste à reificação do mundo, fazendo assim da linguagem a ponte entre o lírico e o mundo.

Com o advento do mundo moderno, a poesia clássica já não traz alento ao homem. O poeta usa sua subjetividade em ebulição para “agarrar” o leitor e fazê-lo refletir a respeito de si mesmo e do mundo, através de palavras simples, versos livres, despreocupados com o rigor formal. A poesia moderna é preocupada com a problemática do homem, inserido num mundo de mudanças bruscas e urgentes. Um mundo que nem sempre encontra soluções científicas, teológicas, amorosas ou escapistas para amparar e explicar as novas questões propostas pela humanidade. Para tanto, a lírica moderna prega liberdade estética, livre de códigos e regras para poder falar do ardor das emoções nascentes, da complexidade das coisas simples.

No entanto, é essencial compreender que lírica clássica e lírica moderna não se superam, uma vez que são manifestações de épocas distintas, com divergentes pontos de vista, crenças, valores sócio-culturais e atitudes.

Carlos Drummond de Andrade está absolutamente ciente dos vários significados dos problemas existenciais. Podemos perceber em seu livro “Alguma Poesia”, publicado em 1930, que o poeta ora se debate com questões modernas, ora adapta sua arte a elas, revelando todo caráter complexo que a modernidade trouxe à existência do homem e à manifestação artística. É o que podemos observar no expressionismo, no dadaísmo, no surrealismo com toda sua dor de existência no mundo. O Poema de Sete Faces inaugura o tema “guacherie” na obra drummondiana, no qual o poeta sugere em suas poesias uma visão do imperfeito, do retorcido, do equivocado e instala-se como ser precário, sem suporte científico ou religioso, sem completude, carente. Manifesta-se como homem lírico não afastado da sociedade, lutando para viver com ela, e fazendo poesia dentro dela. Mescla questões amorosas com outras existenciais mais complexas: nascimento, maturidade, precariedade no mundo.

No Poema de Sete Faces notamos que o poeta é expectador de si mesmo por meio de um eu que cria o poema e ao mesmo tempo um eu que observa e dialoga consigo mesmo no decorrer do processo de criação.

POEMA DE SETE FACES

 

Quando nasci, um anjo torto
(intertextualidade bíblica a ser tratada).
desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

(dialoga consigo mesmo, os valores mudaram,

valoriza-se o material, o artista fica à margem).
As casas espiam os homens
(personificação da cidade)
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
(pensamento metonímico, sem ligação aparente)
Não houvesse tantos desejos.
(técnica cubista de fragmentar imagens)
O bonde passa cheio de pernas:
(bonde=coletividade presente)
pernas brancas pretas amarelas.
(em série, como máquinas reproduzindo).
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta o
(divórcio entre olhos e coração, divisão do ser)
meu coração, porém meus olhos não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
(o amadurecimento, o costume).
é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos amigos, raros amigos,
O homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus porque me abandonaste
(retomada da intertextualidade bíblica, citação).

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
(repetição retórica, que enfatiza).
Se eu me chamasse Raimundo

Seria uma rima, não seria uma solução.

(crise, todo impasse da descomunhão do homem
com o mundo).

Mundo mundo vasto mundo

mais vasto é o meu coração.
Eu não devia te dizer
(dificuldade de expressar-se, sentimentos dispersos)
Mas essa lua
Mas esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade (1930, Alguma Poesia).

 

O “Poema de Sete Faces” de Carlos Drummond de Andrade traz em seus versos um dos principais conceitos de lírica moderna: lírica é sensibilidade e as palavras são insuficientes para expressá-la, para dar conta da vida diante da intensidade das emoções que o mundo moderno trouxe ao poeta. Carlos Drummond, que se auto denomina “ gauche ”, assim o é porque tem algo dentro de si “inquieto e vivo”, um lirismo que destoa do mundo moderno em ebulição, que resiste à cosifisicação, e que, no entanto, o mantém de olhos pregados no seu tempo (inserido socialmente com escreve Adorno).

Isso faz com que através de questões pessoais o poeta discuta questões universais. A modernidade que questiona o “eu” no mundo deixa o sentimento disperso gerando o impasse da dificuldade de relacionar-se. Podemos aplicar no poema o que os críticos chamam de não porosidade, ou seja, o divórcio do eu com o mundo, de forma que entre escrever e sentir surge um abismo insuperável.

No referido poema, Drummond toma para si a antiga missão do “Vate”, pois anuncia uma emoção ainda não captada, compreendida ou sentida pelos demais. Isso o faz um poeta maduro, consciente de seu ofício e de sua função, competente para a tarefa de dar forma concreta, atual e complexa à abstração do mundo.

Intertextualidade Bíblica

A Anunciação (Lucas 1. 26-33)

No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Entrando onde ela estava, disse-lhe: “Alegra-te cheia de graça, o Senhor está contigo!”. Ela ficou intrigada com essa palavra e pôs-se a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, porém acrescentou : “Não temas Maria! Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e tu o chamarás com o nome Jesus. Ele será grande, será chamado filho do altíssimo, e o Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim.

Carlos Drummond de Andrade em seu Poema de Sete Faces manifesta seu pensamento determinista e maniqueísta: “Quando eu nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida”. Fazendo alusão clara e oposta ao texto bíblico da anunciação do Messias. Determinista porque assim como Jesus é enviado para reinar eternamente, o poeta é fadado a ser gauche na vida. Maniqueísta, porque enquanto o primeiro é anunciado por Gabriel anjo dos principados, mensageiro de Deus todo poderoso, o segundo é lançado no mundo por um anjo torto, que vive nas sombras: “Vai, Carlos! Ser guache na vida”, Torto, marginalizado como o próprio anjo o é. Trata-se de um dialogismo conflituoso, o poeta desconstrói o mito e faz da anunciação de seu nascimento, algo não jubiloso, e sim fadado ao sofrimento.

“Mosaico de Citações...”

Num segundo momento Drummond faz nova alusão às escrituras sagradas. Em Marcos, capítulo 15, versículos de 33 a 35, podemos ler: “À hora sexta, houve trevas sobre a terra, até a hora nona. E, à hora nona, Jesus deu um grande grito, dizendo: “Eloi, Eloi, lema sabachtháni?”que traduzindo, significa: “ Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”.

Trata-se aqui, de uma citação de Jesus ao Salmo 22 de Davi:

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
As palavras do meu rugir estão longe de me salvar!
Meu Deus, eu grito de dia, e não me respondes,
De noite, e nunca tenho descanso...

 

No verso de Drummond temos: “Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco”. O poeta reclama proteção divina, uma vez também lançado num mundo de conflitos. Nesse ponto a intertextualidade é contratual, apesar de crítica. Deus não socorreu Jesus, pois o sabia divino, deveria socorrer o poeta, sabendo-o fraco.

Os discursos poéticos são caracterizados por ambivalência intertextual, tanto para construção, reprodução ou transformação de sentidos. Drummond, por sua presença marcante na literatura brasileira, tem influenciado gerações de poetas quer pela ironia presente nos poemas que satirizam costumes sociais, quer pelo uso da linguagem coloquial e versos livres que aparecem tanto em poemas-piada e canções populares quanto em obras elaboradas com longo desenvolvimento. É o que faz Adélia Prado em seu poema “Com licença poética” (a obra não será tratada nesse momento) e Chico Buarque de Hollanda na canção “Até o Fim”. Deixando de lado o componente melódico da canção e analisando apenas a letra podemos perceber, claramente, a intertextualidade com o Poema de Sete Faces e toda sua carga semântica contratual. Vejamos:

Até o Fim

 

Quando eu nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
(categoria angelical inferior à que anunciou Jesus)

E decretou que eu tava predestinado

A ser errado assim
Já de saída minha estrada entortou
(predestinado a dificuldade)
Mas vou até o fim
Inda garoto deixei de ir à escola
(dificuldade de prosseguir estudos)
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
(sem acesso ao esporte).
Nem posso ouvir clarim
(sem acesso à arte clássica)
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
(brasileiro artista nato)
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
(porém, sem acesso à cultura).
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas

Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir minhas mazelas
(sem voz ativa na sociedade)
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro, acabou minha renda
(E agora, José?).
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
(E agora, José?).

O que será de mim?

Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim

Como já disse era um anjo safado

O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Chico Buarque de Hollanda

Buarque não fala de um “Anjo torto, que vive nas sombras” ou de um “Arcanjo Gabriel iluminado”, fala de um anjo querubim, categoria angelical inferior, e o denomina “safado”, termo popular que esteriotipa o próprio brasileiro malandro, que necessita ser esperto para vencer na vida. O anjo “chato” o predestina a ser todo ruim. Temos na letra da música de Buarque a mesma temática de Drummond.

A letra da música narra a problemática do brasileiro, que enfrenta todo tipo de diversidade na vida, em especial do nordestino, já que a letra fala em Quixeramobim, cidade cearense. Falando do difícil acesso à escola, à arte, ao esporte, o compositor ressalta a persistência positiva, nata do brasileiro, em seguir em frente, lutar, ir até o fim, mesmo sem proteção divina ou terrena. É interessante perceber que Buarque faz alusão a outro poema conhecidíssimo de Drummond, do mesmo livro “Alguma poesia”: Observemos:

José

“E agora, José?”. Está sem mulher,
A festa acabou, está sem discurso,
a luz apagou, está sem carinho,
o povo sumiu, Já não pode beber,
a noite esfriou, já não pode fumar,
e agora, José? cuspir já não pode,
e agora, você? a noite esfriou,
você que é sem nome, o dia não veio,
que zomba dos outros, o bonde não veio,
você que faz versos, o riso não veio
que ama, protesta? não veio a utopia
e agora, José? e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?...”

Analisando os campos semânticos, podemos concluir que se trata de um mesmo discurso, pois a composição de Buarque remete à poesia “José”, sendo possível fazer coro com Drummond no famoso clichê popular: “E agora, José?”.

Drummond

Está sem mulher
Já não pode fumar
Está sem discurso
A festa acabou
E tudo acabou
O bonde não veio

Buarque

Minha mulher fugiu com o dono da venda
Não tem cigarro
O que será de mim?
Quebraram meu bandolim
Acabou minha renda, deu praga no meu capim.
Minha mula empacou

Há no texto de Buarque intertextualidade (citação e alusão) com o texto de Drummond, uma vez que ele cita o Poema de Sete Faces. Há também interdiscursividade, já que Buarque se refere ao texto e ao discurso que ele manifesta. Sabemos que o inverso não seria propriamente necessário, interdiscursividade não implica intertextualidade.

Se concluirmos o estudo dentro de uma teoria semiótica de análise do discurso, podemos aplicar, no caso, o que escreve Diana Luz Pessoa de Barros, em seu texto dialogismo, polifonia e enunciação: “... o dispositivo veredictório que o enunciador estabelece no texto e o enunciatário interpreta, relacionam procedimentos discursivos e de efeito de sentido. A persuasão e a interpretação envolvem sistemas de valores, do enunciador e do enunciatário, que, como afirma Bakhtin, participam da construção dialógica do sentido”.

Ainda segundo Bahktin, a intertextualidade é, antes de tudo, “interna” das.vozes que falam e polemizam no texto, nele reproduzindo o diálogo com outros textos.

Os discursos dos textos poéticos apresentados têm relação imediata com as situações em que foram produzidos, ao que Bahktin chama de “discurso da vida cotidiana “dando a conhecer o homem social através dos textos·”.


BIBLIOGRAFIA

ADORNO, T. “As relações entre lírica e sociedade”. In: Os pensadores, São Paulo, Abril, 1980, v.1.

ANDRADE, Carlos Drummond. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 1998.

BARROS, Diana Luz Pessoa e Fiorin, José Luiz (orgs.). Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade. São Paulo: Edusp, 1994.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1989.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Nova Fronteira 1999.

FIORIN, J. Luiz. As Astúcias da Enunciação – Categorias de Pessoa, Espaço e Tempo. 2ª ed. São Paulo: Ática, 2002.

______. Elementos de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 1987.¨¨¨¨

HOLLANDA, Chico Buarque. Canção “Até o Fim”. 1978

TATIT, Luiz. Análise Semiótica Através das Letras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

A Bíblia de Jerusalém. São Paulo. Edições Paulinas. 1985