| PALAVRAS FRONTEIRIÇAS: LITERATURA E CIÊNCIAS HUMANAS |
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Coordenadores Profa. Dra. JULIANA SANTINI (UEG) Profa. Dra. REJANE CRISTINA ROCHA (UEG) Profa. Dra. SYLVIA HELENA TELAROLLI (UNESP) |
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Resumo: É consenso que a literatura constitui-se
como campo permeável, em que é possível notar o diálogo de diferentes saberes.
O mapeamento dessas relações pela crítica depende de um olhar que equilibre
o valor estético do objeto aos elementos externos que o constituem, deslindando
uma relação dialética em que a proeminência do literário se equaciona à
compreensão das fronteiras porosas que a literatura estabelece com a filosofia,
a história, a sociologia, a política, a religião, etc. Se o exame da produção
literária atesta as indefinições disciplinares - a um só tempo temor e fetiche
da crítica literária moderna - que borram os contornos do que um dia se
denominou como literariedade, é imprescindível retomar a proposição de Antonio
Candido que, ao discutir a relevância que os elementos externos ao texto
literário assumem para a sua compreensão, coloca que a exterioridade é,
no caso da literatura, ilusória, uma vez que só pode assumir interesse crítico-interpretativo
na medida em que se torna interna, fazendo parte da estrutura literária.
No interior dessa discussão, este simpósio congrega os questionamentos que
envolvem a maneira como textos literários de língua portuguesa e estrangeira
relacionam-se com elementos, dados e discussões provenientes de diferentes
áreas das humanidades, assimilando-os a sua estrutura e conformando-os ao
estético. " Subtema: Literatura e outros saberes |

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| Álvares de Azevedo e Friedrich Schiller: possíveis diálogos entre a literatura e a filosofia do Romantismo
por Alexandre de Melo Andrade Resumo Há afinidades significativas entre a literatura de Álvares de Azevedo e a filosofia do pré-romântico Friedrich Schiller. A forma como o poeta elabora sua proposta poética, alternando entre a natureza viva e a ausência dela, encaminha-nos a uma abordagem dos pressupostos da poesia sentimental, teorizada por Schiller. As personagens da peça "Macário", de Azevedo, também nos remetem a Schiller, pois personificam, em certa medida, o impulso selvagem, o formal e o lúdico. O jogo entre esses impulsos, que oscilam entre as inclinações pessoais e a ordem, norteiam uma discussão sobre as dualidades e contradições nos personagens e no pensamento romântico. No prefácio de "O Conde Lopo", do jovem poeta, há uma tentativa de se definir o belo e o sublime que também nos direciona à teoria do sublime estabelecida por Schiller; apesar de lacônico, o estudo de Azevedo tem relação com o aspecto moral e o sublime defendido pelo filósofo. A intenção é, dessa forma, estabelecer um enfrentamento entre a literatura e a filosofia do Romantismo, tomando Álvares de Azevedo e Schiller para discussão, procurando possíveis diálogos que possam surgir dessa dupla via de acesso ao universo romântico. |
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| O DISCURSO LITERÁRIO E O AUTORITÁRIO EM ANTONIO LOBO ANTUNES: O QUEBRA-CABEÇAS SOBRE ESCOMBROS
por Andreia Regia Nogueira do Rego Resumo O corpus deste trabalho consiste nas obras Os Cus de Judas (1979), Fado Alexandrino (1983) e Exortação aos Crocodilos (1999), de António Lobo Antunes. Os elementos estruturais da narrativa de Lobo Antunes (enredo, narrador, personagens, tempo e espaço) tornam-se peças de um quebra-cabeças manipulado pelo autor que tende a relativizar os escombros do contexto histórico, reafirmando os destroços da forma narrativa. Nesse processo se misturam diferentes tipos de discurso: o histórico, o político, o oficial, o religioso, o imperialista, entremeados que são às vozes dos narradores e das personagens, dando origem a um instigante jogo polifônico com o qual pretendemos interagir. Com esse intuito, enveredaremos pelos meandros da ironia, da paródia e do grotesco, recursos utilizados pelo escritor ao trabalhar arquétipos do inconsciente coletivo ligados à violência, reunindo os fragmentos de um espaço marcado pela problematização dos acontecimentos de antes, durante e depois da Revolução dos Cravos e das guerras travadas, também, no interior das personagens – um espaço da escrita que burla o discurso do autoritarismo, desautorizando-o e desautomatizando-o. Os estudos sobre produção e recepção de obras literárias em contextos políticos autoritários também serão trabalhados, visto que o narrador, a narrativa e o processo de elaboração artística propriamente dito tornam-se peças de um universo singular, no qual afloram questionamentos mais “opressores” do que a simples percepção do contexto histórico metamorfoseado nos romances. |
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| A maldade na encruzilhada: Franklin Távora e "O cabeleira"
por Edison Bariani Junior Resumo O romance O cabeleira, escrito em 1876 por Franklin Távora, é considerado um marco do regionalismo literário brasileiro. De difícil definição, situa-se numa encruzilhada de períodos, estilos, tradições e ideologias, donde emerge uma perspectiva já incompatibilizada com o antigo regime, porém ainda caudatária de idéias românticas. A questão da maldade, muito presente na narrativa, aponta tais confluências e problemas, explicitando os limites da visão de mundo do autor. |
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| Corpo de baile: entre a imaginação e a história
por Elisabete Brockelmann de Faria Resumo Em 1956, o escritor mineiro João Guimarães Rosa publica Corpo de baile, um conjunto de sete narrativas que, ao longo dos anos, tem suscitado diversas interpretações. Destacamos, em primeiro lugar, a análise de Paulo Rónai (1956), segundo a qual as personagens da obra vivem “[...] a séculos de distância de nossa civilização urbana e niveladora.” Em segundo lugar, focalizamos o estudo de Luiz Roncari (2007) que, sem desprezar o suporte mítico, atenta para os elementos históricos atuantes no modo de ser e de agir das personagens. Neste trabalho, tomamos como corpus as novelas “Dão-lalalão – o devente” e “Buriti” a fim de investigar de que modo, na construção e atuação dos protagonistas, respectivamente Soropita e Miguel, o realce dado à imaginação (fantasia e memória) entrelaça-se a elementos históricos diluídos nas narrativas e interfere na percepção de fatos, lugares, temporalidades e na relação com as personagens femininas: acredita-se que a maior ou menor ênfase nos conteúdos da imaginação, bem como a presença ou ausência de marcas históricas significativas, acarreta determinados efeitos discursivos e estruturais, de modo a caracterizar nuances expressivas singulares, que conformam e incrementam a poeticidade inerente à linguagem rosiana. |
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| ¿Literatura en la revolución=revolución en la literatura?: caso venezolano
por Gisela Kozak-Rovero Resumo Para el estado venezolano la literatura es un instrumento en la formación de la ciudadanía que debería responder a unas “ética y estética socialistas” y vincularse con la conformación de un nuevo bloque social hegemónico (Gramsci). Esta noción de lo literario difiere de otras: 1) mercancía de editoriales transnacionales; 2) oficio, innovación y conocimiento de la(s) tradición(es) literarias nacionales y extranjeras (Casanova); 3) expresión de la identidad nacional (Summer, Anderson); 4) posibilidad de resistencia política y cultural (Babha) e) forma prestigiada de escritura de carácter elitesco (Eagleton); f) discurso que se transforma al interrogarse sobre su propia naturaleza (Foucault); g) discurso estético de resistencia ante la alienación de la cultura de masas (Adorno). La comparación con estas otras perspectivas y la evaluación de la noción de literatura que orienta las políticas culturales revolucionarias parte de dos premisas. La primera: la influencia del contexto político en la literatura no conduce a cambios estéticos realmente sustantivos si éstos no surgen desde las condiciones propias del campo literario (Bourdieu, Cándido); la segunda: la literatura es un “arte verbal” (Bajtín) cuya importancia cultural depende del desarrollo de sus virtualidades estéticas y no puede definirse meramente como un “aparato ideológico del estado” (Cross). |
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| Mundos em Abismo: notas sobre saudade e melancolia em Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre
por Marcelo Diana Resumo A proposta da comunicação será investigar as relações tecidas entre escrita política e escrita literária no Brasil, tomando como pressuposto fundamental para este exame a dimensão estética que identifica uma escrita política à poética e com ela guarda algumas semelhanças. A aposta, então, será considerar a escrita política habitando o mundo das artes no ponto singular da sua expressão estética, isto é, enquanto escritura ou experiência literária. Para tanto, escolho como “interlocutores exemplares” dessa empreitada as obras de Joaquim Nabuco e de Gilberto Freyre, ambos autores de política e de literatura. A comunicação se ocupará em examinar os lugares de inscrição do poético, do criativo e da ficção no plano das obras de Nabuco e Freyre e levantar um exame para a sua articulação junto ao signo da política, detalhando, no conjunto da obra dos dois autores recifenses, escritores de mundos em transição, a recuperação, via escritura, de mundos culturais, políticos, sociais etc. que a experiência estética poderia reanimar. A melancolia e a saudade representam o par de signos privilegiados pelos autores para estas suas respectivas inscrições literárias junto ao mundo da política e é com relação a elas que esta comunicação se concentrará. |
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| O cochilo de Clio e o nó da História (com a ficção)
por Márcia Valéria Zamboni Gobbi Resumo Esta comunicação apresenta uma análise do conto "A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho", do ficcionista português Mário de Carvalho, publicado em 1982. Nele, misturam-se dois tempos distintos - o ano de 1148, em que Portugal ainda batalhava para constituir-se como Nação, tendo à frente a emblemática figura de seu primeiro monarca, Afonso Henriques, e o ano de 1984, entrelaçado àquele por um descuido da deusa Clio na confecção da "trama da história". O resultado disso é um relato anárquico que funde tempos, espaços e personagens enquanto mostra, pela estridente ironia que o embasa, a força da palavra que engendra o "real", misturando sem qualquer pudor o fato e a invenção e colocando em cena a constituição do imaginário lusíada, forjado com o auxílio de figuras que plasmaram uma mitologia própria, capaz de sustentar uma idéia de nacionalidade que a literatura contemporânea vem sistematicamente pondo em questão. A finalidade da análise é a de contribuir, dentro do simpósio, para uma discussão sobre as relações que se estabelecem entre ficção e história, perspectivadas a partir da narrativa portuguesa contemporânea. |
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| Machado de Assis: da literatura para as ciências humanas
por Maria de Lourdes Ortiz Gandini Baldan Resumo Quando o narrador de Dom Casmurro tenta dissuadir o seu leitor a recorrer a um dicionário para saber o sentido de casmurro, assegurando que tudo o que ele precisa saber está no livro que ele tem em mãos, Machado de Assis toca em uma questão muito cara aos estudos literários: como a literatura se relaciona com as diferentes áreas de conhecimento externas a ela? Como os temas sociais, históricos e políticos do século XIX aparecem figurativizados literariamente na obra de Machado? Nosso trabalho pretende investigar alguns exemplos desta relação, transitando entre os gêneros que o escritor experimentou, tentando verificar, inclusive, se alguns tipos de forma literária, pelas próprias coerções do gênero, adaptam-se melhor a um tipo específico de relação. |
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| Poesia e política em Néstor Perlongher: como pensar a resistência na literatura da pós-ditadura argentina
por María Laura Moneta Carignano Resumo A intenção deste trabalho é nos aproximar de alguns dos aspectos da poesia do poeta argentino. Levando em conta a diversidade de questões pelas que sua obra de desliza – a estética neo-barroca, a subjetividade gay, a figura do lumpem e a prostituição homossexual, os territórios políticos marginais (micro-política), o Aids, as relações entre política e sexualidade, a “deriva nômade deleuziana”, a antropologia urbana, as formas do êxtase em religiões marginais, o poder alucinógeno das drogas e sua relação com a escritura - tentaremos abordar, mais especificamente, a tensão entre literatura e política. A poesia de Perlongher, antropofágica e irreverente, nega os limites, as fronteiras, as identidades e joga sujo com as classificações e as divisões. De todas estas misturas, deslocamentos, enchastres, que provocam a “des-identificação”, a derruba da estatuária das especificidades, dos significados, dos limites e das fronteiras, é esta intersecção que merece ser salientada: a encruzilhada literatura – política, não só como especificidade de sua poética, mas também como ponto de partida para re-pensar o que se entende como poesia social, na arte das pós-ditaduras na América Latina. |
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| Miguilim, a natureza e o reconhecimento do mundo
por Maria Carolina de Godoy Resumo Este trabalho apresenta a importância da natureza para o percurso de aprendizagem da personagem Miguilim de "Campo geral". Tal percurso permite, entre outras características, aproximar esse romance do bildungsroman. Em seu percurso de formação, Miguilim procura vencer os obstáculos de passagem da infância para o mundo dos adultos e precisa encontrar dentro de si a força para ultrapassá-los, em meio às angústias que o atormentam e sob condições agravantes da pobreza do sertão. A magia da natureza, fruto de superstições ou contada em causos de terceiros, que se encontra no limite, sempre rosiano, da razão e está presente nessa e em outras narrativas de Guimarães Rosa, tem participação ativa no trânsito da personagem Miguilim entre o mundo da infância e seu imaginário para a realidade do mundo dos adultos. |
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| O regional e o universal em Guimarães Rosa
por MARIA CELIA DE MORAES LEONEL Resumo O termo regionalismo, cunhado no século XIX para caracterizar a literatura produzida fora do Rio de Janeiro, nas províncias - e tendo por objeto a descrição de locais remotos interioranos, em especial em áreas rurais e seus respectivos tipos, relações sociais e humanas, paisagens, linguagens - sobreviveu ao tempo. Conceito abrangente, passou a englobar autores e obras os mais diversos, de diferentes regiões e períodos históricos, o que levou ao nivelamento de obras de valor estético-literário díspar. A produção de João Guimarães Rosa também passou a ser rotulada de caráter regionalista. Antonio Candido, entre outros estudiosos da obra rosiana, tratou de diferenciá-la, lançando mão da noção de super-regionalismo e Alfredo Bosi, da noção de romance de tensão transfigurada. Entendemos que, não obstante a existência de muitos estudos sobre essa temática, é válida a problematização e a revisão da caracterização da produção rosiana como regionalista. Co-autor: JOSÉ ANTONIO SEGATTO (UNESP) |
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| O Éden americano de Guaman Poma
por María Dolores Aybar-Ramírez Resumo Guaman Poma de Ayala, cronista, índio e peruano escreveu, por volta de 1615, sua célebre Nueva Corónica. Este trabalho propõe uma reflexão sobre a configuração do mito do Éden a partir desse texto, cuja característica essencial é a articulação da escrita, pseudo-literária, em volta do eixo central do desenho, nesse caso, mais do que ilustrativo. Conservando também em nosso estudo a centralidade do texto gráfico, pretendemos estipular um diálogo entre representação pictórica e texto escrito; entre crônica e discurso literário e entre o mito do Paraíso e o hibridismo constitutivo de toda crônica e desta crônica em particular. Com base em conceitos oriundos da intertextualidade, propomos um diálogo entre os discursos fundadores do mito do Paraíso e o discurso de Guaman Poma, que promove, concomitantemente, o diálogo e a cisão com esses discursos para formar seu Éden, parcialmente universal e parcialmente local. O Paraíso de Guaman Poma configura-se, como sua Corónica, com a miscigenação de textos, de discursos, de línguas, de credos e de raças. Nele desponta um novo e velho Adão, aquele que habitava nas cartografias européias agora interpretadas à luz de uma representação incaico-cristã do mundo. |
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| Eva Perón, entre las ficciones proletarias y las fantasías militares.
por Mariano Acosta Resumo Se indagará entorno a las formas discursivas a partir de la cuales, la figura de Eva Perón, así como los significantes que se suscitaron entorno al borramiento de su nombre, funcionaron, hacia fines de la década del 60’, como máscaras sucesivas de la realidad política nacional. Para eso propondremos la lectura de textos que, planteando como lugar de emergencia la muerte de Evita, establecieron complejas relaciones con la realidad política mediante la enunciación, velada, de las diferentes dicotomías que atravesaron el pensamiento nacional. |
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| A causa secreta e algumas faces da ironia machadiana
por Sylvia Helena Telarolli de Almeida Leite Resumo Nesta releitura de “A causa secreta”, conhecido conto de Machado de Assis, publicado no volume Várias histórias em 1896, pretende-se explorar o modo como o autor, em um conto aparentemente “sério”, constrói uma narrativa permeada pela ironia, entendida aqui não em sua concepção mais restrita, como figura da inversão, mas como modo de construção textual que leva à reflexão sobre a natureza e a função da literatura, a par do enfoque crítico acerca da condição humana. O processo de dissecção alimenta a trama: Garcia , o médico, disseca a alma tortuosa de Fortunato, que se compraz em observar o sofrimento físico de animais e físico e moral de seus semelhantes; o narrador perscruta os corações solitários de Garcia e Maria Luiza; o leitor sagaz disseca as almas em conflito e a argúcia do narrador astucioso. O efeito de espelhamento das situações criadas revela que sádicos somos todos, desfrutando do prazer de observar o sofrimento alheio e a literatura, pelo recurso à ironia, torna-se espaço privilegiado para a expressão dos mais escusos anseios que habitam o interior do homem. |
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| Carlos de Oliveira: o sempre mágico das palavras
por Chimena Barros da Gama Resumo No século XX, duas posturas em relação às artes opuseram-se: uma, de raiz filosófica socialista e marxista, tomou elementos como época, realidade circundante, história, sociologia e economia por fundamentos para a origem, o entendimento e até mesmo os possíveis efeitos da arte literária; outra, totalmente distinta da primeira, reagiu contra qualquer tipo de elemento externo à arte, sobretudo a ideologia, pois o objeto artístico deveria ser puro - herança das poéticas francesas do final do século XIX. A poesia, gênero considerado maior na arte literária, viu-se então dividida em "forma" e "conteúdo", como se a separação fosse possível, e algumas posturas críticas mais radicais defendiam um extremo ou outro, como aconteceu, por exemplo, com a literatura portuguesa do final dos anos trinta. A poesia de Carlos de Oliveira (1921-1981), autor neo-realista português, revela, muitas vezes, a união desses dois pólos, não se alimentando de nenhum deles exclusivamente. Se, por um lado, o poeta esteve intimamente ligado a um grupo acusado de ser "conteudista", como aconteceu com o Neo-Realismo na década de 40, por outro, nos anos 60, sua obra apresentou-se à crítica como novidade poética, devido, principalmente, aos traços de experimentalismos nela presente. Na verdade, Oliveira não passou de um extremo ao outro: além de sua poesia conservar certas constantes de estilo do início da carreira poética, a dimensão estética, construída através de uma concisão entre forma e conteúdo, sempre esteve nela presente: mesmo em seu primeiro livro, publicado em coleção poética neo-realista e no segundo, Mãe Pobre, talvez sua criação mais social. A magia da palavra (transmutação, alquimia, etc), foi uma constante em sua poética, desde Turismo, seu primeiro livro. Assim, o poeta sempre revelou sua preocupação e apuro formal, e é possível entender que seus poemas da fase "madura" tenham sido tão aplaudidos pela crítica. |
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| Memória e tradição: o passado como discurso
por Juliana Santini Resumo A discussão em torno da produção narrativa que, contemporaneamente, reintroduz o debate em torno do regionalismo impõe que se articulem o olhar do presente – atento às questões diretamente ligadas ao mercado, à estética da violência, ao hiperfoco do real, à pluralização temática e à minimalização da forma – ao olhar para o passado, em que se busca a compreensão de parte dos significados que compõem o paradigma regionalista de representação desde meados do século XIX. O fato é que a inserção dessa produção contemporânea no interior desse paradigma determina, de antemão, a revisão do próprio modelo, há muito considerado pela crítica como anacrônico ou dependente de um atrofia econômico-cultural típica de periferias subdesenvolvidas que procuram a sobrevivência na reiteração do passado entendido como tradição. Este trabalho propõe a análise de dois contos do autor cearense Ronaldo Correia de Brito – “Faca”, cuja publicação data de 2003, e “O que veio de longe”, publicado em 2005 – de modo a discutir de que maneira a tradição, incorporada pelo texto regionalista tradicional como signo da afirmação cultural, revela-se, aqui, como construção discursiva, em uma relação irônica em que a narrativa desfaz os nós que supostamente seriam o alinhavar de sua própria natureza. |
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| Prosa contemporânea brasileira: indagações sobre a "Geração 90"
por Rejane Rocha Resumo A crítica que se dedica ao estudo da literatura contemporânea em prosa deve enfrentar uma primeira dificuldade que é identificar, na multiplicidade de temas e procedimentos narrativos, aqueles que, pela sua recorrência e elaboração, possam ser chamados a caracterizar essa produção. Diante desse desafio, é necessário que se leve em consideração que a prosa literária brasileira dos últimos vinte anos tem apresentado, no nível temático, uma crescente desideologização que esmaece as tonalidades políticas da ficção que dialogava, entre os anos 60 e 80, com a repressão do regime ditatorial. No plano expressivo, é possível identificar a assimilação de recursos provenientes dos meios de comunicação em massa, sobretudo a televisão, que desde os anos 70 têm direcionado o olhar dos leitores, cada vez mais afeitos às aos procedimentos que imprimem, no texto, a simultaneidade do universo imagético. A fim de observar de que forma tais aspectos desdobram-se na materialidade do texto ficcional, esta comunicação discute alguns dos contos publicados nas antologias Geração 90: manuscritos de computador e Geração 90: os transgressores, escolhidos por serem representativos de uma prosa que, desvinculada das pressões ideológicas, excursiona por pseudo-subjetividades construídas às expensas da incorporação de estereótipos veiculados pela mídia. |
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