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Moreau em Itaparica: A distopia científica de João Ubaldo Ribeiro
Ana Claudia Aymoré Martins (Universidade Federal de Alagoas)
“Os animais têm alma?” Enfadado pela companhia do Dr. Sinval e outros membros não menos ilustres da comunidade médica da Itaparica de O sorriso do lagarto, o Dr. Lúcio Nemésio lança, abruptamente, em meio ao colóquio, essa questão. E prossegue:
Anima, animal, todo mundo sabe disso. Então, só têm alma etimológica ou têm alma mesmo? (...) A alma é um privilégio dos animais de maior complexidade orgânica? A alma é privativa dos mamíferos superiores? Dos primatas?(...) Primata, homem, tudo isso é por acaso, uma coisa fortuita, um acidente. (...) Só o ser humano tem alma? O que é o ser humano?(...) Quem tem alma, o que tem alma? [1]
Enquanto metralha sua audiência com essas provocativas questões, o renomeado cientista não pode deixar de se irritar com o que considera comportamentos atrasados e ofensivos de seus interlocutores: os “relinchos” de seus colegas médicos, os “gestos ornitóides” de Sinval, as “rinchavelhadas asnais” do Dr. Fontana e, last but not least, os terríveis rituais dos cumprimentos entre os amigos – “batidinhas, apertinhos, alisadinhas, sacudidinhas e outros tipos de toque, como cachorros que se encontram e ficam se cheirando” [2] .
Em breve o leitor desse romance de João Ubaldo Ribeiro descobrirá, junto com o protagonista da trama – João Pedroso, biólogo brilhante que há tempos prefere se dedicar a uma peixaria do que à atividade científica – que este mesmo Dr. Nemésio encabeça uma experiência secreta na ilha, produzindo em seu laboratório as mais variadas espécies de híbridos. E não tardará a evocar, com essa descoberta, a lembrança de outra trama ficcional - A Ilha do Dr. Moreau (1896), de H.G. Wells. Uma ilha paradisíaca, evocando um cenário recorrente nas utopias; um cientista de ambições prometéicas, buscando o domínio absoluto sobre a natureza; criaturas híbridas, configuradas como seres apenas meio-humanos: motivos que se repetem e aproximam essas duas obras literárias, separadas por um século e um oceano. Na rede de nexos intertextuais com o romance de Wells, O sorriso do lagarto atualiza, sobretudo, o tema da distopia científica, ou da ficção literária como narrativa que traduz as expectativas e os temores engendrados pela expansão da ciência e da técnica, em especial no que diz respeito à relativização da própria categoria do humano. Questão explorada pela literatura moderna, pelo menos desde o Frankenstein de Mary Shelley, a transformação dos paradigmas do humano, ou mesmo a criação de novas espécies que subvertem a ordem natural e ameaçam a supremacia do Homo sapiens, aponta para a derrocada dos ideais iluministas da autonomia e dignidade humanas, da racionalidade como critério absoluto, da história como percurso progressista da humanidade rumo a um absoluto bem-estar material e social. Como as criaturas de Moreau, os seres híbridos formados pela equipe do Dr. Nemésio são monstruosos justamente por seu caráter subversivo da ordem, pela possibilidade mesma de sua existência, o que corroboraria a tese da inexistência de fronteiras entre o humano e o animal – em última análise, na inexistência da alma para além da “origem etimológica” evocada pelo cientista.
Não se pode esquecer que os primeiros grandes impactos no sentido do “desencantamento” do homem em relação à sua suposta origem e semelhança divinas são contemporâneos do supracitado livro de Wells, e confessadamente exerceram grande influência sobre o mesmo – as teorias darwinistas, suas releituras e vulgarizações nas últimas décadas do século XIX, e as considerações de Freud sobre a natureza humana, sempre em precário equilíbrio entre o respeito às normas sociais e os instintos básicos de agressão e libido. Em seu romance, Wells utiliza em grande parte as discussões intelectuais de sua época, resultantes desses novos paradigmas (além, é claro, de sua própria formação científica), para questionar os limites da razão humana, impotente frente aos imperativos biológicos que comandam qualquer espécie. No prefácio escrito para uma das primeiras edições de A ilha do Dr. Moreau, o autor enfatiza que seu romance foi escrito para que se pudesse visualizar um quadro bastante eloqüente da “concepção dos homens como feras amputadas, confusas e atormentadas” [3] , enquanto que em um de seus ensaios científicos da juventude o mesmo Wells já havia definido o homem como o “macaco culminante”.
Se a monstruosidade das criaturas que habitam os romances de H.G. Wells e João Ubaldo se traduz em sua própria existência, sua presença na economia dos respectivos textos não poderia deixar de ser – como é, em ambos os casos, fugidia à fixação visual, ou impressionista, para utilizarmos o termo criado por Michael Fried em um de seus artigos sobre o romance de Wells [4] . Em A ilha do Dr. Moreau, a insistente incapacidade do protagonista em visualizar as criaturas de forma a apreender sua legítima condição se dá, em parte, pelo olhar preconceituoso típico do colonizador inglês, que não consegue ver nas quimeras criadas por Moreau, ao longo do primeiro terço da narrativa, mais do que brutos, selvagens ou mestiços, com tamanhas dificuldades de articulação da linguagem e raciocício tão lento e tortuoso que poderiam ser tidos como “pouco mais que idiotas”. No entanto, mesmo após descobrir a verdade sobre as experiências levadas à frente pelo cientista em sua “Casa da Dor”, Prendick ainda tem, durante todo o relato de sua vida na ilha, dificuldades bastante evidentes em reconhecer os traços de humanidade naqueles animais aperfeiçoados para imitar o modelo humano. Ironicamente, a única passagem na narrativa em que Prendick se reconhece de fato em uma das criaturas, é a do seu encontro com a mais selvagem das criaturas de Moreau – o temível Homem-Leopardo:
Pode parecer uma estranha contradição – eu não consigo explicar o fato – mas agora, vendo a criatura numa atitude perfeitamente animal, com a luz brilhando em seus olhos e sua face imperfeita distorcida de terror, percebi novamente o fato da sua humanidade. Outro de seus perseguidores poderia vê-lo logo em seguida, capturá-lo e dominá-lo, para que ele experimentasse uma vez mais as torturas terríveis do laboratório. Saquei meu revólver abruptamente, mirei entre seus olhos apavorados e atirei. [5]
A leitura de A ilha do Dr. Moreau nos possibilita interpretar a parábola de Wells de forma especular, de modo a que as criaturas humanizadas de Moreau reflitam os mergulhos inevitáveis da humanidade civilizada no animal interior – evidência que se acentua ainda mais no retorno de Prendick à civilização, quando toda a população de Londres passa a ser, sob sua ótica, animalizada. Nesse sentido, a execução do Homem-Leopardo pelo protagonista com um tiro na testa – justificada como um ato de misericórdia – torna-se, também, uma estratégia imperfeita de auto-defesa: ao desfigurar o rosto bestial à bala, o que o herói da trama busca, desesperadamente, é também esquecer que ali viu o reflexo de si mesmo.
Em O sorriso do lagarto, a estratégia narrativa da descrição “impressionista” é ainda mais acentuada. As criaturas do Dr. Nemésio nunca são vistas, de fato, a não ser por personagens marginais da trama, e assim mesmo de forma fortuita e obscura, sendo que os únicos elementos que se destacam do emaranhado incompreensível de suas figuras são, justamente, numa referência explícita ao romance de Wells, os olhos.
(...) quando seus olhos bateram nos olhos delas, viu que não eram gente, que eram fruto de alguma coisa diabólica, que eram gente e não eram, eram como se fossem meias-almas e talvez não existisse alma neles, e os olhos, os olhos, os olhos! [6]
Das quatro fotografias tiradas das monstruosas crianças – única prova de sua existência – duas estão desfocadas e sub-iluminadas, e as outras duas levam a uma apreensão apenas parcial da aparência de seus retratados, fotografados de perfil ou com parte do rosto oculto:
A primeira e a segunda [fotografias] eram efetivamente pouco mais que borrões. Via-se do lado esquerdo da primeira o que aparentava ser a parede de uma casa de varas e, do lado direito, meio agachado, um vulto que podia ser de gente, mas também podia ser um animal ou até um objeto. A segunda era quase igual à primeira (...). A terceira assustou João Pedroso, que a levou para baixo de uma luminária. O torso, meio de perfil, de um menino muito estranho aparecia bem visível, embora pouco iluminado. Nariz chatíssimo, quase imperceptível, prognatismo inferior muito acentuado, formas estranhas.
- (...) Este é mais cabeludo, os outros são bem menos. Nunca tive tempo para observar direito, mas acredito que há muitas diferenças entre eles (...). E aqui está a quarta foto.
João Pedroso estremeceu, quase deixa cair a foto. (...) parcialmente oculto pelo que aparentemente era um braço de mulher negra, estava, de frente, um rosto que o sobressaltou (...). Que havia de diferente naquela cara? Sim, era de gente, mas não era de gente. Estava assustada, os olhos arregalados, a pele pregueada sob o lábio inferior, os cabelos das maçãs do rosto arrepiados, os dentes estranhos à mostra, gigantescas orelhas de abano e as narinas muito largas. [7]
Em nenhum outro momento de uma trama razoavelmente longa as criaturas são descritas novamente. Finalmente, essas fotografias são destruídas por Lúcio Nemésio, fazendo de João Pedroso o único depositário da verdade sobre elas. Testemunha de uma história inacreditável, com sua credibilidade abalada por uma recaída ao alcoolismo e pelas tramas engendradas pelo vingativo Ângelo Marcos (após a descoberta do romance entre ele e sua esposa, Ana Clara), João Pedroso acaba por ter um fim trágico, o qual impede definitivamente a revelação das experiências atrozes realizadas na ilha.
Criadas a partir do desenvolvimento de técnicas de transferência de material genético de outras espécies a embriões humanos, as criaturas híbridas não são, no entanto, as únicas que se revestem de traços de bestialidade na Itaparica de O sorriso do lagarto . No decorrer da trama, numa forte evocação à pessimista visão de Wells sobre a humanidade, multiplicam-se tanto os exemplos quanto os sentidos que o autor empresta a essa questão. Ora a referência se encontra nas incongruências do comportamento social, como na passagem já descrita do colóquio entre o Dr. Nemésio e as demais autoridades médicas da ilha, ora a animalidade se associa com o erotismo e a irracionalidade das paixões – em diversas passagens da relação amorosa entre Ana Clara e João Pedroso, nos encobertos instintos homossexuais de Ângelo Marcos. Como em A ilha do Dr. Moreau, a associação entre homem e animal pode ser também o subterfúgio para o discurso racista, como no diálogo entre Ângelo Marcos e o Dr. Nemésio, a seguir:
- Você sabia que o animal mais parecido com o homem é o preto? – disse Ângelo Marcos a um dos garçons (...), que respondeu com um sorriso encabulado – (...) Esse moleque é meu afilhado – explicou (...) – Eu brinco sempre assim com ele, tenho um certo carinho por ele. (...) meu pai protegia o pai dele, que foi crioulo de serviços gerais da família muito tempo. (...) é uma verdade objetiva, que qualquer um pode comprovar, que o preto está mais próximo do chimpanzé ou do gorila do que nós (...), basta olhar para um branco, olhar para um preto e olhar para um macaco.
- (...) Dr. Ângelo Marcos, eu até gostaria que você me oferecesse elementos em contrário, (...) Mas acho difícil que você tenha esses elementos (...). Em primeiro lugar, a diferença entre você, ou eu, e um chimpanzé são dois cromossomozinhos fundidos, (...) Negócio aí de um por cento (...). Então, exceto se você acha que os negros não são seres humanos, caso em que o Dr. Sinval, por ser mulato, não existiria em circunstâncias normais, todos nós temos que ser parecidos com chimpanzés, de uma forma ou de outra. (...) o olho do branco, que é o olho dominante (...), só vê as semelhanças que, digamos assim, lhe interessam (...). Por exemplo, macaco é peludo, preto não é peludo, branco é peludo. O branco, nesse sentido, está mais perto do macaco. O cabelo do negro é crespo, o cabelo do branco é liso como o do macaco. Os lábios do macaco são finos, os lábios dos negros são grossos . [8]
É, ainda, o reconhecimento dessa mesma concepção racista dominante que faz o Dr. Nemésio optar por mulheres negras como progenitoras de suas criaturas: minimiza-se dessa forma o estranhamento com a estranha aparência dos híbridos pela associação bastante comum entre negros e símios. Escapando à auto-imagem enganosa da “democracia racial brasileira”, tão recorrente em nosso discurso cultural, João Ubaldo expõe o abismo que separa, no Brasil, uma elite branca e letrada, corrompida pelo poder e pelo dinheiro aplicado em contas no exterior, defensora da propriedade, das convenções sociais e da pena de morte, e uma grande maioria de excluídos, em grande parte negros e mestiços, degradados à condição animalizante que lhes é imposta pelo “racismo cordial” resultante da tradição escravista e patriarcal brasileira.
Enquanto isso, o lagarto sorri para o mundo a seu redor, um sorriso de mofa e “quase hostilidade” , segundo João Pedroso. Metáfora que perpassa a narrativa – mais um fantasma que a assombra do que propriamente um personagem seu – o lagarto de dupla cauda e seu sorriso representam o mal em suas inúmeras formas, desde uma concepção teológica daquilo que se opõe ao que haveria de divino no homem até como tradução dos princípios políticos do autor, de sua quase que visceral aversão à dominação do capitalismo estrangeiro sobre o Brasil – não podemos nos esquecer que o autor deixa claro em sua narrativa que as experiências realizadas em Itaparica são financiadas por empresas alemãs e norte-americanas – e à sua crítica da postura egocêntrica e destrutiva da classe dominante brasileira, representada pelos personagens de Ângelo Marcos, Bebel, Tavinho e Nando. Sob a ótica crítica do autor baiano, a permanência do mal se associa justamente a seus atributos de lagarto, animal polivalente e com uma incrível capacidade de regeneração de membros eventualmente mutilados. Em um de seus artigos, Wilson Martins nos mostra que O sorriso do lagarto pode ter sido inspirado, pelo menos em seu título e nas implicações metafóricas da imagem do lagarto que sorri, no livro O sorriso do jaguar de Salman Rushdie – o qual se refere, por sua vez, a certa quintilha do folclore nicaragüense na qual a menina sorri ao sair para passear montada num jaguar e, ao retornar, o jaguar havia engolido a menina e é quem então sorri. Num jogo de referências internas, o desfecho do romance de João Ubaldo já se anuncia no livro que Ana Clara tencionava escrever sob o pseudônimo de Amanda Cienfuegos, intitulado A ruindade recompensada – obra moral e educativa, contendo lições sobre o Amor, o Dinheiro e a Felicidade sem trabalho, bem como no texto nunca escrito por João Pedroso, acerca da crescente dominação do poder político e econômico sobre as pesquisas científicas [9] .
Porém, se sairmos do plano de crítica social para o plano das discussões biotecnológicas, as quais, no texto de João Ubaldo, incorporam ainda questões metafísicas, o embate entre o Bem e o Mal se torna menos maniqueísta e mais relativo – não é casual que o personagem de Ângelo Marcos seja um vilão no sentido mais clássico, enquanto o personagem do Dr. Lúcio Nemésio é mais ambíguo. Tal relativismo, que caracterizou também a obra de Wells justamente pelas dúvidas profundas do autor a respeito do lugar do homem no mundo, se expressa em O sorriso do lagarto em sua forma mais acabada no diálogo final entre o cientista e o padre Monteiro. Enquanto o discurso do padre esbarra freqüentemente nas fragilidades, inconsistências e lugares-comuns da doutrina cristã mais vulgarizada, a argumentação do Dr. Nemésio é tremendamente mais articulada, coerente e convincente (como o confessa posteriormente o próprio padre a si mesmo). Num contexto crescente de manipulação da natureza engendrado pelo desenvolvimento das novas tecnologias – o qual, note-se, acentuou-se ainda mais entre a primeira publicação do livro de João Ubaldo e os dias atuais –, o homem passa a ser a última fortaleza a ser invadida pela biotecnologia, e os parâmetros éticos dessas práticas biotecnocientíficas acabam por se basear muito mais numa concepção de humanismo próxima a do Dr. Nemésio do que nos escrúpulos religiosos de Monteirinho:
- Dr. Nemésio, o senhor (...) não acredita em Deus, o que cria um abismo entre nós, mas deve haver um conteúdo humanista em sua formação (...). O senhor não acha terrível criar-se um híbrido do ser humano com um animal e, ainda por cima, chamar esse híbrido de “apenas um novo animal”?
- Não, porque, como o senhor mesmo disse, não creio em Deus, ou seja, não creio que sejamos fruto do sopro divino. Para mim, somos animais ainda bastante primitivos, mas inteligentes e dominantes e com possibilidades de progresso. Meu humanismo é porque sou homem, é claro. Se a espécie dominante fosse o gorila e eu fosse gorila, eu seria um gorilista. O homem é apenas uma espécie temporária, num planeta temporário, num universo temporário, e o mínimo que pode fazer por si mesmo é utilizar a inteligência para prolongar mais seu poder sobre a Natureza. O resto é pensamento voluntarista ou superstição, ou ambas as coisas. (...)
- Para mim, isso é extinguir a Humanidade, tal como a conhecemos. Para mim, é o homem se tornando inimigo do homem, deixando o adversário que traz dentro de si vencer, fazendo com que se volte contra si mesmo. É como se fosse a obra de Satanás.
- Sim, Satanás, há-há! Satanás quer dizer “inimigo”, não é? Neste caso, eu seria Satanás (...). Eu sou inimigo de Deus, sim, embora o considere um inimigo fictício (...). É uma espécie de humanismo radical (...). Chega de entregar tudo às mãos de Deus, temos que pegar as coisas com as nossas próprias mãos, decidir até mesmo quando queremos morrer, em vez de nos entregarmos a uma esperança masoquista e angustiada, de que não escapam os próprios teístas, que, apesar de sua imortalidade, também têm medo de morrer. Deus não existe e, se existe, é preciso tomar dele o poder, ele não tem sido competente, para um onipotente tem um desempenho muito pouco satisfatório. E então, diante do exposto, o senhor tem razão, de fato eu sou Satanás, o senhor tem razão, é mais do que lógico . [10]
A decodificação do genoma humano e o desenvolvimento das técnicas de clonagem constituem no passo derradeiro desse processo de dessacralização da natureza humana, que Wells assistiu em sua gênese, e formulou na forma da distopia ficcional do Übermenschen, inspiradora, nos últimos cem anos, de autores tão diversos como Aldous Huxley, George Orwell, Philip K. Dick, J.G. Ballard e Michel Houellenbecq. João Ubaldo Ribeiro e seu Moreau de Itaparica certamente não deixam de beber nesta mesma fonte wellsiana, tanto em sua ênfase na mirada do homem como espécie biológica – e na parcialidade e transitoriedade de seu domínio sobre o mundo, se o encararmos como tal – quanto no questionamento dos desdobramentos morais, filosóficos e sociais da hubris científica. A grande novidade, nesse caso, está justamente no arranjo destes motivos comuns de forma a não somente ressemantizar problemas contemporâneos universais, mas utilizá-los igualmente para se questionar as premissas e ações de uma elite, tanto intelectual quanto social, sobre o Brasil e sobre milhões de brasileiros, miseráveis e servis como animais domesticados.
[1] RIBEIRO, João Ubaldo. O sorriso do lagarto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. pp. 75-76.
[2] RIBEIRO, ibid. p. 72.
[3] Apud KEMP, Peter. H.G. Wells and the culminating ape. Biological imperatives and imaginative obsessions. London / New York : MacMillan Press/St. Martin's Press, 1996. pp. 4-5. A tradução é minha.
[4] Cf. FRIED, Michael. “Impressionist monsters: H.G. Wells's ‘The island of Dr. Moreau '”. In: BANN, Stephen (ed.). Frankenstein: creation and monstrosity. London : reaction Books, 1994. pp. 95-112.
[5] WELLS, H.G. The island of Dr. Moreau . New York : The Modern Library, 1996. p. 131. A tradução é minha.
[6] RIBEIRO, Op. Cit. p. 186.
[7] RIBEIRO, Op. Cit. p. 283.
[8] RIBEIRO, Op. Cit. pp. 144-149.
[9] MARTINS, Wilson. “João Ubaldo Ribeiro, um caso de populismo literário.” Iberomania, n. 38, 1993. Apud: http://www.secrel.com.br/poesia/wilso03.html Acesso em: 22 de março de 2004.
[10] RIBEIRO, Op. Cit. pp. 380-382.