| O CANTO DE ORFEU E AS MÁSCARAS DE PERSÉFONE: FIGURAÇÕES DA MORTE NAS LITERATURAS PORTUGUESA E BRASILEIRA CONTEMPORÂNEAS |
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Coordenadores Profa. Dra. LUCI RUAS (UFRJ) Profa. Dra. LÉLIA PARREIRA DUARTE (PUC-MG) Prof. Dr. CID OTTONI BYLAARDT (UFC) | |
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Resumo: O que se pretende, neste
simpósio, é propor e discutir propostas de leitura para textos das
literaturas portuguesa e brasileira contemporâneas que, em seu processo de
enunciação, revelam-se como um jogo em que a palavra encena a ambígua
relação morte / vida, problematizando, ainda, a questão ontológica de que
o homem é um ser-para-a-morte. Esta certeza inalienável impulsiona a
criação artística - revelando-se como jogo e evidenciando seu caráter de
linguagem, esses textos atingem a própria essência da literatura: angústia
e medo, frustração e impossibilidade - morte -, convertidos em um canto
que é celebração da vida. Em outras palavras: esta proposta, que resulta
de um já bastante extenso trabalho do grupo de pesquisa (As mascaras de
Perséfone: figurações da morte nas literaturas portuguesa e brasileira
contemporâneas), pretende verificar como "Os cantos de Orfeu" ou "As
máscaras de Perséfone", ou seja, a ambigüidade morte / vida, com a
preocupação do testemunho, estão presentes em obras da literatura
portuguesa e brasileira contemporâneas. Nas obras escolhidas para estudo
(como acontece, aliás, em boa parte da literatura ocidental dos séculos XX
e XXI) revela-se a força da palavra literária, que tende cada vez mais a
escapar das convenções e das leis da linguagem cotidiana, para construir o
sujeito literário e testemunhar, com o saber da escrita, o que não pode
ser dito: o vazio da linguagem e da morte. Perguntas básicas que se
pretendem discutir no simpósio são: como se pode escrever aquilo que é
interdito à palavra? Como é possível testemunhar o que não pode ser
testemunhado, enquanto experiência que não pode, por assim dizer, ser
experimentada? Por que serão potencialmente rentáveis, para a literatura,
o neutro, a exterioridade e o vazio? Em que medida a escrita da morte pode
esvaziar mitos e, ambiguamente, constituir uma afirmação para o sujeito?
Como aparece na literatura essa morte, cuja perspectiva mudou de forma
decisiva com a Segunda Guerra, pois não se morre mais como antes, já que o
que era anteriormente um ato sagrado tornou-se um gesto banal e anônimo do
qual só pode resultar uma solidão que mais apaga a memória que a conserva?
Essas questões têm sido tratadas por vários autores, entre eles
Schopenhauer, Martin Heidegger, Vladimir Jankélévitch, Hannah Arendt,
Emmanuel Lévinas, Giorgio Agamben e Jean Baudrillard, que vêm ao encontro
da proposta deste simpósio, possibilitando trabalhar mais de perto tanto o
tema da "banalidade do Mal", quanto, sobretudo, a questão do testemunho e
a sua relação com a "sobrevivência", ou seja, o nexo incontornável entre
testis e superstes, que marca a literatura contemporânea.
" Subtema: Poéticas do texto literário |

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| Lamentos e desconsolos na poesia da
Geração de 60 por ALAMIR AQUINO CORREA Resumo A morte, enquanto fato literário-social, caminhou desde a noção do julgamento do ser e do estar na Antigüidade para a percepção consoladora da morte coletiva medieval; chegou aos séculos XVIII e XIX como uma compreensão da individualidade e entrou no século XX como o esvaziamento do indivíduo em prol de um anonimato proporcionado pelas grandes guerras. A memória coletiva se torna, especialmente enquanto monumento, o único registro simbólico daqueles que foram. Formalmente, na ars moriendi, a elegia (principalmente a pastoral) foi o constructo poético capaz de organizar dores, ausências e memórias, com a vontade de explicitar um possível alento aos deixados, na seqüência do hora fugit. Recentemente, com a velocidade das informações mediáticas, talvez seja possível um outro olhar, na esteira dos episódios começados com o 11 de setembro. Entretanto, o registro elegíaco parece ser a forma mais apropriada que a arte encontra para lidar com a emoção da finitude. Nesse aspecto, interessa-me ler um conjunto de poemas pautados por dois instantes (a II Grande Guerra e a Ditadura de 64), reunidos por Pedro Lyra em sua antologia Sincretismo: A Poesia da Geração de 60. Esses poetas tiveram, na sua infância, as notícias e/ou as memórias da guerra; talvez isso não os tenha conformado psicologicamente como aconteceu com Drummond e Bandeira. Por outro lado, vivenciaram maior ou tangencialmente o momento tristonho recente da história brasileira. Este contexto, de dúvida, de represssão e de ausências, matizou boa parte desses homens e mulheres que se viram diante da falibilidade do homem, da debilidade do caráter e da tibieza dos esforços grupais. Mais do que uma melancolia, soçobra em suas elegias a sensação da inutilidade. Assim, buscarei elencar na leitura dos poemas uma confluência de inadequações, horrores e impossibilidades de consolo, que vão lembrar a dor de Antígona e o desespero de Deméter, muitas vezes nem restando o pulvis es et in pulverem reverteris. |
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| Assassinato, preconceito social e
rememoração em “Terça-feira gorda”, de Caio Fernando Abreu.
por André Luiz Gomes de Jesus Resumo A presente comunicação tem como objetivo abordar a representação da morte na obra de Caio Fernando Abreu, por meio da análise do conto “Terça-feira gorda”, inserido no livro Morangos mofados (1982). No conto, a morte, tematizada em uma de suas formas violentas – o assassinato – torna-se elemento de denúncia do preconceito, bem como instrumento de uma crítica às estruturas sociais, políticas e culturais predominantes no Brasil. Para isso, Caio Fernando Abreu cria um narrador personagem (homodiegético), que , por meio da memória, conta uma história em que desejo , homoerotismo, preconceito social e violência se articulam de modo a flagrar um aspecto crítico da sociedade brasileira contemporânea. Os conceitos benjaminianos de memória e de experiência são, nesse caso, importantes para a compreensão do papel do narrador na organização das lembranças, posteriormente, relatadas. A representação da morte ganha, no conto, uma dimensão simultaneamente poética e política . |
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| Os fios das Parcas na tessitura de
Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa: o tempo e a memória na construção do
espaço narrativo por Angela Maria Rodrigues Laguardia Resumo Partindo de uma estratégia narrativa que utiliza fontes tipográficas diferentes para representar as personagens-narradoras nos cinquenta capítulos que compõem a obra,instala-se no romance da portuguesa Inês Pedrosa, o espaço narrativo que permite a alternância de cada uma dessas vozes, contrapostas na fronteira vida/morte. O desdobramento permitido por cada uma delas. assim como o confronto que sugerem, encenados através de seus relatos,possibilitam a reflexão dos possíveis mecanismos da tessitura textual, engendrados pelos fios das Parcas (deusas romanas equivalentes às Meras ou Moiraí gregas) que determinavam o curso da vida humana, decidindo sobre questões como vida e morte. Espelhadas, deste modo, no simulacro em que se insere o diálogo entre a mulher morta e o homem vivo, o mito das Parcas, implícito na construção narrativa, afigura-se como metáfora sedutora na condução dos destinos e questionamentos que a memória e o tempo revelam. |
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| O homem duplicado, de Saramago: a
ambigüidade da morte e a celebração da vida por meio do contato "real" com
a "ficção". por Camila da Silva Alavarce Resumo Em O homem duplicado, Saramago conta a história de Tertuliano Máximo Afonso, um professor de História que, ao assistir a um filme, descobre que possui uma cópia fiel de si mesmo. Trata-se de uma escrita da morte em vários sentidos. Na trama dessa narrativa, há uma interessante alegoria do papel da literatura. O processo de enunciação caracterizador dessa narrativa não é menos convidativo e colabora para a construção dessa atmosfera ambígua relacionada à morte e à criação artística. O narrador intervém de modo recorrente no relato, ora para reforçar o ficcional, ora para revelar os processos de edificação do texto, ora para lançar o leitor para fora dos limites da ficção, motivando-o a refletir sobre a sua condição de ser humano no mundo. Portanto, também no plano discursivo, a presença de ambigüidades como vida e morte, realidade e ficção, arbitrariedade do narrador e autonomia do personagem, entre outras, propõe uma discussão acerca da criação literária e do próprio ser humano, instaurando, ainda, uma discussão sobre a ironia romântica. Além disso, em contato com esse universo literário e anti-convencional, temos a figura importante do leitor, convidado a decifrar os enigmas dessa narrativa e a participar da construção do sentido, portanto. |
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| A imagem cadavérica, a memória do
esquecimento e o neutro em Eu hei-de amar uma pedra, de António Lobo
Antunes. por Cid Ottoni Bylaardt Resumo As idéias sugeridas pelo título do trabalho conduzem à idéia de morte sempre adiada no romance de Lobo Antunes. Essa morte que não encerra nada acena apenas para uma longa e angustiante espera, um fim que não chega, um termo que não existe, o esforço vão de se atingir uma meta. Em sua dolorosa impossibilidade, a morte nunca fecha as contas, fazendo-se linguagem literária pelas mãos do escritor que se deixa dominar pelo fascínio da escrita incessante, interminável. A paixão do texto está em ele não se deixar resolver, exibindo seres que procuram inutilmente a palavra fim, que lhes possibilitará a morte como finitude, como seu direito de mortais; acima de tudo, essa é a palavra que lhes possibilitará a conclusão do relato. Ela é, entretanto, o termo impossível, o desejo que guarda uma imensa distância em relação ao que se deseja, e portanto se fortalece em paixão e esperança, que não podem morrer para que a escritura se faça. |
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| Finitude e perenidade: a imagem da
morte na lírica de Adélia Maria Woellner por Clarice Braatz Schmidt Neukirchen Resumo Pretende-se, com este trabalho, observar como se desenvolve a temática da morte na lírica da escritora paranaense Adélia Maria Woellner. Em O arco e a lira Octavio Paz observa que a morte é algo inseparável do homem. Para este teórico, “o viver consiste em termos sido jogados para o morrer, mas esse morrer só se cumpre no e pelo viver” (1982, p. 182). A poesia, neste âmbito, surge como o espaço privilegiado onde os assuntos que atemorizam a humanidade, como a morte, são eufemizados, eufemização esta que, de acordo com Gilbert Durand, favorece a vitória sobre o destino e a morte, propiciando ascese e transcendência. Nos poemas de Woellner, mitos, imagens e símbolos relacionados à morte, geralmente, confluem para a instauração de um espaço de transcendência. Nota-se, constantemente em seus poemas, um desejo de transformação das realidades inaceitáveis. Os poemas de Woellner congregam muitas imagens que apontam para a existência de um tempo cíclico em que a morte apresenta-se apenas como uma passagem, que possibilita o retorno às origens, apresentando-se a vida como um eterno recomeçar. |
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| A escrita como phármakon
por Clarice Lottermann Resumo Na obra A farmácia de Platão, Jacques Derrida – tomando como referência Fedro, de Platão – recupera o mito de Theuth, no qual a escritura é vista como um phármakon, e destaca o duplo sentido do termo, que tanto pode significar remédio quanto veneno. Partindo do princípio de que a escrita funciona como um elemento de fixação da linguagem, pode-se considerar a escritura como a morte da fala viva e das histórias ligadas à memória pessoal dos indivíduos. Uma vez que se utiliza o texto escrito como um meio auxiliar da memória, a escrita implica a redução da capacidade de memorização, daí seu caráter nefando. Ao lembrar, e, paradoxalmente, permitir o esquecimento, a escrita revela-se phármakon. Partindo desse pressuposto, o objetivo deste estudo é analisar o conto “A troca e a tarefa”, de Lygia Bojunga, demonstrando como a necessidade de escrever é um imperativo que determina a vida e a morte da protagonista da obra. A partir do momento em que toma contato com o poder transformador da literatura, a narradora-personagem do conto passa a viver em função da sua arte. No princípio, a literatura – escritura – é vista apenas como remédio. Seu caráter contraditório – de phármakon – aparecerá posteriormente. |
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| A hora da estrela: a face onipresente
da morte por Cristiane Teixeira de Amorim Resumo O ensaio parte das aproximações realizadas por Vilma Arêas, Claire Varin e Nicolino Novello entre Clarice, Rodrigo S.M. e Macabéa, para explicitar os “jogos de identidade” – na expressão de Benedito Nunes – lispectorianos em A hora da estrela. Nessa ciranda de substituições, múltiplos morreres se anunciam, em consonância com a própria linguagem que se erige – como salienta Maurice Blanchot – sobre túmulos. Evidencia-se que as trajetórias da nordestina, daquele que ela representa, do narrador, do leitor e da autora se encontram intimamente entrelaçadas, tendo todos o mesmo destino. Ao final, pode-se vislumbrar, diante dos diversos funerais narrativos, a face onipresente da morte na sétima obra clariciana. |
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| A impossibilidade da morte na
narrativa "Rútilo Nada", de Hilda Hilst por Davi Pimentel Resumo Este trabalho analisa a palavra no discurso literário da narrativa “Rútilo Nada”, de Hilda Hilst, texto em que a morte não é vista como um fim que estabeleceria um saber, um conhecimento ou uma verdade, mas como a sua própria impossibilidade de realização, ocasionando a errância das personagens, as recorrentes fraturas da arquitetura textual e as ambigüidades de que se nutrem as palavras. Ou seja, a desventura e a impossibilidade da morte resultam nas várias rupturas que estimulam a reflexão sobre o poético na escrita de Hilda Hilst. |
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| Poesia na Corda Bamba: o Xis do Poema
por Débora Racy Soares Resumo Em “Beijo na Boca” (1975), Cacaco (1944 - 1987) inaugura uma poética desencontrada, antes, dissimulada, em que as “aparências enganam” e, ao mesmo tempo, “desenganam”. Sob o pretexto do mote amoroso, o sujeito lírico testemunha – como testis e superstes (mártir, sobrevivente) - uma dupla impossibilidade interdita no “poema-problema”. Sempre às voltas com seu “x”, isto é, com sua questão-tensão, essa ´persona´ consegue resolver o “poema”, mas não resolve o “problema” (do coração?), cuja resolução será adiada no plano semântico-sentimental. Essa poética em desconcerto nasce de uma espécie de dialética sem superação, “indecidível”, indizível. Poética, portanto, resoluta na irresolução, a voltear entre o dizer e o calar, entre o lembrar e o esquecer. A poesia “paralisada” germina no “entre”-espaço do desejo e da impossibilidade, sempre exagerada em “matéria de ironia” e plena de amor/humor (UNICAMP/FAPESP). |
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| A persistência da memória: Em nome da
terra, de Vergílio Ferreira por Erika Luiza Piza Netto Resumo Nosso propósito é analisar na obra Em nome da terra, narrativa de Vergílio Ferreira, os aspectos filosóficos pertinentes à destruição da experiência e ao início da história, segundo a leitura do livro Infância e história: destruição da experiência e origem da história, de Giorgio Agamben. O enfoque consiste em verificar se a personagem protagonista, no percurso de sua vida, conseguiu transcender as experiências passadas. Para tanto, também se faz necessário analisar a memória do narrador e protagonista, quer dizer, investigar a persistência da memória deste e as implicações desta persistência concernente ao presente vivenciado por ele próprio. Dessa forma, o intuito é avaliar as resultantes da persistência da memória do narrador vergiliano para averiguar as “reais” condições existenciais deste em um determinado tempo presente. |
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| Escrita em transe: luto, corpo e o
secreto em "A Obscena Senhora D” por Fernanda Shcolnik Resumo O presente trabalho apresenta uma análise de "A Obscena Senhora D", de Hilda Hilst, tendo como foco a investigação da experiência do luto, da evocação de memória e da "escrita em transe" como motores de uma busca incessante pela entidade divina. Para alcançá-la, a protagonista Hillé trabalha com a linguagem, busca nomes, brechas, desdobra-se a si mesma em outras formas. Entretanto, o objeto que procura, caracterizado essencialmente pela impossibilidade, pela interdição, nunca é alcançado, resultando inexoravelmente na perda e na falta, que produzem no texto um caráter circular eterno, já que lida com matéria relativa ao secreto, característico tanto da poesia como do sagrado, elementos de importância crucial na obra em questão. |
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| Morte, Erotismo e Memória em um Conto
de David Mourão-Ferreira por Janaina de Souza Silva Resumo “Agora que nos encontramos”, conto do escritor David Mourão-Ferreira, datado de 1973, coloca em cena o encontro entre um homem hospitalizado e uma mulher que fala a este sobre a vida dele e o modo como a conduziu em diferentes momentos. Carregado de simbolismo e de erotismo, contrapõe-se, através da narração desta mulher (a Morte), o desejo do homem pelo Absoluto, suas viagens no tempo e no espaço numa constante busca pelos amores possíveis, pela aventura do desejo (ou seja, todo o seu passado) ao nada que representa sua real condição. Ou seja, se, como afirma Bataille, “o movimento do amor levado ao extremo é um movimento de morte”, todo este conto aponta para uma revelação final àquele que se firmou durante a vida como um errante eternamente insatisfeito. Nesse sentido, a Morte, cujo papel é encaminhar o moribundo através da rememoração, será ela mesma reveladora das ilusões de absoluto que caracterizaram a vida deste homem. |
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| Travessia para o silêncio e para a
solidão: "A terceira margem do rio" por Maria Lucia Guimarães de Faria Resumo A travessia para o silêncio e para a solidão se oferece como uma forma extrema de inventar uma nova modalidade de existir. O pai, que toma a decisão insólita de cursar no rio “solto solitariamente”, assume o desempenho das águas que vivem de correr e morrer. Adotar o rio como morada é morrer: niilificar-se para plenificar-se. Não admira que os familiares, aderidos ao agora, escravos da permanência, não o compreendam: “aquilo que não havia, acontecia”. O filho mais velho atinge o limiar de uma intuição reveladora, mas retrocede diante do “salto mortale”. Contudo, quem não morre não chega a existir. E cabe a indagação: o que “se dá” nesta travessia para o silêncio e para a solidão que anima e sustenta um gesto tão extremado? Em demanda de uma resposta para este questionamento essencial que “vai rompendo rumo”, abrem-se as veredas deste trabalho, que procura demonstrar o profundo confeiçoamento entre o silêncio, a solidão, a morte, o escoamento diluvial das águas – potências do nada – e a linguagem, máscara da opulência de um não-dizer, cujo fruto mais fecundo é uma terceira margem, que suplanta os dualismos antagônicos e abre uma dimensão mais vasta para o ser. |
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| Por uma escrita selvagem: Clarice
Lispector e Maria Gabriela Llansol por Tatiana Pequeno da Silva Resumo As escritas de Maria Gabriela Llansol e Clarice Lispector revelam sombras deixadas pela fuga da morte e de silêncios soturnos. A partir desta questão, tencionamos discutir que estratégias são configuradas por ambas as escritoras no sentido de permitir que a função autoral seja qualificada como gesto desafiador de uma ordem limitada até mesmo para o movimento da escrita. É neste sentido que desejamos ir ao encontro do que propõe Llansol quando formula a idéia de que “escrever é amplificar pouco a pouco”, para que, em seguida, possamos pensar nos personagens de fricção clariceanos que também foram metamorfoseados pela experiência e pela revelação persefoniana. Como fontes teóricas para esta reflexão, pretendemos fazer uso de Maurice Blanchot e Giorgio Agamben, bem como das reflexões das referidas autoras nos espaços de suas publicações. |
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| Entre girassóis e rosas negras: Hilda
Hilst e as imagens da morte por Enivalda Nunes Freitas e Souza Resumo Em Da morte. Odes mínimas, domesticada e companheira, a morte presta-se à celebração da vida. As imagens dos poemas iniciais são da simbologia animal, nos quais sujeito e morte se metamorfoseiam em animais, sugerindo uma expressão dos extratos mais arcaicos da inconsciência. No decurso da obra, o tema da morte será recriado infatigavelmente: constrói casa no quintal do sujeito lírico, surge em surdina, com os cascos enfaixados, ou se exibe nos girassóis, nas escadas, nas plantas, nas tranças negras, nas nuvens, nas águas, no profundo do osso. Com altivez e serenidade, Hilda Hilst vai apontando os tortuosos caminhos de uma vida/morte (Shoppenhauer). Mas, afinal, o que justificaria uma estética que insiste em tema por si mesmo tão doloroso? A poeta declarou em entrevista que a principal preocupação de sua obra é fazer despertar no ser humano o lado que ele se recusa a ver: a morte, “essa experiência mais importante que o homem pode ter”. Ainda uma vez será o canto de Orfeu que perpetuará o sentido da vida, mesmo que este consista em conjugar a face ambiguamente sombria e iluminada de Perséfone: “Dirão:/Um poeta e sua morte/ Estão vivos e unidos/ No mundo dos homens.” |
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| “NA PAZ SUBALTERNA DE CRIAR FIGURAS”
- UMA LEITURA DE AMIGO E AMIGA, DE MARIA GABRIELA LLANSOL
por Luci Ruas Resumo Propõe-se, neste trabalho, discutir a relação morte/vida no texto intitulado Amigo e Amiga – curso de silêncio de 2004, de Maria Gabriela Llansol, escritora portuguesa contemporânea recentemente falecida. Como se nasce e como se morre parecem ser as interrogações que percorrem o texto llansoliano, desde a sua primeira página até a última, sem querer se esgotar. A certeza de que o homem é um ser-para-a-morte é a força que impulsiona o seu processo de criação, celebrando, na escrita, a idéia de que “ficamos no tempo” para, como aponta João Barrento, “viver o Ser no Tempo de forma plena e múltipla”. Sem a preocupação de saber se escrevia novela ou romance, ou se o seu texto não seria mais que meditação, Llansol registra, em Amigo e Amiga, a experiência dolorosa de criar uma escritura sem ter o Amigo ao lado, para inscrevê-lo no Tempo, como ausência que se presentifica na “espuma do texto”, gerada pela força da linguagem. Escrito como curso de silêncio, o texto de Llansol move-se como “trilhador de mundos”, “partido em fragmentos”, “flutuando, por impulso do ar”. Desta forma também se vai inscrevendo o Amigo, como matéria textual, mais nada. Todavia, é deste “nada” que se faz a celebração da plena experiência de ser. Contrariando a escrita convencional, representativa, Llansol investe na criação do “sujeito literário”. Se o Amigo está morto e o dia começa marcado pelo medo de principiar, a escritora o enfrenta, atualizando a convicção de que “o futuro é agora” e de que a única maneira de Amigo e Amiga não se perderem um para o outro é a aceitação da manhã que começa. A noite cede à “outra noite”, o morrer ao “morrer feliz” e o que não pode ser comunicado de viva-voz e face-a-face torna-se confidência lançada “às águas do Curso de Silêncio”, palavras escritas que se abrem à leitura e à possibilidade de criar sentidos. |
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