ESTUDOS DE MÍDIA E LITERATURA


Coordenadores
Prof. Dr. Adalberto Muller Junior (UnB)
Prof. Dr. Erick Felinto de Oliveira (UERJ)
Resumo: Considerando-se que o conceito de moderno de literatura consistiu no desenvolvimento de formas textuais como a poesia, a narrativa e o ensaio, no livro (tomando-se o livro como mídia ou suporte), a teoria da mídia pode ser a ferramenta necessária para se entender o desenvolvimento dessas mesmas formas em outras mídias (como o jornal, o disco, o rádio, o filme, o computador), bem como a ponte necessária para se pensar fenômenos pré-literários (performance, "literatura oral"), pára-literários (mercado editorial, tecnologias de informação, adaptação) e pós-literários (intermidialidade, hibridação). Com enfoque transdisciplinar, este colóquio pretende ser o ponto de convergência para pesquisas e discussões em torno das relações entre literatura, mídia, comunicação, tecnologia e estética. "

Subtema: Literatura e mídia

Ciberpoesia: poéticas do poema produzido em contexto digital
por Ana Paula Ferreira

Resumo
Esta comunicação pretende construir uma possibilidade de análise de poemas digitais disponíveis em CD-Rom e on line tendo em vista os processos de semiose e intersemiose, hibridizações de meios e linguagens na criação de interfaces em direção ao interativo. Parte-se das formulações acerca das fricções entre disciplinas (Vera Casa Nova), a metáfora da espuma criada por Peter Sloterdijk para entender a pós-modernidade e suas tecnologias e as formulações de Peter Weibel sobre interface a fim de identificar e analisar as grandes mudanças epistemológicas que se têm processado na poesia e que tem mudado a concepção poema. O foco central de análise serão os processos de imersão e submersão possibilitados pelas interfaces criadas. Analisarei alguns experimentos que fazem releituras de poemas e outros mais abertos à interação.


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O realismo poético de Federico Fellini
por Anderson Melo

Resumo
Partindo da reflexão sobre os modos de representação instituídos nos primeiros filmes do cineasta italiano Federico Fellini, produzidos entre 1950 e 1960, buscamos discutir a constituição do que poderíamos chamar de um “neo-realismo poético”, que traz em seu bojo características muito particulares e que culminará, posteriormente, numa aproximação ao fantástico e ao surrealismo. Procuramos demonstrar como a realidade retratada por Fellini, nas obras do período em recorte, cria os primeiros traços de um universo próprio, no qual os conflitos individuais de seus personagens, ainda voltados para seus contextos ambientais, mais adiante abrirão espaço para os devaneios do inconsciente, instaurando uma poética de sonho e fantasia. Nesse sentido, analisamos as matrizes temáticas, os elementos estruturais e os aspectos semântico-formais que constituem um discurso poético, presente nesses filmes. Dessa forma, esperamos traçar os primeiros contornos de uma poética felliniana, que na nossa hipótese configura-se como uma lírica, transitando entre os espaços da memória e o entre-lugar do devaneio. Este trabalho se insere no campo de estudos que investiga a relação entre cinema e poesia, sistematizando teorias do cinema e da literatura, e faz parte da primeira fase de uma pesquisa que pretende se estender para toda cinematografia de Fellini.

 
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"Limite": o poema em filme
por Ciro Inácio Marcondes

Resumo
É possível que o filme – e, mais especificamente, o filme silencioso –, independente das palavras e do complexo código axial trazido pelo sistema lingüístico na linguagem falada e escrita, se transcreva em poema? A partir de dois conceitos-chave para teoria cinematográfica, a imagem e a montagem, discutiremos como estes textos se articulam de maneira ‘sui-generis’ em “Limite” e outros filmes silenciosos e configuram um tessitura poética que procura, quase por genética (uma mídia enfrentando e absorvendo outra mídia), atualizar a reinventar o próprio código poético literário. A imagem, sustentada por teóricos como Bazin, Kracauer e Brakhage como um princípio de contato com uma realidade ulterior que prescinde dos códigos da linguagem comum, fornece o caráter hipnótico e desvelador que encontra eco nas propriedades poéticas da literatura. Já a montagem, funcionando como um organizador desse caos ótico, primitivo e indevassável, passa a emanar simbolização, criando camadas de significação em uma condensação também própria à poesia. O cinema silencioso viu nascer, em alguns de seus filmes (“Limite”, de Mário Peixoto, em especial), a expressão máxima desta poética ótico-simbólica, como se o cinema efetivamente “devorasse” o poema literário para exibir sua própria versão do conhecimento poético.

 
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Trânsitos na produção cultural brasileira: “Cidade de Deus” e suas transposições
por Cristiano Monteiro Martinez

Resumo
Desde a formação do capitalismo e do surgimento de uma indústria cultural, questões relacionadas com “mercado”, “massificação” e “mídias”, próprias de uma realidade cada vez mais intensa, tornaram-se obrigatórias para poder compreender um novo tipo de produção cultural, que transita entre as convenções da “arte erudita” e da “arte massificada”, e que resulta em obras híbridas das formas estéticas com as da mídia. Partindo dessa hipótese, o presente trabalho tem como objetivo analisar o caso de Cidade de Deus (1997/2002), de Paulo Lins, cujo processo de arquitetura ficcional traz peculiaridades típicas dos novos tempos, como é o caso do rompimento com os padrões tradicionais do gênero romanesco. A partir de sua transposição para as telas de cinema, com o filme homônimo (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, surge a segunda edição do livro, revista pelo autor em função do impacto da produção e do lançamento da película; ao contrário da primeira edição, interesses de mercado editorial entram em jogo na segunda versão. Assim, esse entrecruzamento da forma clássica do romance com o formato massificado do cinema provoca alteração significativa nas relações entre o campo estético e as tecnologias de produção e distribuição de bens culturais.

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A intermidialidade subversiva na narrativa cinematográfica de Lars von Trier
por Fábio Crispim

Resumo
O cinema de Lars von Trier é construído em constante diálogo com outras linguagens e a intermidialidade se faz como uma subversão de preceitos e técnicas cinematográficas. Em especial, investigo como os espaços fílmicos construídos pelo diretor dinamarquês são engendrados para se criar uma atmosfera de embate ideológico e estético. A separação entre o “interno” e o “externo”, o que “pertence” e o que “não pertence” é a tônica que sustenta os filmes analisados. As personagens principais são todas femininas e essa escolha do diretor acaba por demonstrar como os papéis sociais se constroem em meio a uma sociedade permeada por valores historicamente naturalizados, dando a ver, por meio do cinema e de sua relação com outras mídias, vários combates identitários inerentes ao mundo contemporâneo.

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A questão do autor na sétima arte: O cinema de Julio Medem
por Henrique Codato

Resumo
Este trabalho propõe discutir a noção de autor no cinema e toma como objeto de estudo a obra de Julio Medem, cineasta contemporâneo de origem basca. A partir de uma síntese histórica do papel do autor, que a princípio se beneficia do trabalho das críticas literária e artística dos séculos XIX e XX e posteriormente de reflexões desenvolvidas pelas ciências sociais como a lingüística, a psicanálise e a antropologia, dispomo-nos a analisar a utilização de tal noção no campo da sétima arte, considerando sua aplicabilidade nos filmes de Medem, procurando compreender suas transformações a partir da materialidade do cinema.

 
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A INTERNET COMO ESPAÇO LITERÁRIO
por Josilene Neusa Marinho

Resumo
No panorama atual das relações entre literatura e mídia, a Internet surge como um novo meio para a divulgação da obra literária. Com ela, surge um novo formato de texto, com uma escrita em primeira pessoa e, em alguns casos, a revelação de um eu até então ocultado. Contemporaneamente, a mídia passou a ser um suporte universal, onde o que prevalece é a idéia de que o real não existe, pois tudo pode ser produto de uma invenção midiática. Tem-se, também, nesse percurso de relações entre literatura e mídia, a questão da figura do autor – sua morte e renascimento -, e do indivíduo contemporâneo que não consegue mais estabelecer as fronteiras entre o público e o privado. Assim, o discurso “ blogueiro” é, de certa forma, confessional, produzindo uma escrita autográfica, já que ao escrever o indivíduo se produz. Contudo, no blog, também pode haver a criação de máscaras, a fabricação de um sujeito, de uma persona. Mas quem é esse sujeito que se constrói nesse espaço?

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(I)materialidades Teóricas na Literatura Digita l
por Luciana Gattass

Resumo
Reduzir a literatura digital a um mero processo de re-mediação seria destituí-la de sua riqueza e complexidade. Precisamente por recusarem fixação dentro de categorias canônicas, novos objetos estéticos produzidos em rede - tais como aqueles mapeados por Roberto Simanowski, editor da revista de teoria eletrônica, Dichtung-Digital (http://www.interfictions.com/) - reconduzem o debate acadêmico para as maneiras inéditas de teorização. A priori, trata-se de um deslocamento do campo da construção da subjetividade para um mergulho mais aprofundado na esfera da intersubjetividade e mais ainda, no campo da transubjetividade descrita pelo crítico alemão Wolfgang Welsch. Aquém mesmo do “observador de segunda ordem” proposto pelo sociólogo alemão Niklas Luhmann, este novo sujeito auto-reflexivo-observador-e-observado é lançado em um jogo de espelhos de bibliotecas infinitas e ruínas circulares. O desafio deste trabalho será oferecer uma dupla perspectiva sobre a produção teórico-literária digital recente. Isto é, produzir um olhar que simultaneamente: (1) assuma e privilegie a dimensão intermidiática destas obras como condição primeira de sua produção; e (2) produza, no interior da discussão teórica, novas ferramentas aptas a descrever complexas fusões de escrita, imagem e movimento.

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Iluminando os trigais do Sul
por Maria Célia Fantin

Resumo
O filme "Eu não tenho medo" de Gabrielle Salvatores, baseado no romance homônimo de Niccolò Ammaniti, surpreende como um dos melhores exemplos do que se define como tradução fílmica, a partir da linguagem literária, no cinema italiano contemporâneo. O próprio Salvatores, a respeito, teria afirmado:"Este é um filme em que procurei ilustrar o livro de Ammaniti, um dos mais belos romances que li ultimamente..." Partindo, com Fredric Jameson, do pressuposto de que o cinema seria, em síntese, uma ontologia do visual, do ser como algo acima de tudo visível, com os outros sentidos derivando dele, gostaríamos de demonstrar, neste estudo, como Salvatores consegue traduzir, em linguagem fílmica, esse reino da fascinação irracional. Nessa linha de análise, pretendemos situar a transcriação imagética como autêntica releitura crítica do texto literário, enquanto objeto estético autônomo e legitimamente válido.

 
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Computador: a máquina retórica
por Ricardo Portella de Aguiar

Resumo
A relação entre o homem e a máquina é permeada, em grande parte, por conflitos morais e éticos e compartilhada através dos processos perceptivos e cognitivos; analogias, regras de comportamentos e linguagens definem esta aventura semiológica. Nessas tessituras, nas quais máquinas tornam-se capazes de assimilar, refletir, hesitar, criar e sentir, entram em jogo o legítimo e o ilegítimo, o discurso e o método, a construção da linguagem e a palavra, o corpo e suas representações, articulados numa perspectiva focada em objetos mecânicos — dotados de características e qualidades humanas —. Nesta perspectiva, a questão dos limites do homem e da máquina encontrará nas reflexões sobre a linguagem o seu locus de discussão, considerando-se que é neste horizonte que se tornam mais evidentes elementos próximos ou díspares entre os dois, na medida em que se compreende a linguagem humana como fonte de todas as linguagens ditas de máquina ou linguagens de programação. Neste sentido, a presente comunicação objetiva um estudo que possa investigar as tangências e as distâncias entre as linguagens humanas e as "linguagens de programação", buscando entender o universo de saberes que determinam o ponto de convergência nas relações entre literatura, mídia, comunicação e tecnologia .

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"Hibridismos musicais e intersemiose na poética do Manguebeat pernambucano"
por Sílvio Sérgio Oliveira Rodrigues

Resumo
Tendo na cena cultural do Manguebeat pernambucano um fenômeno poético-musical característico da poesia de massa da pós-modernidade, buscamos nessa comunicação fomentar discussões que apontem para estudos intersemióticos que surgem a partir da relação entre a cultura de massa e midiológica global com os elementos regionais nordestinos, numa fusão híbrido-antropofágica entre tradições mestiças e operações musicais da contemporaneidade. Nesse sentido, a hibridação dos meios e suportes cria cada vez mais novas formas de manifestções da linguagem, gerando a convergência entre fenômenos pré-literários, pára-literários e pós-literários, tendo na interculturalidade e na intersemiose seu vetor mais pertinente.

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Medialidade: Encontros entre a Teoria Literária e os Estudos de Mídia
por Erick Felinto de Oliveira

Resumo
Este trabalho tem como objetivo fornecer um panorama abrangente dos novos problemas e campos de estudo compreendidos pela Medientheorie e e pela Mediengeschichte germânicas. Nesse novo horizonte dos estudos de mídia e da história da mídia, estudos literários e teoria da comunicação encontram-se em uma preocupação comum com o tema dos suportes materiais e dos contextos culturais das diferentes mídias (incluído, aí, naturalmente, os suportes da "mídia" literatura: pergaminho, livro, hipertexto, etc). Através da discussão de autores como Hans Ulrich Gumbrecht, Friedrich Kittler, Sigfried Zielinski, Mike Sandbothe e outros, pretendemos abordar as possibilidades desses campos e teorias para tratar de questões como a da literariedade face aos novos suportes digitais e das relações entre teorias comunicacionais e teorias literárias.


Imagem intransitiva
por Luiz Felipe Guimarães Soares

Resumo
Com este trabalho proponho estabelecer uma tensão, em favor do aprofundamento do debate proposto neste painel, entre certas teorias de imagem, de um lado e, de outro, teorias da mídia cuja formulação como tal se deve a sua relação estreita com o suporte. A tensão aparece ao considerarmos, como Agamben faz ver no gesto de Benjamin, a imagem não como objeto conforme a uma fenomenologia, mas como imagem mesmo, numa intransitividade radical. Escapando da distinção entre material e imaterial (adequando-se portanto ao lugar do acontecimento em Foucault, e fugindo da comunicação, em Deleuze), essa imagem apareceria como algo da ordem do indecidível, do indizível, portanto do poético – do literário – independente da consideração do suporte – da mídia. Benjamin (principalmente quando lido por Agamben e Buck-Morss) já demonstrou a potência política dessa noção de imagem, notadamente em sua relação (revista por Rancière) com a técnica. Proponho expor muito resumidamente, nesse sentido, duas linhas (entrecruzadas) dessas teorias não-fenomenológicas da imagem: de Bergson a Deleuze e Rancière, de Benjamin a Agamben.


O cinema, o autômato e a dissociação
por Tadeu Capistrano

Resumo
Os poderes hipnóticos e sensoriais do cinema foram encenados em vários filmes e teorizados, de diferentes modos, por diversos pensadores e cineastas. Desde seu início, o cinema tem sido assombrado por vampiros, fantasmas, duplos, sonâmbulos, loucos e alucinados que metaforizam a experiência espectatorial e suas metamorfoses. A partir deste tema, o trabalho consiste em discutir as relações entre cinema e percepção através de uma analise das metáforas do espectador como autômato e da experiência cinematográfica como fenômeno dissociativo, ligada à hipnose, a alucinação e a telepatia. Para investigar estas conexões, parte-se de um estudo da modernização da percepção e do espetáculo ocorridos na sociedade industrial. Neste contexto, a imaginação cinematográfica esteve vinculada ao imaginário óptico de um modo ambíguo: por um lado, com a “automatização da percepção” através dos atos reflexos propagados pelos choques espaço-temporais da modernidade; e por outro, com a emergência de uma “cultura espectral” que fez a imagem técnica dialogar com os debates psicofísicos acerca dos fenômenos da dissociação e com a imaginação fantástica da segunda metade do Século XIX. A partir deste quadro as metáforas do autômato e dos fenômenos dissociativos servirão como instrumentos teóricos para a análise de alguns filmes que abordam as transformações do dispositivo cinematográfico sob o de novas tecnologias, processos de automação e demandas perceptivas.