A POÉTICA DE OSMAN LINS: DA TRADIÇÃO À (PÓS) MODERNIDADE


Coordenadores
Profa. Dra. Ermelinda Maria Araújo Ferreira (UFPE)
Profa. Dra. Zênia de Faria (UFG)
Resumo: Lembrando o escritor Osman Lins nos 30 anos de sua morte, este simpósio tenciona reunir os pesquisadores de sua obra reconhecidamente eclética e desafiadora, contemplando de maneira abrangente questões relativas à "literatura em geral e às diversas artes e saberes" nos vários gêneros aos quais se dedicou o autor - conto, romance, ensaio, diário de viagem, teatro, roteiro para televisão. Pretende-se que este encontro contribua para assinalar a presença de Osman Lins no cenário dos estudos literários contemporâneos, apontando as mais recentes tendências investigativas sobre a sua obra, que assinalam a atualidade de sua produção. "

Subtema: Poéticas do texto literário

Borges e Osman Lins à luz de Adorno
por Arturo Gouveia

Resumo
O presente trabalho apresenta uma comparação entre o conto “El inmortal”, de Jorge Luis Borges (El Aleph), e o romance A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins. Dada a necessidade de delimitação da categoria analítica, a comparação restringe-se a dois procedimentos identificados por Theodor Adorno na arte mais radical do século vinte: a “desmitologização dos conceitos” e “o estado do problema”. O primeiro caso, exposto na Dialética negativa, diz respeito aos limites da expressividade da palavra, mesmo a palavra estética, sobretudo após o legado mais nefasto dos sistemas totalitários e da indústria cultural, o que tem levado a arte a uma constante problematização de sua capacidade de mímese e expressão, para não se confundir com a banalização das representações seriais e previsíveis. O segundo caso, exposto na Teoria estética, concerne ao estágio mais progressista das forças produtivas, segundo Adorno, que é a capacidade intrínseca à arte de manter e acentuar posicionamentos críticos sobre a realidade e sobre a fatura da própria arte. Os narradores de Borges e Osman Lins, na incorporação de autocríticas e contrapontos negativos aos seus próprios relatos, estabelecem dissonâncias com seus padrões de representação e correspondem a esses princípios adornianos que distinguem, desde as vanguardas, a arte contemporânea.

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A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA: PERCURSO DE UMA TEORIA DO ROMANCE
por ASSIONARA MEDEIROS DE SOUZA

Resumo
Em seu último romance, A Rainha dos Cárceres da Grécia, Osman Lins redimensiona o plano ficcional a ponto de este voltar-se para si mesmo como objeto de análise. A obra de autoria de Lins, autor empírico, funde-se com o seu correlato virtual homônimo. A natureza ambivalente desta obra literária, proposta como ensaio crítico e romance sobre um romance, revela-se pela voz de um vago e obscuro professor (personagem/leitor). Ao criar um narrador tão obstinado, que assume a perspectiva de leitor e pesquisador das estruturas do texto literário, Osman Lins consegue examinar ficcionalmente os processos técnicos bem como impedimentos inerentes à análise e/ou construção romanesca. Pretendemos, nessa comunicação, investigar a didática do Romance que se constrói ao mesmo tempo em que persegue liames da natureza de uma ficção inacessível ao leitor empírico.

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Facetas da metalinguagem em Avalovara
por Carolina Duarte D. Ferreira

Resumo
Avalovara, instigante romance de Osman Lins, apresenta forte teor simbólico e metalingüístico. Efetivamente, uma das possibilidades interpretativas desse romance é vê-lo como a busca de Abel pela criação ficcional, a qual vem atrelada à sua experiência amorosa. Esse elemento metalingüístico, consideravelmente explorado pela fortuna crítica do escritor pernambucano, não será objeto do presente trabalho, que se propõe a refletir sobre uma outra faceta da metalinguagem: a questão da leitura literária. Ao longo de Avalovara, há uma constante transposição entre o mundo e os livros, como nos momentos em que Abel olha cenas cotidianas e seus conhecidos como se estivesse lendo. Coloca-se, assim, como leitor de sua experiência. O procedimento do protagonista aponta para a continuidade entre a ficção e a realidade empírica, cujos desdobramentos são explorados por Sartre e Iser, entre outros. A idéia de que se lê o mundo, a qual parece perpassar a obra de Osman Lins, lança novas luzes sobre a leitura literária. Nesta comunicação, defender-se-á que o experimentalismo de Avalovara não se distancia do dito “real” somente pelas reflexões feitas sobre as limitações de um escritor em épocas de opressão, mas também por propor, de forma indireta, uma postura mais participativa para o leitor literário.

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Configurações anacrônicas em A rainha dos cárceres da Grécia
por Cristiano Moreira

Resumo
Em A rainha dos cárceres da Grécia , encontramos Ana da Grécia e Maria de França, personagens que desenvolvem uma relação com o tempo de forma peculiar na obra do escritor. A primeira, ladra, desatina as forças da lei escapando de toda e qualquer prisão, motivada pelo medo de entender o mecanismo do tempo. Escapa aos muros como se escapasse ao tempo, teme-o. A estas questões acerca do tempo histórico seguiremos as Teses sobre o conceito de história de Walter Benjamin e o Giorgio Agamben de Infância e História. A segunda, louca, constrói seu percurso dentro de uma comunidade anacrônica, feita de personagens re-elaborados no tempo-agora da narrativa. Maria de França, opera estes anacronismos em seu percurso, transforma esse método em próprio discurso dando voz à figura híbrida, à imagem estratificada do espantalho, cuja fala põe em cheque a estrutura do relato inicialmente armado como um diário, datado cronologicamente, mas que se transforma em espécie de labirinto sem datas, sem muros. Diante deste tempo, a leitura de Ante el Tiempo de Georges Didi-Huberman, nos auxilia a pensar os estratos narrativos e os anacronismos como camadas de memória inerentes às imagens.

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Poética da subalternidade: a construção das personagens secundárias em A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins
por Edson Soares Martins

Resumo
Este trabalho pretende examinar os mecanismos estéticos e os componentes sociológicos mobilizados pelas instâncias narrativas atuantes em A rainha dos cárceres da Grécia para a construção das personagens secundárias deste romance. Partindo de considerações colhidas na atividade crítica de Roberto Schwarz e Antonio Candido e apoiando-se em perspectiva teórica lukàcsiana, objetiva-se analisar a importância das personagens secundárias no que pertine tanto ao desenvolvimento do enredo quanto às implicações ideológicas que gravitam em torno da representação literária de sujeitos históricos subalternizados no processo social brasileiro.

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Melopoética e ambientação: efeitos sonoros na geração de atmosferas narrativas no romance osmaniano
por Ermelinda Maria Araújo Ferreira

Resumo
Para a área de estudos dedicados à iluminação recíproca entre a literatura e a música, Steven Paul Scher propõe um termo sugestivo: a melopoética - do grego mélos (canto) + poética, com duas orientações genéricas: o estudo da literatura na música e o estudo da música na literatura. O segundo enfoque, que nos interessa, visa a contemplar os diferentes modos possíveis de citação, representação ou recriação musical no texto literário. A alusão a composições musicais, a presença de personagens dedicados a profissões ligadas à música, e até mesmo tentativas de tradução intersemiótica são algumas possibilidades que se abrem ao estudo nesta perspectiva. Neste trabalho, pretendemos analisar a incorporação, por Osman Lins, de sonoplastias diversas às cinco principais variações temáticas do romance Avalovara, com o objetivo de contribuir para a construção de atmosferas bem definidas, responsáveis pela ambientação, elemento espacial particularmente caro ao pensamento teórico osmaniano.

Co-autor: ARNOLDO GUIMARAES DE ALMEIDA NETO

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A poética cifrada de Osman Lins
por Inara Ribeiro Gomes

Resumo
O pendor teórico e crítico de Osman Lins e a revisão sistemática de suas próprias proposições e experiências estéticas levaram-no a formular uma poética individual, que, na sua forma já amadurecida, seria realizada em Nove, novena. Em Avalovara, essa nova práxis será objeto de uma reflexão metaliterária, o que significa dizer que o romance traz inclusa uma teoria da ficção. Obra de surpreendente arquitetura no seu inesgotável jogo de correspondências, duplicidades e reversibilidades internas, Avalovara é, sobretudo, uma longa meditação sobre a natureza da linguagem ficcional e da metáfora poética. Nela se podem encontrar reflexões sobre o olhar e a perspectiva, o signo e a representação, sobre a relação entre a imagem e a palavra, o ver o dizer, a literatura e o conhecimento, sobre a leitura. No entanto, as teses estético-literárias que aí são enunciadas não estão dadas, em sua maior parte, de modo direto, mas através de uma mediação alegórica. Isso traz obstáculos à leitura, porque as alegorias são, neste caso, figuras opacas e ambíguas, que impedem uma interpretação unívoca. Nesta comunicação, pretende-se percorrer as teias metafóricas do texto, trazendo à luz alguns aspectos da doutrina poética do autor.

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O jogo em Avalovara, de Osman Lins: uma metáfora da experiência artística
por Joseana Geaquinto Paganine

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O presente trabalho propõe uma leitura do romance Avalovara, de Osman Lins, tendo como chave interpretativa as características do jogo – tal como identificadas por Johan Huizinga, em Homo Ludens – e os desdobramentos filosóficos advindos do conceito, desenvolvidos por Hans-Georg Gadamer, para a compreensão da experiência artística. A partir da proposição do jogo como mecanismo operativo da narrativa, identifica-se como o romance, a partir de regras preestabelecidas, conduz o movimento das histórias, organiza o espaço e instaura uma lógica temporal própria, tendo como resultado a construção uma ordem maior, mítica, que reúne o que aparentemente se mostrava fragmentário em um cosmos no qual o homem se vê redimensionado. O princípio compositivo da obra, sua estrutura lúdica, é um convite para que o leitor se lance no mundo da obra, aderindo às suas regras como um jogador que joga um jogo. Avalovara realiza, assim, uma metáfora da própria experiência artística.

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A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA COMO UMA PRÁXIS E PRODUTO HISTÓRICO
por Luís Domingues

Resumo
O romance A rainha dos cárceres da Grécia se constituiu em um tecido literário que se explica a partir da análise e crítica da história que o atravessa. Também é uma reflexão analítica que suscita questões, desvela conteúdos, inscreve críticas e (re)constrói projetos e programas em relação à história que perpassa o tecido literário do romance. A partir dessas divagações, desenvolvemos a seguinte questão: apropriar-se do romance de Osman Lins para, a partir dele, produzir um conhecimento histórico é realizar uma leitura do romance atravessada pela história, ou é a busca da produção de um conhecimento histórico a partir de uma história que atravessa a leitura do romance? Qualquer reposta a esta questão que venha a preterir e/ou eleger uma dessas alternativas nos levará a reter para a nossa investigação o primado da relevância de como o aspecto formal, tanto na história como no tecido literário, apresenta-se a nossa percepção, levando-nos aos exercícios descritivos e, na melhor das hipóteses, a instituir interpretações na busca da definição da configuração das formas apreendidas para relacioná-las com outras formas conhecidas e descritas, que, assim, poderiam vir a compor e a se entrecruzar para dar lugar a uma rede ou trama.

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A interpenetração romance-ensaio em A rainha dos cárceres da Grécia e Guerra sem testemunhas
por Renata Rocha Ribeiro

Resumo
Osman Lins, em sua produção literária, utilizou outras formas textuais além daquelas comuns aos gêneros literários. Uma dessas formas é o ensaio, cuja interpenetração pode ser percebida, por exemplo, no romance A rainha dos cárceres da Grécia (1976). Além disso, também pode ser observada a “intromissão” do romanesco nos ensaios de Guerra sem testemunhas (1966), nos quais o autor apresenta a sua visão da realidade do escritor por meio de ensaios com a presença da ficcionalidade. Por estas razões, ter-se-ia nestas duas obras de Lins, respectivamente, a configuração de uma “ficção ensaística” e de um “ensaio ficcionalizado”. É, portanto, essa relação entre ficção literária e ensaio na obra de Lins que será discutida nesta comunicação.

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TRADIÇÃO E MODERNIDADE EM ‘CONTO BARROCO OU UNIDADE TRIPARTITA’
por Rosana Maria Teles Gomes

Resumo
Um dos pontos que mais chamam atenção na produção literária de Osman Lins é a inovação no processo de escrita, fruto de uma ampla leitura de mundo e de reflexões acerca da simbiose entre o homem e o Universo. As inovações vão muito além da utilização de recursos gráficos, como o emprego de sinais identificadores de personagens, o que quebra a linearidade da leitura e exige maior atenção do leitor. Elas estão no nível da estrutura do texto. Em ‘Conto Barroco ou Unidade Tripartita’, por exemplo, a estrutura convencional de um conto é subvertida numa tripartição que se associa à simbologia da Santíssima Trindade. Nessa narrativa, portanto, evidencia-se a relação entre a tradição e a modernidade na poética osmaniana.

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Do OuLiPo ao Iólipo: Osman Lins e a literatura potencial
por Vinicius Meira

Resumo
A obra de Osman Lins tem sido observada sob diversos aspectos: a comparação com outros autores, a biografia no texto, o rigor da composição, a plasticidade dos escritos, a construção das personagens, a crítica e a criação, a cosmogonia da narrativa, a prosa poética, a política e a condição de escritor, a universalidade dos temas, a literatura de viagem, a matemática da forma, a geometria mágica, a relação com o novo romance francês. Ainda não se estabeleceu, entretanto, uma vinculação dessse escritor com as práticas da literatura potencial do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle): as regras que presidem à composição de um texto literário e a maneira como se apresenta essa escrita. Este trabalho é uma leitura Oulipiana da obra de Osman Lins: busca identificar aí certos procedimentos que coincidem com o trabalho desenvolvido pelo grupo francês.

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SOBRE A METAFICÇÃO E OUTRAS ESTRATÉGIAS NARRATIVAS EM A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA
por ZENIA DE FARIA

Resumo
Segundo Osman Lins, A rainha dos cárceres da Grécia é “um estudo literário sobre um romance fictício, de forma que a grande personagem do livro é o próprio romance”. A tentativa de examinar a validade e a abrangência dessa afirmação de Lins levou-nos à problemática da metaficção no referido romance, bem como a outras questões atinentes a essa problemática ou dela decorrentes, tais como a do leitor e a da leitura, a da autoria, a da mise en abyme, a da escrita do diário, entre outras. Em nossa comunicação refletiremos sobre tais questões e sobre a maneira como elas se interpenetram em A rainha dos cárceres da Grécia. Para isso — fazendo nossas as palavras do amante de Júlia —, tentaremos “deslindar o que é emaranhado”, “separar, isolar, classificar, o que no romance é uno”.

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Poética da produção em João Cabral de Melo Neto e Osman Lins
por Francisco Rocha

Resumo
Em nossa comunicação, estabeleceremos uma comparação entre as poéticas de João Cabral de Melo Neto e de Osman Lins, pela perspectiva epistemológica da Poiética e da Crítica Genética, ou seja, compreendendo o termo “poética” como concernindo não às estruturas do texto, mas à atividade de sua produção e aos processos criativos envolvidos. Como resultado desta comparação, destacaremos conceitos fundamentais para uma descrição da poética da produção de ambos os escritores, contemporâneos e com certas preocupações estéticas afins.


Teatro de Osman Lins
por Ivana Maria de Moura Alves

Resumo
O escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978) autor dos romances Nove, novena, Avalovara e A Rainha dos Cárceres da Grécia, além contos, ficção e ensaios, anuncia no seu livro Guerra Sem Testemunhas que está elaborando uma nova teoria épica para o teatro. A obra foi publicada em 1969, pela editora Martins e está dividida em 10 capítulos compostos entre dezembro de 1965 e fevereiro de 1968. O que nos interessa nesta comunicação é o capítulo sexto, o escritor e o teatro, escrito entre 8 de novembro de 1966 e 18 de janeiro de 1967. Nosso trabalho está estruturado em três partes. Na primeira empreendemos um sobrevôo sobre a obra dramatúrgica de Osman Lins. No segundo, são expostas suas idéias sobre o teatro contidas em Guerra sem Testemunhas e as ponderação públicas imediatamente posteriores do crítico Anatol Rosenfeld sobre esses posicionamentos. E no terceiro, uma análise de três peças curtas – Mistério das Figuras de Barro, Auto do Salão do Automóvel e Romance dos Dois Soldados de Herodes – reunidas no livro Santa Automóvel e Soldado, destacando as teorias osmanianas para a dramaturgia na elaboração dessas peças, o vigor de sua obra teatral e seu caráter desafiador.


Caos e Cosmos:a herança de Abel.
por Leonardo Monteiro Trotta

Resumo
Este trabalho aponta para a discussão entre o tempo cosmogônico da espiral e o tempo histórico do quadrado em Avalovara de Osman Lins. Debatendo o limite entre caos e cosmos, as im-possíveis origens da espiral e a presença histórica do quadrado. A grande questão-tese surge a partir das idéias de Ilya Prigogine problematizando a divisão estabelecida entre caos e cosmos. A intençao clara é colocar Avalovara no olho do furacão, que é a divisão há muito estabelecida entre mathesis e poiesis, ciência e arte. Osman Lins em Avalovara, sem dúvida navega por essa questão tão cara ao conhecimento e aponta para algumas soluções inéditas e interessantes.


De orquídeas, amores e História: intersecções de Avalovara e Quarup
por marisa b.soares

Resumo
Avalovara (1973), de Osman Lins, é, com as palavras de Modesto Carone, romance sui generis nas linhas de força do romance brasileiro. Sem abrir mão de se afirmar como romance, a poética osmaniana desafia ao limite o devir dessa forma narrativa e promove pontos de intersecção com outras linguagens: a visual, a musical, a pintura, a poesia... Nessa tensão entre a inovação da forma e a pertença ao romanesco, a tessitura osmaniana mantém elos de representação, mas com um grau de sofisticação construtiva e expressiva que, para as leituras mais apressadas, beira a gratuidade dos experimentalismos estéticos. Como parte de uma leitura mais ampla, a presente comunicação recorta do complexo processo de contextualização promovido por Avalovara as refrações das circunstâncias históricas mais imediatas. Para isso, persegue o viés da intertextualidade com Quarup (1967), de Antonio Callado, romance esse marcado pela crítica de pressupostos realistas como a síntese de uma época, mas que já trazia manifestação poética de desconfiança acerca da concepção de História que movia a busca do personagem central, gesto poético que, como discutiremos, é alargado por Avalovara, com sua concepção latente de História, absolutamente contrária ao tempo teleológico e apelativa, como na utopia benjaminiana, ao resgate do passado.