| PRÁTICAS LITERÁRIAS COMO JOGOS DE PODER: A CONTRIBUIÇÃO DA SOCIOLOGIA DA LITERATURA DE PIERRE BOURDIEU E SUA CRÍTICA |
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Coordenadores Prof. Dr. WANDER NUNES FROTA (UFPI) Prof. Dr. ENIO PASSIANI (FACAMP) Profa. Dra. ANDRÉA BORGES LEÃO (UFC) | |
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Resumo: Pierre Bourdieu desenvolveu uma
abordagem original para o estudo da literatura (e da arte) que ultrapassa
tanto as abordagens internalistas (estético-estilísticas) como aquelas
exageradamente sociologizantes, que reduzem obras a espelhos do contexto
sociohistórico. As análises de Bourdieu investigaram o processo de
construção do valor estético das obras e também de sua crítica; o papel
dos intelectuais e dos artistas nesse processo; os interstícios sociais da
prática cultural erudita, e enfim, a cristalização do campo
artístico-literário na França. Assim, Bourdieu elaborou uma “teoria do
campo cultural” que situa obras literárias dentro das suas condições de
produção, circulação e consumo, examinando os agentes sociais e as
instituições envolvidas no processo de legitimação e canonização de
autores e obras. Bourdieu examinou a estrutura desse campo em íntima
relação com as estruturas do Poder, revelando um cenário ora de disputas
ora de alianças em torno de bens simbólicos (prestígio e reconhecimento,
por exemplo), que garantiriam posição hegemônica no interior do campo
literário. Os trabalhos deste simpósio deverão: 1) aplicar conceitos
utilizados pela teoria bourdieusiana (tais como: campo de produção
cultural, habitus, capital cultural, simbólico etc) na releitura e
reavaliação de obras literárias e/ou de sua crítica; 2) comparar a
formação dos campos literários francês e brasileiro; 3) pensar a noção de
autonomia relativa das obras literárias em relação ao jogo das interações
concretas e das lutas de posicionamento entre os produtores, e 4) apontar
os limites e os ganhos teórico-metodológicos da teoria dos campos de
Pierre Bourdieu." Subtema: Literatura e outros saberes |

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| A tessitura da subjetividade em
crônicas de Clarice Lispector por Alessandra Pajolla Resumo Quando Clarice Lispector assumiu o posto de cronista doJornal do Brasil – entre 1967 e 1974 - explorou ao extremo a possibilidade delevar o “eu” para dentro do jornal. Em vez de seguir a cartilha de boa partedos escritores que se destacavam nesse gênero literário, ela não forjoudistanciamento por meio da ironia ou do humor. Preferiu fazer da subjetividadea marca de suas crônicas, cuja tessitura aponta para uma escrita comcaracterísticas próprias, desvinculadas do discurso tradicional masculino,sustentado sobre os alicerces da ideologia patriarcal. Tomando como corpusalgumas das crônicas da escritora, publicadas no período referido, este trabalhopretende analisá-las de modo a salientar que configuraram, ao mesmo tempo, umaexpressão literária singular e um olhar crítico sobre a objetificação damulher, ecoando as discussões empreendidas pelo pensamento feminista. Co-autora: Profa. Pós-Dra. LUCIA OSANA ZOLIN (UEM) |
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| Como fazer uma sociologia da
singularidade? O escritor e o leitor face à teoria bourdieusiana da
literatura por Andréa Borges Leão Resumo Se o ponto de partida de uma sociologia do estatuto do criador em literatura é o funcionamento social das obras, das condições de sua produção num espaço de posicionamentos específicos à diversidade de seus usos e apropriações, o percurso da análise deve acompanhar a lógica de uma ordem de valores que fundamenta o trabalho de criação. A atividade literária não escapa às tensões entre a afirmação dos valores centrados no indivíduo, a criatividade e a genialidade dos escritores, e as regras que configuram e orientam as relações no mundo literário, a exemplo dos poderes de consagração e de reconhecimento. Essas tensões configuram-se nas relações de interdependência entre as formas de comportamento individual e a organização das instituições sociais que regulam o trabalho literário e a compreensão das obras, as academias de letras, as organizações profissionais, o mercado da edição, as escolas, etc. O objetivo deste trabalho é situar o escritor e o leitor enquanto sujeitos historicamente submetidos a um “regime de singularidade” face à estrutura do campo literário. Para tanto, estabelece um diálogo entre a abordagem compreensiva da sociologia da arte e da literatura de Nathalie Heinich e a ciência das obras elaborada por Pierre Bourdieu. |
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| "Dar que falar ás bocas de Goiás":
Estratégias e repercussões do projeto criador de Cora Coralina no campo
literário brasileiro por Clovis Carvalho Britto Resumo A presente proposta de comunicação visa avaliar parte da trajetória, do projeto criador e da recepção da obra poética da escritora goiana Cora Coralina (1889-1985) a partir do arcabouço teórico-metodológico elaborado por Pierre Bourdieu em sua sociologia da literatura. Cora Coralina teve uma trajetória peculiar: mulher, idosa e interiorana, publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade e imprimiu uma série de reflexões e questionamentos no cenário literário brasileiro. Após um difícil processo de inserção, Cora utilizou algumas estratégias estilísticas e temáticas em busca da distinção neste espaço de possíveis. Para tanto, o papel das Academias de Letras, a sua relação com escritores já consagrados, os prêmios, e a crítica literária, somados às escolhas que a autora promoveu ao definir sua poética assumem um papel crucial. Ao privilegiar os obscuros e marginalizados, Cora impactou o campo literário e se fez e ainda se faz ouvir como representante de uma das linhas de força da poesia de autoria feminina brasileira. São alguns destes itinerários que pretendemos recuperar. |
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| Afinidades seletivas: uma comparação
entre as sociologias da literatura de Pierre Bourdieu e Raymond Williams
por Enio Passiani Resumo As sociologias da literatura de Pierre Bourdieu e Raymond Williams estão apoiadas em dois conceitos fundamentais: habitus e “estrutura dos sentimentos”, respectivamente. E é clara a semelhança entre eles: ambos tentam traduzir uma espécie de consciência prática adquirida pelos agentes sociais a partir de um processo particular de socialização. Para Bourdieu, o habitus é internalizado na experiência vivida num campo específico (e o campo que me interessa aqui é o literário); ao passo que para Williams tal consciência é formada no interior dos grupos culturais. Nesse sentido, habitus e “estrutura dos sentimentos” dizem respeito a um conjunto de valores compartilhados que, ao mesmo tempo, aproximam e afastam certos agentes uns dos outros, criando solidariedade por um lado e rivalidades, por outro. Entretanto, a crítica especializada prefere acentuar as diferenças entre os autores, particularmente o fato de que, em tese, Bourdieu desenvolve uma teoria da reprodução cultural, enquanto que Williams esforça-se por compreender as mudanças culturais e dos paradigmas estéticos. Esta comunicação pretende demonstrar que apesar das diferenças que de fato existem, os conceitos de Bourdieu e Williams não supervalorizam um fenômeno em detrimento do outro, mas, ao contrário, tentam explicar mudança e reprodução cultural como jogo dialético. |
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| Tradução e Espaço Social em La Pierre
du Royaume por Fabiana Gabriela Silva Resumo A tradução enquanto troca cultural é uma atividade que envolve não só duas línguas e culturas, mas também dois espaços, o de produção e o de recepção. Este espaço de acordo com Johan Heilbron pode ser estudado também como um espaço social, pois nele se dão relações políticas, mercadológicas e culturais. Este espaço também é estudado por Pierre Bourdieu que o denomina de sistema de produção e circulação de bens simbólicos. O autor explica que este sistema se define pelas relações objetivas entre diferentes instâncias definidas pela função que cumprem na divisão do trabalho. Ao analisar estas relações dentro do espaço editorial, que pode ser entendido como um sistema de produção e circulação de bens simbólicos, percebe-se que a tradução não é apenas um trabalho solitário do tradutor, mas também um trabalho de equipe, que envolve contatos, criando uma rede de relacionamentos através da qual decisões serão tomadas. Os integrantes desta equipe estão em contato, possuem um certo poder de decisão dentro do grupo, estão localizados em determinadas regiões que podem não ser a de sua origem. A importância do trabalho destes integrantes, chamados de agentes, é como interagem trabalhando para colocar uma tradução em contato com outras línguas e culturas hegemônicas ou não. É nas relações que se estabelecem dentro deste espaço, bem como também no processo de tradução, que esta apresentação pretende focar-se, fazendo uma análise do espaço onde se encontra a tradução de La Pierre du Royaume - Version pour européen et brésilien de bon sens, traduzido de O Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, por Idelette Muzart, verificando a posição em que se econtra esta obra dentro do mercado editorial e do cânon literário francês. |
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| Diálogos entre Bakhtin e Bourdieu: o
jogo de vozes entre narrador e personagem feminina, em Pedro e Paula, de
Helder Macedo por Giovana Santos Lopes Resumo A interxtualidade equivale ao dialogismo que, de acordo com Mikhail Bakhtin, seria uma pluralidade de vozes contida em cada enunciado; o autor escreve imaginando um interlocutor, assim como as personagens que dialogam entre si. Estas possuem voz que não é somente ligada às idéias e valores de um determinado indivíduo, mas sim a uma instituição, ou seja, elas se filiam a um determinado discurso, permeado por suas características sociais. Da mesma forma, segundo Pierre Bourdieu, existem no mundo social estruturas objetivas que podem dirigir, ou melhor, coagir a ação e a representação dos indivíduos, dos chamados agentes. Em Pedro e Paula, de Helder Macedo, temos uma narrativa metaficcional e interxtual. O narrador, que confunde-se com o autor, apresenta a personagem Paula sob um diálogo que envolve sedutoramente o leitor. Há marcas especificamente masculinas na construção dessa personagem feminina, mas há, sobretudo, uma cumplicidade com o feminismo caracterizada através da linguagem. O jogo de vozes entre personagem feminina e narrador é ocasionado pelo autor, o que confere expectativas masculinas na representação de Paula. E para tanto é que correlacionamos o pensamento de Bourdieu ao de Bakhtin, no que se refere à análise deste romance, em que o enredo é construído por estas personagens que dialogam entre si, e que se apresentam incorporadas aos valores especificados pelos filósofos em questão. |
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| Estilo e legitimação na
auto-representação de presidiários por Vladimir Oliveira Santos Resumo Partindo das obras "Memórias de um sobrevivente", de Luiz Alberto Mendes, e "Sobrevivente André du Rap", de André du Rap, analisa-se como as escolhas estilísticas de representação da linguagem do grupo marginalizado dos presidiários podem ser vistas como tomadas de posição em uma luta por legitimação dentro do campo literário. O estilo, dessa forma, pode funcionar como um sinal de distinção para o texto literário. Sua valoração, contudo, depende de como o campo o recebe. Portanto, é possível afirmar que as diferenças nos processos de entrada desses dois autores no campo estão ligadas à forma como lidam com a linguagem e às expectativas que a cultura dominante tem do que seria uma representação “efetiva” desse grupo marginalizado. Não é a tentativa de André du Rap de um registro da oralidade que recebe maior valor, e sim a correção lingüística do texto de Mendes. Essa correção, contudo, impõe limites. Ela permite sua entrada no campo literário, mas impede que alcance posições de maior prestígio dentro dele. |
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| Uma Releitura de Ficção e Confissão,
de A. Candido, à luz de P. Bourdieu por WANDER NUNES FROTA Resumo Da parte de Antonio Candido, Graciliano Ramos foi o único autor do "surto nordestino" dos anos 1930 a merecer uma apreciação crítica mais aprofundada. Ramos é o único também que, entre os romancistas "de 30", confrontou o abismo "Campo vs. Cidade" quando havia pouquíssima menção de sua existência – pelo menos em termos exclusivamente literários. O confronto está, veladamente, nos três primeiros romances de Graciliano: Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Angústia (1936). É através desse confronto, expresso em romances cujos cenários são pequenas cidades sertanejo-nordestinas, que se observa uma imitação "em miniatura" da rotina de uma cidade grande – completa, em termos de personagens, ações etc. Como tal, essa "miniaturização" (característica da literariedade nas narrativas analisadas) foi desaparecendo aos poucos do/no Brasil "real". De maneira concomitante, ela também foi ressurgindo das cinzas, virtualmente. Nos romances citados, há um perfeito dimensionamento das semelhanças miniaturizadas, sobretudo quando o urbano-rural (no tempo das narrativas) é refeito pelos leitores urbanos em seu próprio tempo (presente). Além do gênio literário de Graciliano, imagina-se o que, na época, tornou possível esta avizinhação entre os cenários urbano-rurais de seus romances e a rotina das grandes cidades. Tal justaposição será explicada à luz da sociologia de Bourdieu. |
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| Diálogo crítico: disputas no campo
literário brasileiro (1984-2004) por Flavio Moura Resumo A partir do conceito de campo literário, tal como formulado por Pierre Bourdieu, o trabalho examina a relação entre críticos literários, imprensa, editores e escritores no Brasil. Com base em textos de Leda Tenório da Motta, Davi Arrigucci Jr., Alfredo Bosi, Silviano Santiago, Flora Sussekind, Roberto Schwarz e Haroldo de Campos, entre outros, tem como proposta confrontar as principais vertentes da crítica literária universitária no Brasil, investigar o modo como se relacionam com os cadernos culturais das grandes revistas e jornais, identificar as particularidades da produção ensaística e do resenhismo literário, verificar o papel da editora como indutora de legitimação intelectual, explicitar como a posição ocupada pelo escritor no campo literário afeta a recepção de sua obra, em suma, levantar problemas capazes de contribuir para esclarecer os jogos de força que envolvem a produção literária no Brasil. |
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| Júlia Lopes de Almeida: entre o salão
e a ante-sala por Michele Asmar Fanini Resumo A impossibilidade de ingresso de mulheres na ABL é vetusta, e coincide com o seu próprio período de formação. Tal afirmação encontra respaldo nos documentos produzidos pela instituição, ou melhor, nas pistas por eles deixadas, subsumidas pela oficialidade que maquia os acontecimentos. Por conta dessa questão mal-resolvida, percorreremos as brechas que os dados oficiais falseadamente intentam encobrir, buscando mostrar que os mesmos falham em sua renitente tentativa. Concessão? Conveniência? Rede de favorecimentos? Mérito literário? Essas e outras questões devem ser investigadas, com o fito de compreender a (im)possibilidade de ingresso de Júlia Lopes de Almeida na ABL, tendo como chave interpretativa a identificação dos mecanismos internos à ABL, mantenedores da tradição androcêntrica que, por sua vez, se traduzem por meio dos jogos de poder dinamizadores do campo literário do entresséculos, que atuaram decisivamente, impossibilitando que a escritora em questão fosse escolhida como um dos membros fundadores da “douta” instituição. Procederemos, destarte, a uma leitura, especialmente, das “ausências e lacunas institucionais”. |
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