CRÔNICA E DIÁRIO: GÊNEROS HÍBRIDOS I


Coordenadores
Profa. Dra. Gabriela Kvacek Betella (UNIFAI)
Resumo: O simpósio pretende congregar estudos sobre os gêneros situados na fronteira entre informação e literatura. Em termos mais específicos, são gêneros constituídos pelo relato objetivo (que remete à função referencial da linguagem) e pela elaboração subjetiva (que remete à função poética), equalizados na forma literária. Os objetivos do simpósio incluem: avaliação do contato entre esses relatos e formas mais elaboradas de ficção como o conto, exame de construções psicológicas e de elaborações fragmentárias, estudo do espaço retratado pelos textos, discussões sobre caráter pessoal, documental, coloquial e burocrático, estudo do humor e da ironia dos textos, reflexão sobre os momentos de criação, publicação e leitura, tendo em vista a temporalidade do sujeito e a aproximação aos veículos jornal, livro, arquivo ou acervo e, especialmente, averiguação das capacidades híbridas desses gêneros entre si e de cada um com a história cultural brasileira, levando em conta um dos princípios elementares desses discursos, a saber, a ausência de hierarquia para os assuntos, provando a famosa afirmação de Walter Benjamin segundo a qual "nada do que um dia aconteceu está perdido para a história."

Subtema: Gêneros literários: fronteiras e ambigüidades

Joaquim Manuel de Macedo como folhetinista panfletário: uma leitura de "A carteira de meu tio".
por Ana Luiza Reis Bedê

Resumo
O precursor do romance urbano no Brasil foi estigmatizado por várias gerações de críticos que o consideravam um criador de intrigas ingênuas para atender ao gosto das leitoras ávidas de histórias sentimentais. Joaquim Manuel de Macedo desenvolveu, porém, uma intensa crítica política e social a partir de 1867. Nesse veio, situa-se o folhetim "A carteira de meu tio", obra na qual Macedo condena a irresponsabilidade do homem público e o total desrespeito à Constituição de 1824. Nessa "crônica romanciada", para empregarmos a expressão de Tânia Serra, Macedo não faz crítica partidária como acusou José Veríssimo, mas um contundente libelo contra a corrupção, a concussão e a tirania do poder judiciário. ANA LUIZA REIS BEDÊ (USP)

 
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Cavando tesouros no quintal: relações entre crônica e ficção na obra de Lima Barreto
por BENITO MARTINEZ RODRIGUEZ

Resumo
O aparecimento nesta década de nova edição abrangente das crônicas de Lima Barreto reitera a importância de considerar-se diferentes aspectos das relações entre o fazer deste cronista e a sua produção ficcional. Um exame do ‘corpus’ limabarretiano pode contribuir para lançar luz sobre o projeto estético do autor de “Clara dos Anjos”, suas concepções quanto à linguagem e quanto ao papel da literatura no quadro da cultura. O adensamento do exame da fatura de sua obra já permite reavaliar certas concepções críticas sedimentadas ao longo do século XX, revelando muito mais organicidade e articulação em uma obra tantas vezes valorizada por seus aspectos temáticos, mas quase sempre depreciada por aquilo que seriam suas alegadas “falhas insanáveis de concepção” e, dentre estas, o seu caráter “pessoalíssimo”. Tal exame ademais pode oferecer elementos para uma reflexão sobre certas dicções que ganharam evidência no cenário editorial desde a década passada, nas quais problemas como os das mediações entre experiência, memória e escrita, assim como os relacionados aos variados aspectos dos processos de construção do valor literário constituem-se em questões da maior relevância. Serão examinados aqui alguns exemplos dessas articulações entre a ficção e a produção cronística de Lima Barreto.

 
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"Cemitério dos vivos", de Lima Barreto: entre o documento biográfico e a elaboração ficcional
por Fátima Cristina Dias Rocha

Resumo
A crescente relevância do biográfico-vivencial no cenário contemporâneo provoca não apenas o ressurgimento dos gêneros autobiográficos canônicos como a proliferação de novas modalidades de narrativa vivencial. Tanto as formas canônicas quanto as midiáticas respondem à compulsão atual pela autenticidade e pela vida do autor. Nesse contexto, impõe-se a releitura de uma obra como "Cemitério dos vivos", de Lima Barreto. Dividido em duas partes, o volume apresenta, na primeira, o "Diário do hospício", que reúne os apontamentos - feitos pelo autor em tiras de papel - relativos à sua segunda internação no "Hospício Nacional de Alienados", em dezembro de 1919; a segunda parte, intitulada "Cemitério dos vivos", constitui o esboço de ficcionalização da experiência vivenciada e registrada no "Diário do hospício". Neste trabalho, nosso interesse se volta, inicialmente, para o caráter híbrido das duas partes do "Cemitério dos vivos", em que convivem o diário, a crônica e a elaboração ficcional; e, em seguida, para as estratégias de (auto)ficcionalização postas em prática pelo autor tanto nas páginas do diário quanto no projeto inacabado de romance. Diário e romance em que, a cada passo, a confissão desliza para a análise social e para a criação literária.

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O BRUXO E O LOUCO: a sátira e a chalaça nas crônicas de Machado de Assis e Lima Barreto
por Idemburgo Frazao

Resumo
Intenta-se, com este estudo pôr em destaque, a partir da discussão sobre a natureza híbrida da crônica, diferenças e semelhanças do uso da sátira por Lima Barreto e Machado de Assis. Da sutileza da crítica do Bruxo do Cosme Velho aos desabafos do morador da “casa do louco” põe-se em diálogo a ficção e o fato jornalístico; a ironia fina machadiana e a “chalaça” presente na crônica de Lima Barreto, mostrando que na revisão da hegemonia do poder na literatura, não há um cânone, mas cânones na era da desconstrução.

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Drummond jornalista: as crônicas do poeta mineiro e sua relação com a imprensa
por Isabel Travancas

Resumo
O Objetivo deste artigo é analisar a trajetória intelectual do poeta Carlos Drummond de Andrade tendo como foco suas crônicas publicadas na imprensa nas décadas de 1920 a 1908. Embora o escritor mineiro seja reconhecido, principalmente, como poeta, ele não renega o jornalismo tanto como prática quanto como identidade profissional. Drummond em 85 anos de vida produziu mais de seis mil textos publicados na imprensa e a maior parte deste acervo já se encontra organizado e catalogada no Arquivo-Museu de LIteratura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa. Suas crônicas nessas seis décadas abordam temas como o cotidiano do escritor, da cidade, do país através dos mais variados assuntos como política, personalidades, eventos, moda, amor, comportamento, entre outros. Neste trabalho farei uma análise de algumas dessas crônicas, destacando neste gênero literário o seu olhar de jornalista

 
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“Quarto de despejo”: realização estética do fragmento
por Letícia Pereira de Andrade

Resumo
O gênero diário foi por muito tempo considerado menor ou não-canônico, pois se via nele apenas uma subcategoria do discurso histórico. Contudo, com o passar dos anos, tem-se assistido a um processo de reordenação no terreno dos estudos literários, permitindo a revalorização de práticas discursivas que anteriormente eram vistas à margem da maioria dos estudos literários. Por isso, trazer à tona, hoje, “Quarto de despejo: diário de uma favelada” (1960), implica tanto verificar a hibridez do discurso de Carolina Maria de Jesus quanto suprir uma lacuna crítica causada pela falta de leituras literárias da obra. Para tanto, utilizar-se-á o aparto teórico de Lejeune (1998) para tratar do pacto de autenticidade e de Aragão (2005) para mostrar a constituição/desconstituição do sujeito narrativo na estética da fragmentação.

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A crônica oitocentista: "Ao correr da pena", de José de Alencar
por Marcus Soares

Resumo
O trabalho consiste na análise da configuração e desenvolvimento da crônica no Brasil do século XIX. Partiremos da hipótese de que a crônica oitocentista emerge de determinado processo de convergência de variados gêneros, principalmente o literário e o jornalístico, cuja resultante corresponderia a uma modalidade discursiva centrada na “volubilidade” como traço formal. Acreditamos que José de Alencar tenha sido, provavelmente, o primeiro a salientar o traço e a tentar defini-lo, razão pela qual escolhemos os seus folhetins de “Ao correr da pena”, publicados no Correio Mercantil e no Diário do Rio de Janeiro, entre 1854 e 1855, como objeto principal de nossa investigação.

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A crônica de Ferreira Gullar: movimentos num terreno movediço
por Maria do Socorro Assis Monteiro

Resumo
A crônica é um gênero que pode ser alcançado pelo leitor através de muitos meios de comunicação, do mais simples ao mais complexo, a saber, pelo jornal, pela televisão, ou pelo livro, respectivamente. Sua linguagem transita no mesmo nível de equivalência: pode ser simples, mas obtusa; dizer do banal, para comunicar o singular. Esta proposta de trabalho intenta compreender a constituição intencional e receptiva da crônica, analisando seus percursos e movimentos dentro das estratégias do mercado e da movimentação autor/leitor. Para tanto, avaliaremos textos mais "distantes", como os de João do Rio, e textos atuais, como os do cronista-poeta-crítico Ferreira Gullar, considerando desde o número de leitores, até os efeitos da leitura no imaginário popular. O arcabouço teórico estará submetido às questões postas por Robert Escarpit, em A revolução do livro e em Pierre Bordieu, no seu As regras da arte: o mercado dos bens simbólicos, que constituirão eixos para as hipóteses sobre as movimentações sociais da crônica, e também o arcabouço teórico do próprio objeto que estará baseado em leituras dos cronistas citados, mas de outros textos que coadunam com a intenção dessa proposta.

 
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'Poeira tênue da história' – a crônica e seu lugar na imprensa
por Marta Scherer

Resumo
Esta comunicação aponta para o papel da crônica no jornalismo brasileiro na virada dos séculos XIX para o XX, através do olhar de um dos mais atuantes homens de imprensa do período: Olavo Bilac. O fazer jornalístico foi uma das principais inquietações de Bilac e assunto recorrente em seus escritos, o que os torna documentos relevantes para compreender as transformações ocorridas na imprensa brasileira em clima de Belle Époque. Entre tantas, criou-se um novo estilo, de conteúdo literário e formato jornalístico, que indubitavelmente fundiu-se, transportou-se: a crônica. O texto fixa-se na fronteira entre a ‘mercadoria’ e a ‘arte’- entre o jornal e o livro - e se consolida como espaço híbrido por excelência, através do qual os literatos atingiam um público ávido por novidades, mas pouco afeito à leitura neste país em (trans)formação. A crônica como ‘poeira da história’ torna-se assim um elemento fundamental no entendimento de um modo de vida que, como texto, incorpora o tempo em sua estrutura e o dispersa.

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A problemática da narrativa de João do Rio: crônica ou reportagem?
por Patrícia de Castro Sousa

Resumo
O objetivo do trabalho é analisar a narrativa singular de João do Rio, escrita caracterizada pela mescla de elementos jornalísticos e literários, sendo o escritor considerado inovador ao introduzir elementos que figurariam na reportagem futura, quando já consolidada. A idéia é trabalhar os conceitos de crônica e reportagem, a recepção dos textos à época (1900-1920), além de uma comparação estilística entre as manifestações jornalísticas do período, tendo ainda como parâmetro as atuais. Isso posto, a problemática que envolve o estilo do autor e, conseqüentemente, o gênero em que se enquadram seus textos, será o foco da apresentação, já que as fronteiras entre crônica e reportagem não aparecem bem delimitadas na obra do escritor. João do Rio introduz no jornalismo a busca da informação na rua, a entrevista, além da sua tendência à humanização da narrativa, elementos, até hoje, basilares da reportagem. No entanto, a sua excessiva retórica e o uso de recursos literários, distanciam-no da reportagem atual predominantemente objetiva, compondo, por sua vez, uma espécie de gênero híbrido, “crônica-reportagem”, no dizer de Luís Martins (In: RIO, João do, 1976, p.7). Portanto, João do Rio levanta uma questão até hoje bastante polêmica: onde termina a literatura e começa o jornalismo.

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Martins Pena: o folhetinista e o crítico
por Priscila Renata Gimenez

Resumo
Martins Pena, muito conhecido como comediógrafo, também escreveu crônicas sobre os espetáculos líricos em cartaz no Rio de Janeiro, na sessão folhetinesca do Jornal do Commercio, entre setembro de 1846 a outubro de 1847. Nessa mesma época, florescia a crítica literária romântica, e, juntamente com essas idéias, a “Semana lírica” de Pena, que se destaca por suas críticas ao teatro lírico e ao seu contexto de (re)produção. Para além do rodapé do jornal, esses folhetins estão localizados na fronteira da crítica teatral, musical, de ópera especificamente, da análise crítica das condições de (re)criação dos espetáculos de arte no Brasil da época, além de terem seu desenvolvimento literário próprio. Em face desses aspectos, pretendemos estudar com mais especificidade a relação da crítica-folhetinesca de Martins Pena com crítica romântica a ele contemporânea, destacando as peculiaridades que o caráter híbrido do texto de Pena acrescenta à crítica da época.

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O processo de consolidação do Modernismo pelas crônicas oswaldianas
por Roberta Fabron Ramos

Resumo
Desde os primeiros tempos do Modernismo brasileiro, os jornais e revistas serviram de espaço para a divulgação dos projetos do movimento que então se formava. Esta pesquisa analisa a coluna “Feira das Quintas”, de Oswald de Andrade, avaliando a interferência desses escritos na formulação do Modernismo e na postulação dos conceitos deste período. A feira apresentada semana após semana traz uma variedade de “produtos”, tanto em relação aos objetos escolhidos, quanto à maneira de abordá-los. Os textos de ficção, como pequenas amostras dos romances oswaldianos e de seu estilo vanguardista, fazem as vezes de propaganda, já que o público ledor dos periódicos era mais amplo e variado do que o de obras literárias em geral. Pelo mesmo motivo, os textos de conteúdo crítico e polêmico valiam pela reafirmação de preceitos, alcançando não apenas os intelectuais modernistas, que eram os interlocutores diretos das afirmações contidas nas crônicas, mas também o volume leitores de um periódico importante no cenário paulistano, como era o caso do Jornal do Commercio. Essa diversidade de público é fundamental naquele momento em que a propaganda do movimento ainda constituía-se como um dos pontos fundamentais na implantação de seus valores estéticos e ideológicos.

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Viagem e criação em Mário de Andrade
por Tatiana Longo Figueiredo

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Já no início da década de 1920, o ócio criador e a preguiça elevada eram considerados por Mário de Andrade elementos ideais para a criação poética. Em 1929, como Turista Aprendiz, durante sua segunda viagem ao Nordeste, o escritor e estudioso do folclore coleta documentos musicais populares e conhece a arte do cantador potiguar Chico Antônio. O momento desse encontro é registrado no diário do viajante e, ainda no calor da hora, em crônicas na imprensa norte-rio-grandense e paulistana. A vida e a liberdade criadora do cantador valem ao ficcionista como fontepara um entrecho romanesco em prosa. De início, o escritor decide aproveitá-lo como um dos personagens principais de um grande romance, intitulado “Café”. Mas, não conseguindo levar ao cabo o projeto, seleciona, no manuscrito, um longo trecho que divide em seis partes, as quais denomina “lições” e são por ele publicadas semanalmente, sob o título “Vida do cantador”, em seu rodapé “Mundo Musical”, na “Folha da Manhã”, em São Paulo, de 19 de agosto a 23 de setembro de 1943. Esta comunicação pretende acompanhar, em diversos dossiês de manuscritos do escritor, a transposição da figura do coqueiro norte-rio-grandense para o universo ficcional.

 
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Graciliano Ramos e a crônica do passado sertanejo
por Thiago Mio Salla

Resumo
A presente comunicação analisará o caráter de testemunho histórico assumido pelas crônicas que Graciliano Ramos publicou na seção “Quadros e Costumes do Nordeste”, da revista getulista Cultura Política. Se tais textos, de um lado, aproximam-se do gênero conto sem se distanciar da estrutura que a crônica adquiriu ao longo do processo de modernização da imprensa brasileira (com destaque para o uso de uma linguagem cotidiana, marcada pela brevidade e pela recorrente presença da ironia), por outro, ficcionalizam práticas e eventos situados no longínquo passado sertanejo do narrador. Nesse sentido, Graciliano parece retomar a experiência documental dos cronistas antigos segundo novas coordenadas em que predominam as noções de fugacidade e de fragmento. Diante desse quadro, será investigada a aparente ambigüidade presente na utilização da crônica, tomada como fato moderno, para retratar aspectos da memória do escritor situados no Nordeste brasileiro, região tradicionalmente associada ao atraso e distante do discurso modernizador estadonovista. Tal estratégia do narrador de recuperar temas afastados tanto espacial quanto temporalmente de seus leitores habituais, ao mesmo tempo em que se enquadrava no ideal de redescobrimento do país propagado pela revista, pode ser vista como uma forma de tratar, na publicação oficial, dos limites do progresso difundido pelo regime.

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Fragmentos de uma vida: notas sobre os 'Diários', de Miguel Torga
por Lucilene Soares da Costa

Resumo
Durante mais de cinqüenta anos, Miguel Torga manteve uma profícua e instigante produção memorialística não menos reveladora do que aquela de contista e poeta que projetou o autor português para além das fronteiras de seu país. Seus diários íntimos compreendem 16 volumes, os quais atestam o interesse e importância que o escritor por muito tempo consagrou à forma, e que se configuram, por assim dizer, num desdobramento paralelo dos temas e inquietações que motivaram seu projeto literário. Nas páginas dos diários, ainda não suficientemente estudadas, entrelaçam-se a veia poética, a percepção do ensaísta, as influências durante a formação literária e, sobretudo, o senso agudo e dilemático sobre os destinos de Portugal. Nesse sentido, nada mais oportuno do que voltarmos os olhos para essa produção, por muito tempo considerada como marginal e menor, a fim de situá-la e defini-la no conjunto do projeto literário do escritor. Desse percurso, ainda preliminar, será possível extrair elementos que revelem a significação da escritura íntima per si e os indícios ali deixados sobre suas demais obras.