TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E INTERMEDIAÇÕES CULTURAIS


Coordenadores
Prof. Dr. JOHN MILTON (USP)
Profa. Dra. MARIA VIVIANE DO AMARAL VERAS (UNICAMP)
Profa. Dra. LENITA MARIA RIMOLI ESTEVES (USP)
Resumo: Desde tempos imemoriais, a traduçao tem sido o principal espaço de intermediaçao entre culturas diferentes. Um corolário - inegável em termos lógicos, mas nem sempre óbvio para as pessoas em geral - é que nesse espaço de intermediaçao sempre haverá a necessidade de adaptar, substituindo elementos estrangeiros por elementos domésticos, encontrando equivalentes domésticos para o que na cultura de partida se apresenta como exótico, ou trazendo esse elemento exótico para conviver com a cultura de chegada, e, conseqüentemente, transformando-o e adaptando-o também, já que, a partir do momento em que é extraído de sua cultura, esse elemento "exótico" já nao será mais o mesmo. Uma questao candente nos estudos da traduçao refere-se a como realizar essa adaptaçao, o que refletirá um posicionamento do tradutor frente às duas culturas em questão. Este simpósio pretente abrir espaço para uma ampla discussao sobre as diversas formas possíveis de adaptaçao que se fazem necessárias em todo processo de traduçáo, bem como para refletir sobre as conseqüências culturais e políticas desses diversos modos de adaptar. "

Subtema: Tradução, Transcriação, Adaptação

Adaptação à moda de Lobato
por Amaya Obata Mouriño de Almeida Prado

Resumo
As reflexões ora apresentadas surgiram a partir do estudo de Dom Quixote das Crianças (1936), de Monteiro Lobato (1882-1948), que identificou os recursos adaptativos utilizados. É possível observar um percurso histórico nessa empreitada lobatiana. O trabalho de adaptação do clássico Dom Quixote (1605;1615), de Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) surge como um projeto editorial e, depois de anos de amadurecimento, resulta uma obra que não apenas cumpre a função esperada de apresentar ao jovem leitor o clássico, mas também discute a validade e a viabilidade das alterações em relação ao (con)texto de partida. Configura-se, por isso, como uma meta-adaptação. Tanto a correspondência de Lobato quanto sua adaptação de Dom Quixote, permitem entrever seu posicionamento em relação ao processo de intermediação de um dos mais importantes ícones culturais.

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Luz, cores e paisagens: a tradução de imagens em Thomas Hardy
por Carolina Paganine

Resumo
A narrativa altamente visual de Thomas Hardy, que conduz a atenção do leitor a detalhes de luz e sombra e explora a simbologia das cores como metáfora para temas e personagens, revela-se um desafio particular ao tradutor em meio a outras dificuldades de ordem cultural e lingüística de transposição do inglês ao português da prosa hardyana. Neste artigo, teço comentários sobre a tradução de elementos visuais, como luz, cores e paisagens, na minha tradução do conto “The withered arm” (1888), contrastando-a com outras obras de Hardy traduzidas para o português. Pretende-se, aqui, dar destaque à precisão na escolha de palavras como estratégia de comunicação da linguagem imagética do autor, ao mesmo tempo em que se discute o papel de elementos domesticadores ou estrangeirizantes como recurso para atingir um efeito imagético semelhante ao do original.

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“Les mille et une nuits”: ‘la belle infidèle’
por Christiane Damien

Resumo
Nos séculos XVII e XVIII, para os teóricos e tradutores franceses da literatura de ficção, a finalidade principal da tradução não era a fidelidade escrupulosa ao original, mas sim tornar a versão de uma obra digna de ser lida e admirada pelos seus contemporâneos. Tal concepção engendrou todo o trabalho de Antoine Galland, orientalista francês responsável pela primeira tradução das Mil e uma noites, considerando que uma versão literal deste livro correria o risco de não ser lida. Tendo em vista semelhante conceito de tradução, o objetivo do trabalho é, primeiramente, destacar alguns dos elementos das Mil e uma noites que, na pena do tradutor francês, foram alterados, ora pela sua amplificação, ora pelo seu encobrimento; além disso, o trabalho também visa uma reflexão sobre o caráter da tradução e seu alcance na produção literária européia. Para discutir as interferências do orientalista francês na obra árabe, foram utilizados junto ao texto de Galland o trabalho crítico de Larzul e a tradução brasileira das Mil e uma noites de Jarouche, que, além de basear-se no mesmo conjunto de manuscritos utilizados pelo orientalista francês, primou pela fidelidade ao original.

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Questões de adaptação nas traduções para o português do conto “Bliss”, de Katherine Mansfield.
por Denise Campos e Silva Kuhn

Resumo
Neste trabalho, cinco traduções para o português do conto Bliss, da contista neo-zelandesa Katherine Mansfield (1888 - 1923), foram analisadas, com o objetivo de verificar e discutir as soluções encontradas pelos tradutores para questões que envolvem adaptação. Uma característica da escritora é que, como o dramaturgo russo Tchecov, ela buscava reproduzir conversas comuns, mas que revelam verdades. No conto analisado as personagens fazem parte da classe dominante, e seu lado ridículo ou deprimente é exposto. Gírias e expressões idiomáticas da época aparecem em “Bliss”, muitas vezes mostrando a superficialidade das relações. A tradução dessas expressões é discutida neste trabalho, bem como a tradução de nomes de lugares, de apelidos, de provérbios, de formas de tratamento, de situações da cultura estrangeira e da época específica. Esses elementos representam um desafio maior para o tradutor, que deve se decidir pela substituição de elementos estrangeiros por elementos domésticos, ou trazer o elemento exótico para conviver com a cultura de chegada. As traduções são de Erico Verissimo, Ana Cristina César, Julieta Cupertino, Edla Van Steen (com Eduardo Brandão) e Maura Sardinha.

 
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Um estudo de elementos culturais na obra “Viva o Povo Brasileiro” e na sua auto-tradução “An Invincible Memory”
por Diva Cardoso de Camargo

Resumo
O estudo tem por objetivo analisar o estilo de João Ubaldo Ribeiro enquanto autor e enquanto tradutor de si mesmo no par de obras Viva o Povo Brasileiro e An Invincible Memory. No romance, destaca-se a forte presença da cultura popular, com manifestações das religiões afro-brasileiras, festas, costumes, lendas, bem como expressões variadas, fragmentos de “língua de preto” notados por Pasta Júnior (2002) . Na tradução, Ubaldo Ribeiro recria a própria ficção sobre a história moral do sofrido povo brasileiro, traduzindo para a língua inglesa e para leitores com sensibilidades e vivência cultural distintas. Para a análise de elementos culturais, a pesquisa apóia-se na abordagem interdisciplinar proposta por Camargo (2005) envolvendo os estudos de tradução baseados em corpus (Baker, 1993, 1995, 1996, 2000), e os trabalhos sobre domínios culturais (Nida, 1945; Aubert, 1981). Os resultados obtidos revelaram que a maioria dos elementos culturais mostram-se inseridos nos domínios das culturas material, social, e ideológica, o que espelha o contexto da obra. Também foi possível observar traços de normalização que indicam o uso de estratégias, de modo consciente ou inconsciente, por parte do auto-tradutor, para conferir fluência ao texto traduzido e facilitar a leitura e compreensão de elementos culturais para o público alvo.

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Clarice, tradução em processo
por Eneida Gomes Nalini de Oliveira

Resumo
Clarice Lispector traduziu algumas peças teatrais. Algumas foram realizadas com Tati Moraes, concluídas e até encenadas, como é o caso de Hedda Gabler, de Ibsen. Entretanto há aquelas que foram iniciadas e nas versões datilografadas encontram-se interferências manuscritas, o que chamamos de tradução em processo. O objetivo central desta comunicação é analisar as traduções das peças “The little foxes”, de Lillian Hellman e “The member of the wedding”, de Carson Mac Cullers, estabelecendo diálogos com crônicas e cartas em que Clarice comenta sobre o ofício da tradução. Esse artigo tem como objetivo discutir as traduções de textos teatrais feitos por Clarice Lispector. As peças em questão são “The little Foxes” de Lílian Hellman e “The member of the wedding” de Carson McCullers, e analisar em qual momento essas traduções dialogam com as produções literárias da autora.

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Montaigne, Waly Salomão e a "canção da serpente"
por JOSE ALEXANDRINO DE SOUZA FILHO

Resumo
Em 2000, o poeta baiano Waly Salomão (1943-2003) publicou seu último livro, Tarifa de Embarque, no qual havia um poema chamado “Cobra Coral”. No mesmo ano, o poema foi musicado por Caetano Veloso e incluído no disco Noites do Norte. Em 2002, publicamos um texto em que mostramos que o poema era uma transcriação da “canção da serpente” (chanson de la couleuvre), citada pelo escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592), no seu ensaio em defesa da humanidade dos índios canibais brasileiros. O texto deu origem a uma reportagem publicada no Jornal do Brasil (de 16/09) em que Salomão declara-se “réu confesso” da apropriação literária, enquanto Caetano Veloso mostrou surpresa com a origem literária do poema, tendo afirmado que se tratava de um caso de globalização literária. Um dos méritos da transcriação de Salomão foi abrasileirar a “canção” citada por Montaigne, substituindo o genérico serpente do original francês (couleuvre), pela cobra coral brasileira, ofídio endêmico da mata atlântica. O objetivo da comunicação é apresentar o fato literário, justando o original francês, a tradução e a transcriação brasileiras, abrindo a discussão sobre a zona fronteiriça entre tradução e transcriação, a partir desse exemplo concreto, e suas implicações literárias e éticas.

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Tradução de narrativas orais japonesas: alguns aspectos
por Marcia HITOMI TAKAHASHI

Resumo
Na Literatura Japonesa, entende-se por mukashi banashi as histórias antigas transmitidas oralmente entre o povo, desde os tempos mais remotos. Pode-se dizer, grosso modo, que consistem em narrativas que, em sua estrutura, aproximam-se dos contos maravillhosos do Ocidente, bem como das fábulas, mitos e lendas. W.Humboldt, como Márcio Seligmann-Silva cita em sua obra O local da diferença - Ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução, percebia cada língua como uma leitura, uma interpretação, vale dizer: uma construção do mundo. Também para Octavio Paz, em Traduccion: Literatura y Literalidad, cada língua é uma visão de mundo, cada civilização é um mundo. No entanto, por estarmos tratando de tradução de textos, não se pode esquecer que a tradução implica uma transformação do original, como mencionou Paz: "o texto original jamais reaparece em outra língua; não obstante, está sempre presente porque a tradução, sem dizê-lo, menciona-o constantemente ou converte-o em um objeto verbal que, ainda que distinto, o reproduz". A tradução dos mukashi banashi japoneses não consiste em tarefa fácil, uma vez que se está lidando com textos antigos de uma cultura distante da ocidental. Os dialetos, palavras e expressões sem equivalentes em língua estrangeira, bem como as diferenças culturais, constituem barreiras para os tradutores. Pretendemos, assim, neste trabalho, discutir sobre as dificuldades do processo de tradução destas narrativas, e os recursos que podem ser utilizados para tentar resolvê-las.

 
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ADAPTAÇÃO LOCAL: ENTRE A ESCRITA ORIGINAL E A TRADUÇÃO
por Maria Alice Antunes

Resumo
A adaptação local é definida por Georges Bastin (BAKER, 1998) como uma estratégia de tradução. Entretanto, essa estratégia pode ser considerada “útil” para o escritor que habita um país estrangeiro e escreve em língua estrangeira, mas que tem sua cultura de origem como tema. O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma análise comparativa entre o autor-modelo (ECO, 1979; ANTUNES, 2007) inscrito no texto original A Thousand Splendid Suns (Riverhead Books, 2007) e aquele inscrito na tradução para o português – A Cidade do Sol (Nova Fronteira, 2007). A análise sugere que o autor utiliza estratégias de tradução para trazer sua cultura de origem (a afegã, uma cultura estrangeira do ponto de vista do leitor norte-americano) para conviver com a cultura de chegada. A “transcrição do original” é uma marca freqüente do texto original escrito por Khaled Hosseini que Maria Helena Rouanet, a tradutora do texto para o português, nem sempre repete no texto traduzido. O presente trabalho apresenta assim uma reflexão sobre a posição do autor que mantém marcas de sua cultura de origem no texto original e sobre a posição do tradutor que prefere facilitar a leitura quando opta pela expansão (inserindo notas intratextuais) ou pela equivalência funcional (substituindo termos originais por elementos domésticos).

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A poética Rimbaudiana presente no Concretismo brasileiro: uma análise comparativa nas traduções de Augusto de Campos
por Maria das Neves Augusto Alencar de Sousa

Resumo
Este estudo visa apresentar uma análise das traduções dos poemas de Arthur Rimbaud feitas pelo poeta tradutor Augusto de Campos. Análise esta que será procedida com base na Literatura Comparada voltando nosso olhar, em especial, para a Tradução. Para investigar o corpus ora proposto – poemas de Rimbaud, tais como: Voyelles, Le Bateau Ivre e suas respectivas traduções – tenciona este trabalho analisar as decisões articuladas pelo poeta-tradutor para reescrever na língua portuguesa do Brasil o mundo poético e a estética criada por Rimbaud, ambos alimentados pelas inusitadas associações sinestésicas deste mestre simbolista. O constructo teórico a que ora se recorre, para investigar a transcriação poética de Augusto de Campos na cultura brasileira, constitui-se dos seguintes estudiosos: Lefevere (1997), ao abordar a questão da reescrita; Haroldo de Campos (2006), que trata da estética da transcriação, isto é, tradução criativa que vai além dos limites do significado, possibilitando o funcionamento do processo de significação original em uma outra língua, de uma outra cultura. Recorre-se, ainda, a Carvalhal (1997), que aborda a Tradução sob a perspectiva da Literatura Comparada e inúmeros aspectos que atuam e influenciam a tradução. Enfim, analisa poemas traduzidos e os diversos fatores que influenciam na tradução, discutindo como a tradução interfere na produção poética do tradutor e na valorização da literatura do país da cultura de chegada.

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DEU NO “THE NEW YORK TIMES”: a tradução literária como instrumento de aliança política.
por Marly Tooge

Resumo
A década de 1940 foi um período de efervescência, tanto no campo político como no literário. Apesar da pequena participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, os fatos relacionados a tal participação tiveram conseqüências de grande importância para a história econômica e cultural do país. Foi nessa época que se intensificaram as relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos, através da política de “Boa Vizinhança” do governo Roosevelt. A criação do Gabinete de Assuntos Interamericanos (Office of Inter-American Affairs), liderado por Nelson Rockefeller, gerou a adoção de um programa de intercâmbio cultural, financiado pelo Departamento de Estado Americano, para promover a cultura estadunidense na América Latina e cultivar a boa vontade entre as nações. Entre os objetivos desse programa encontrava-se o incentivo à tradução literária. A literatura traduzida era vista tanto como fonte de conhecimento, retratando o país estrangeiro, quanto como antídoto para a intolerância cultural, forjando assim alianças e servindo como instrumento para a paz. A idéia contagiou agentes culturais brasileiros e americanos. Ela representou ainda um impulso na atividade tradutória de obras brasileiras dentro dos Estados Unidos. A visão da atividade de tradução literária como instrumento “diplomático” estabeleceu um padrão de comportamento que perdurou até meados da década de 1980 (até onde se tem conhecimento). Destacaram-se especialmente nesse processo as atuações do autor Érico Veríssimo, dos editores Alfred e Blanche Knopf; do tradutor Samuel Putnam e mais tarde da tradutora Harriet de Onís e do jornalista Antônio Calado. A coleta de dados demonstra também a forte influência, na época, das idéias de “brasilidade” e do mito da “democracia racial”, largamente defendidas por Gilberto Freyre. Apesar de posicionar-se politicamente contrário ao poderio norte americano, até mesmo o escritor Jorge Amado se tornaria, já na década de 1960, um “bestseller” americano, através dessa vertente de continuidade das tentativas de utilização da tradução como instrumento para alianças. Este trabalho traz um levantamento dos artigos publicados no jornal “The New York Times” que retratam o processo acima descrito.

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BAUDELAIRE NO BRASIL: TRADUÇÕES
por RICARDO MEIRELLES

Resumo
Sendo a tradução um ato natural e constitutivo do pensamento humano e seu processo elemento significativo da formação de uma cultura, procuro discutir sua relevância dentro da História da Literatura Brasileira, partindo da reunião das traduções dos poemas do livro francês Les Fleurs du mal (1857), de Charles Baudelaire. Levanto questões sobre a possibilidade da tradução poética e tento obter respostas junto a algumas teorias da tradução em discussão, observando várias traduções ao longo do tempo, sempre levando em conta aspectos lingüísticos, históricos e culturais Vislumbro não uma evolução, mas uma diferenciação entre as abordagens tradutórias, construídas sempre dentro de seu momento ideológico. Observo ainda que tradução é uma tarefa significativa dentro das relações intelectuais, sendo peça importante na formação de uma cultura nacional, agindo não como mera imitação, mas como identificação e interação com o outro. Aponto algumas considerações: não há tradução perfeita, absolutamente correta, eterna e unanimemente aceitável; a fidelidade ao texto diz respeito a uma interpretação do texto de partida, que será sempre produto da língua, cultura e subjetividade do tradutor; a tradução é sempre uma recriação.

 
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Tradução da canção: a manipulação dos sentidos nas versões-transcriações de Gilberto Gil
por Heloísa Pezza Cintrão

Resumo
A tradução, diz Toury (2000), é uma atividade que envolve pelo menos duas línguas e duas tradições culturais e, portanto, dois conjuntos de sistemas de normas. O texto traduzido passa a ocupar um lugar próprio na cultura-meta, mas pertence a outra sociedade e ocupa sua posição definida nela. Sempre haverá tensão entre essa dupla condição. Um tradutor freqüentemente precisa decidir entre submeter-se "[...] ao texto original, com as normas que operam nele, ou às normas vigentes na cultura de chegada ou subseção da cultura de chegada que receberá o produto final", aponta Toury, ao defender a vigência e utilidade dos "dois modos de traduzir" propostos por Schleiermacher (1818). A assimetria cultural é um dos fatores que influi decisivamente no que Kaindl (2005) chama de "manipulação dos sentidos", na tradução da canção popular. Outro fator é a necessária integração do texto verbal (a letra da canção) com o código musical, nesse tipo específico de "tradução", ou seja, a tradução de letra que tem como finalidade permitir cantar a canção noutra língua (Low 2003 e 2005). A proposta deste trabalho é refletir sobre aspectos da manipulação dos sentidos na tradução-adaptação-versão-transcriação de canções populares, a partir de versões feitas por Gilberto Gil.


Giovanni Pontiero, tradutor de José Saramago
por Lenita Esteves

Resumo
O trabalho mostrará os primeiros resultados de uma pesquisa sobre as traduções dos romances de José Saramago para a língua inglesa. Em termos gerais, a pesquisa busca articular informações sobre a recepção das obras de Saramago nos países de língua inglesa e a intermediação realizada pelos tradutores nesse processo. Especificamente, este trabalho buscará relatar qual foi o espaço dado ao tradutor na grande repercussão das obras de Saramago em nível internacional, quais eram as traduções do tradutor com o autor e como as outras atividades e ocupações de Pontiero se combinavam com a atividade de tradução.


O TRADUTOR DO TEXTO LITERÁRIO E CONTEXTO SOCIOCULTURAL NA CONSTRUÇÃO DE RELACÕES ENTRE CULTURAS.(Uma perspectiva para a tradução de literatura brasileira no Egito)
por Maged Talaat M. A. El Gebaly

Resumo
Esta pesquisa pretende mostrar certos periodos relevantes na história do Movimento da Tradução no Egito para prever as expectativas que podem ter as traduções de certas obras brasileiras neste contexto. Um destes períodos foi quando o governo de Muhamed Alí (1805-1848), no Egito, tentava a construção de um Estado Independente, e uma das formas para realizar esse objetivo era a tradução de livros em línguas européias. Esse governador enviou a Paris uma expedição egípcia, orientada pelo jovem tradutor Rifaa Al Tahtawi (1801-1873), para o estudo das novas ciências e artes. Rifaa, intelectual emblemático no período de Al Nada (renascimento em árabe), fundaria a Escola de Al-Alsun (que significa, em árabe, línguas) para a formação das primeiras gerações de tradutores árabes. Outra etapa relevante foi a libertação do Egito da colonização britânica durante a qual nasce a figura de Taha Hussein (1889 -1973), um cego que nasce numa família pobre de muitos filhos no sul do Egito e chega a ser o primeiro doutor no mundo árabe. Obteve dois doutorados, um em literatura árabe na Universidade do Cairo em 1914 e outro em filosofia na Sorbonne em 1917. Taha Hussein, pai espiritual do Movimento Modernista Árabe, ocupa o cargo do Ministro de Educação do Egito em 1950, quando decidiu enviar expedições a Espanha e outros países europeus para o estudo de outras letras além das inglesas e as francesas para sair do centrismo anglo-francófono que exercia certa hegemonia cultural através das traduções. Dentro desse marco histórico do movimento da tradução no Egito, tentaremos pensar nos critérios que podem orientar a seleção de obras literárias brasileiras para traduzi-las ao árabe. Especialmente hoje, tradutores egípcios promovem a introdução da língua portuguesa nas universidades egípcias, o que quer dizer que, dentro de uns anos, vamos ver as primeiras gerações de tradutores árabes do português.


Coleridge: entre a tradução e a transferência, a dicção do poeta-tradutor
por Maria Viviane do Amaral Veras

Resumo
Coleridge interessava-se por sonhos e jogos de palavras, e ligava esse interesse não só à sua poética, mas também ao seu trabalho de crítico e de tradutor. Em Kubla Khan, um sonho se conta através de jogos de palavras, e Coleridge entende essa conexão como capaz de produzir fragmentos altamente condensados, capazes de satisfazer seu ideal poético de intraduzibilidade. Essa intraduzibilidade é descrita por ele, no segundo capítulo de sua Biographia Literária como um teste infalível do abençoado estilo poético, da dicção : o que chama de intraduzibilidade na própria língua é a impossibilidade de dizer o mesmo com outras palavras – a forma verbal, o arranjo das palavras e mesmo das letras é único em cada língua e, portanto, intraduzível, inexplicável (no sentido etimológico da palavra). Conhecido como tradutor, intérprete e comentador da filosofia e da literatura alemãs, o poeta propõe também uma distinção entre traduzir e transferir. O objetivo deste trabalho é refletir sobre a dicção do poeta-tradutor Samuel Taylor Coleridge.