FRONTEIRAS E AMBIGÜIDADES ENTRE A PERCEPÇÃO DO SÓLITO E DO INSÓLITO NA NARRATIVA DE FICÇÃO: QUESTÕES DE GÊNERO LITERÁRIO


Coordenadores
Prof. Dr. FLAVIO GARCÍA (UERJ/UNISUAM)
Prof. Dr. MARCELLO DE OLIVEIRA PINTO (UERJ/Souza Marques)
Profa. Dra. MARIA GERALDA DE MIRANDA (UNISUAM/UNESA)
Resumo: Todo e qualquer gênero literário se define a partir do conjunto de categorias – similares e reunidas – que o distingue de outros gêneros, tanto como manifestação específica de uma tendência delimitada por um determinado contexto histórico, quanto pela eloqüência de seus elementos determinantes. Destarte, uma categoria não costuma aparecer na composição de um único gênero e pode ser observada tanto numa perspectiva diacrônica como sincrônica. A manifestação de dada categoria em diferentes gêneros implica sua singularidade, evidenciada na historicidade de sua manifestação. Na narrativa de ficção, pode-se verificar a irrupção de eventos insólitos, vendo-se o insólito como uma categoria que engloba o extraordinário, o sobrenatural, o estranho, o absurdo. Interpretar as nuances de como esta categoria se manifesta em cada narrativa leva à proposição de inscrevê-la em determinado gênero: maravilhoso, fantástico, estranho, sobrenatural, realismo maravilhoso (ou mágico), absurdo... Mas as fronteiras são tênues, e a percepção do evento insólito está, ela mesma, muitas vezes, comprometida pela ambigüidade própria do texto literário. Sólito ou insólito; maravilhoso ou fantástico; fantástico, sobrenatural ou estranho; fantástico ou realismo maravilhoso; absurdo? São traços de diferentes estratégias de construção narrativa que se imuscuem, permitindo propor a existência de um sistema literário real-naturalista, mais comumente relacionável à representação referencial da história, em oposição (ou não) a um sistema do insólito que, diversas vezes, manifesta outras possibilidades de se representar a apreensão histórica. Trata-se de um trânsito em mão dupla por sendas fronteiriças e ambíguas. "

Subtema: Gêneros literários: fronteiras e ambigüidades

A escritura como manifestação epifânica do encontro de alteridades em A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector
por Adriana Stefens

Resumo
O presente trabalho tem como objetivo analisar os efeitos produzidos pelo discurso amoroso no romance A Paixão Segundo G.H. (1964), de Clarice Lispector. Trabalhamos com a hipótese de que a narradora-personagem representa, pela escritura, sua experiência de alteridade. Através da performance escritural, ela trabalha metáforas que podem ser comparadas ao ato de escrever indagativo e aos efeitos produzidos pela escritura epifânica, pois, após a personagem tomar consciência de sua existência, está apta a narrá-la. G.H. precisa da forma escritural para compreender, apreender e formalizar a realidade vivenciada. A escritura amorosa de G.H. é uma manifestação poética do encontro de alteridades. Escrever, para ela, é uma tentativa de dar sentido ao que experimentou (a barata) e pela escritura (forma), reviver, de forma poética, essa experiência. A experiência da alteridade pode ser percebida na contraposição de G.H. em relação ao outro, representados na figura da Janair, da barata e do interlocutor imaginário. Mas, somente a experiência da escritura consegue promover acabamento ético e estético à experiência vivida e, verdadeiramente, iluminar a consciência da narradora-personagem. A narradora-personagem perscruta sobre o sentido e o limite da palavra poética, portanto, o relato da narradora G.H. é a manifestação concreta da forma de uma consciência estética.

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"O vendedor de passados:" entre o real e a ficção.
por Alexsandra Machado

Resumo
"O vendedor de passados", romance do escritor angolano Eduardo Agualusa, aborda, a partir de uma ludicidade literária, temas como a história de Angola, sua herança cultural e as conseqüências de um processo híbrido de colonização no qual a ficção e o real entrelaçam-se durante toda a narrativa. Nesta história, existe um viés literário que mescla "passados" fictícios com realidades não menos verossímeis. Surge, então, o sólito e o insólito, quando o autor expõe o drama de uma osga com as lembranças de uma encarnação humana, a existência de alguém que constrói e reconstrói "passados", a insistência em validar estes passados e, enfim, a existência de um país em processo de reconstrução através de metáforas e analogias que permeiam toda a narrativa.

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AS MUITAS VOZES DE UMA RESENHA CRÍTICA: por uma concepção interativo-dialógica da linguagem
por ANA MARIA PIRES NOVAES

Resumo
Na perspectiva polifônica da linguagem, as resenhas críticas passam a ser vistas como feixes de outras vozes, cuja finalidade é obter credibilidade e autoridade para a voz do enunciador. Ao avaliar as informações contidas em um livro resenhado, aquele que enuncia traz para si a responsabilidade daquilo que é dito. A heterogeneidade se revela nas marcas lingüísticas presentes nos textos: discurso direto, uso das aspas, discurso indireto ou paráfrase, conectores ou operadores argumentativos, formas pronominais de primeira ou terceira pessoa, expressões valorativas, entre outras. Neste trabalho, com base nos conceitos de dialogismo, interação e polifonia, amplamente discutidos por Mikhail Bakthin, analisaremos a inserção da voz do autor do texto resenhado e do dizer de outros autores.

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A literatura do medo nos contos de Clarice Lispector
por Carolina Prospero

Resumo
A presente pesquisa busca explorar um aspecto ainda pouco trabalhado da obra da escritora Clarice Lispector: o medo. Embora os textos da autora tradicionalmente não sejam associados à literatura do horror, indícios do interesse de Lispector pela temática do medo podem ser observados em suas crônicas, traduções e pinturas – produções que revelam inúmeros traços auto-biográficos da escritora – além de serem notados em grande parte de seus romances e contos. Estas evidências nos levam a traçar um panorama deste sentimento em seus contos, observando como ele se manifesta e como conduz a caracterização e a ação das personagens. Trabalhando com a hermenêutica do medo e discutindo determinados traços presentes na escrita da autora, investigaremos quinze contos selecionados da obra de Lispector que, cronologicamente, contemplam toda a sua trajetória de contista. Teremos como elemento comparativo a literatura de horror sobrenatural que se constrói a partir do século XVIII – concentrando-nos principalmente nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Algernon Blackwood. Além disso, o conceito freudiano de unheimlich, as teorias do conto maravilhoso de Propp e a relação que o filósofo Kierkegaard estabelece entre medo e liberdade são algumas das bases teóricas deste trabalho. Análises preliminares nos mostram duas possíveis vertentes observadas nos contos da autora: uma delas abriga a criação cuidadosa de ambientes assustadores e momentos extremamente tensos em seus textos, resgatando elementos da tradição das histórias de horror, e a outra sustenta um novo direcionamento do medo que abrange o “eu”, o outro e a difícil compreensão da existência.

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Uma Herança Gótica na Narrativa Raciocinante de Edgar Poe: a "Grotesqueria" Humana.
por Ederson Vertuan

Resumo
O presente trabalho discute alguns aspectos do romance gótico herdados pela narrativa de raciocínio de Edgar Allan Poe, e mostra como, apesar das dessemelhanças entre os dois gêneros, o conto raciocinante poeano manteve elementos típicos do romance gótico, como a monstruosidade e a "grotesqueria". Além das heranças tipicamente góticas que apresenta, como o emprego de cenários característicos ou de alusões supersticiosas, e mesmo tendo eliminado as góticas convenções literárias do imaginário e do sentimentalismo, o nascente gênero policial manteve a alusão ao monstruoso, não de natureza sobrenatural, mas, relacionado à própria monstruosidade humana. Por tratar de outras formas de medo, como o medo do crime, e por revelar que a monstruosidade reside no próprio homem e não em forças sobrenaturais, o gênero raciocinante e detetivesco de Poe mostra-se como uma espécie de romance gótico adaptado aos tempos modernos.

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Tensões entre o “sólito” e o “insólito” em Mário de Carvalho
por FLAVIO GARCIA DE ALMEIDA

Resumo
Como já destacara Lenira Marques Covizzi em O Insólito em Guimarães Rosa e Borges (Ática, 1978), “a tendência irrealista ou de realismo mágico na literatura ocidental do[s] nosso[s] século[s XX e XXI] corrobora a dúvida sobre a realidade de tudo, encarando-se como realidade a padronização que se convencionou chamar realidade.” (p. 42) Têm-se “duas realidades que se fundam num mesmo e essencial recurso, colabora[ndo] para trazer a dimensão mais próxima do real, daquilo que se encontra hipo ou hipertrofiado, ou seja, em crise.” (p. 42) “Crise de valores porque a realidade convencionada, seus conceitos e representações não são mais aceitos sem dúvida.” (p. 27) Contudo, a literatura desses tempos de crise “não é uma ficção de simples fuga, mas principalmente o testemunho de um sistema de vida paradoxal através de sua expressão.” (p. 39-40) “Trata-se de uma literatura que não se quer, também ela, realidade.” (p. 29). Dois sistemas literários – ou macro-gêneros – coexistem – um de matiz real-naturalista e outro de matiz insólita –, ambos manifestando representações da realidade circundante que o imaginário humano apreende. Ainda evocando Covizzi, “a aludida constante, que batizamos de insólito, no sentido do não-acreditável, incrível, desusado, contém manifestações congêneres que englobamos como tal: ilógico (...), mágico (...), fantástico (...), absurdo (...), misterioso (...), sobrenatural (...), irreal (...), supra-real” (p. 36), fartamente referidas na conceituação de variados gêneros estudados pelas história e teoria literárias. A produção ficcional do escritor português Mário de Carvalho é um exemplo de convivência, nem sempre harmoniosa, dessa literatura de tempos de crise, crise pós-moderna, contemporânea, em que sólito e insólito se manifestam em “um trânsito em mão dupla por sendas fronteiriças e ambíguas”.

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La problematización del género literario a través del concepto de ficción en tres novelas de Nelson Rodrigues.
por Gabriela Moreno

Resumo
Esta ponencia presentará tres novelas de Nelson Rodrigues. En ella la ficción legitima el folletín novelesco como producción literaria, pues evidencia las potencialidades performativas de estas historias. Las variadas e inverosímiles versiones de las tramas sus alteraciones, contradicciones y reiteraciones demuestran que en el folletín el objeto de representación se deslastra de su función referencial para repetirse una y otra vez, como la refracción en un juego de espejos. Como dice Guillermo Loyola, esta multiplicidad propicia una interrogación no sobre ya la veracidad de la voz, sino sobre el cuerpo. Sobre esta amalgama de lo empírico y lo imaginario se asienta gran parte de la producción de Rodrigues. Desde una progresiva des-integración de cada uno de los elementos formales que debieran constituir las estructuras de género (periodismo, teatro, narrativa) el autor recrea el universo a su manera. Ello supone una línea de ruptura y, a la vez, un elemento integrador de lo literario, pues la ficción desborda el problema de la representación al introducir un nuevo código en la producción de sentido. Rodrigues logra complejizar lo literario situándose al margen. Así el problema de la legitimación de un género consiste en la relegitimación de sus modos de lectura.

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Jacó Mula e Azarías: a alienação crítica e o insólito nas obras de Delibes e de Assis Brasil
por Jorge Paulo de Oliveira Neres

Resumo
Nesta comunicação aborda-se questões referentes à loucura e ao insólito presentes nas narrativas de Luiz Antônio de Assis Brasil , Videiras de cristal, e de Miguel Delibes, Los santos inocentes, a partir dos perfis das personagens Jacó Mula e Azarías, respectivamente de cada um dos romances. Observa-se que a elaboração das narrativas é fundada numa polifonia na qual, nos momentos em que o extraordinário/maravilhoso/estapafúrdio são inseridos no enredo, a voz do alienado é a que se faz presente, como um recurso narrativo para se burlar uma pretensa coerência da realidade empírica. A obra de Assis Brasil, tem como matéria de extração histórica a revolta dos mucker, ocorrida no Rio Grande Sul, evento messiânico que tem como principal protagonista Jacobina Maurer, que se intitula um novo Cristo. O romance de Delibes, de ruptura com a narrativa realista, apresenta em suas frestas rubricas da Guerra Civil Espanhola, mas se nos afigura muito mais como um relato poético de situações opressoras atemporais.

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O romance gótico e a obra de Cornélio Penna
por JOSALBA SANTOS

Resumo
O clima de mistério que perpassa a obra de Cornélio Penna (1896-1958) – Fronteira (1935), Dois romances de Nico Horta (1939), Repouso (1948) e A menina morta (1954) – é intrigante. Principalmente porque não existe uma tradição do gênero na literatura brasileira. O que intensifica a curiosidade do leitor é o fato de não se tratar do romance gótico tradicional. É verdade que algumas das características dessa estética são encontradas com facilidade: atmosferas penumbrosas e soturnas, narrativas fixadas no passado, ambientes isolados, monstros, fantasmas. Porém, esses elementos por si só não são suficientes para uma classificação rígida. No romance gótico eles têm uma função: dar sustos, deixar o leitor em suspense ou com medo. Na obra corneliana, o mistério encobre com a mesma intensidade que revela: não é um fim, é um meio. Meio que revela dissimulando um estado de violência ocasionado pelo patriarcalismo escravocrata.

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O horror na ficção literária: reflexão sobre o "horrível" como uma categoria estética
por Julio França

Resumo
“Gótico”, “sobrenatural”, “fantástico”, “terror” são alguns dos termos que concorrem para a difusa denominação de certos textos ficcionais em que o horror, físico ou psicológico, apresenta-se como um aspecto fundamental. Embora seja um subgênero literário bastante difundido em língua inglesa, a ficção de horror parece não ter a mesma representatividade na tradição literária brasileira. Em busca de respostas a essa evidência, iniciou-se um trabalho que, partindo da compreensão estética dessas narrativas, pretende identificar as condições (históricas, culturais) que contribuem para seu pequeno desenvolvimento em nosso país. A reflexão inicial proposta é a de pensar o “efeito do horror” em aproximação ao conceito de Sublime desenvolvido por Edmund Burke em A Philosophical Inquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful.

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O INSÓLITO NA OBRA DE JOSUÉ GUIMARÃES: A PRESENÇA DO REALISMO MÁGICO E DO GROTESCO
por Katia Luisa Seckler

Resumo
Tendo em vista a dificuldade em se encontrar uma resposta definitiva em meio às tênues fronteiras entre “fantástico”, “realismo mágico” e “alegórico”, este trabalho procura revisar tais conceitos a partir da leitura de Os tambores silenciosos, novela do ficcionista gaúcho Josué Guimarães. Com isso, pretende-se estabelecer um diálogo com as produções críticas já existentes sobre a obra de Guimarães, as quais se dividem em classificá-la como romance “mágico” ou “fantástico”, em função de seu caráter sobrenatural. O trabalho, por fim, propõe uma diferente possibilidade de leitura dos acontecimentos insólitos narrados no referido romance, com base no conceito de grotesco segundo as formulações de Mikhail Bakhtin e Wolfgang Kayser.

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Ficção, realidade e leitores: o insólito como questão.
por Marcello de Oliveira Pinto

Resumo
A partir da observação de elementos representacionais distintivos na estrutura narrativa, pretendo desenvolver uma reflexão sobre a literatura e os conceitos de ficção e realidade, debatendo o comprometimento destes com uma “representação objetiva” do já conhecido, ou sólito, ou o comprometimento com uma outra, o insólito. Em torno desta questão, emergem como elementos fundamentais o leitor e a recepção do texto literário, a construção destas representações e a possibilidade de se pensar um novo enquadre na paisagem dos gêneros literários.

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REPRESENTAÇÕES DA CULTURA MOÇAMBICANA: UMA LEITURA DE CADA HOMEM É UMA RAÇA, DE MIA COUTO
por MARIA GERALDA DE MIRANDA

Resumo
As narrativas contidas no livro Cada homem é uma raça, de Mia Couto, se alicerçam na cultura popular de Moçambique. Pode-se dizer também que em quase todas elas se mesclam elementos históricos e acontecimentos que podem ser considerados de natureza fantástica. Pretende-se com este estudo observar o modo pelo qual essas instâncias textuais (a fantástica e a histórica) se articulam nas narrativas e inquirir acerca de suas representações no tecido social da nacionalidade.

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Da Bruxa na Literatura Brasileira do Século XIX
por Maurício Menon

Resumo
A bruxa foi um dos seres ao qual mais se atribuiu malignidade e ligação com o demônio de que já se teve notícia, constituindo-se como um dos medos escatológicos do Ocidente em determinado período de tempo. É fato que a crença na existência da bruxa está intimamente associada ao medo e às suspeitas que se tinham da mulher, pela propensão, segundo se dizia, que esta demonstrava em ser enganada pelo Diabo. Isso produziu um imaginário fantástico/maravilhoso em torno do feminino que demorou muito tempo para começar a ser diluído pela razão. Se a História conduziu as bruxas às fogueiras inquisitoriais, a literatura, por sua vez, se apropriou dessa imagem na composição de personagens que permeiam textos de natureza fantástica, maravilhosa e, até mesmo, de textos que pertencem a outros gêneros. O presente trabalho pretende analisar algumas figurações da bruxa na Literatura Brasileira do século XIX, mostrando quais os contornos dados a elas em narrativas de autores canônicos, tais como Joaquim Manuel de Macedo, Aluísio Azevedo, Rodolfo Teófilo e Inglês de Souza. A perspectiva adotada será a do confronto entre dois textos que se enquadram no gênero fantástico/maravilhoso (A Nebulosa – Joaquim Manuel de Macedo; “A Feiticeira” – Inglês de Souza) e outros dois que pertencem à chamada estética realista/naturalista ( O Cortiço – Aluísio Azevedo; A Fome – Rodolfo Teófilo). A partir desse confronto, procurar-se-á evidenciar de que forma uma mesma figuração percorre gêneros distintos e neles se estabelece.

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A incoerência coerente: sobre "O homem duplicado", de José Saramago
por Odil José Oliveira Filho

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A tendência à alegoria nos últimos romances de Saramago parece ser fruto da necessidade de manter vivo o projeto estético realista desenvolvido desde as raízes neo-realistas de sua formação artística, passando pelos influxos colhidos do surrealismo e pelos diálogos estabelecidos com o realismo maravilhoso latino-americano. Nos últimos tempos, abandonando o passado histórico (a "estátua") para encarar a matéria bruta do presente (a "pedra"), o romance saramagueano, mantendo sua vocação realista, vale-se, então, do uso desse arriscado instrumento artístico que é a alegoria, em seu jogo sempre tenso e difícil entre o sólito e o insólito. Destaque para o romance "O homem duplicado", em que essas relações entre o realismo e o fantástico convivem dialética e harmoniosamente, compondo um dos momentos luminosos da obra romanesca do Autor.

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SIGNIFICADOS MÁGICO-EVOCATIVOS NA CONCEPÇÃO DO LIVRO. ESTÉTICA E TEOLOGIA DO IMAGINÁRIO MEDIEVAL.
por Pe. Pedro Paulo Alves dos Santos

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Para a leitura do texto cristão, por excelência, a bíblia foi fundamental à privilegiada primavera da história da literatura, ocorrida sob os estudos da historiografia francesa e européia, em particular, nestes últimos quarentas anos. Neste período, evoca-se o indispensável caráter de partir ineludivelmente, de seus resultados, para avançar em busca da realidade para toda a discussão historiográfica: a releitura dos sentimentos religiosos encarnados no imaginário da cultura e na mentalidade cristã, européia e medieval. Assim, o conceito de imaginário joga um papel decisivo na recepção de textos medievais, dadas às próprias circunstâncias da cultura religiosa. Sobretudo, ao pensar que a leitura medieval é eminentemente bíblica, e como a arte, desta depende o texto sagrado, como fonte. Os centros de cultura estavam baseados sobre a cópia e a conservação de manuscritos. As questões da interpretação permanecem nos muros dos mosteiros e ambientes eclesiásticos. Em outras palavras, a emergência do cristianismo (proto) Medieval está vinculada, desde o ínicio, ao desenvolvimento do ‘livro’ como instrumento intrínseco à suanatureza religiosa, e, ao mesmo tempo, crucial à suaestratégia cultural que exerceu sobre a sociedadecultaantigaumdeslocamento da função e do uso do livro.

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CAMPOS DE CARVALHO E A FICÇÃO LIBERTÁRIA: O INSÓLITO EM A LUA VEM DA ÁSIA
por ROBERTO JOSE BOZZETTI NAVARRO

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A lua vem da Ásia , cuja primeira edição é de 1956, é a narrativa conduzida por um louco, de início interno em um hospital psiquiátrico, e a seguir evadido, perambulando pelas ruas de cidades tão imaginárias quanto todo o universo em que vive seu narrador de nome protéico, narrativa rigorosamente dentro da imaginação produtora do espaço ficcional. Campos de Carvalho (1916-1998), seu autor – nome praticamente alijado, ou estranhamente subestimado da historiografia literária brasileira –, considerava esta novela sua primeira “produção adulta”, à qual viriam se juntar Vaca de nariz sutil (1961), A chuva imóvel (1963) e O púcaro búlgaro (1964). A comunicação que apresentamos visa a investigar a partir dos conceitos de mimesis e de mimesis da produção, o possível pacto que nortearia a (desejável) recepção da novela, em seu trânsito decisivo pelo insólito a partir do humor, do nonsense, do absurdo e do ato libertário de fundar, também a partir de uma memorialística imaginária, um universo ficcional que indica pouco considerar o sólito e os veios mais freqüentes da narrativa ficcional brasileira.

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O outro pé da sereia: ecos de Macondo em África
por Shirley de Souza Gomes Carreira

Resumo
Em O outro pé da sereia , de Mia Couto, o realismo mágico, presente na concepção dos espaços físicos, que evocam a Macondo do romance de Gabriel Garcia Márquez , bem como na confi guração das personagens, colabora para evidenciar a temática subliminar do romance, ou seja, os frágeis caminhos de elaboração da identidade em uma sociedade pós- colonial. Este trabalho propõe o desvelamento da tessitura romanesca, a fim de demonstrar como a imbricação entre o real e o imaginário, entre o fantástico e o verossímil, torna-se a via escolhida pelo autor para discutir as principais questões do mundo contem porâneo: a identidade, o sentido de pertencimento, o pós-colonialismo e o choque entre culturas.

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A fome e o limite
por Victoria Saramago Pádua

Resumo
O isolamento do mundo é, certamente, um tema recorrente na literatura fantástica. Seja em quartos fechados, masmorras, metamorfoses ou até mesmo por vocação profissional, apresentam-se personagens que, colocados à parte do convívio humano por longos períodos, vivem situações que desafiam sua capacidade de sobrevivência. Por vezes, essa sobrevivência para além dos limites humanos aproxima-se do sobrenatural, visto que tais personagens não teriam a princípio sequer como se alimentar. Com efeito, essa incerteza se encaixa perfeitamente na clássica definição do fantástico formulada por Todorov: uma hesitação perante um fenômeno estranho, que antecede a resolução da trama através de explicações naturais ou sobrenaturais. Nesse sentido, a alimentação do personagem isolado – ou sua ausência – revela-se um recurso extremamente interessante à manutenção ou à quebra da hesitação fantástica na narrativa, representando ao mesmo tempo uma perspectiva mínima de sobrevivência e uma constante lembrança da natureza mortal do homem. O presente trabalho, portanto, tem por objetivo investigar o papel da comida a que o personagem tem acesso, numa situação-limite, enquanto mecanismo narrativo no gênero fantástico. Para tanto, serão utilizadas obras de autores fundamentais ao gênero: “O poço e o pêndulo”, de Poe; A metamorfose e “Um artista da fome”, de Kafka.

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